ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 546 - 9/2/2010
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JORNALISMO POLÍTICO
As lacunas da cobertura da crise

Por Luiz Antonio Magalhães em 14/7/2009

O Congresso Nacional está em crise, mas para a grande imprensa tudo se resume a um nome: José Sarney. É certo que o presidente do Senado, eleito pelo Amapá e líder do PMDB do Maranhão, está cercado de encrencas, algumas delas tão complicadas de explicar como batom na cueca. Fazem bem os jornalistas em correr atrás das denúncias sobre o ex-presidente da República, mas fariam melhor, muito melhor, aliás, se conseguissem explicar ao distinto público o que está realmente em jogo no legislativo federal.

Para começo de conversa, a crise não se restringe ao Senado, embora as falcatruas da Câmara tenham sido ofuscadas pelos episódios que vieram à tona na Casa Alta do parlamento brasileiro. A rigor, os primeiros casos denunciados neste ano, sobre a farra das passagens aéreas, dizem respeito aos deputados federais, que transformaram as milhagens e os bilhetes não utilizados em mercadoria. A apuração não avançou muito, ficou na publicação de casos particulares – até o impolutíssimo Fernando Gabeira (PV-RJ) acabou admitindo que usou passagens da sua cota para a filhota viajar ao Havaí.

O que jornal nenhum investigou foi a parte mais grave da história, pois o uso de bilhetes da cota pessoal de deputados para seus parentes, amigos ou namoradas é café pequeno perto do esquema que transformava as passagens e milhagens em mercadoria. Como se sabe, mercadorias são vendidas e compradas mediante pagamento. Quem embolsou os recursos? Quem operava o esquema? Ninguém sabe, ninguém viu. O assunto simplesmente morreu na imprensa tupiniquim.

Mesmo considerando apenas os fatos amplamente noticiados dos desmandos no Senado, a cobertura é repleta de lacunas. O foco em Sarney acaba fazendo com que muita coisa importante não seja publicada. A Primeira Secretaria do Senado, comandada hoje por Heráclito Fortes (DEM-PI), é uma espécie de "prefeitura" da Casa. Entre as prerrogativas desta secretaria estão as de realizar licitações, nomear e demitir servidores e a de cuidar da execução do Orçamento do Senado. O primeiro-secretário também assina, depois do presidente, as atas das reuniões secretas.

É muita coisa, mas do jeito que as reportagens dos jornalões têm sido publicadas, parece que só José Sarney sabia e cuidava das falcatruas. Ora, nos últimos anos o cargo tem sido ocupado exclusivamente por parlamentares do DEM, antigo PFL – antes de Heráclito, Efraim Moraes e Romeu Tuma foram os "prefeitos" do Senado. Apesar de tudo isto, nitidamente os democratas vêm sendo poupados do tiroteio. Batom, só na cueca de Sarney (e de Renan Calheiros, os ex-presidentes da "Era Agaciel" Garibaldi Alves e Tião Viana também não estão sendo cobrados na mesma intensidade).

Sem graça

É evidente que Sarney tem culpa no cartório – foi ele quem nomeou Agaciel Maia diretor-geral do Senado, para começo de conversa –, mas a imprensa ainda não conseguiu esclarecer o que está por trás da guerra que vem sendo travada no Congresso Nacional, limitando-se a publicar denúncias vazadas na maior parte das vezes por funcionários do Senado ou gente com interesse direto na publicação das denúncias. Pior ainda, os jornalões e seus colunistas não estão conseguindo colocar as denúncias em um contexto que as explique. Para o leitor, fica parecendo que anteontem Sarney desembestou a praticar corrupção, a torto e a direito, praticando um verdadeiro haraquiri político.

