ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 554 - 8/9/2009
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JN, 40 ANOS
Cada um conta o que quer contar

Por Diogo Moyses em 11/9/2009

Reproduzido do Terra Magazine, 9/9/2009

Muitos leitores devem ter notado que a TV Globo passou as duas últimas semanas celebrando o aniversário de 40 anos do Jornal Nacional. Desde a sua criação, o telejornal global é, de longe, a principal fonte de informação de milhões de brasileiros.

William Bonner e Fátima Bernardes fizeram questão de nos lembrar das tantas glórias conquistadas pelo JN e pelo jornalismo da emissora. Matérias intermináveis – intermináveis mesmo, de quase 15 minutos – exaltaram os feitos do telejornal. Os mais antigos repórteres (os que certamente melhor cumprem ordens do patrão) foram chamados à bancada e, ao vivo, recordaram as coberturas dos fatos que marcaram a história recente do país.

Telespectadores desavisados, desconhecedores de episódios importantes da vida nacional, talvez até tenham ficado com lágrimas nos olhos.

É fato incontestável que o Jornal Nacional consolidou-se desde a década de 1970 (estreou em 1969) como símbolo do poder das Organizações Globo. Com uma estrutura quatro, cinco ou seis vezes maior do que os telejornais de suas concorrentes, ainda hoje bota medo na maioria dos políticos, que temem ser alvos de abordagens, digamos, pouco simpáticas. Quando as menções são positivas, aí é só festa. Dá até para pensar em vôos mais altos. Símbolo maior desse poder é o fato de seu lobista-chefe ser chamado de "senador" nos corredores do Congresso Nacional. Sem nunca ter sido candidato nem eleito para cargo algum, desfruta de poderes que nenhum parlamentar possui.

Linha de frente

O JN tem todo o direito de comemorar o que bem entender. Aliás, a Globo é perita em se autopromover. Já fez isso em diversas ocasiões e continua a fazer com competência, posando de defensora da cultura nacional e da liberdade de expressão, além da já manjada face "solidária" que os Crianças Esperanças da vida buscam construir.

O perigo iminente disso tudo é que, em um país pouco conhecedor da biografia de seus meios de comunicação, corre-se o risco de reescrever a história. O temor não se faz em vão: como historiadores cansam de afirmar, a memória coletiva muitas vezes é fruto do legado dos mais fortes.

Mas voltemos ao nosso tema. Como era previsível, o JN tratou de lembrar das tantas ocasiões nas quais noticiou fatos da vida política, econômica, cultural e esportiva do país. Esqueceu-se, no entanto – e ao acaso isso não pode ser creditado –, de recordar os momentos em que o telejornal global foi ele mesmo sujeito da história.

Ficou de fora da retrospectiva, por exemplo, que o surgimento e fortalecimento da TV Globo deu-se a partir de um acordo ilegal com o grupo estrangeiro Time-Life, que foi inclusive objeto de CPI no Congresso Nacional.

Esqueceram de dizer que a emissora foi criada e se fortaleceu com o apoio decisivo dos sucessivos governos militares. E que seu jornalismo, em especial o JN, ignorou solenemente as torturas, os desaparecimentos e as mortes dos que lutavam contra a ditadura, como se não tivessem acontecido.

O resgate histórico deixou de lado a tentativa de ignorar o movimento pelas eleições diretas nos primeiros anos da década de 1980, assim como a participação da emissora na tentativa mal sucedida de fraude nas eleições para o governo do Rio de Janeiro, com o objetivo de evitar a posse de Leonel Brizola.

A memória seletiva igualmente deu conta de apagar a participação decisiva do JN na eleição de Fernando Collor em 1989, quando a emissora editou de forma canalha o último debate entre Collor e Lula, além de utilizar contra o candidato petista as acusações lunáticas de sua ex-mulher e o seqüestro do empresário Abílio Diniz.

Nos anos seguintes, de forma nem um pouco sutil, foi linha de frente na consolidação da idéia – hoje comprovadamente furada – de que o neoliberalismo e a privatização de empresas estatais eram o único caminho a seguir, impulsionando a eleição e reeleição de FHC à Presidência.

Tapete vermelho

Há ainda uma série infindável de episódios mais recentes que poderiam ser acrescentados à lista, como a cobertura favorável ao tucano Alckmin nas últimas eleições presidenciais. Ao contrário de outras tentativas, a tática não deu certo, graças à multiplicação das fontes de informação e, quem sabe, ao aumento da consciência política das classes menos favorecidas.

