ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 543 - 9/2/2010
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DIPLOMA DESNECESSÁRIO
Sobre cozinheiros e jornalistas

Por Lelê Teles em 23/6/2009

Eltinho é meu amigo desde a adolescência. Éramos punks e mal encarados. Eltinho tinha cabelo moicano, tomava cachaça no gargalo, cuspia e escarrava em tudo e em todos. Nos acampamentos a que íamos, Eltinho e eu gostávamos de cozinhar: macarrão com sardinha, feijoada de latinha, cream cracker com feijão, linguicinha frita; gororobas.

Na semana passada, encontrei o velho amigo em um show. Tem três filhos, é casado, está com uma cara corada e um aspecto saudável. Tomava scotch. Disse-me que é o chef (executivo) de cozinha do Hotel Nacional, um dos mais tradicionais de Brasília. Eltinho frequentou escolas para aperfeiçoar o seu ofício, que ele define como arte. Mas não foi escola alguma que o levou ao métier, foi o seu interesse, a oportunidade e o "jeito para a coisa". Ele me disse que tem um monte de filhinho de papai fazendo excelentes cursos mundo afora e que jamais serão grandes cozinheiros.

Eu, que à época do punkismo andava andrajoso, vociferante, irascível, antimoda, antimédia, antimedo, antígona, disse ao amigo que sou escritor e roteirista e que depois de uma competente carreira como publicitário me tornei secretário de comunicação. E disse que igualmente não foi a faculdade que me levou à publicidade. Quando estudei Jornalismo na UnB, achava que não deveria existir curso de publicidade em universidade federal – e ainda acho. Eu e Eltinho entramos para nossas atuais profissões por amor a elas, por senso de oportunidade e por sermos capazes para tais ofícios. Nas nossas profissões, os grandes profissionais não se importam com diplomas.

O mesmo direito de outras profissões

Ontem (17/6) o STF decidiu pela não obrigatoriedade do diploma para jornalistas. Acho correto e louvável. Na maioria dos países do mundo é assim. A Fenaj ficou furiosa. E eu fiquei desconfiado dessa fúria. A lei não proíbe que faculdades ensinem Jornalismo e formem jornalistas, a lei não proíbe os jornais de contratarem jornalistas formados em faculdades. O que houve foi a extinção da lei que exigia o diploma para exercer o ofício. Ora, não muda quase nada. Volta-se ao tempo em que as redações tinham jornalistas que escreviam extremamente bem e que não tinham formação em Jornalismo. Os juízes, ao seguirem o voto do relator Gilmar Mendes, apenas garantiram o direito de qualquer sujeito poder exercer a profissão, desde que tenha competência para tal. O mesmo direito que têm os cozinheiros, roteiristas, escritores e publicitários.

Quem sabe eu e Eltinho nos encontremos novamente algum dia e encontremos um outro antigo amigo punk exercendo com maestria a profissão de jornalista, mesmo que tenha se formado em música.

"Qualquer minoria, mesmo uma minoria de operários, tão logo se torne governante ou representante do povo, não mais representará a este povo, mas a si mesma e suas pretensões de governá-lo" (Mikhail Bakhunin)

Comentários (3)
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eduardo salina , são paulo-SP - engenheiro
Enviado em 25/6/2009 às 20:19:21
Daniela,Ito, me digam uma coisa: qual é diferença entre o sobrinho da esposa do dono que escreve você com cedilha e o acadêmico de jornalismo que escreve cazinha com z ?
Daniela Novais , Salvador-BA - jornalista
Enviado em 24/6/2009 às 12:45:25
Cara, me responda só uma coisa: qual sua sugestão pra evitar que pessoas inaptas (e ineptas) assumam a função de jornalista? Tô falando sério. Moro num estado onde diploma nunca foi pré requisito pra exercer a função de jornalista. Eu, por exemplo, estou desempregada, porque não tenho QI (quem indique). A última vaga que pleiteei, perdi pro sobrinho da esposa do dono da empresa, que tava terminando o segundo grau e que, segundo meu amigo que trabalhava lá, escrevia você com cê cedilha... Conheço outras pessoas na mesma situação. Todos viramos free lancers ou repórteres de assessoria, cujo assessor nem sempre tem nível superior, mas devem ter mais intimidade com a profissão, né? Minha preocupação nem é o diploma ou a falta dele, mas a facilidade de ocupar o cargo, sem preocupação com nenhuma técnica, ética e outras coisas... Sou pela regulamentação da profissão. Aqui na Bahia, programas de tv mostram imagens de cinegrafista amador que "flagrou o exato momento em que alguém era assassinado" e exibem tais imagens. Apresentadores usam palavras de baixo calão e quando escrevemos para nos manifestar pela falta de mosaico em cenas chocantes, perguntam no ar "o que é vilipêndio de cadáver?" Defendendo o direito da população de ver a violência nua e crua. Eu defendo o jornalismo de qualidade, com diploma ou sem. Sou a favor da coerência.
Ito Silverio  Guedes , Gurupi-TO - Acadêmico de Jornalismo
Enviado em 23/6/2009 às 13:51:10
Que pena que você não casou com o Eltinho. Daria um lindo casal autodidata. Nas tardes de domingo ensinariam seus filhos a cozinhar linguiça na latinha... E a noite contariam histórias sobre branca de neve... Quanta demagogia, e eu que pensei já ter ouvido tudo nessa vida. Os tempos mudam, ninguém brinca de jornalista não... Jornalista tem família, que está com a pele corada, não ficar brincando de cazinha ou de herói.
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