ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 549 - 4/8/2009
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TV PÚBLICA
Entre a renovação e o nada

Por Nelson Hoineff em 4/8/2009

Dois textos recentes publicados na Folha de S.Paulo – a reportagem "Tela fria" (30/7) e o editorial "A TV que não pega", no dia seguinte – retomam a discussão sobre a EBC (Empresa Brasil de Comunicação) e a chamada televisão pública brasileira. São anotações essencialmente corretas, mas bastante tímidas. A reportagem tem como mote a saída de Luiz Gonzaga Beluzzo da presidência do Conselho Curador da empresa e o editorial alerta para a falta de penetração da TV Brasil, antes de sugerir a extinção da empresa.

Já que tocou no assunto, a Folha teria feito bem em aprofundá-lo. Os danos causados pelo que tem acontecido nos 19 meses desde que a EBC foi criada vão além do fato de a emissora onerar o contribuinte em 350 milhões de reais por ano em troca de nada. Nesse período de tempo, a EBC acabou comprometendo a utopia da construção de uma TV pública no país, que é em muitas décadas anterior a ela. Pior do que isso: colaborou para sedimentar a idéia de que uma televisão pública não é muito deferente de uma típica repartição pública: atrasada e descomprometida com o desenvolvimento da atividade-fim.

A Folha afirma que a EBC transformou-se num mero cabide de empregos. Mesmo que esteja certa, isso é como preocupar-se com o resfriado de uma pessoa que esteja com câncer. Parte do problema, como aponta o jornal, está no seu histórico. De fato, a gestação da EBC foi no Ministério da Cultura, mas, para reduzir o poder do MinC sobre ela, o governo acabou se decidindo por uma política de conflitos. Instalou o tiroteio no saloon, onde alguns ficam feridos, mas o bar despedaçado. Estabeleceu um modelo de gestão em que nem mesmo o governo tem condições de entrar na empresa que criou.

Interferir nos modelos

Televisão é uma atividade muito importante no Brasil. Televisão pública, ainda mais. Isso não acontece por acaso. O Brasil tem uma forte cultura televisiva, sedimentada por muitos anos de bons resultados da televisão privada. O fracasso do modelo de implantação da TV por assinatura no país (que tem menos de 10% de abrangência, contra mais de 90% nos EUA e na Europa) gerou uma concentração de audiência em duas ou três redes abertas que não tem similar no mundo. Tanto o conteúdo quanto o modelo de produção dessas redes, no entanto, são bem semelhantes.

Definiu-se uma dramaturgia padronizada e estipulou-se que produtor e exibidor são a mesma coisa – isto é, que cabe às emissoras produzir quase tudo o que exibem. Isso é também singular em relação ao resto do mundo. O processo imitativo de construção tanto de conteúdo quanto de grades de programação fez com que tudo ali se parecesse – e mais: o sucesso de uma emissora passou a ser aferido pela sua capacidade de clonar a competidora. Triunfaram as semelhanças, não as diferenças.

É um modelo que está instalado de fato, mas não é um modelo bom – e, como tudo, tem seu preço. Nesse caso, o preço mais alto é o engessamento da atividade, a sua incapacidade de produzir novidades. Seja no que diz respeito ao conteúdo, aos modelos de produção ou de negócios.

Para poder ser igual, a televisão aberta brasileira pretendeu esquecer que a sociedade é diferente. Foi se refugiar numa região do cosmos que está 10 ou 20 anos atrasada em relação aos jovens, ou aos brasileiros que não consideram ser necessário assistir A Fazenda ou ao BBB para se sentirem ligados ao mundo. Passou a ser um corpo estranho para o cidadão que se reconheça como parte de um nicho – social, cultural ou etário. Discretamente, tornou-se menos massificante. Caiu na armadilha que criou.

É aí que entra a televisão pública. Como o nome sugere, ela é paga pela sociedade. Mas não é paga para enfastiá-la; nem para lançar-lhe o obsoleto. É paga para lhe propor a experiência formal, a novidade conteudística, formas inovadoras de pensar os mecanismos de produção, o entendimento das formas de utilização das tecnologias disponíveis. É paga para ser consumida. E, como o produto de uma televisão é a programação, a programação tem que ser consumível.

De todos os desafios de uma televisão pública no Brasil, o de interferir sobre os modelos de produção vigentes é o mais fácil de vencer – e o de maior impacto sobre a atividade. Em um ano e sete meses, isso já poderia ter sido feito. Mas os fatos apontam em outra direção.

Caminho longo

Há duas semanas, a TV Brasil lançou um pitching para uma série de 36 programas sobre meio-ambiente e sustentabilidade. Pitchings são concursos para escolha de projetos. Estiveram na moda há dez anos, embora hoje sejam reconhecidos como formas pouco eficazes de construção de programação. De qualquer maneira, trata-se do primeiro concurso que a emissora conseguiu lançar nesse tempo todo (excetuando-se um inusitado projeto sobre a África).

