ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 553 - 1/9/2009
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CAIU NO YOUTUBE
Sensualidade vulgar tem 15 minutos de fama

Por Erick da Silva Cerqueira em 1/9/2009

A expressão "celebridade instantânea" é algo cada vez mais presente no moderno mundo da comunicação. Pessoas passam do mais absoluto anonimato para o estrelato em questão de segundos. Esse fenômeno vem confirmar a célebre frase do cineasta e artista plástico Andy Warhol: "In the future everyone will be famous for fifteen minutes" (no futuro, todos serão famosos por quinze minutos). Porém, o autor da frase não tinha noção da real amplitude e peso que a sua sentença iria ganhar no seu post-mortem, com o avanço das tecnologias digitais e da internet.

Semana passada, o Brasil ficou chocado com as imagens de uma professora de ensino fundamental dançando de forma, digamos, "sensual demais". A pedagoga, pós-graduada, aparece dançando junto ao cantor de uma banda de pagode que levanta o seu vestido e puxa a calcinha da educadora para cima, numa coreografia (se é que isso pode se chamar de coreografia) para fazer jus ao nome da música em questão: "Todo enfiado".

Infelizmente para a "pró", sua performance foi filmada por dezenas de aparelhos celulares e, posteriormente, publicada no maior site de hospedagem de vídeos do mundo, o YouTube. Com isso, a escola onde ela lecionava a demitiu. O vídeo ultrapassou os 100 mil acessos e, após a divulgação por parte da grande mídia, proliferou por toda a internet. O mais curioso é que o caso mudou o seu foco a partir da intervenção da imprensa. A mídia, em geral, tratou o caso de duas maneiras. Em primeiro lugar focou a demissão da professora, suas consequências e se era justo ou injusto o ato em si. Isso fica claro no lead da matéria publicada por Glauco Araújo no Portal G1 (SP): "Professora da Bahia é demitida após vídeo sensual cair na web, diz advogado. Instituição de ensino, em Salvador, informou que medida foi consensual."

O segundo enfoque abordado foram os comentários a respeito da postura ética necessária dentro e fora do âmbito profissional. Dezenas de blogs e sites de grandes jornais fizeram comentário acerca desse tema, condenando ou absolvendo a professora-dançarina.

Quem não viu uma "dancinha" provocante?

Porém, outras abordagens poderiam ser feitas e acabaram passando despercebidas. Onde estão os movimentos feministas que não reagem e não ensinam às mulheres que os excessos nas horas de diversão de hoje podem ser filmados, divulgados e usados contra elas mesmas nos Tribunais da Santa Inquisição da internet?

A professora é muito mais vítima que ré nessa execração pública nacional. Sua demissão é apenas um dos problemas que irá enfrentar de agora em diante. A sua imagem estará sempre vinculada às imagens produzidas pelos celulares e câmeras digitais e difundidas pela internet. Seu erro foi não medir as consequências de um dos maiores problemas da nossa sociedade contemporânea: a proliferação do erotismo nas músicas.

Assim como a pedagoga, milhares de jovens e adultas na Bahia estão dançando livremente e fazendo as mesmas performances na Boa Terra. No próprio vídeo difundido, outras duas jovens fazem o mesmo – e coisas até mais explícitas que ela. A diferença ficou por parte da sua profissão de educadora. Porém, que atire a primeira pedra (nela) o baiano que nunca viu nenhuma outra "dancinha" provocante e até certo ponto, sexual, como aquela, sendo executada por mulheres de todos os níveis sociais. Quantas professoras estão horrorizadas no momento, por saber que fazem, ou já fizeram, alguma coreografia tão ou mais vulgar que aquela?

