ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 546 - 14/7/2009
  Jornal de Debates
Início > Índice Geral > Jornal de Debates + A | - A
 
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]

DIPLOMA DE JORNALISMO
A tentação obscurantista

Por Ivana Bentes em 14/7/2009

Texto produzido a partir de intervenção na lista de discussão do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo, em 12/7/2009

É inacreditável o nível de obscurantismo e de "polícia" corporativa e "polícia epistemológica" nessas propostas de controle e restrição de um campo do conhecimento aberto e público, como o jornalismo.

Não existe mais lugar nas sociedades de radicalização da democracia, da democracia online, do jornalismo-cidadão, e que está experimentando novas formas de produção do conhecimento para esse tipo de raciocínio: mais embarreiramento, mais controle, mais poder, na mão de um grupo pequeno, seja de empresas, seja de profissionais, seja de corporações. Isso não qualifica nada. O que qualifica é uma boa formação, seja dentro ou fora das universidades.

Alguns profissionais e professores de jornalismo (em desespero inútil) parecem querer o monopólio ao reverso, que é simplesmente um espelho do monopólio mais indecente das empresas!

Será que o fim da exigência do diploma e os debates que se abriram de uma necessidade de mudança na formação e no mercado não serviram para nada? Só vão encontrar eco, aqui nesta lista, no pensamento mais reativo e francamente ultrapassado e obscurantista de retorno ao que não pode mais retornar?

Instâncias de poder

Enquanto isso os free lancers, os precários, os profissionais formados e os não-jornalistas continuam sem nenhuma proteçao, nem seguridade. o que se precisa é de uma associação dos trabalhadores precários. E não um novo embarreiramento que tira empregos.

As propostas reativas na lista de discussão do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo são realmente assustadoras. Ninguém vai sair do "piloto automático" dos discursos prontos e encarar de forma nova a realidade que nos cerca?

Ordem dos Jornalistas? Parece até coisa de maçonaria, de seita obscurantista!

Citando: "Ordem dos Jornalistas, definidora de quem poderá exercer a profissão, após prestação de exame. Isso garantiria que somente os melhores estariam aptos a trabalhar".

Que é isso, um novo darwinismo corporativo? E quem seriam os iluminados capazes de nos dizer quem são os "melhores", esses profissionais muitas vezes desatualizados, fora do debate vivo, fechados ao novo, encerrados em dogmas obscuros do século 19, combatendo o uso de novas mídias e práticas, combatendo o jornalismo-cidadão?

É assustador. E triste ao mesmo tempo, ver tanta energia voltada para construir novas instâncias de poder e restrição e não novas formas de potencializar e formar mais e melhor e milhares de cidadãos aptos a exercer essa ocupação de interesse público.

No meu entender, o modelo das Ordens seria inútil para os profissionais e para os não profissionais do campo da Comunicação e do jornalismo. Não tem nada de utópico é bem realista, aliás. Utópico-anacrônico é propor a volta do diploma ou dessas Ordens, ao meu ver.

Existem outras formas de organização e de regulamentação que não simplesmente o poder cartorial. A fronteira que distingue profissional e amador no campo do jornalismo é péssima, não dá conta das mudanças no campo, é ruim mercadologicamente falando (o mercado já incorporou os "amadores" os não-jornalistas faz tempo), mas é pior ainda politicamente.

Proteção e regulação

É espantoso que nenhuma associação de jornalistas no Brasil tenha conseguido se articular para encarar a atual realidade dos trabalhadores do campo da Comunicação, que ultrapassa em muito o caso dos jornalistas diplomados.

A questão da organização da profissão não atinge (e nunca atingiu) apenas os jornalistas com carteira-assinada, mas uma massa crescente de jornalista free lancers e autônomos, diplomados ou não.

Esses são os trabalhadores que precisam de qualificação e proteção. Para isso deveria existir associações levando em consideração a nova cena do trabalho no mundo e a emergência desse precariado, diplomado, pós-diplomado ou não.

