ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 543 - 9/2/2010
  Diretório Acadêmico
Início > Índice Geral > Diretório Acadêmico + A | - A
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
 

DIPLOMA DESNECESSÁRIO
Os equívocos de um debate social

Por Cássio Gusson em 23/6/2009

A decisão do STF que tornou desnecessário o diploma universitário para exercer a profissão de jornalista gerou diversas reportagens, artigos e editoriais em todos os veículos de comunicação e também neste Observatório. Porém, o que mais me intrigou neste debate foram os argumentos e as justificativas utilizadas pelos defensores da decisão que confundiram conceitos e termos e, assim, realizaram uma interpretação equivocada da sociedade e, principalmente, das novas formas de comunicação.

Reinaldo Azevedo, em artigo publicado em seu blog, justifica a decisão utilizando como argumento central de seu texto o "talento" que o jornalista deve ter e que não se aprende na universidade. Talento, porém, não é uma premissa válida apenas para a profissão de jornalista, mas sim, para toda e qualquer profissão. Afinal, independente de toda a formação que obteve, caso um médico não tenha "talento" para exercer a profissão, certamente ele não irá exercer corretamente o seu ofício. Talento é uma palavra que carrega uma imensa carga subjetiva, que diz que o seu portador tem uma predisposição nata para determinada função. Assim, não podemos usar "talento" como um argumento científico que justifique ou invalide determinada posição, pois por conta de sua subjetividade ele não é um determinante.

Atuar no ramo e ser jornalista

Outra confusão ocorrida é com a famosa muleta de nome "liberdade de expressão". Liberdade de expressão é um direito de todo e qualquer cidadão. Através dele, garante-se que o povo possa expressar sua opinião sobre qualquer acontecimento. Esta opinião não necessita em hipótese alguma ser fundamentada em qualquer princípio específico e até não necessita de nenhuma coerência. É puro e simplesmente o direito do povo de, a grosso modo, compartilhar aquilo que pensa. Para isso, ele não precisa de diploma de jornalista e também a ausência do diploma não interfere em absolutamente nada na "liberdade de expressão". Ela é aquém do jornalismo e este apenas se fundamenta nela para `reivindicar´ o seu papel como ator social, ou seja, uma coisa é totalmente diferente da outra. Assim, o debate do diploma do jornalista não é em nenhum momento um debate sobre a liberdade de expressão.

Estes argumentos dos defensores da proposta não são coerentes como também não é coerente a afirmação, daqueles que são contra a decisão, de que com a anulação da necessidade de diploma os veículos de comunicação, devido ao teórico aumento da procura, irão reduzir o salário dos pretensos jornalistas (que ainda serão representados pelo seu sindicato). Hoje, os jornalistas já enfrentam um mercado imensamente saturado pelo grande contingente de universitários que se sujeitam a, mesmo depois de formados, ganhar salários de estagiários e até mesmo menores. Na outra ponta, também há, como sempre houve, diversos profissionais que atuam na área jornalística sem formação superior equivalente e recebem salários muito superiores ao piso da categoria. E aqui reside uma outra grande confusão, pois há uma diferença entre atuar no ramo jornalístico e ser jornalista.

A "proliferação do jornalismo"

A imensa maioria dos profissionais que atuam no ramo jornalístico sem diploma equivalente são comentaristas, articulistas e críticos – em outras palavras, são pagos para emitir em seus textos suas opiniões, seus juízos de valor. Uma tarefa completamente diferente da tarefa do jornalista que, por princípio ético e social, deve evitar ao máximo emitir opinião em seus textos. Cabe ao jornalista articular as suas frases com a finalidade de informar o cidadão sobre determinado fato e os diferentes pontos que envolvem este acontecimento. Para isso, dele se exige uma formação técnica e humanística que lhe conceda os princípios básicos para executar aquela ação. No outro extremo estão os profissionais do início deste parágrafo, que não necessariamente precisam ter uma formação técnica em jornalismo, mas, ao contrário, precisam dominar conhecimentos em áreas especificas como cinema, sociedade, geopolítica etc., ou apenas serem verborrágicos e, em alguns casos, ter uma boa aparência e dicção.

Um outro argumento equivocado é o que qualifica o "jornalismo pela internet". Blogs, Twitters, mensagens pelo Orkut, imagens do YouTube e tantos outros textos e vídeos intitulados jornalísticos que circulam pela rede, postados por usuários, são o pleno exercício da democracia. Podemos acompanhar, pelos recentes acontecimentos no Irã, como estas novas possibilidades da comunicação são importantes ao revelar conteúdos diversificados e, de certa forma, mais próximos do "real", porém isto não qualifica estes produtos como produtos jornalísticos, pois eles emitem, ao seu modo, uma opinião sem um compromisso com a exibição do outro lado. O que ocorre na internet não é uma "proliferação do jornalismo", como diz a Folha em seu editorial de 19/06 (a não ser que este seja o modelo de jornalismo da Folha), mas uma proliferação da liberdade de expressão e da comunicação em escala global; uma proliferação da diversidade de opiniões em seus diferentes formatos. Jornalismo é outro assunto e envolve outros fatores que não dizem respeito a apenas postar um vídeo sobre determinado acontecimento em Teerã, por mais importante que seja este acontecimento.

