ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 543 - 23/6/2009
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DIPLOMA DESNECESSÁRIO
Monteiro Lobato precisava estar aqui

Por Ana Helena Tavares em 23/6/2009

Sou estudante de Jornalismo. Sim, estudante. É o fato de eu estar na faculdade que me garante esta condição? Não! Todo ser humano tem a capacidade de ser um autodidata, de estudar por sua própria conta – e risco. É claro que há louváveis exceções à regra, sempre há, mas queimar etapas tem seus perigos.

O risco que corre, principalmente no mundo de hoje, alguém que queira entrar para o jornalismo sem a formação adequada e sem o amparo de um diploma é o mesmo que corre alguém que pretenda ser mestre-cuca e já comece longo tentando fazer uma omelete sem nunca ter fritado um ovo. É o risco de amargar bocas.

Matérias de jornal podem causar uma revolução na sociedade. Watergate não me deixa mentir. Textos mal-intencionados têm o poder de amargar multidões. Aí poderão dizer: "Só que não é a faculdade que garante ética a um profissional." E não é mesmo! Mas, se dentro do ambiente acadêmico a pessoa tiver oportunidade de ir fritando alguns ovos antes de fazer aquela omelete especial, tendo acesso a atividades como, por exemplo, jornais-laboratório, certamente chegará ao mercado de trabalho já conhecendo, na prática, o significado, para o bem e para o mal, dessa bela palavra de cinco letras. Aí, a escolha é de cada um. Aliás, como sempre.

Cadê a ameaça à liberdade de expressão?

Da minha parte, digo que já fritei alguns ovos e, mesmo assim, ainda não me sinto preparada para fazer uma omelete. Vocês poderão supor, então, que eu estou querendo dizer que será o diploma que me fará preparada para servir um banquete. Não, porque no meu caso morrerei achando que em todos os bolos que eu fiz sempre ficou faltando uma cereja. A perfeição é inalcançável, tenha você ou não um diploma. Mas se o tiver, você, pelo menos, terá algumas chances a mais de já não cometer, diante de um público de milhares, aquele mesmo erro que cometeu dentro das quatro paredes de uma sala de aula ou de um laboratório de pesquisa universitária. Como bem dizem os verdadeiros mestres, ali é o lugar de errar – e de pensar. Talvez por isso o desespero de Mendes. Um ser pensante é tudo o que menos ele quer ver pela frente.

É totalmente paradoxal ver a decisão de um juiz que crê numa imprensa sob censura, como já deu mostras disso, ser defendida por pessoas que, para tanto, se baseiam na infundada alegação de que a lei que instituiu a obrigatoriedade do diploma teria sido um artifício da ditadura militar para cercear a liberdade de expressão. Visto que, segundo dizem, isso afasta da imprensa os profissionais de outras áreas. Parece-me que há aí dois grandes equívocos.

Primeiro ponto: com relação à obrigatoriedade do diploma entendida como armadilha da ditadura, é um argumento tão sem fundamento que as pessoas nem sequer se lembram que o sistema deles não dependia de uma fórmula assim tão complexa: simplesmente censuravam ou, como ocorreu tantas vezes, prendiam e, se preciso, iam mais longe. Herzog não tinha diploma de jornalista e não foi através da obrigatoriedade do diploma que a ditadura o silenciou. Segundo ponto: advogados e médicos, só para citar duas grandes áreas, nunca foram impedidos de escrever em jornal ou, tampouco, de expressar suas opiniões em qualquer veículo de comunicação, mesmo não tendo o diploma de jornalista nem, muito menos, o registro profissional. Aliás, muito ao contrário, até pela inexistência do curso de jornalismo antigamente, sempre foi farta a quantidade de pessoas sem formação específica ou profissionais formados em outras áreas exercendo normalmente a função de jornalista. Ou seja, cadê a tão falada ameaça à liberdade de expressão relacionada à obrigatoriedade do diploma?

Uma recepção "calorosa"

Só que a grande maioria dessas pessoas que hoje exercem o jornalismo sem diploma e que, segundo afirma a própria ANJ, não são maioria no mercado, vem de outros tempos. Vem de tempos em que redação era celeiro. A redação acolhia e ensinava. Para se ter uma noção, o jovem idealista Monteiro Lobato, saído do interior de São Paulo e formado advogado por imposição do pai, chegou a fundar um pequeno jornal com seus colegas na Faculdade de Direito e foi, por muitos anos, colaborador do Estado de S. Paulo e da Revista do Brasil, publicações do mesmo grupo editorial. Segundo os biógrafos de Lobato, a redação do Estadão, e também a redação da Revista do Brasil, teriam sido os locais onde ele aprendeu a lapidar seu estilo. Hoje em dia, alguém consegue imaginar as redações dos grandes jornais exercendo tal papel?

