ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 552 - 25/8/2009
  Tv em Questão
Início > Índice Geral > Tv em Questão + A | - A
 
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]

SBT
De ídolos a ridículos

Por Erick da Silva Cerqueira em 25/8/2009

O programa Ídolos, do SBT, desperta o lado sádico escondido em cada um de nós. Ver os três ilustres jurados arrasando a auto-estima de milhares de medíocres aspirantes a artistas consegue arrancar de cada espectador o sorriso mais cruel que se poderia dar ante a desgraça do outro. É como uma vídeo-cassetada sem quedas. Os ácidos jurados falam com uma sinceridade assustadora, humilhando os "corajosos" candidatos que, mesmo sem nenhum talento, buscam os seus quinze segundos de fama.

Porém nessa última semana um fato chamou-me a atenção. Um cearense conseguiu expor a mediocridade do pagode baiano para o cenário nacional. Com os grandes hits da "Música Prapular Baiana" e as suas respectivas "coreografias", o candidato Ticiano Caetano foi o alvo do assédio moral dos jurados, dessa vez, para o meu deleite e vergonha. Nada contra o candidato, mas sim, contra a falta de qualidade das músicas executadas incessantemente nas rádios da Boa Terra. Cantando e dançando os sucessos (sic) "Toma maderada"(banda Kortesia) e "Tchuco gostoso" (banda É Xeke), a apresentação, obviamente reprovada, ganhou destaque no portal TerraTV. A "dancinha", como foi denominada pelo portal é o grande sucesso das bandas de pagode no estado.

A situação se agrava a cada instante, mas como a indústria do entretenimento vai indo muito bem no mercado local, esses expoentes da MPB2 acabam se firmando e, o que é pior, proliferam de forma absurda. A falta de qualidade musical, em termos de letra, parece ser compensada pela qualidade técnica dos equipamentos de som. O insuportável volume alcançado pelos rádios dos carros de adultos e adolescentes pelas ruas de Salvador dá sempre destaque a essas composições de fácil assimilação, com duas ou três estrofes e 50 repetições de um refrão qualquer, que normalmente é homônimo ao nome da obra. É comum ver pelas ruas salvadorenses grupos de jovens ouvindo os hits difundidos no programa Ídolos, sendo executados por celulares e dançados exatamente igual ao candidato do SBT. Ou seja, o ridículo papel do cearense é uma prática comum na Bahia.

"Passinhos", "tchucos" e "nhecos"

A indústria da música baiana, apoiada por grandes ícones, como Caetano Veloso, é uma das principais clientes de publicidade do estado, perdendo apenas para os governos em todas as instâncias e as grandes lojas de varejo.

Para se ter uma idéia, neste exato momento existe um outdoor em uma das áreas nobres de Salvador com a foto de um artista rasgando a camisa e exibindo os seus músculos, no melhor estilo incrível Hulk, ao lado do texto: Nheco-Nheco, o novo sucesso da banda x. Avaliando a peça de forma técnica, notamos que a música é o que menos importa. A foto do cantor tem o intuito de despertar qualquer outra necessidade ou desejo diferente do prazer de ouvir uma boa música. A peça publicitária é muito mais centrada na auto-promoção do artista, que inclusive já posou para a revista G Magazine, do que realmente em divulgar o texto principal do outdoor. Porém, mesmo sem ouvir a obra Nheco-Nheco, podemos deduzir duas coisas: irá surgir uma nova "dancinha" igual à do aspirante a ídolo cearense e, obviamente, ouviremos uma incessante repetição do refrão, previsivelmente "nheco-nheco".

Enfim, nada de novo. A triste constatação é: a Bahia que encantou o Brasil e o mundo com as letras e melodias de João Gilberto, Caetano, Gal, Bethania, Caimmy e tantos outras, hoje vive a triste realidade de ver sua poesia dispersada por "passinhos", "tchucos" e "nhecos".