Erotismo imprescindível

O pagode baiano, apesar da falta de qualidade melódica e da vulgaridade de muitas das suas letras, não é o único expoente da vulgaridade no cenário musical. O funk carioca, o forró-elétrico-nordestino e muitos outros gêneros musicais espalhados pelo Brasil apresentam coreografias tão "provocantes" quanto aquelas exibidas mais de 100 mil vezes no YouTube. Professoras, delegadas, juízas, policiais, jornalistas (diplomadas ou não), cozinheiras, secretárias e todas as profissões onde as mulheres estão inseridas possuem suas representantes pagodeiras, funkeiras etc. O fato triste é a percepção de rebaixar a mulher a um mero objeto sexual, sendo usada de forma cada vez mais indigna para animar as platéias nos shows espalhados pelas periferias e zonas nobres da cidade, sem discriminação, Brasil afora.

O problema não é da banda de pagode, cujo nome não foi citado para não promovê-la ainda mais. Vai muito mais além. A educação, tema certo de tantos palanques no ano que vem, está sendo deixada de lado em detrimento do mercado fonográfico.

A fábrica de bandas de pagode, que agradam em cheio aos jovens e adultos da capital baiana, ganha o mercado com letras cada vez mais eróticas e coreografias tanto quanto. Refrões como "toma-lhe fica", "tapa na rachada", "rala a tcheca no chão", "toma madeirada", "esfrega a xana no asfalto", "tudo até o talo", dentre outras da atual "poesia" do pagode baiano, são executadas, dançadas e cantadas em alto e bom som em todos os cantos da cidade do Salvador. Quanto mais fácil e sexual for o teor do refrão do "pagodão", mais será cantado pelas ruas, vias e pelo mangue baiano. O erotismo na música é algo quase imprescindível para o sucesso da mesma.

Recebida como "celebridade"

A pobre professora sofreu ao mesmo de três grandes problemas. Em primeiro lugar, sofreu por ter tido a péssima idéia de se expor em cima de um palco. Depois sofreu pela exposição e proliferação do seu vídeo na grande rede. E principalmente, perdeu o emprego para a hipocrisia de milhares de pessoas que condenaram o seu ato, mas que produzem (ou reproduzem) dancinhas ainda mais eróticas que as dela. Muitas das pessoas que a condenaram, incentivam filhos e sobrinhos, a partir dos 3 ou 4 anos, a dançarem as novidades do cenário musical do "pagodão" baiano e acham "bonitinho" ver surgir a nova geração de pagodeiros.

No jogo entre Bahia e São Caetano, disputado no dia 29/08, a professora foi recebida com o termo de "celebridade" e concedeu entrevista a uma rádio local, dizendo ter sido orientada pelo seu advogado (que estava ao seu lado no estádio) a ir assistir ao jogo do seu time, o tricolor baiano, sem nenhuma preocupação. Na entrevista teve de ouvir a seguinte pergunta: "Você veio ver o Bahia mandar o São Caetano `Todo Enfiado´ para São Paulo?" E ela respondeu, sorrindo, que sim. Enfim, não importa se por bem ou por mal, "in the future everyone will be famous for fifteen minutes". O futuro já começou, Mr. Warhol.

