ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 547 - 21/7/2009
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TELEVISÃO & SOCIEDADE
Será o fim do horário nobre?

Por Erick Cerqueira em 21/7/2009

Lembro que na minha infância, quando as propagandas passavam durante as novelas das 6h e das 8h, eram sempre de grandes companhias e instituições. Hollywood, Free, Itaú, Ford, Vasp, Varig e, de vez em quando, uma propaganda do governo federal aqui e outra ali. Meus pais comentavam que o motivo era o "horário nobre", um horário onde o grande público se concentrava em casa e parava para ver a TV, gerando picos de audiência. Isso, segundo os suplentes de marqueteiros que eu tinha em casa, justificava o alto preço do horário dos comerciais e, consequentemente, as grandes empresas que se apresentavam. Obviamente, fazia sentido. Coisa que só descobriria muito tempo depois. Mas, se pararmos para pensar, onde está o "horário nobre" hoje?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares para todo e qualquer analista de mercado. A TV perdeu, nos últimos 20 anos, seu status supremus de "última coca-cola do deserto" por diversos motivos.

1º) O surgimento de novas tecnologias da informação - O grande furo de reportagem aparece primeiro na internet para só depois alcançar a grande massa através das TVs. No episódio da morte de Michael Jackson, fiquei sabendo da informação por um SMS enviado pelo meu cunhado, solicitando confirmação do fato. Na mesma hora, no escritório, colocamos três notebooks conectados a portais de informação: Terra, Globo e LATimes. A confirmação chegou primeiro por um site de revista de fofoca americana. Apertávamos o F5 para atualizar as telas concomitantemente. Dentre a mensagem e a confirmação da morte não se passaram mais de 40 minutos.

Repetição e falta de criatividade

2º) O público está mais exigente - As notícias, antes facilmente digeridas, hoje acabam passando por um crivo maior. A necessidade de confirmação das reportagens pelas novas tecnologias de informação é quase um direito de defesa do cidadão internauta. Michael morreu, mas só porque ficou confirmado em dezenas de sites, e não porque alguém me falou.

3º) Todos querem conforto e flexibilidade nos horários - Por que sair correndo para casa para ver o casal Bonner divulgando suas notícias mastigadas ao seu público ("carinhosamente" batizado de Homer Simpson por William), se podemos chegar bem mais tarde e assistir a tudo pela internet, com comentários dos internautas, fórum de discussões e análises críticas de diversos jornalistas sobre as notícias e outras formas de interação?

4º) O baixo nível das novelas - Não me refiro somente à toda poderosa Rede Globo, englobo todas. Todas as mulheres da minha família marcavam seus compromissos com quem quer que fosse somente depois da novela das oito. Perder um capítulo era ter a certeza de não saber o que dizer no dia seguinte na roda de amigas do salão de cabeleireiros. Hoje, essa mesma mulherada quase não acompanha às novelas. Talvez, por causa da repetição ou mesmo falta de criatividade dos autores e do público também. Lembro que durante a novela A Favorita o autor teve de mudar a novela e apresentar logo a vilã, pois o público estava deixando de ver a novela por causa da falta de um posicionamento mais direto dos personagens.

Senhores da programação

5º) A segmentação dos mercados - Depois das análises do mercado, constatou-se que a propaganda em massa, apesar de eficiente em alguns casos, não consegue atingir públicos específicos de maneiras diferenciadas. Na era do Marketing 1a1, a propaganda televisiva vem cedendo espaço às mídias alternativas, às ações de marketing de guerrilha e principalmente ao merchandising (pontos de vendas).

6º) Mais ensino, menos novela - Com a proliferação das faculdades particulares, milhões de jovens e adultos passaram a trocar o conforto da poltrona por uma cadeira de estudante universitário noturno.

7º) O direcionamento do assunto - De que me importa se a chuva no Nepal acabou com a plantação de arroz ou ainda se um ursinho ficou preso no gelo no Alaska? Essas informações, apesar da minha comoção com os plantadores e com o pobre animal, não acrescentam nada à minha vida. Preferiria ver Nizan Guanaes e Washington Olivetto falando sobre as projeções de 2010 e 2011 para o mercado publicitário. A internet nos dá essa possibilidade de escolha de programação. Vamos atrás daquilo que realmente nos interessa e não ficamos passivos, hipodermicamente recebendo notícias. Somos muito mais que a mão no controle remoto; somos os senhores da programação, quase o editor-chefe da redação. Selecionamos o que nos interessa e não perdemos tempo com o pobre urso.

Quem faz o horário somos nós

Todos esses tópicos serviram apenas para mostrar que o horário nobre, apesar de sustentado por muitos especialistas, simplesmente morreu (ou anda agonizando). Hoje, para o terror dos analistas de mercado, quem faz o horário nobre é o próprio público. Conheço pessoas que não sabem nada sobre as TVs fechadas e têm pavor da TV aberta. Uma professora confessou-me que não tem televisor em casa, pois enxerga a programação televisiva como um aparelho de manipulação. Esse grande ditador de verdades com antenas, apesar dos esforços em se renovar, parece perder cada vez mais espaço. Não vai acabar, obviamente, mas perderá ainda mais a sua importância ao longo dos anos.

O horário nobre, caros amigos, quem faz somos nós. Onde você lê suas notícias? O que você procura para se distrair? E, o principal, qual o seu horário disponível para a televisão?