Para a produção desta série, ela está destinando cerca de 1 milhão de reais. Isto significa 1% do que pretende gastar este ano em programação, ou 0,3% do que recebe anualmente da sociedade brasileira. Ainda assim, boa parte da comunidade audiovisual do país saudou a medida como se fosse a redenção do setor. Isso é notavelmente revelador de como os próprios produtores de conteúdo se acostumaram a uma situação anormal. Esta situação vem sendo acalentada pela EBC, com dois resultados perversos: amestra a produção e espanta a audiência.

Para sustentar-se numa teia de ardis corporativistas infantilmente banais, a EBC chegou a acenar com a possibilidade de se transformar num balcão de benefícios para produtores audiovisuais. É o pior que poderia acontecer com uma emissora pública. Só não fez isso porque era pouco dinheiro para muito vespeiro. A produção de conteúdo, que deve ser terceirizada como em qualquer lugar civilizado, deve obedecer, em televisão, a um ideário construído com solidez. Tem que vincular-se a estratégias sofisticadas de programação que passam ao largo de conselhos de achistas montados para "democratizar" o funcionamento de uma empresa pública.

É claro que para a EBC refluem práticas do Estado que a abriga. Mas uma televisão pública saudável pode florescer mesmo dentro desse ambiente. Deve lutar para isso – e é questionável que a EBC o esteja fazendo. Talvez a Folha de S.Paulo não esteja certa ao propor, pura e simplesmente, a extinção da empresa – mas não se pode deixar de entender as razões que a fazem pensar assim. O que o jornal parece estar dizendo é que a EBC tem que cumprir o seu papel, ou não terá razão alguma para existir.

Uma televisão de excelência, afinada com o seu tempo, renovadora e útil à sua sociedade, é coisa possível. Sabemos que isso não está acontecendo no bojo da televisão privada. Há, portanto, um grande caminho a ser percorrido. Se não for pela televisão pública, por quem haverá de ser?

