ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 554 - 9/2/2010
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SENSACIONALISMO
A imprensa diz, desdiz e vira urubu

Por Igor Leonardo em 8/9/2009

Há alguns dias, milhões de brasileiros ficaram perplexos com as imagens da professora baiana dançando "Todo Enfiado". Após a postagem do vídeo no site YouTube, uma emissora de televisão de Salvador divulgou maciçamente este "primoroso feito", o que fez o fato repercutir no âmbito nacional, tomando um enorme tempo de um programa de TV transmitido para todo o Brasil da mesma emissora a que a TV baiana é afiliada.

Passada a grande repercussão, vários outros fatos e especulações: a professora perdeu o emprego; a banda "O Troco", detentora da música, ganhou fama e a protagonista da história está tentando tirar proveito de tudo isso. Seja seguindo carreira de dançarina sensual – e isso ela faz muito bem –, seja posando para uma revista masculina do jeito que veio ao mundo, como ela mesma admite já ter recebido o convite.

Com toda essa história, as especulações em torno da real cultura baiana começou a (re)surgir na imprensa nacional. Algumas pessoas, inclusive, resumiram a cultura baiana a esses tipos de eventos em que a mulher é vista de maneira promíscua e sem conteúdo.

Palavras nãovoltam atrás

Mas o que dizer de Jorge Amado, com seus romances admirados em várias partes do mundo? O que dizer de Raul Seixas, com a sua "Sociedade Alternativa"? O que dizer de Castro Alves? O que dizer de tantos nomes memoráveis da cultura que aqui viveram e ainda vivem? O que dizer da importância da Bahia para a história do Brasil? O que dizer do samba de roda e de tantas manifestações culturais carinhosamente preservadas pelo povo baiano?

Agora, não adianta a mesma emissora de TV que começou tudo isso, que "colocou lenha na fogueira", tentar "apagar o fogo com assopro", o que é quase impossível. Foi essa a impressão que ficou após um apresentador, radialista e comentarista defender, no jornal local soteropolitano, com unhas e dentes, a mulher baiana e a cultura que permeia esse estado. Por que, ao produzir esses tipos de reportagens, não se pensa nas questões éticas do jornalismo e no direito à privacidade do indivíduo, à preservação da imagem que a Constituição brasileira assegura?

O que fica, pelo menos para quem costuma pensar nestas coisas, é a impressão de que a imprensa faz e desfaz, mas que, antes de fazer, pensa primeiramente na audiência e no sensacionalismo dos fatos. Já passou da hora de fazer a diferença! De nada vale sensacionalizar o fato e tentar mostrar que a real intenção não foi esta. O que disse, já foi dito. Palavras não voltam atrás.

Digerindo "carniça"

Atitudes deste tipo fazem com que a credibilidade da imprensa regional diminua cada vez mais, fortalecendo, inclusive, de permeio o discurso dos que são contra a obrigatoriedade do diploma para jornalistas. Tantos problemas rondando a cidade, mas os veículos (nem todos) insistem em praticar o sensacionalismo e fazer dele o seu principal norteador. Fatos irrisórios como este, veiculados na grande imprensa, apenas reforçam o desgaste dos profissionais que trabalham para fazer um jornalismo sério e de qualidade. É preciso, acima de tudo, repensar o real papel da imprensa na sociedade.

Quanto à professora, cabe agora tirar proveito da situação e se esforçar para mostrar a verdadeira identidade da mulher e da cultura baiana. Já a imprensa... Ah, imprensa! Se continuar digerindo estas "carniças", pode amanhecer, um dia, na mente das pessoas, confundida com um urubu.

Comentários (2)
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Roquelina Itaia , Salvador-BA - Pedagoga
Enviado em 10/9/2009 às 12:32:47
Parabéns, Igor! Belíssimo artigo. No Estado da Bahia existem outros fatos e a mídia local (nem todas) não oportuna tal destaque (como o fato de estudantes, serem regentes nas salas de aulas das escolas públicas, das escolas terem de suspender as aulas por falta de professores...). Tem gente que sabe separar o joio do trigo! Não somos burros! Quanto à atitude da colega, prefiro não discorrer nenhuma opinião.
Jedeão Carneiro , Aracaju-SE - Arquiteto
Enviado em 8/9/2009 às 12:44:02
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