Quando vejo afirmações do tipo "Há lugar para todos nas redações", como tenho visto por aí, fico imaginando o jovem Lobato chegando hoje, 2009, à redação do Estadão, vindo lá do interior, sem ser conhecido ainda, trazendo na bagagem tão somente muito idealismo e um diploma de advogado. Sem, porém, nenhum preparo para trabalhar com imprensa, apenas a nobre disposição de aprender. Alguém tem dúvidas da recepção "calorosa"?

Ainda há uma esperança

Vejam, então, como são hipócritas os barões midiáticos que hoje falam em "ganho de diversidade" ao se dizerem satisfeitos com o fim da obrigatoriedade do diploma. A diversidade sempre existiu, o diploma jamais a tolheu e, dentre tantos outros interesses por trás dessa euforia, está o de que poderão reduzir salários drasticamente. Só que a hipocrisia chega a tal ponto que tenho certeza de que esses mesmos barões, que andam soltando seus fogos em editoriais, continuarão dando mais valor a quem possui diploma. E, nisso, salvos alguns raros mais espertos, os Lobatos de hoje são engolidos.

Por isso, é claro que as academias sofrerão um forte baque, principalmente aquelas que não se adequarem às novas tendências do Brasil e do mundo, mas ainda assim essa decisão, que ainda acredito que possa ser revogada, está longe de significar o fim dos cursos de Jornalismo e a derrocada de sua importância. Ao contrário disso, até acho que o que Mendes conseguiu foi o efeito contrário do que desejava.

Setores importantes da sociedade estão discutindo essa questão e, se o Congresso resolver entrar nessa briga, ainda há, sim, esperança de que o jornalismo que, pelo menos para mim é uma missão, consiga voltar a ser entendido como uma profissão, que de fato assegure um amparo a quem a exerce.

Por isso tudo, sou estudante de Jornalismo e vou continuar sendo.

