ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 551 - 18/8/2009
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PRAGAS DO OFÍCIO
O jornalismo declaratório

Por Luciano Martins Costa em 21/8/2009

Comentário para o programa radiofônico do OI, 21/8/2009

Os jornais de sexta-feira (21/8) ainda fazem o rescaldo da crise do Senado, que pode deixar sequelas no Partido dos Trabalhadores mas não apresenta sinais de haver abalado a aliança que sustenta as propostas governistas. O costumeiro desfile de declarações segue ocupando o lugar do melhor jornalismo, que sempre se baseia na prática da boa e fiel reportagem.

O problema principal do jornalismo declaratório é que o material oferecido aos leitores resulta sempre de um critério centralizado de escolhas, induzindo-os a acreditar que se trata de um resumo das opiniões dos entrevistados, quando na verdade se trata de composições fortemente influenciadas pelas intenções de quem edita.

Diferentemente de uma entrevista do tipo pergunta e resposta, na qual o entrevistado tem a oportunidade de expor seus pontos de vista e o entrevistador o estimula a aprofundar-se evidenciando suas contradições, nas declarações colhidas a esmo o declarante fala profusamente, sem ser interrompido, e depois o editor faz a seleção do que entende mais adequado.

O problema é que nem sempre o declarante reconhece no que foi publicado a inteireza daquilo que declarou. Mas quase nunca se queixa, pois nenhum deles quer perder seu espaço no noticiário.

Na muda

O material jornalístico por excelência é a reportagem, que consiste na coleta de dados, descrição e narração, sempre procurando explicitar o contexto em que tais fatos ocorrem. As declarações inseridas em reportagens sempre devem se referir aos fatos relatados, o que dá às palavras do declarante um valor informativo maior do que o da sua própria opinião.

É por essa razão que os repórteres são orientados a qualificar cada entrevistado, inclusive, quando conveniente, informando sua profissão e idade, para dar ao leitor uma idéia da credibilidade que pode ter sua declaração.

Se o leitor atento é do tipo que guarda jornais velhos, um exercício interessante de observação consiste em reler manchetes publicadas nas últimas semanas, quando a imprensa cobriu muito intensamente a crise no Senado. O leitor vai notar, por exemplo, que o senador Arthur Virgílio desapareceu do noticiário logo que se configurou a intenção de seus adversários políticos de julgá-lo no Conselho de Ética.

Será que Virgílio, que era o campeão das declarações, simplesmente entrou na muda ou os editores é que decidiram poupá-lo?

O leitor nunca vai saber.

***

Marina entra no jogo

A senadora Marina Silva ganhou subitamente, como possível candidata à Presidência da República, uma exposição que a imprensa nunca lhe proporcionou nos cinco anos em que ocupou o Ministério do Meio Ambiente. Ela é o tema da manchete do Globo na sexta-feira (21). Mas não por conta de um plano de governo ou de uma entrevista na qual eventualmente explica por que considera importante disputar a sucessão do presidente Lula da Silva. Marina é capa do Globo porque declarou – ou teria declarado – que o atual governo é insensível às causas sociais.

Como em todos os casos de jornalismo declaratório, seria arriscado analisar uma frase destacada sem conhecer o contexto em que foi proferida, mas pode-se arquivar o texto na pasta da campanha eleitoral de 2010. Como se sabe, declarações de campanha eleitoral têm valor muito relativo: elas valem apenas no contexto da campanha.

Observe-se, por exemplo, as coleções de frases que os jornais resgatam anos depois que foram ditas, em contextos políticos muito diferentes, para tentar convencer o leitor de que tal ou qual declarante não tem coerência.

Embalada na oportunidade de ocupar espaço na imprensa por conta de sua saída do Partido dos Trabalhadores, Marina Silva trata de aproveitar a oportunidade. Mas deve saber que suas frases serão pinçadas daqui a um tempo e expostas aleatoriamente, ao sabor das intenções dos editores.

Jogo duro

Essa é uma das grandes armadilhas nas relações de personalidades com a imprensa, e muito especialmente no caso dos protagonistas da cena política. Uma frase dita hoje para justificar um rompimento pode ser usada daqui a alguns meses para criticar uma aliança.

Se Marina Silva quer conduzir uma campanha diferente do que temos visto por aqui, precisa começar a selecionar muito bem o que vai dizer na frente de jornalistas ou de interlocutores com acesso à imprensa.

O jogo em que ela está entrando admite caneladas e os árbitros são ao mesmo tempo chefes de torcida organizada.

