ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 548 - 9/2/2010
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GRIPE SUÍNA
O apocalipse, a pandemídia

Por Gabriel Perissé em 28/7/2009

Algo semelhante aconteceu por ocasião do surto/susto da febre amarela, sobre o qual escrevi um artigo neste Observatório da Imprensa. Um ano e meio se passou e nos encontramos novamente envolvidos em clima apocalíptico, apavorados agora com tosses e espirros, embalados por notícias e informações que podem confundir e apavorar mais do que esclarecer.

Virou motivo de piada a explicação que o governador José Serra deu sobre a origem e transmissão da iminente "tragédia", no YouTube. Mas não fizeram melhor papel outras instâncias. Há dois meses, vários meios de comunicação divulgaram que "pandemia de gripe suína poderia infectar 2 bilhões", em que o uso do futuro do pretérito ("poderia"), indicando que tudo depende de certas condições, não consegue (nem conseguiria...) aplacar-nos o medo de estar entre esses 2 bilhões de infelizes!

No dia 19 de julho, outra chamada alarmista – "Gripe pode afetar até 67 milhões no Brasil em até oito semanas" –, na Folha de S.Paulo e na Folha Online, o que provocou a reação do ombudsman da Folha no domingo seguinte, criticando a irresponsabilidade dessa reportagem assinada por Hélio Schwartsman.

Mortes no trânsito e por automedicação

Já no dia 25 de julho, a própria Folha lembrou que "gripe comum mata 17 por dia em São Paulo", baseando-se em dados segundo os quais, só na cidade de São Paulo, morreram 6.324 pessoas ao longo de 2008 em decorrência de males provocados pela gripe nossa de cada ano. Na revista Época desta semana (nº 584), o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, explica (seria seu papel fazê-lo com mais contundência e mais rapidez) que esta gripe não é pior do que a sazonal.

Pandemias outras são esquecidas. Forçando o sentido da palavra, mas em sintonia com a sua origem etimológica, toda a desgraça que atinge o "povo inteiro" é pandêmica.

Só o trânsito no Brasil matou cerca de 7 mil pessoas em 2007 e, graças à Lei Seca, um pouco menos em 2008: algo em torno de 5 mil e quinhentas pessoas. Fazendo as contas, podemos admitir que a cada mês morrem muito mais brasileiros em acidentes automobilísticos do que morreram até agora com a famosa gripe suína.

A Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Abifarma) divulgou recentemente que, no Brasil, 50 pessoas morrem por dia por complicações causadas pela automedicação!

Outras pandemias: a das drogas, a do ensino deficiente, e a do pânico induzido pela mídia...

Comentários (10)
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George da Silveira Silveira , Rio de Janeiro-RJ - radiologista
Enviado em 7/8/2009 às 18:34:20
câncere, hiv, gripe espanhola, dengue 1, 2, 3 ,4; crise no senado, roubo no bolsa família, presidente passeando pelo mundo enquanto uns morrem de sede e fome no país que emprestou dinheiro ao FMI, falta de material nops hospitais para atendimento da população com a suposta gripe e outras doenças etc
Mauricio Silva , Campinas-SP - Analista
Enviado em 31/7/2009 às 12:32:13
Alguém aí faz as contas, essa gripe é tão fatal quanto dor de cabeça depois de um porre (porre de desinformação). Ela matou até agora ínfimos 0.000001% da população do Brasil! Mas a mídia está na campanha do quanto pior melhor ...
Julio Prático Souza , São Paulo-SP - Analista de Sistemas
Enviado em 31/7/2009 às 11:10:33
A gripe Espanhola não era também H1N1? ou estou enganado quanto a isso?
Lau  Mendes , Porto Alegre-RS - SST
Enviado em 30/7/2009 às 07:14:45
Tem gente comparando a "pandemidia" com a gripe espanhola. Esquecem que na epoca até unha encravada matava.
Luiz Fernando  Yamashiro , Santos-SP - Jornalista
Enviado em 30/7/2009 às 00:40:46
Vivemos a era do medo, Perissé. Medo vende, dá audiência. E a informação correta, para os meios privados de comunicação, é menos importante que o lucro.
paulo silva , Florioanopolis-SC - pesquisador
Enviado em 29/7/2009 às 21:10:40
O cenário é apocalíptico, mas o melhor é usar " Fim de Mundos" segundo a FIFA.
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 29/7/2009 às 18:06:17
A Gripe A (suína só para os jornalistas irresponsáveis que, sabendo da desinformação costumeira do brasileiro, utiliza essa nomenclatura e prejudica um grande setor da pecuária nacional) mata menos. De que universo falamos? Quantas pessoas são acometidas pelas outras gripes e destas quantas morrem? A imprensa teve acesso aos dados? E a Gripe A? Quantas pessoas foram contaminadas e quantas morreram? Pelas minhas contas passa de 2% (muito além do que o incompetente ministério e os jornalistas "vai com as outras" têm divulgado. Custa muito aos jornalistas "diplomados" buscarem as origens desses dados que o Ministério da Saúde vem papagaiando? E se morrem poucas pessoas, então o negócio é deixar morrer prá economizar? Está claro que o Ministério da Saúde já perdeu o controle sobre a doença.
Menjol  Almeida , São Paulo-SP - Analista de Cobrança
Enviado em 29/7/2009 às 17:13:00
Tem também a pandemia dos fretados... brincadeiras a parte, os grandes meios de comunicação do Brasil não têm competência nem boa vontade para informar a população de maneira correta e isenta. Esta, por sua vez, não possui senso crítico para correr atrás de informações confiáveis.
Roberto Takata , são paulo-SP - estudante
Enviado em 29/7/2009 às 09:57:42
Por essa lógica do quem mata mais, então podemos negligenciar a Aids no Brasil. Ou então dizer que armas nucleares não são um problema porque faz tempo que ninguém morre de bomba nuclear. O problema da nova gripe é que, ao contrário dos acidentes de trânsito, ela é contagiosa. E, ao contrário de muitas outras doenças, ela está em ascenção e tem um potencial de estrago grande. Não se deve criar pânico, mas não dá para dizer que não é nada. O *potencial* do problema é grave o bastante. []s, Roberto Takata
Julio Prático Souza , São Paulo-SP - Analista de Sistemas
Enviado em 28/7/2009 às 11:29:45
Concordo com o autor quando lembra outras pandemias que desgraçam nossa sociedade e são encaradas praticamente como "normais" - alcolismo, ensino e moradias deficientes etc. Porém, acho perigoso subestimar a pandemia causada pelo H1N1. Conhecendo a incompetência das autoridades brasileiras como conheço, é assustador encarar essa gripe como algo doença leve - aí o Temporão pede mais um tempinho e estamos fritos. Devemos nos lembrar que estima-se que esse virus matou 300.000 pessoas no Brasil em 1918 (quando a população era imensamente menor), e que 01 ano antes de matar milhões, houve também uma temporada "leve".
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Gabriel Perissé

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