Ora, José Sarney não nasceu ontem nem tem vocação para se auto-imolar. O que os brasileiros estão tomando conhecimento neste momento são práticas muito antigas, anteriores até mesmo à primeira gestão de Sarney na presidência do Senado. Não foi de ontem para hoje que o Senado contratou 9,6 mil funcionários (contando os inativos, o número chega a espantosos 18 mil e nesta soma não estão os terceirizados e comissionados) para servir os 81 senadores, o que é um absurdo lógico e administrativo.

Também não foi de ontem para hoje que começaram a ser assinados os atos secretos, agora cancelados pelo presidente da Casa, ou que começaram a se formar as filas para comprovar a presença e fazer jus às horas-extras. E o mais importante de tudo, não foi de ontem para hoje que a imprensa ficou sabendo de tanta imoralidade. Ao contrário, muitos dos jornalistas que parecem orgulhosos dos "furos" que estão dando na verdade deveriam estar com vergonha de jamais terem tocado no assunto antes...

Na verdade, a grande lacuna da atual cobertura da crise é mesmo a falta de contextualização. Sarney está sob intenso tiroteio porque a eleição para a Mesa Diretora do Senado precipitou, no Congresso, a guerra que está sendo travada nos bastidores da política brasileira, qual seja a da sucessão do presidente Lula no próximo ano. Nem é tão difícil assim explicar as coisas: Sarney faz parte do PMDB governista, que decidiu romper com um acordo de cavalheiros e disputou o comando das duas casas parlamentares, quando o natural era o PT ficar com a presidência do Senado, cedendo a da Câmara ao PMDB. Curiosamente, a entrada de Sarney na disputa dividiu a oposição – ele recebeu apoio do DEM, mas não do PSDB.

Com a vitória do senador do Amapá no Senado e do deputado Michel Temer (SP) na Câmara Federal, uma parcela substantiva do PT ficou incomodada com o que julgou "excesso de poder" dos peemedebistas. Ao mesmo tempo, boa parte dos tucanos, especialmente os próximos ao governador de São Paulo José Serra também não acharam muita graça em ter como comandante do Senado, justamente no período pré-eleitoral e durante a campanha de 2010, um político extremamente próximo do presidente Lula, capaz de influenciar decisivamente na costura das alianças estaduais e nacional.

Espetáculo da notícia

Pode até parecer confuso, mas não é. São interesses conflitantes, mas como o mesmo objetivo: detonar não apenas Sarney, mas o que ele simboliza – o PMDB alinhado com Lula.

Do ponto de vista dos "serristas", enfraquecer esta ala peemedebista é um dos poucos jeitos de pelo menos tentar uma neutralidade do partido, detentor de muito tempo na propaganda eleitoral no rádio e televisão. Para uma parcela do PT, trata-se de preservar o seu quinhão na máquina governamental. Já os democratas optaram pelo apoio a alguém que no fundo, no fundo, é um dos seus.

Nada disso aparece nas análises dos jornalões, que preferem apostar no espetáculo das notícias que chocam (e que esses mesmos jornalões já tinham conhecimento). Se o fazem por inocência, é apenas mau jornalismo. Se o fazem por interesse no resultado da eleição de 2010, é manipulação pura e simples. Nos dois casos, o leitor sai perdendo.