Comentários (11)
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Sergio  Azevedo , Macaé-RJ - Administrador
Enviado em 11/8/2009 às 08:28:28
"Ou seja, a TV pública faz sentido?" Resposta: Sim. Temos que pensar o país a longo prazo e quem quiser continuar assistindo o BB, só pelo fato de que o mundo todo assiste, tem todo o direito. Mas é só não reclamar depois que o Senado está cheio de coronéis desonestos.
OTAVIO BARROS DA SILVA  Barros , PALMAS-TO - Jornalista
Enviado em 7/8/2009 às 20:09:00
Flávio Aguiar, na Carta Maior Lançado alguns meses antes da I Conferência Nacional de Comunicação, o livro “A ditadura da mídia” (São Paulo, Editora Anita Garibaldi/Associação Vermelho, 2009) traz várias reflexões e propostas que vão desembocar na necessidade e na oportunidade daquele evento. O autor, Altamiro Borges, apresenta e detalha uma lista de propostas a serem consideradas pela Conferência: 1) Fortalecer a radiodifusão pública; 2) Revisar os critérios das concessões; 3) Rever os critérios da publicidade oficial; 4) Estimular (ao invés de reprimir) a radiodifusão comunitária; 5) Investir na inclusão digital. 6) Definir um novo marco regulatório para as comunicações, coibindo a monopolização, a desnacionalização e fixando “políticas públicas que garantam o acesso da população aos avanços tecnológicos”. O autor assinala que a última “iniciativa mais ousada neste campo [da radiodifusão pública] ocorreu no governo de Getúlio Vargas com a criação da Rádio Nacional, que teve expressiva audiência”. ------------------- Otavio Barros Palmas - Tocantins
OTAVIO BARROS DA SILVA  Barros , PALMAS-TO - Jornalista
Enviado em 7/8/2009 às 20:02:48
Nos anos 60, quando estudante, lá no meu Ouricuri, Sertão do Araripe, meu pai Chico Netto repetia em nossa conversa sobre política nacional: -- No Brasil, as Constituições são como papel higiênico... Otavio Barros Palmas - Tocantins
Dante Caleffi , Rio de Janeiro-RJ - Publicitário
Enviado em 5/8/2009 às 18:07:35
Embora Tereza Cruvinel tenha seus méritos como jornalista, creio, que uma emissora pública de televisão, tem de ser dirigida e tratada como qualquer empreendimento, com propósitos,objetivos,prazos,despesas, receitas ,estratégias.Pior ,não é alacançá-las ,é desmoralizar o projeto.
Angelo  Azevedo queiroz , Brasília-DF - Funcionário Público
Enviado em 5/8/2009 às 16:59:19
Otávio, acho que você está no páis errado e lendo a constituição errada. Achoque você deveria estar em cuba ,Venezuela ou na Coreia do Norte.
OTAVIO BARROS DA SILVA  Barros , PALMAS-TO - Jornalista
Enviado em 5/8/2009 às 11:10:53
Se o Lula tivesse coragem, mandaria fechar a maioria dos canais de rádios e tevês, já que elas não cumprem a Lei, ou seja, a nossa Carta Magna de 1988, que preescreve: Art. 223. Compete ao Poder Executivo outorgar e renovar concessão, permissão e autorização para o serviço de radiodifusão sonora e de sons e imagens, observado o princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal. § 1º - O Congresso Nacional apreciará o ato no prazo do art. 64, § 2º e § 4º, a contar do recebimento da mensagem. § 2º - A não renovação da concessão ou permissão dependerá de aprovação de, no mínimo, dois quintos do Congresso Nacional, em votação nominal. § 3º - O ato de outorga ou renovação somente produzirá efeitos legais após deliberação do Congresso Nacional, na forma dos parágrafos anteriores. § 4º - O cancelamento da concessão ou permissão, antes de vencido o prazo, depende de decisão judicial. § 5º - O prazo da concessão ou permissão será de dez anos para as emissoras de rádio e de quinze para as de televisão.
Marco Freitas , Teresina-PI - Jornalista
Enviado em 5/8/2009 às 04:49:06
As TVs públicas estatal e não-estatal são essenciais porque, mais do que as comerciais, tem a obrigação de responder às ansiedades de todas as camadas sociais. O grande problema da EBC é o grande problema da TV pública brasileira desde sempre, desde 1968 quando surgiu a primeira TV pública educativa do Brasil, a TV Univesitária de Recife: gestão e financiamento. Se o governo tem poder sobre gestão maior do que as entidades sociais dentro dos conselhos gestores, então a TV já é chapa branca. Com relação ao financiamento, acho necessário o Estado dar uma parcela de contribuição, "gorda" até, mas ela tem que arranjar outros meios de captação de recursos para não depender da simpatia de um ou otro governante. Perdia fé na EBC com Franklin Martins e Teresa Cruvinel, francamente. Procurem o programa VERTV no site da TV Câmara produzido ano passado sobre TV pública no Brasil; é muito esclarecedor.
Vitor  Tassinari Dornelles , Bagé-RS - Estudante
Enviado em 4/8/2009 às 15:45:12
A TV Pública entra em outra questão importantíssima: A Educação para a Mídia. Ela não ficaria parada simplesmente esperando que as pessoas a assistissem. Poderia ser trabalhada nas escolas, educando as crianças a selecionar a programação. Saber o que assitir, o que é válido, o que não é. Uma vez que o público cresça com essa informação (principalmente os alunos das escolas públicas) será a TV Privada que terá que se adaptar ao novo modelo. Excelente artigo.
Jose de Almeida Bispo , Itabaiana-SE - Publicitario e radialista
Enviado em 4/8/2009 às 15:01:17
"O que o jornal parece estar dizendo é que a EBC tem que cumprir o seu papel, ou não terá razão alguma para existir. " NÃO! O que a Folha quiz dizer é o que relmente disse. Para o Otavinho, TV pública só a que for dirigida por e pra Serra. Outra qualquer, mesmo sem a sombra de Lula por perto, é pecado mortal.
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 4/8/2009 às 13:47:09
É realmente um desafio colocar no ar uma programação que a um só tempo atraia audiência, inove e melhore a qualidade da programação da TV brasileira. Por outro lado seria exigir demais que o governo propusesse um formato de tv realmente educativa. Isso seria dar um tiro no pé, pois à medida que o brasileiro se educar e conscientizar muita coisa no "ser político e administrador público" teria que mudar, mas isso . . .
Angelo Azevedo Queiroz , Brasília-DF - funcionários público
Enviado em 4/8/2009 às 12:10:00
Excelente artigo. Acrescento, no entanto, dois fatos que talvez devessem ser examinados: Primeiro, o padrão da televisão comercial brasileira não é muito diferente do que se vê mundo no mundo. O BB, por exemplo, citado como referência de atraso, é uma franquia de uma produtora holandesa e foi exibido mundo afora com grande audiência . Por esse critério, a audiência , a TV não está atrasada, mas antenada com o que se faz por aí. Se o critério da audiência é relevante para uma TV pública como afirmo texto, com mais razão o será para um empresa privada, que tem que gerar sua própria receita. Segundo, em todo mundo, as médias da audiência das TV públicas é muito baixa , com raras exceções. A EBC segue e agrava essa tendência. Isso nos leva à perguntar, a partir do texto, se : faz sentido um veículo de massa que é incapaz de atingir a massa? Ou seja, a TV pública faz sentido? Será que a maioria esmagadora deve pagar para atender as necessidades de “ um nicho – social, cultural ou etário”, localizado na classes A e B e que pode pagar para consumir o que quer?
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