Atentemo-nos, senhoras e senhores, para essa informação. Horário nobre, agora, é algo quase particular. Cada um tem o seu. O meu, informo a grande mídia que queira me encontrar preso em frente à TV, está localizado entre 22:30h e 2 horas da manhã. E o seu?

Comentários (8)
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Ivan  Maia , Fortaleza-CE - funcionário público
Enviado em 28/7/2009 às 00:43:28
O futuro é a TV digital, onde poderemos assistir os nossos programas favoritos na hora que podermos e quizermos. Bem, assim espero que seja, com isso a audiência como conhecemos hoje não mais será exata, pois os programas poderão serem vistos em qualquer horário, acho que a audiência será medida como no youtube hoje, por número de acessos.....
Cristian Korny , São José dos Campos-SP - Músico sem OMB
Enviado em 24/7/2009 às 22:02:10
o meu? para horror dos publicitários, na tevê, só zapeando ininterruptamente fugindo dos comerciais que não acrescentam nada e são patéticos, minha preferência são os filmes e os noticiários, futebol, gosto, mas se o micro está livre em casa satisfaço minha sede de informação nele. Só pra colaborar com quem fez uma análise boa do horário nobre, mas concluiu inventando a roda...(como é bom poder comentar, mercado nobre!)..esse é meu hábito, não se orienta pelo relógio, o tempo é outro agora.
Erivan Augusto Santana , Teixeira de Freitas-BA - Professor
Enviado em 24/7/2009 às 15:49:50
Erick, seus comentários são pertinentes, mas vejo os diversos tipos de mídias (incluindo a tv e internet), como complementares entre si. Se estiver em casa na hora do Jornal Nacional ou do Jornal da Record assisto e depois complemento com a internet. Uma revista como a Caros Amigos é imprescindível. Na verdade, o risco é ficarmos presos a apenas uma fonte de informação, que é o que acontece no Brasil, onde a grande maioria das pessoas ainda tem somente a TV como fonte de informação.
Débora  Carvalho de Oliveira , SÃO PAULO-SP - Jornalista - Editora de Conteúdo
Enviado em 24/7/2009 às 01:17:32
Caramba! Que artigo legal. Última coca-cola do deserto foi o máximo. Eu iria morrer de sede pois detesto coca-cola. Mas, talvez no deserto... Eu adoraria que programas como Café Filosófico passasse no horário do Jornal Nacional. Não vou mentir que não assisto novela. Nem que seja para criticar o roteiro. Mas, que delícia é a internet. Como não assisto o Fantástico no Domingo, recorro à internet para assistir alguma matéria que me chamou a atenção no comercial. Não vou deixar de ir ao cinema ou teatro... ou jantar, para assistir o Fantástico. Detesto os programas que passam de manhã e à tarde. Mas adoro os que passam no domingo. Adoro o Globo Rural, não sei porque motivo. Adoro o Globo Ecologia e o Pequenas Empresas & Grandes Negócios... Não é sempre que assisto. Mas poderiam passar um pouco mais tarde... Nem me fale no popularesco. Mas, por outro lado, que diversão teriam, se a maior parte da população odeia ou não sabe ler, adora fofoca e não gosta de pensar nem refletir? A TV é a única diversão deles. Então, eu que vá para a internet ou ler um livro ou revista.
Ney José Pereira , São Paulo-SP - Contador
Enviado em 23/7/2009 às 19:53:46
Preso em frente à TV?!. E o pior é que parece não haver nada mais "nobre" a que se prender!. E agora todos os horários são "populares". Alguns são "popularescos", porém, disfarçados de "nobres"!. Ou mesmo de "nobríssimos". Ou "nobilíssimos"!. Observação: Naquela "época" havia "propaganda" de... cigarros (fumo ou tabaco)!. Parece-me que atualmente não há mais. O que há atualmente é "propaganda" de... remédios (medicamentos)!. E essa "mudança de hábito" dos consumidores brasileiros é um a-van-ço, hein!. Rarará!. O atraso é que "se os sintomas persistirem, procure um médico"!. Pô, por que não procurar um "médico" antes dos sintomas persistirem?!. Aliás, por que comprar um remédio (medicamento) se o tal "médico" não o receitou?!. A resposta fica por conta dos "suplentes" dos marquetingueiros farmacológicos!.
Erick Cerqueira , Salvador-BA - Estudante
Enviado em 23/7/2009 às 15:45:22
Leonidas. Essa virada de cabeça para o replay é exatamente o que faço também. As vezes, estou com a TV ligada e atento às notícias da internet. Só o gol pra me tirar a atenção mesmo.
Leonidas Souza , Santos-SP - industrário
Enviado em 22/7/2009 às 22:54:18
Meus horários são parecidos com o seu. Me informo pela Internet, deixando a televisão ligada, normalmente num fraquinho jogo de futebol desse Brasileirão de pouca técnica. Quando o narrador grita gol, viro a cabeça e assisto o replay, é o que basta. Dá para assistir a Globo e engolir chamarem o atual "governo" de Honduras de "governo interino"? Não dá para aguentar.
José Carlos , Rio de Janeiro-RJ - jornalista
Enviado em 22/7/2009 às 15:09:18
O horário nobre não vai morrer nunca, jovem estudante. Mas vai enfraquecendo aos poucos sim. O meu horário nobre é nunca, pois não vou perder meu tempo na tv. Horario nobre é ler um bom livro, amigao. sds.
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