Comentários (14)
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Mtnos  Calil , São Paulo-SP - Combatente da corrupção
Enviado em 6/8/2009 às 03:42:44
Poderíamos então, se não concluir, pelo menos supor que o Estadão e Serra estão entre os principais mentores deste ataque a Sarney? Sua matéria será publicada no jornal eletrônico do Instituto Mãos Limpas Brasil, que está procurando jornalistas éticos e dispostos a promover a ética na mídia, começando pela televisão. Abraços e boa sorte! Mtnos Calil Coordenador do Instituto Mãos Limpas Brasil
Max Suel , SP-SP - Engº
Enviado em 20/7/2009 às 12:16:02
Não Bel. Barros, jamais a presidência do Senado iria para a oposição no caso de renúncia de Sarney .... a base governista tem ampla maioria e faria novamente o presidente. (alías Sarney concorreu com o petista Tião Viana , que teve o apoio do PSDB). Sua análise merece ser refeita.
Marcos Barros , Salvador-BA - Advogado
Enviado em 20/7/2009 às 08:39:35
O Sarney só passou a ser atacado pela imprensa reacionária a partir do momento em que sua renúncia passaria a significar a conquista da Presidência do Senado pelo PSDB/DEM. Essa mesma imprensa que hoje critica o Sarney sempre foi absolutamente omissa a respeito dos incontáveis atos da familia Sarney. Por isso acho fundamental defender e apoiar o Sarney, a fim de evitar quje gente que consegue ser ainda pior coloque-se em uma posição na qual poderá atrapalhar realmente o atual governo. Quanto ao Sarney propriamente, considero desnecessário comentar, pois tudo o que a imprensa hoje afirma jamais deixou de ser verdadeiro, sem contar outras muitas coisas execráveis da família Sarney no Maranhão. Se algum dia o Tasso Jereissati, por exemplo, passar a apoiar o Lula, também a mesma imprensa irá "descobrir" sua vida pregressa. e assim caminha a imcompetente imprensa golpista brasileira. Só a desmoralização completa e irrestrita de toda essa imprensa e das oligarquias podres deste país possibilitará uma verdadeira evolução. Enquanto isso não ocorre, em decorrência do poderosíssimo consenso da direita, só me resta torcer para que o Lula continue a fazer o pouco que tem feito, o que, apesar de pouco, é infinitamente mais do que os desgovernos anteriores fizeram.
Marco Antônio  Leite , São Caetano do Sul-SP - TST
Enviado em 16/7/2009 às 19:28:00
A SENZALA é a porta de entrada da FAVELA, a qual se difere no número de pessoas que habita em cada barraco, já na SENZALA morava muita gente num só ambiente. SENZALA foi à bola principal que a elite deu a saída oficial para a formação do time dos FAVELADOS, o qual tem sua formação com os seguintes jogadores, miséria, desemprego, negros e brancos pobres, drogas, armas, prostituição infanto-juvenil, viúvas do crime, polícia truculenta, cujo técnico é o carrasco do time, ou seja, a elite dominante que mantém o time na retranca para que o mesmo não vire o jogo. Porém esse dia chegará?
Marco Antônio  Leite , São Caetano do Sul-SP - TST
Enviado em 16/7/2009 às 19:21:41
Nem todo cego não enxerga. Nem todo rei é de verdade. Nem todo bolo é doce. Nem todo rico é feliz. Nem todo rio dá peixe. Nem todo pobre é miserável. Nem toda rua é o caminho que leva ao destino. Nem todo mel é melado. Nem todo político é honesto. Nem todo governo é bondoso. Nem toda banana é da china. Nem toda faca tem dois gumes. Nem todo leite é puro. Nem todo bispo é católico. Nem toda beleza é real. Nem todo pincel leva tinta. Nem toda mesa é farta. Nem toda imprensa informa o que interessa para todos. Nem todo maninelo é curto de inteligência. Nem todo cavalo dá coice. Nem todo regime atende os interesses de todos. Nem todo Lei abrange o rico. Nem todo advogado é de defesa. Mas toda LEI é para prender o pobre.
Marco Antônio  Leite , São Caetano do Sul-SP - TST
Enviado em 16/7/2009 às 18:29:46