Não simplesmente mais "restrição", controle, penalização para diminuir a "empregabilidade" dos trabalhadores da Comunicação. Para proteger meia dúzia "diplomada" ou com "carteira assinada" criando obstáculos para se exercer uma ocupação, ofício , atividade, profissão de interesse público.

Isso além de inútil (ver todas as formas de burlar o diploma praticadas por todas as empresas e a incorporação legitimada socialmente de outros saberes e profissionais no exercício da profissão) não agrega, não organiza o campo. A nova cena do trabalho (a precarização) explodiu o pensamento sindical clássico, em crise por falta de imaginação política, pois não está preparado para organizar, nem para defender o autônomo, uma realidade no campo da Comunicação. (Vão ficar lutando pela volta do diploma e da carteira assinada ao invés de pensarem em novas formas de proteção e regulação para quem nunca terá uma carteira assinada.)

A debater

Não sou contra nem regulamentação, nem organização, mas os sindicatos e associações que aí estão fizeram o quê exatamente para proteger e lutar em prol da massa de Comunicadores free lancers e autônomos (diplomados, inclusive)?

O pensamento das Ordens etc. não protege ninguém, não organiza e não protege os trabalhadores da Comunicação nem qualifica profissão nenhuma. Só concentra poder e penaliza.

Quais as novas formas de organizar e agregar? Isso sim é um problema que merece debate. Não existe nenhum modelo "pronto", mas uma proposta a construir e não será poposta por "uma" pessoa obviamente, mas por um movimento que tenha minimamente um discurso consistente e renovado, à altura das mudanças de contexto que estamos vivendo. O que existe de concreto são diversos movimentos nessa direção: o movimento dos Intermitentes e precários da França, o Movimento italiano de organização dos precários que culminou com o MayDay e depois o EuroMayDay, que congrega ativistas em toda a Europa em torno da mudança das leis previdenciárias, os autonomistas do México, Espanha e Argentina.

Na Itália e na França, o movimento dos "Intermitentes e precários", reunindo todos os profissionais das artes, espetáculos e comunicação está discutindo e propondo ao governo francês novas formas de regimes de seguros para trabalhadores free lancers que raramente ou nunca terão carteira assinada, mas contratos provisórios, trabalhadores de empregos descontínuos, como jornalistas, radialistas, publicitários, artistas.

Ou seja, não partem mais do discurso irreal da luta por "verdadeiros empregos" de carteira assinada, mas da realidade da precarização, para os direitos dos precários, como defende a Associação dos Precários da Ile de France, movimento fortíssimo e organizado.

Em obras

No Brasil, a discussão, foi levada ao Senado por Eduardo Suplicy, com a discussão da "renda universal", salário mínimo para os trabalhadores precários e discussão de novas formas de seguridade para os trabalhadores intermitentes. Parte da esquerda engessada mal digeriu ou sequer entendeu a questão.

A discussão de novas formas de proteção para intermitentes foi lançada pelo Ministério da Cultura durante a gestão de Gilberto Gil, para contemplar os artistas que não têm seguridade/empregos formais, mesmíssima questão que atinge os trabalhadores da Comunicação.

Não há modelo pronto, há um enorme desafio de construção coletiva. Em todas essas experiências o que se constata é a falência dos sindicatos e associações clássicas de pensarem e propor – seja conceitualmente, seja praticamente – soluções para esse cenário.

Comentários (11)
Comentar
Compartilhe
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas – e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.
         