O vírus da "dancinha"

Pior mesmo é ver estampado em diversos sites de vídeos pela internet essa "nova ordem" da música baiana, através da ridicularização do pobre Ticiano, em âmbito nacional, no SBT.

Como nordestino e baiano, sinto-me constrangido em ver tanta mediocridade na música do meu estado, além de ficar extremamente preocupado, já que o vírus da ruindade musical começou a romper as fronteiras do cenário local e ganhou destaque na mídia televisiva e principalmente, na internet. Agora é viral, um vídeo viral, assim como os famosos "tapa na pantera" e o "bêbado Jeremias", que projetaram para todo o Brasil a atriz Maria Alice Vergueiro e o programa Sem Meias Notícias, respectivamente. Não bastasse a gripe suína, essa outra pandemia pode tomar conta do mundo. O vírus da "dancinha da Bahia".

Comentários (9)
Comentar
Compartilhe
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas – e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.
         
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
claudio metaleiro , salvador-BA - impressor
Enviado em 14/10/2009 às 17:25:02
ola acho que o mundo estar acabando e a as pessoas estão ficando loucas é muita gente querendo ser artista na musica baiana é assim todo mundo é artista veja um delis http://www.youtube.com/watch?v=W_7AnZnz9UM
Ana Paula  Ruivous , Sao Paulo-SP - jornalista
Enviado em 15/9/2009 às 21:20:05
Que fascista! Assumir que só o que você acha que é certo é o que vale é fascismo. Também não gosto dessas músicas, mas acho que tem espaço pra todos e que, no fim, o povo escolhe o que faz sucesso. Se não quer ver babaquices, vai assistir a TV Educativa.
Nanase Oki , Natal-RN - Filósofo
Enviado em 1/9/2009 às 13:03:34
Esse tipo de "música" - e bota aspas nisso - só reflete a degradação moral e educacional da nossa gente. E para piorar não vai faltar pseudo-intelectual chamando esse lixo de "cultura". O sujeito que não se educa consome lixo; e os poucos que - teoricamente - se educam tentam referendar o consumo do lixo. Brasil país do futuro? Só se for uma idiocracia.
Euclides Bitelo , Canoas-RS - jornalista
Enviado em 27/8/2009 às 11:33:51
Eu vou mais longe, não fico apenas nas letras. As músicas mesmo são ruins, calcadas em alguns poucos clichês melódicos que são constrangedores. Mas da maneira que a educação no Brasil é conduzida, oferecer algo um pouco melhor (veja bem, um pouco) seria jogar pérola aos porcos (aqui também me aproveitando de um clichê... hehehe). Enquanto a realidade foi péssima, temos toda a razão para sermos pessimistas.
Nelio  Lage , São José da Barra-MG - Servidor público
Enviado em 26/8/2009 às 15:30:15
O que está acontecendo com a música (música?) no Brasil é algo que eu não consigo entender e nem ouvir. As letras, se é que se pode falar que estas músicas tem letras, são tão ruins que não expressam nada. E ainda querem falar que isto é cultura. O mesmo está acontecendo com a música que chamam de sertaneja: só querem vender discos e ganhar dinheiro com estas letras ridículas.
Eriana Correia , Salvador-BA - Secretária Executiva
Enviado em 26/8/2009 às 15:20:32
Sr. Erick, talvez a sua explanação não venha a ser plenamente compreendida por alguns, mas sei como se senti vendo um nordestino sendo assediado moralmente. Não é novidade que os nordestinos são vítimas constante de descaso ou mesmo piadas principalmente se forem baianos. Pode parecer para as pessoas que não residem aqui, que tem preconceito em relação à música baiana (pagode), mas como BAHIANA, também fico abismada ao ver alguém dizer "se não tem dom para nada, pode ser cantor de pagode", pois com letras vulgares e muitas vezes obscenas ou mesmo sem nenhuma letra, o pagode é divulgado e infelizmente contado por todas as idades. Sinto na pele a vergonha dos pagodes apresentados ultimamente ao nosso público. E tenha certeza, seu texto retrata o pensamento de muitos nordestinos e principalmente baianos que gostam de cultura!