Comentários (5)
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Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 4/9/2009 às 19:08:29
Bem, Emerson, infelizmente você deu mais ênfase ao "da Bahia para cima", que tem apenas finalidade espacial, do que ao "especialmente". Talves se eu tivesse dito "do Sergipe para cima" você tivesse prestado atenção no singelo "especialmente , que em nenhum momento restringe: apenas procura mensurar geograficamente uma característica que é facilmente observável até - mas não apenas - por aquilo que você mesmo identifica como fenômeno social. Quando se diz "especialmente", em nenhum momento se está dizendo que é só a partir da Bahia que algo desta natureza ocorre. Se eu não pensasse assim, teria referido "péssima inclinação cultural do nordestino" (ou "do baiano") e teria encerrado o assunto. Mas, tendo residido em tantos lugares, sei que coisas assim ocorrem de norte a sul do país, até nas melhores famílias. Conheço muito doutor - em Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo e Rio, por exemplo - cujas filhas criadas nos melhores clubes e educadas nos melhores colégios hoje fazem miséria em bailes... funks. O mau gosto, portanto, não é apenas um fenômeno social. A crise, repito, é cultural. O saudoso Itamar Assumpção já anunciava no clássico Pretobrás: "porcaria na cultura tanto bate até que fura". Inclusive dança da tanajura. http://www.mpbnet.com.br/canto.brasileiro/itamar.assumpcao/letras/cultura_lira_paulistana.htm O resto é papo para sociólogos e antropólogos.
EMERSON LEANDRO SILVA , CAMAÇARI-BA - BAIANO, ESTUDANTE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E COMUNICAÇÃO SOCIAL
Enviado em 3/9/2009 às 21:24:15
Me parece que tanto Marcelo Idiarte quanto Daise Moraes, com seuscomentários, não entenderam a idéia de hipocrisia, trazida por Erick em seu texto. Embora não seja uma pratica comum a todos. É preciso no mínimo entender cada movimento espontâneo de determinada faixa social, (EM TODAS AS REGIÕES DO BRASIL) e as diversas nuances que ajudaram a construí-los. Caracterizar toda uma região como algo do tipo “péssima inclinação cultural do brasileiro, ESPECIALMENTE DA BAHIA PARA CIMA é no mínimo confortável e superficial. O fato de se residir em vários estados da federação não garante, nem indica credibilidade às nossas afirmações sobre uma analise de um fenômeno social. Quanto a Daise Moraes em “a Bahia tem essa vocação musical lasciva há muito tempo, e o pior é que o povo ADORA essa baixaria, infelizmente.” É novamente inercial intelectual. Sejamos mais profundos, e menos preconceituosos... Por favor!
Jordania  Freitas , Salvador -BA - estudante
Enviado em 3/9/2009 às 13:58:55
É realmente triste saber que, muitas crianças(meninas) bainas são incentivadas por todos a reproduzir tipos de coreografias que as colocam na posição de objeto sexual. Se não houvesse este estímulo, talvez a imagem da mulher, sobretudo baiana não estaria tão depreciada como se encontra atualmente. E boa parte da culpa pela existência desta triste realidade é a existência de "músicos" tão pobres musical e intelectualmente, que propagam suas melodias e refrões desprovidos de bom senso.
Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 2/9/2009 às 15:59:04
De um lado a péssima inclinação cultural do brasileiro, especialmente da Bahia para cima (já morei em Natal), que fomenta uma indústria que vende qualquer coisa como música e concede status de celebridade à mediocridade; no meio o desconforto de saber que a professora de um filho seu - menor de idade - levanta a saia e mostra a bunda para centenas de pessoas em cima de um palco, fazendo uma performance erótica em público; do outro lado, na outra ponta da história, a certeza de que se ela fizesse coisa "muito pior" (as aspas são propositais) ao abrigo de quatro paredes a celeuma não estaria instalada. Temos uma inclinação indelével para o puritanismo, herança da presença cristã no continente americano, de modo que só aceitamos as sacanagens às escondidas, de preferência nos motéis - que vivem lotados a qualquer hora do dia ou da noite, do Caburaí ao Chuí. De modo que infelizmente a imprensa e a opinião pública se concentram no que a tal professora mostrou, quando em verdade deveriam debater a mecânica que faz melodias repetitivas e letras pobres virarem música, arrastando multidões não apenas de iletrados banguelas a "shows", mas também diplomados de toda ordem com sorrisos esculpidos nos melhores consultórios odontológicos do país. A crise, nesse caso, não é comportamental: é cultural. A imprensa é conivente com o baixo nível cultural, depois achincalha os seus desdobramentos.
DAISE MORAES , SÃO PAULO-SP - JORNALISTA
Enviado em 2/9/2009 às 13:29:33
Engraçado... não são só as bandas de pagodão da Bahia que apelam feio pra fazer sucesso. Ivete Sangalo fez Bono Vox, imagine!, cantar em bom português há uns 2 carnavais: "Eu quero enfiar a língua no céu da sua boca... chupa toda, chupa todaaaa...". Ora, a Bahia tem essa vocação musical lasciva há muito tempo, e o pior é que o povo ADORA essa baixaria, infelizmente.
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