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
Hugo  Xavier , Hortolândia-SP - Estagiário em comunicação
Enviado em 18/7/2009 às 19:35:37
Ivana, me parece que essa sua análise deixa bem evidente que as maneiras de se difundir a informação evoluiram e se multiplicaram o que facilita o envio de informações. Porém você deixou de lado todas as questões eticas que envolvem a profissão, e o papel social exercido pelo jornalismo. Francamente; suas análises não ficaram nada mais nada menos, que obscurantista.
Jose de Almeida Bispo , Itabaiana-SE - Publicitario e radialista
Enviado em 18/7/2009 às 16:31:21
Seu segundo parágrafo é arrasador, mas o que os diplomistas querem ouvir não é isso. Nenhum deles está preocupado com qualidade e sim colocação; garantir a "boca" mediante um papel, na esmagadora maioria das vezes fornecido por uma faculdade vagabunda, vendedora do dito papel, apenas. E quem vai aferir?Bacharéis em direito tem que submeter-se a prova da OAB; médico, enfermeiro, engenheiros civis tem estágios... jornalistas "formados" mediante monografias vendidas pelo correio... quem afere? Quem tiver vontade de ser jornalista vai continuar a buscar a profissão, mesmo sem obrigatoriedade de diploma. Dono de escolão emissor de diploma fajuto e candidados a assessorias é que saem perdendo com isso.
alfredo sternheim , são paulo-SP - jornalista-cineasta
Enviado em 18/7/2009 às 16:30:05
Pela lei brasileira, eu não posso, num processo, fazer a minha defesa, sou obrigado a contratar um advogado formado. Por que em redações, o jornalista que trabalha 7 ou 5 horasnão tem que ter prova de capacitação profissional que pode ser um diploma? Colunistas de determinadas áreas também têm que provar que entendem do assunto. Sou cineasta e jornalista e vejo no campo do cinema críticos que não sabem distinguir iluminação correta da péssima, erros de roteiro de erros de direção. Gente que não sabe quando um dretor "quebra o eixo", gente que nunca foi a uma filmagem,que não sabe o real custo de um longa e ai tolera, passa a mão na cabeça de muitos cineastas que superfaturam seus filmes na base do mecenato oficial, da renúncia fiscal. Um sujeito com conhecimento de cinema pode perceber esses deslizes, algo que não vemos na mídia brasileira. É preciso sim regulamentar a profissão do jornalista. E se diploma faz parte dessa regulamentação (não para colunistas de áreas específicas como biologia, economia, cinema), viva o diploma. Acabar com ele é dar um atestado de otário para alnos e profesores que nas últimas décadas acataram a lei e hoje correm o risco de se igular ao filho do dono, da amante do dono do jornal, a mulher do anunciante, etc. Aliás, isso já ocorrre com ou sem diploma onde alei... Ora a lei. Vejam Antonio Pimenta, o assassino da jornalista-amante. Condenado livre.
Thales Rafael , Niterói-RJ - Estudante de Jornalismo
Enviado em 18/7/2009 às 15:06:18
Mais um texto inútil lastreado em opiniões pessoais e "achismos". A autora que se desdobrou tautologicamente para falar de um novo paradigma na forma de fazer a comunicação não apontou que paradigma é esse. Como muitos, mais um que joga um texto ao vento e ideologiza o debate. Ninguém pensa em política, ninguém pensa no que seria a democracia. Ninguém para debater criticamente o que seria essa nova forma de liberdade de expressão que estão forçando nossa goela abaixo. Ninguém conseguiu ver o que de importante e de sintomático existe no fim da obrigatoriedade do diploma. Um texto que propõe acabar com o obscurantismo não faz mais do que apagar as luzes e deixar a todos tateando as paredes no escuro.
Sergio Hespanha , Salvador-BA - arquiteto-urbanista
Enviado em 17/7/2009 às 13:18:31
Ok, no geral entendido e correto. Concordo. Só um senão. A expressão jornalismo-cidadão, por mais que seja usada, e que talvez fundamente muito do que se expressa em termos de valores , talvez não encontre correspondência na realidade. Que, sim, pode ser transformada, mas é preciso que seja a partir de pressupostos capazes. Julgar que se tenha coisa tão fundamental sem a ter de fato é um ilusionismo obscurantista. Então, incorremos ainda no obscurantismo? Que cidadania? Que jornalismo? Jornalismo e cidadão? Diria que estas são coisas por demais ainda em aberto . E isso me cheira a obscurantismo, ainda que diverso do primeiro.