Daniel Brandão , Brasília-DF - Estudante de Publicidade
Enviado em 25/8/2009 às 20:54:32
Sim, o nome do programa é Sem Meias Palavras ( digitei errado, saiu “mais”), quem disse ser Sem Meias Notícias foi o Sr, em seu texto, vide o último parágrafo. [...] A cena musical de seu estado está ridícula sob sua perspectiva (e de muitas outras pessoas, convenhamos) e por isso é correto afirmar não ser uma demonstração cultural, não ser cultura? Em alguns países da Ásia as pessoas tomam sopa de rato, e o fato de algumas pessoas destes países considerarem um prato nojento, estranho, não faz com que ele deixe de fazer parte da cultura daquele povo. O Axé e o pagode de Salvador fazem parte de um conjunto de manifestações artísticas musicais, característico de sua região. É cultura sim senhor e não existe cultura, DE FATO, ridícula. E eu preciso sim ler muito sobre cultura como o senhor insinuou, não só sobre cultura, mas sobre muitos outros assuntos, pois sou um jovem estudante ainda em formação, tenho muito o que aprender.
Erick Cerqueira , Salvador-BA - Analista de Mercado
Enviado em 25/8/2009 às 18:07:15
Caro Daniel. Agradeço quanto a correção da nova emissora da TV. Realmente agora o ídolos é da Record. Quanto ao programa que revelou o bêbado, vc está errado. É Sem Meias Palavras,mesmo (confira no http://pt.wikipedia.org/wiki/Sem_Meias_Palavras). Em relação à leitura sobre cultura, informo que trabalho com ela desde 1999, quando passei a ser Diretor de Marketing de uma Fundação Cultural na Bahia. Não se justifica "letras ridículas" e "padronização da mediocridade" como cultura, tanto assim que a maioria dos projetos culturais baianos, aprovados pela Secretaria do Governo do Estado, não contemplam o lixo comercial rimado e musicado das bandas locais. Talvez a leitura sobre cultura, esteja faltando realmente, mas não da minha parte. Não tenho preconceitos sobre o assunto, tenho conceito formado. Mas, ainda assim, obrigado pelo comentário. Pelo menos, houve leitura.
Daniel Brandão , Brasília-DF - Estudante de Publicidade
Enviado em 25/8/2009 às 15:06:42
Algumas correções: O Ídolos está sendo, pela segunda vez, transmitido pela rede Record, não pelo SBT como citado no texto. O programa que "projetou" o "bêbado Jeremias" chama-se "Sem Mais Palavras" e não "Sem Meias Notícias". Com relação ao fato de você se sentir constrangido com a cena musical de seu estado e, ainda, ridicularizá-la mais do que o candidado a ídolo em questão, talvez um pouco mais de leitura sobre cultura e menos preconceito te ajude.
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Erick da Silva Cerqueira

Outros artigos desta Seção
TV & SOCIEDADE
O lado escuro da
eletrificação rural

Alberto Ruschel
25/8/2009
TV À MANIVELA
O pastor de ovelhas
Celso Fernandes
25/8/2009
PÂNICO NA TV!
Com a palavra, o artista!
Fernando Schweitzer,
de Buenos Aires
25/8/2009
SBT
De ídolos a ridículos
Erick da Silva Cerqueira
25/8/2009

Últimos 5 artigos de
Erick da Silva Cerqueira
COBERTURA DA COPA
Meio de manipulação em baixa
6/7/2010
COBERTURA DA COPA
A força dos 140 caracteres
29/6/2010
IMPRENSA ESPORTIVA
Dunga zangado com imprensa infeliz
14/6/2010
ACORDO EM TEERÃ
Sanções ao Irã ou a Lula?
25/5/2010
MÍDIA & ELEIÇÕES
O deslize estatístico do Datafolha
20/4/2010
Mais artigos de
Erick da Silva Cerqueira >>