ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 548 - 28/7/2009
  Feitos & Desfeitas
Início > Índice Geral > Feitos & Desfeitas + A | - A
 
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]

LUTA POLÍTICA
O quarto poder e a politicagem

Por Erick da Silva Cerqueira em 28/7/2009

Não há como falar em política na Bahia sem citar o nome de Antônio Carlos Magalhães. Depois de ser prefeito de Salvador e governador da Bahia apoiado pela ditadura militar, tornou-se ministro das Comunicações do governo José Sarney, a partir de 1985.

Dois anos depois, com o apoio de Roberto Marinho devido às concessões feitas pelo ministro, consegue o direito de retransmissão da Rede Globo para a Bahia, através do seu recém-criado canal, a TV Bahia, à época, retransmissora da Rede Manchete. A Rede Globo era transmitida para o estado pela TV Aratu desde 1969 e em apenas dois anos no ministério o político baiano conseguiu a concessão.

Não há como falar em política no Maranhão sem citar o nome de José Sarney. Depois de ser governador do estado do Maranhão apoiado pela ditadura militar, tornou-se presidente da República ao assumir o cargo depois da morte de Tancredo Neves, a partir de 1985.

Dois anos depois, com o apoio de Roberto Marinho devido às concessões feitas pelo então presidente, consegue o direito de retransmissão da Rede Globo para o Maranhão, através do seu recém-criado canal, a TV Mirante, à época retransmissora do SBT.

Duas biografias coincidentemente parecidas que têm em comum um fato gravíssimo. O uso da imprensa e o abuso do poder para conseguir a transmissão da emissora líder de mercado em todo o país, com o intuito de conseguir força política e apresentar ao povo, ainda desprovido de outros meios de comunicação mais eficientes para alcançar as notícias, as verdades criadas e a opinião pública pré-fabricada ao público.

Imprensa e política

Mas por que motivo tive que voltar ao passado e falar sobre o finado político baiano? Simplesmente para lembrar a todos a força da imprensa e o seu papel fundamental na construção de cidadãos ou, simplesmente, de eleitores de cabresto eletrônico.

Vejo na grande mídia, agora, as acusações de nepotismo, abuso de poder, uso de laranjas, manipulação e negociatas utilizadas pelo senhor presidente do Senado. Sinto o clamor público em relação à sua saída da cadeira de presidente. Assisto na TV Senado aos nobres deputados, antes beneficiados por Ele (o Deus do Maranhão), agora o apedrejando e crucificando-o. Mas porque será que isso só veio acontecer agora? Será que a grande mídia nunca soube de nada disso? Será que nunca compararam as trajetórias do ex-ministro das comunicações com a biografia "ilibada" do atual presidente do Senado? Ou simplesmente, "não era o momento" de se fazer essa análise mais detalhada sobre a vida do senador Sarney?

A resposta é simples. A imprensa está intrínseca na política e vice-versa. Não há um sem o outro. A TV Senado é o grande festival, uma espécie de pororoca onde o rio encontra o mar. A política se choca com a mídia e saem as duas a devastar tudo que aparece pela frente. Todos fazem questão de comparecer às CPIs e às plenárias que serão transmitidas para todo o Brasil por uma TV que é assistida, apenas, por quem se interessa por política ou alguém que leu algo interessante sobre esse canal da sua revista preferida.

Veja ou CartaCapital

Contudo, o que determina o que é uma boa leitura ou uma má leitura?

O que define hoje se a Veja é a melhor revista do país ou se a CartaCapital é quem merece esse título não é a sua linha editorial, e sim, a orientação política de quem as lê.

Quem apóia o atual governo, lê CartaCapital, quem é contra, vê a Veja. A semiótica política nas entrelinhas das duas grandes revistas chega a ser vergonhosa em alguns casos, como no apoio deslavado da Veja à campanha de Alckmin nos outdoors da revista. A peça publicitária continha a foto do candidato tucano à Presidência da República e o título, "O desafiante". Obviamente o TSE interferiu e proibiu as peças, pois a propaganda eleitoral era muito evidente.

Já a CartaCapital, uma explícita revista de esquerda (se é que isso ainda existe no país) serve de contrapeso aos "abusos direitistas" da revista anterior. O pior de tudo é o cinismo das duas em querer ser imparciais. Talvez até enganem a grande massa, mas que a logo da Carta é uma estrela vermelha e a da Veja é um tucano azul e a amarelo, ninguém tem dúvidas.

O caso Sarney

A campanha contra José Sarney, chegando agora com mais de 20 anos de atraso, é somente mais uma jogada política em época de eleição. Afinal, 2010 vem aí. Mas quem não sabe disso? A oposição, completamente perdida em suas estratégias, não sabia o que fazer. Vejamos:

** Como atacar publicamente o presidente da República se o mesmo goza no momento de uma altíssima taxa de aprovação? Falar mal de Lula pegaria mal.

** Atacar o Bolsa Família? Também não. Eles perderam a eleição passada com essa estratégia e agora querem assumir a "paternidade" do projeto.