Fato é que, ao longo de toda a sua história, a Globo consolidou-se como os olhos e ouvidos da atrasada elite brasileira, cerrando fileiras contra movimentos sociais e quaisquer políticas distributivas. Em Brasília, seu "senador" é sempre recebido com afagos. Tapetes vermelhos se estendem aos seus pés. E assim, políticas que visam democratizar as comunicações do país são enterradas antes mesmo de nascerem.

É normal, compreensível até, que o JN tente recontar a sua própria história. O que não pode acontecer é que a história não contada por ele seja esquecida por nós.

Comentários (7)
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Hermes Melo Oliveira , Barra Mansa-RJ - aposentado
Enviado em 15/9/2009 às 09:37:40
lá do inferno onde com certeza vive, goebels deve adorar assisti ao jornal nacional.
Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 14/9/2009 às 11:06:10
Claro: Evandro Guimarães, o "VP institucional" que além de testa-de-ferro da Globo também anda representando os interesses do patronato através da ABERT... Eu devia ter imaginado que Ali Kamel não se daria a esse luxo: afinal de contas ele só responde pelo "jornalismo" global - e hoje em dia o que menos tem lá para os lados do Jardim Botânico é jornalismo.
Cristiana Castro , Rio de Janeiro-RJ - Advogada
Enviado em 14/9/2009 às 10:16:48
O " Senador" é Evandro Guimarães. Eu nem quero imanginar o tipo negócio desse agente no Congresso. Nessas horas dá pra ter pena dos políticos. A Globo é, sem dúvida, a "coisa" mais ilegal e ilegítima que ( não) se tem notícia nessa terra. Por outro lado, as outras emissoras são de um patetismo revoltante; se a rede em 10 minutos, com esse bando de " Zé" que a gente é tá estragando a brincadeira dos caras, qual a explicação para esse " poder" todo, já que as outras tb contam com profissionais qualificados e acesso a uma boa parte da população? Gente vamos combinar que a Globo tb não é nada de muito genial, se ali tivesse alguma coisa séria,seus funcionários não estariam com o acesso a rede limitado. Aliás, esse tema deveria ser debatido aqui no OI, pq o Ditador é o Chavez mas quem anda cassando direitos individuais é a Globo. Tb, a propósito, agora, com relação a censura, li aqui na rede, que qdo a Carolina Dieckman da Globo passa, o pessoal do Pânico tem que desligar as câmeras por ordem judicial, é isso mesmo? Se isso for verdade, não vou entender o estardalhaço da mídia inteira por conta do filho do Sarney. Vou aguardar, daqui a pouco aparece um que sabe a estória toda.
Eduardo Faria , Belo Horizonte-MG - Autônomo
Enviado em 11/9/2009 às 23:10:05
O povo não é bobo...abaixo a Rede Globo.
Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 11/9/2009 às 21:40:59
Presumo que o "senador" seja Ali Kamel.
Rogério Ferraz Alencar , Fortaleza-CE - ATRFB
Enviado em 11/9/2009 às 15:43:55
Quem é o "senador" da Globo?///É bom não deixar de citar: na ânsia de ajudar Alckmin, o Jornal Nacional ignorou uma batida entre aviões, que resultou na morte de 164 pessoas.
Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 11/9/2009 às 12:30:56
Outro dia um dos cérberos da Globo, pau-mandado do Ali Kamel, encheu-se de razões que a própria razão desconhece e veio dar as caras no OI, para defender a sua fonte de proventos. Argumentava ele que a emissora não havia sido parcial e tampouco descomedida na abordagem ao caso da investigação que o Ministério Público faz sobre a Igreja Universal, proprietária da rival Rede Record. Uma coisa a que devemos tirar o chapéu para os profissionais da Globo é que eles realmente aparentam acreditar na lisura e na finalidade social da emissora, coisa que não se sabe se advém de alguma espécie de lobotomia obrigatória prevista em contrato ou de um periclitante curso intensivo junto ao núcleo de teledramaturgia do Projac. Pelo sim, pelo não, o Jornal Nacional é um monumento ao que não se deve fazer em matéria de jornalismo ético e sério. Certos professores de faculdades caça-níqueis espalhadas por esse Brasilzim deveriam utilizar o JN como um paradoxo de tudo o que deve ser evitado em jornalismo (parcialidade, superficialidade, sensacionalismo, omissão, distorção, adulteração, lobbie, conchavo, subserviência etc.), em vez de ficarem estimulando o padrão estético - absolutamente artificial - do jornalismo global em geral. E esses bobocas que entram num curso de Jornalismo aspirando ao cyborg William Bonner deveriam é se espelhar em Heródoto Barbeiro, por exemplo. Jornalismo não é novela.
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