Comentários (10)
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Luciano Martins Costa , Sao Paulo-SP - Jornalista
Enviado em 24/8/2009 às 00:01:31
Caro Henyo, grato por seu comentario, mas eu so poderia contribuir com alguma campanha se me desvinculasse deste Observatorio. Por mais estimulante que seja a nova situacao que poderia ser criada com a referida candidatura, pela possibilidade de ver incluida no debate eleitoral a questao da sustentabilidade, eu estaria jogando no lixo o "capital simbolico" que porventura possuisse. Como cidadao, qualquer um de nos pode colaborar em campanhas, exercendo seu direito de escolha, mas no meu caso isso exigiria desvinvular-me do OI. A candidatura de Marina Silva nao existe ainda, ninguem sabe qual seria seu plano de governo, e nem mesmo ela deve ter ideia do que pode vir a significar seu ingresso na disputa de 2010. Um abraco.
Henyo Barretto , Brasília-DF - Antropólogo
Enviado em 23/8/2009 às 18:05:06
O Globo já publicou o desmentido, que saiu em edição posterior - numa nota de rodapé de página e sem o destaque da manchete anterior. Se ela "precisa começar a selecionar muito bem o que vai dizer na frente de jornalistas ou de interlocutores com acesso à imprensa", com o que concordo seria bom você e o Altino Machado - que repercutiu a sua nota - tomarem a iniciativa de alertá-la. Com o capital simbólico que vcs têm, ela certamente os ouvirá. Contra esses efeitos perversos do poder na/da mídia, precisamos de gente a construir ativamente uma candidatura e uma alternativa consistente, que seja capaz de "conduzir uma campanha [e um governo] diferente do que temos visto por aqui". A candidatura dela não é só puro efeito midiático. Caso contrário, vamos ficar por aqui chorando o fato de sermos marionetes da grande imprensa, que determinaria, em última instância, tudo o que ocorre na vida política.
Paulo Pereira , S J Campos-SP - .
Enviado em 23/8/2009 às 16:24:20
Senadora desmente manchete do jornal "O Globo" “A senadora Marina Silva enviou carta a O Globo , nesta sexta-feira (21-08), negando que (sic) ter afirmado que o Governo Lula é insensível a causas sociais , declaração que lhe foi atribuída na manchete do jornal.” http://www.senado.gov.br/web/senador/marinasi/detalha_noticias.asp?codigo=62484
Marcelo Ramos , São Paulo-SP - Publicitario
Enviado em 21/8/2009 às 21:05:57
Ibsen, a Marina vai tentar aproveitar essa ondado PIG que dá espaço a todo mundo que quiser falar mal do governo. Uma ótima análise é a do Altino Machado, no site do PHA. Pessoalmente, creio que se ela for muito apoiada pela Globo, ela vai fazer a curva da montanha russa e cair antes da eleição. Vai subir muito e depois descer muito.
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 21/8/2009 às 16:41:35
Marina nada poderá fazer contra a manipulação das declarações se decidir sair candidata, medir as palavras não resultará em ação de cautela na medida em que a mídia poderá transformar suas falas através da edição dos pensamentos, das frases e circunstâncias. Melhor será ficar muda, melhor ainda se se afastar da política para que sua imagem não sofra os prováveis respingos de uma luta muito pouco ética. Sou daqueles que creem que político honesto nunca conseguiu se eleger. ou se desencantaram logo na primeira legislatura, masi ou menos como ocorreu com Antonio Ermírio de Morais. Com relação ao vídeo recomendado pelos comentaristas, não pude vê-lo em sua totalidade por conta de sua extensão, mas para conferir-lhe credibilidade é necessário saber de sua produção par definir os interesses que lhe subsidiam. Um fato negativo é a participação do Brisola. Foi justamente sob seu governo que ocorreu a consolidação do crime organizado no RJ. Ele também tinha postura autoritária. Com relação à Globo, é óbvio que ela defende os interesses do capitalismo neoliberal, mas ela é fruto desse sistema e não sua fundadora. Ilusão crer que com a vinda da Record, SBT e Bandeirantes esse estado de coisas poderia mudar. Nada disso, todas são frutos desse sistema perverso e farão de tudo para mantê-lo. Se a Globo quebrar ou tiver sua concessão cassada num ato improvável, outra assumirá seu lugar.
Cristiana Castro , Rio de Janeiro-RJ - Advogada
Enviado em 21/8/2009 às 16:20:47
É tanto trambique dessa Globo,que só muita cara de pau, ou muita certeza de ter o judiciário inteiro nas mãos,para ter coragem de apontar alguém. Aliás, cara de pau é o que não falta na terra do pau-Brasil. O que era o nosso telejornalismo, ontem, noticiando a pretensão de Uribe a segunda reeleição? A Naturalidade e a sem cerimônia com que esses caras entram nas nossas casas, dizendo uma coisa na segunda e outra na terça, soa a provocação. A gente merece.
Sérgio de Sá , Petrolina-PE - Cartunista
Enviado em 21/8/2009 às 13:07:37
Isso vai muito além dos noticiários e também das redondezas do Senado. O país está contaminado com essa ditadura mascarada dos editores. Do Oiapoque ao Chuí eles cortam, editam, mascaram e até interferem nas opiniões de jornalistas, colaboradores, cartunistas, fotógrafos e acho que até nas palavras cruzadas e tirinhas. Não sobra nada...
OTAVIO BARROS DA SILVA Barros , PALMAS-TO - Jornalista
Enviado em 21/8/2009 às 11:28:07
Atenção, pessoal, quem quiser saber o que é a TV Globo, seria interessante assistir ao documentário "Muito Além do Cidadão Kane", no endereço http://video.google.com/videoplay?docid=-570340003958234038
Dante Caleffi , Rio de Janeiro-RJ - Publicitário
Enviado em 21/8/2009 às 10:57:35
Edita-se qualquer declaração.Até as oficiais. Manipulam a opinião pública grotescamente,basta ler o que escrevem leitoresde O GLOBO, repetem o que lêem do próprio ..E´a retroalimentação desinformativa. De novo, mesmo,só o conflito GLOBO X RECORD,que começa esquentar,com a aquisição do filmete proibido desde 1993,no território nacional,sobre a vida ,obra ,poder e influencia de Roberto Marinho e a Globo."Além do Cidadão Kane",deve bater picos de audiência na TV . "STF e GLOBO,tudo a ver",um slogan a caminho...
Jaime Collier Coeli , Itanhaem-SP - Aposentado
Enviado em 21/8/2009 às 09:44:28
De fto, declara-se o que se deseja e o que não se deseja. Mas gostaria de um esclarecimento. A frase "O senhor sabe onde fica Sapopemba" deve ser considerada um manifesto politico ou um exercício de semiotica?
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