João Baptista Pimentel Neto , Atibaia-SP - jornalista SEM DIPLOMA
Enviado em 16/7/2009 às 14:33:05
Cara Ivana... Bastava os dois primeiros parágrafos... Sábias palavras... Afinal, como dizia Cazuza.... o tempo não para... E daqui a pouco prá ser poeta vamos ter que cursas Letras numa faculdadezinha qualquer...privada...é lógico... ab Pimentel
Antonio  Vieira , Brasilia-DF - jornalista
Enviado em 15/7/2009 às 14:38:06
Ivana fique tranquila os precarios, sem diploma e etc vão fundar no proximo dia 26/07 em Brasilia a ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS JORNALISTAS - ABJ que não vai discriminar os jornalistas diplomados até porque vários socios fundadores são diplomados. Com isso vamos sim priorizar na pratica sua tese de pensar e agir na "terceira onda" começando pela seguridade por exemplo. Acesse o edital de convocação em http://jornalistassemdiploma.blogspot.com/
Vera Anjos , SãoPaulo-SP - Jornalista/Assessora de Imprensa
Enviado em 15/7/2009 às 11:07:36
O problema é o seguinte, na prática,o que vamos fazer ? Precisamos nos mobilizar rapidemante...
João José de Oliveira  Negrão , Sorocaba-SP - Jornalista/Professor
Enviado em 14/7/2009 às 14:59:43
Também reproduzo intervenção que fiz na lista do FNPJ. Cara Ivana, vamos, então, aceitar como "dado de realidade" a fragmentação neoliberal (há quem goste de chamar de pós-moderna)? Fazer campanha pela Emenda 3 (em boa hora vetada pelo Lula)? Não há mais classes sociais, direita e esquerda são conceitos e identidades superadas e o PFL é, de fato, Democrata? O oligopólio dos veículos de comunicação é só um "discurso", a quem devemos contrapor, tão-somente, um "discurso alternativo" e não uma organização tradicional (oh! horror) construída historicamente pelos trabalhadores, como os sindicatos e a luta pelo reconhecimento social das profissões -- que se dá, desde o início da modernidade capitalista, contra os interesses de classe dos proprietários dos meios de produção.
Nivaldo  Manzano , São Paulo-SP - jornalista sem diploma
Enviado em 14/7/2009 às 12:10:38
Sensata e brilhante argumentação. Faço minha as palavras da autora e a cumprimento especialmente pelo caráter inovador da proposta de construção de um novo discurso sindical. Atenção para o parágrafo: "Quais as novas formas de organizar e agregar? Isso sim é um problema que merece debate. Não existe nenhum modelo "pronto", mas uma proposta a construir e não será poposta por "uma" pessoa obviamente, mas por um movimento que tenha minimamente um discurso consistente e renovado, à altura das mudanças de contexto que estamos vivendo. O que existe de concreto são diversos movimentos nessa direção: o movimento dos Intermitentes e precários da França, o Movimento italiano de organização dos precários que culminou com o MayDay e depois o EuroMayDay, que congrega ativistas em toda a Europa em torno da mudança das leis previdenciárias, os autonomistas do México, Espanha e Argentina."
Victor Barone , Campo Grande-MS - Jornalista
Enviado em 14/7/2009 às 11:36:12
Parabéns Ivana, parabéns pelo desabafo. Estás repleta de razão. É preciso olhar para frente. Mas, tantos insistem em fixar o olhar no retrovisor...
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Ivana Bentes

Outros artigos desta Seção
DIPLOMA DE JORNALISMO
O peso da história
Eliza Bachega Casadei
14/7/2009
A tentação obscurantista
Ivana Bentes
14/7/2009
Afinal, diploma para quê?
Tomás Eon Barreiros
14/7/2009
O STF errou,
cabe consertar

Laurindo Lalo Leal Filho
14/7/2009
GOLPE EM HONDURAS
Um contra-senso ululante
Hugo Cortez
14/7/2009
MÍDIA & COMUNICAÇÃO
Uma reflexão sobre o
jornalismo contemporâneo

Thalita Pacini
14/7/2009
LEI DE IMPRENSA & DIPLOMA
Depois do extermínio,
a reencarnação

Alberto Dines
14/7/2009
O jornalismo Tabajara
Luciano Martins Costa
17/7/2009

Últimos 5 artigos de
Ivana Bentes
Mais artigos de
Ivana Bentes >>