Comentários (10)
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Ângela  Rodrigues Gurgel , Mossoró-RN - Escritora Entusiasta
Enviado em 11/11/2009 às 17:39:17
Os argumentos em defesa do exercício do jornalismo sem a devida habilitaçào me recordam as tentativas de provar a não existência de Deus dizendo apenas que Ele nào existe porque não existe - sem fundamento, portanto. Brilhante o seu artigo! Sucesso!
cacalo  kfouri , são paulo-SP - jornalista
Enviado em 28/6/2009 às 10:50:56
é a primeira defesa que leio da obrigatoriedade do diploma em que se faz uso de um raciocínio lógico, sem ataques a quimeras, sem generalizações, sem a prcoura de pelo em ovo. se você já é capaz de fazer o que fez ainda estudando, espero ter a oportunidade de acompanhar o seu trabalho quando estiver "pronta". sou jornalista, não diplomado, há 35 anos, continuo a achar o diploma desnecessário, mas tenho a obrigação de elogiar uma defesa da qualidade da sua. parabéns,
marcia eloy Eloy , Rio de Janeiro-RJ - Aposentada
Enviado em 26/6/2009 às 18:49:31
Acho que em todas as profisões é necessário o conhecimento de um mínimo de técnica e de teoria. Não imagino uma profissão sem um curso preparatório.O mundo em que vivemos torna-se cada dia mais sofisticado e novas profissões vão surgindo pela necessidade de profissionais aptos em áreas até pouco tempo impensáveis..Quem poderia prever a necessidade de um técnico de informática, há alguns anos atrás?Hoje há cursos para esta área e os profissonais são muito requisitados. A evolução tecnológica do mundo cria uma ramificação cada vez maior de profissões e técnicos e, a meu ver,cada vez menos há lugar para amadores.
paulo  monteiro , fpolis-SC - estudante
Enviado em 26/6/2009 às 17:40:02
De quantas dimensões cognitivas estamos falando mesmo? Midiático ó do borogodó, dai-me graças, inspira-me no disse me disse. O poder de organização,o poder de resposta rápida, no poder sobre o poder de qualquer "direito de expressão". Quem inventou essa estupidez? Surgiu de alguma necessidade visceral? Necessidade surgida neste mundo jornalístico contaminado pelo realismo de fachada tão adequado a cobertura de guerras. É óbvio o consenso que há sobre o quase arquetípico ser jornalista.
Julio Prático Souza , São Paulo-SP - Analista de Sistemas
Enviado em 24/6/2009 às 17:48:06
Como jornalista talentosa que parece ser, a Ana Helena Tavarez não precisa ser tão pessimista. Em sua frase "E, nisso, salvos alguns raros mais espertos, os Lobatos de hoje são engolidos." ela não considera o mais importante - o povo! Por que vocês estão esquecendo esse elemento tão importante da equaçao? Aproximen-se do povo, mas não da forma como faz o "Profissão Reporter" da TV Globo, que trata a população como rato de laboratório, percebam que vocês fazem parte da sociedade e que o "ferro" que entra no Zé da esquina também pode entrar em vocês (como acabou de acontecer agora...). Se alguém me disser "Ah, não adianta, nossos patrões não estão do lado do povo!", bom, aí para mim o jornalismo perdeu o sentido realmente...
Anderson  de Souza , Rio de Janeiro-RJ - Futuro Jornalista com Diploma
Enviado em 24/6/2009 às 13:40:17
Pois é… Também sou um estudante de jornalismo e continuarei sendo. Mesmo indignado e estupendamente furioso com tal Ministro, o que me resta é seguir de cabeça erguida em busca do meu sonho e mostrar que uma faculdade de jornalismo pode estruturar um aluno e fazer com que ele entenda os mecanismos midiáticos. Ana, amei o texto! Tive mais ânimo ao lê-lo! Toda admiração!!!
Paula Cajaty , Rio de Janeiro-RJ - escritora
Enviado em 24/6/2009 às 10:48:34
O sistema de informação começou a mudar com a internet, há dez ou quinze anos no Brasil. Nos EUA, a crise está bem mais aprofundada, já que eles estão muitos anos à frente de nós no que se refere aos problemas com a informação gratuita. É de fato imprescindível pensar a nova forma como a informação será produzida, processada e divulgada, pois sabemos que informação é poder. Assim, se há Jornais e Revistas sendo criados e publicados online, gratuitamente, isso é um mau sinal... pois se ninguém paga pelos conteúdos, como as pessoas sobreviverão disso? Como o poder vai permanecer? Para quê diplomados, se todos se tornaram jornalistas? Enfim, acredito que a informação se tornará uma assinatura de conteúdo, como as tvs a cabo, e que só algumas pessoas sairão desse circuito em razão de seu nome. É um panorama semelhante ao que acontece com políticos, médicos, conteúdos especiais de tv e artistas. Sugiro a leitura de "O enigma vazio" de Affonso Romano, que trata desse mesmo fenômeno com relação às artes plásticas, ocorrido no início do século XX. Se todos são artistas e se tudo é arte, como ficam os verdadeiros artistas e a verdadeira arte?
Eduardo Alves Fonte , União da Vitória-PR - Procurador
Enviado em 23/6/2009 às 22:58:59
Discordo da articulista. A liberdade de expressão não se restringe ao direito de expressar idéias ou opiniões; abrange também a liberdade de coletar e difundir informações, o que é da essência do jornalismo. E essa liberdade de coletar e difundir informações está expressamente garantida pelo art.. 13 da Convenção Interamericana de Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), à qual o Brasil aderiu. Logo, pessoas sem diploma de jornalismo não podem ser proibidas de exercê-lo
pc guimarães , rio de janeiro-RJ - jornalista COM DIPLOMA
Enviado em 23/6/2009 às 17:55:31
Belissimo texto, Ana. No final fiquei arrepiado e orgulhoso (por ter a pretensão de, como seu humilde editor no Jornal Laboratório da FACHA, achar que tive alguma pequena participação). Já está reproduzido no blog do professor pc. Sucesso.
Gilson Caroni Filho , Rio de Janeiro-RJ - Professor Universitário
Enviado em 23/6/2009 às 17:48:27
A autora do artigo vai ao centro da questão. Nenhuma faculdade ensina um aluno a se posicionar eticamente na vida. Os bons valores não têm fonte exclusiva. O que se aprende em uma instituição de ensino é como usar as ferramentas teóricas para aprimorar a cidadania. O que é feito desse aprendizado fica a cargo de cada um, de sua consciência, de suas circunstâncias. A decisão da quase totalidade dos ministros nada guardou qualquer relação com a liberdade opinativa. Foi, antes de tudo, uma manifestação classista. Ganharam os barões midiáticos. Parabéns, Ana Helena, minha querida aluna. Seu artigo está primoroso. Nesse caso, ganhou o Observatório.
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Ana Helena Tavares

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