O atual dilema do STF

Também é equivocada a afirmação de que a contribuição de profissionais de diversas áreas irá "aperfeiçoar o jornalismo", pois este não é um ganho que seja mensurável, além do que o jornalista, em seu trabalho cotidiano, já tem contato com a colaboração de diversos profissionais de todas as áreas do conhecimento. Ele não vive isolado na redação apenas mantendo contato com aqueles que atuam próximos a si, tanto pelo exercício da profissão em si como, justamente, pela pluralidade que a internet propicia este contato com o outro ocorre a todo o momento em uma incidência maior do que em qualquer outra profissão.

O jornalista não é apenas um "carteiro" de informações e é certo que o diploma não garante a formação de um bom profissional, mas também a falta dele não garante nem um pouco. Os cursos superiores de Jornalismo não ensinam a escrever, mas não é certo que saber escrever e elaborar um bom texto faça de alguém um jornalista. Ou seja, a questão é muito mais ampla do que fizeram parecer as declarações dos membros do Tribunal.

Ao contrário do que dizem alguns partidários contrários à decisão do STF, não creio que esta seja um "vitória do patronato", pois assim como ocorre com a publicidade, as agências, em sua maioria, não contratam o "irmão do filho do meu amigo que sabe `mexê-in-CorioDraw, ou Ilustrato´". Elas exigem um profissional que tenha conhecimentos específicos na área e que possa contribuir com o hall da empresa, e isso não descarta a existência de profissionais que não sejam formados especificamente nas áreas próximas a publicidade e design. O que ocorreu com o jornalismo, foi na verdade um ataque aos jornalistas pelo reducionismo do debate e pela falta de qualidade na argumentação que tornou desnecessário o diploma. Esta argumentação desconectada da realidade pode ser comprovada no atual dilema que vive o Supremo Tribunal Federal, que não sabe ainda se deve exigir o diploma dos jornalistas que serão contratados pelo concurso público a ser aberto pela secretaria do órgão.

Comentários (0)
Comentar
Compartilhe
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas – e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.
         
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Cássio Gusson

Outros artigos desta Seção
DIPLOMA & HIPOCRISIA
Quem tem legitimidade
para defender a
liberdade de imprensa?

Alberto Dines
23/6/2009
DIPLOMA DESNECESSÁRIO
Contra a obrigatoriedade,
a favor de regulamentação

Maurício Stycer
23/6/2009
A liberdade das más razões
Janio de Freitas
23/6/2009
Jornalista sem diploma
não tem futuro

Gilberto Dimenstein
23/6/2009
Curso parado no ar
Míriam Leitão
23/6/2009
STF atende ao pedido
das grandes empresas

Hamilton Octavio de Souza
23/6/2009
Regulamentação de
jornalista vira incógnita

Renata Camargo
23/6/2009
Eu também vou reclamar
Marcos Daniel Santi
23/6/2009
É preciso ser diplomado
para garantir ética?

Heitor Reis
23/6/2009
Uma tentativa de
ridicularizar profissionais
que trabalham seriamente

Ana Cláudia Dolores
23/6/2009
Tenho que ter
um padrinho forte?

Guilherme Oliveira
23/6/2009
Mais um que me faz crer
no acerto do Gilmar Mendes

Carlos Roberto Vieira dos Santos
23/6/2009
Um golpe contra a
qualidade e organização
da categoria profissional

Thaís Leite
23/6/2009
Qualidade na
informação? Para quê?

Ubirajara Oliveira
23/6/2009
Liberdade de imprensa
e de informação
estão comprometidas

Jorge Fernando dos Santos
23/6/2009
Um soco na boca
do estômago

Taís Alves
23/6/2009
Uma nota esquecida,
num canto de página

Juliana Rocha
23/6/2009
Por que o bacharelado
é imprescindível
para a sociedade?

Ismar Capistrano Costa Filho
23/6/2009
Sociedade perde na
qualidade da informação

Hans Misfeldt
23/6/2009
Exigência fere a
liberdade de expressão?