** Chamar a candidata dele de guerrilheira e ex-presidiária? A Folha fez, mas não deu resultado.

** CPI da Petrobras? O governo ficou com as peças chaves da Comissão e ainda jogou o peso político de uma intenção de privatização da estatal, nas costas dos tucanos e democratas.

** Então que fazer? Simples, usemos a mídia para atacar o principal aliado do atual governo. O PMDB e um dos seus representantes mais emblemáticos, José Sarney. Simples, não? Mas não podemos parar por aí. Vamos usar a Veja para espalhar o boato de um terceiro mandato de Lula para tentar "endemonizar" a figura do presidente, comparando-o a Chávez, Evo Morales, Fidel Castro e até Hitler. Isso aconteceu em abril deste ano.

Já na Veja desta semana (última de julho), aparece uma cobra engolindo o Palácio do Planalto com o inteligente título "PMDB, da demagogia ao fisiologismo". O maior partido político do país é tratado na matéria "A digestão do poder", como acéfalo, "maleável", "adaptável politicamente" (Maria-vai-com-as-outras), atrasado e resiliente (resistente a choques). Além, obviamente, de demagogo.

Pergunta: como falar de demagogia quando uma revista faz política abertamente contra um determinado partido, ou dois, e ainda se julga isenta e sem tendências políticas? Para ajudar ao semanário da Editora Abril, segue uma pérola do Aurélio:

Demagogia: s.f. Política que favorece as paixões populares. / Dominação das facções populares. / O que inculca os valores populares.

Veja só, é a cara da revista...

Comentários (1)
Comentar
Compartilhe
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas – e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.
         
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
Carlos André , Salvador-BA - Teólogo
Enviado em 29/7/2009 às 15:24:21
Parabéns mais uma vez!!! Confesso que atualmente não tenho lido muito periódico, talvez por tudo isso que você relatou muito bem. Fico a me perguntar sobre imparcialidade nos meios de comunicação de massa; isso seria realmente possível ou é mera ilusão? Uma vez que tais meios se tornaram mera ferramenta de manipulação popular para manutenção do status quo de uma elite cotó (leia-se: sem direita nem esquerda), ou seja, sem identidade, dissimulada e, portanto, de péssimo caráter? O fato é que tal exploração parte da pouca educação oferecida para o povo que, por sua vez, é carente de senso crítico e, consequentemente, de comida, emprego, saúde, dignidade...
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Erick da Silva Cerqueira

Outros artigos desta Seção
GRIPE SUÍNA
O apocalipse,
a pandemídia

Gabriel Perissé
28/7/2009
Contar os mortos,
disseminar o pânico

Luiz Antonio Magalhães
28/7/2009
A epidemia do
alarmismo jornalístico

Celso Lungaretti
28/7/2009
Informação maciça
sobre os cuidados

José Morais da Silva Neto
28/7/2009
OS SERTÕES
A reportagem
como deve ser

Sebastião Jorge
28/7/2009
MÍDIA & MITOS
Sucesso e pacto com diabo
Robson Terra
28/7/2009
IMPRENSA ALTERNATIVA
Jornalismo com grife
Luis Guilherme
Pontes Tavares
28/7/2009
LIBERDADE DE EXPRESSÃO
Uma conquista inegociável
Luís Olímpio Ferraz Melo
28/7/2009
MÍDIA & SOCIEDADE
Conceitos sociais invertidos
Leonardo Passos
28/7/2009
SAÚDE PÚBLICA
O esquema do esquema
Paulo Mora
28/7/2009
MISTÉRIOS MISTERIOSOS
O lixo sem dono
Fábio de Oliveira Ribeiro
28/7/2009
REVISTAS ERÓTICAS
E a mídia criou a mulher
Regiane Santos
28/7/2009
ENTREVISTA /
ROBHSON ABREU
Jornalismo com
pães de queijo

José Aloise Bahia
28/7/2009
DIÁRIO CATARINENSE
Mudança de foco: do
conteúdo à competência

Felipe Barth
28/7/2009
LUTA POLÍTICA
O quarto poder e a politicagem
Erick da Silva Cerqueira
28/7/2009
MEIO AMBIENTE
O papel de cada um na preservação do planeta
Paulo Júnior
28/7/2009
OBSERVAÇÃO DO LEITOR
Práticas anticoncorrenciais
na publicidade

Silvia Noronha
28/7/2009

Últimos 5 artigos de
Erick da Silva Cerqueira
COBERTURA DA COPA
Meio de manipulação em baixa
6/7/2010
COBERTURA DA COPA
A força dos 140 caracteres
29/6/2010
IMPRENSA ESPORTIVA
Dunga zangado com imprensa infeliz
14/6/2010
ACORDO EM TEERÃ
Sanções ao Irã ou a Lula?
25/5/2010
MÍDIA & ELEIÇÕES
O deslize estatístico do Datafolha
20/4/2010
Mais artigos de
Erick da Silva Cerqueira >>