A inversão de valores tomou conta da cena política nacional, pois quem necessita de polícia se faz de vítima. Para mostrar que é bom caráter chama os milicos para acabar com uma manifestação de fora Yeda, visto que ela esta envolvida com a bandidagem do colarinho branco (BCB). Os homens de farda que são pagos com o nosso dinheiro aparece dando pancada em quem estiver na frente seja mulher ou homens, até quando vamos suportar essa farsa de políticos que se fazem que estão sendo torturados pela massa que não concorda com a corrupção que campeia no Palácio da Governadora do Rio Grande do Sul, estado que não merece esse castigo.
Ferreira de  Oliveira , Rio de Janeiro-RJ - Engenheiro
Enviado em 15/7/2009 às 00:16:02
Prezado Luiz Antonio Magalhães, obrigado pelo reparo. Realmente foi um indesculpável equívoco da minha parte apesar de, em algum momento, eu já tenha sabido que o sucessor do Vice- Presidente é realmente o Presidente da Câmara. Mas não tem perdão, foi uma grande mancada. Mas que a cruzada anti Sarney é um show de hipocrisia, não tenha a menor dúvida !
Luiz Antonio  Magalhães , São Paulo-SP - Editor Executivo do OI
Enviado em 14/7/2009 às 18:41:33
Caro Thanius, o problema não é o diploma, não: sou jornalista faz 15 anos, mas não tenho diploma, sou formado em história. E totalmente contrário ao diploma obrigatório específico!
Thanius Scoralick Sarchis , Juiz de Fora-MG - Estudante de jornalismo
Enviado em 14/7/2009 às 17:17:16
Tá aí a prova de que o diploma de jornalista pode não ser obrigatório, mas é fundamental. Apesar do engenheiro aí de baixo ser claramente bem informado, não teve o feeling de se perguntar: na linha sucessória, é Senado primeiro mesmo? Até o Google sabe.
Luiz Antonio  Magalhães , são paulo-SP - jornalista
Enviado em 14/7/2009 às 15:36:40
Prezado Ferreira de Oliveira, Obrigado pelo comentário, mas é preciso fazer um reparo. Na linha sucessória, segundo a Constituição Federal do Brasil, quem assume na vacância do vice-presidente é o presidente da Câmara Federal, e não do Senado. Portanto, Michel Temer e não Sarney é que assumiria. Ademais, vida longa a José Alencar!
Ferreira de  Oliveira , Rio de Janeiro-RJ - Engenheiro
Enviado em 14/7/2009 às 14:14:30
Enfim, alguém constata o óbvio. A tal crise é exatamente como esse artigo descreve. Com um pequeno e mórbido detalhe que infelizmente tem que ser acrescentado. A saúde do Vice-Presidente se tornará mais cedo ou mais tarde um fator de instabilidade política. Sejamos francos e diretos, há grande chance dele se afastar do cargo antes da eleição de 2010. E quem assumirá o seu lugar ? O presidente do Senado. Alguém duvida de que esse fato não esteja nos planos de PSDB & Cia ? Portanto, acreditar em virtudes e boas intenções nessa cruzada anti-Sarney é, no mínimo, acreditar em Papai Noel. Ou ser completamente idiota.
Washington Ferreira , Ubá-MG - Jornalista
Enviado em 14/7/2009 às 12:45:05
Alberto Dines precisaria ler artigos como estes postados neste OI. Aliás, Alberto Dines precisa ler mais, muito mais...
merielen machado , rio das ostras-RJ - estudante
Enviado em 14/7/2009 às 12:34:30
Adorei.Até q fim entendi alguma coisa dessa briga no Senado.Os jornais noticiam e me deixam perdida muitas vezes,Muito interessanete essa análise.
Marcio Flizikowski , Curitiba-PR - Professor
Enviado em 14/7/2009 às 11:09:46
Uma das poucas análises bem feita da questão dos atos secretos. Em suma, o que quer a oposição na figura do PSDB? Limpar o Senado? Não. O objetivo é derrubar Sarney (inimigo declarado de Serra) e a ala governista do PMDB, abrindo espaço para a coligação PMDB-PSDB na eleição do ano que vem. O que quer o PT? Manter seu quinhão do governo. O PT não votou em Sarney e acha que a vaga é sua de direito, de Tião Viana, mais propriamente. E abre mão da governabilidade de Lula por alguns meses, para ter a presidência do Senado. E o que quer o DEM-PFL? O de sempre. Mamar nas tetas do governo. Sejá lá quem for o governo.
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