Emanuelle Najjar
23/6/2009
Os jornais do interior,
o STF e o caciquismo

Glauco Silvestre Silva
23/6/2009
O que penso a seis meses
de me formar como jornalista

Susan Eiko Togashi
23/6/2009
Uma profissão que já era...
Teresa Leonel
23/6/2009
Profissional insignificante
e profissão fútil

Cássio W. Mathias
23/6/2009
Decisão do STF transforma
jornalistas em rábulas

Luiz Otávio de Carvalho
23/6/2009
Nota de falecimento
Guilherme Cardoso
23/6/2009
Uma decisão deprimente
Rogério Nogueira
23/6/2009
O jornalismo e
o capital simbólico

Ricardo Tesseroli
23/6/2009
Uma batalha perdida
e uma guerra por travar

Celso Lungaretti
23/6/2009
E agora, José?
Jorge Mariano
23/6/2009
Um show de afrontas
Clébio Melo
23/6/2009
O STF não define
o valor do jornalismo

Breno Eustáquio
23/6/2009
Mamãe, quero ser
advogado-jornalista
-engenheiro-palpiteiro

Admilson Veloso
23/6/2009
O diploma morreu,
viva o jornalismo

Márcio Leijoto
23/6/2009
Quero meu diploma de volta!
Márcia Moreira
23/6/2009
Oi! Eu sou a burra do diploma!
Fernanda Pereira da Cunha Souza
23/6/2009
Em que base a argumentação está sustentada?
Rogério Santos de Castro
23/6/2009
A (in)justiça do Supremo
João Gabriel Bressan
23/6/2009
Sobre cozinheiros
e jornalistas

Lelê Teles
23/6/2009
Péssima notícia
Leandro Fortes
23/6/2009
A escolinha do
professor Gilmar

Marcos Cesar Gouvea
23/6/2009
Agora somos iguais
Jair Viana
23/6/2009
"A profissão de jornalista dispensa qualificação profissional"
Pecê Lopes
23/6/2009
Em defesa da justiça
social e de concurso público
para o STF

Sérgio Luiz Gadini
23/6/2009
A vida começa depois dos 40, mas o respeito acabou
Fernando Horta Zuba
23/6/2009
Jornalismo vs.
corporativismo

Jean Marcel Tanzerino
23/6/2009
Por um jornalismo com
qualidade e qualificação

Felipe Harmata Marinho
23/6/2009
Jornalista sem formação:
uma aberração

Gabriela Luzia Rodrigues
23/6/2009
Vou comprar meu
nariz de palhaço

Flavia Arcanjo
23/6/2009
A formalização da barbárie
Cleyton Carlos Torres
23/6/2009
Uma decisão
prejudicial e ofensiva

Ayoub Ayoub
23/6/2009
Carta aberta a
um leitor anônimo

Mário Bentes
23/6/2009
Toma lá, dá cá e o
contra-senso de uma decisão

Juliano Schiavo
23/6/2009
A casa da mãe Joana
Ivan Berger
23/6/2009
Os equívocos de
um debate social

Cássio Gusson
23/6/2009
Só não entendo por que o jornalismo foi escolhido
Verônica Lorenzo
23/6/2009
Um risco para a democracia
Isabelle Anchieta
23/6/2009
Fomos omissos. E
arrombaram a porta

Rafael Motta
23/6/2009
Monteiro Lobato
precisava estar aqui

Ana Helena Tavares
23/6/2009
Senhores da soberba,
não nos achincalhem

João Batista Perles
23/6/2009
A média da mídia
Ricardo Faria
23/6/2009
Misturando alhos com bugalhos
Zózimo Tavares
23/6/2009
Uma conquista obsoleta e desnecessária
Maria Aparecida Torneros da Silva
23/6/2009
Pra que ser jornalista?
Ana Cândida Martins
23/6/2009
O jornalista, a qualificação
e o mercado de trabalho

Amaro Junior
23/6/2009
Um argumento falso e um jornalismo mais fragilizado
Josefa Maria da Silva
23/6/2009
A polêmica sobre o fim do diploma
Lilia Diniz
24/6/2009
Um fim prenunciado
Muniz Sodré
25/6/2009
Nota oficial do FNPJ
Fórum Nacional de Professores de Jornalismo
25/6/2009
As emoções do dia seguinte
Alberto Dines
26/6/2009
Ser ou não ser (diplomado), eis a questão
José Paulo Cavalcanti Filho
26/6/2009
As linhas tortas do diploma de jornalismo
Cristina Charão
26/6/2009

Últimos 5 artigos de
Cássio Gusson
IRÃ
A notícia como arma
23/6/2009
JORNALISMO ESPORTIVO
A Copa e a notícia
9/6/2009
STF NA MÍDIA
Menos restrições e mais avanços
12/5/2009
IMPRENSA BRASILEIRA (1808-2008)
O ano é de festa
12/2/2008
TV GLOBO
No meio do caminho tinha uma pedra
26/6/2007
Mais artigos de
Cássio Gusson >>