ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 559 - 9/2/2010
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ATAQUE AO ENEM
Amadorismo ou terrorismo?

Por Gabriel Perissé em 13/10/2009

Ainda há o que apurar no caso da fraude do Enem. Surgem ao menos duas hipóteses para explicar o ocorrido. Ou se trata do amadorismo de alguns irresponsáveis que tentaram "ganhar um troco", e se deram mal, ou se trata de terrorismo político.

Na segunda hipótese, o objetivo teria sido pôr em xeque a credibilidade do MEC, questionar e desqualificar os esforços educacionais do governo Lula e atingir a imagem do ministro Fernando Haddad, potencial candidato do PT em futuras eleições.

De fato, as declarações do presidente Lula veiculadas na imprensa indicam algo mais do que mero furto: "Eu sinceramente não posso acreditar que no momento que está vivendo o Brasil, alguém tivesse a intenção de roubar uma prova do Enem e levar para a imprensa, porque antigamente se levava [as provas] para vender aos cursinhos [...]. A gente não pode afirmar a serviço de quem isso aconteceu. Eu não sei quem é que se sente prejudicado pelo Enem" (Correio Braziliense, 10/10).

Comemoração mais ou menos velada

Chama a atenção, por exemplo, a alegria malcontida do governador José Serra, denunciada em charge de Fernando Brum, na revista IstoÉ desta semana (nº 2083), diante dos apuros que Fernando Haddad vem enfrentando há duas semanas.

"A fraude complicou a situação do sistema universitário que confiou no seu funcionamento. Houve uma espécie de apagão." Estas são palavras de Serra divulgadas na mesma edição da IstoÉ em que a fraude aparece como decorrência necessária da proposta do MEC.

O mesmo raciocínio alimenta a opinião do secretário da Educação de São Paulo, Paulo Renato Souza: "A prova passou a ter um valor econômico e social muito importante, aumentando a tentação da fraude" (Estado de S.Paulo, 2/10). E a de Maria Helena Guimarães, ex-diretora do Inep na gestão de Paulo Renato, quando ministro da Educação de FHC: "O risco e a complexidade de aplicar uma prova assim não se devem tanto pelo tamanho e pela quantidade de estudantes inscritos, mas pela natureza dela, que mudou. Isso exige uma dinâmica e uma logística diferentes" (Estado de S.Paulo, 02/10).

Seria a fraude fatalidade que atingiria o MEC mais cedo ou mais tarde? A resposta encontra-se nas entrelinhas das citações anteriores. O problema residiria na mudança de natureza do Enem, e essa mudança é vista com maus olhos por eles, mas isso não o dizem. Como também não se referem ao valor político que o Enem adquiriu e, certamente, aumentou a tentação da fraude...

Paulo Henrique Amorim, constatando esse valor político, conclui que o PSDB de São Paulo conseguiu o que queria: um motivo para boicotar o Enem. Uma forma de marcar território.

Uma quadrilha, ou duas?

O crime cometido é o peculato. Os envolvidos procuraram proveito próprio, abusando da confiança pública que neles se depositou no processo da impressão das provas que iriam influenciar a vida de milhões de estudantes.

Os criminosos estavam cientes da importância do que tinham em suas mãos. Mas causa estranheza o modo como se comportaram depois do furto de que se tornaram, no mínimo, coniventes. Procuraram a mídia para divulgar o seu próprio crime, exigindo dinheiro por esse "serviço"!

Felipe Pradella, o principal criminoso, na entrevista que concedeu a Ana Aranha, na revista Época desta semana (nº 595), argumenta que, ao receber de um certo Felipe Ribeiro o caderno de questões, concluiu rapidamente que se tratava de terrível vazamento, de um escândalo educacional capaz de derrubar ministério, e que a melhor forma de salvar os estudantes do grande desastre seria ele próprio, com a ajuda de Gregory, o DJ, seu amigo, levar as questões do Enem ao Estadão e à TV Record, solicitando a bagatela de uns 500 mil reais.

Essa entrevista, ou demonstra que a quadrilha de trapalhões não tem a menor noção da realidade – a conversa gravada pela reportagem do R7 confirma um discurso incoerente e alucinado –, ou foram eles usados por alguém e são a parte visível, os criminosos identificáveis, de um golpe concebido para obrigar o MEC a cancelar a prova antes que ela se realizasse.

Se Pradella queria tanto ajudar, por que não procurou a polícia, ou mesmo o MEC? Por que não tentou alertar os seus chefes na gráfica? Tais perguntas, no entanto, perdem toda a razão de ser, se pensarmos que realmente a quadrilha é de amadores, amadores que se consideram muito espertos, manipulados porém por uma outra quadrilha, esta mais qualificada, cujo plano era pressionar o governo a recuar em seus intentos político-educacionais.

Armando o circo

Chama a atenção também o surgimento súbito de estudantes revoltados contra a situação. Estudantes comportadamente revoltados, carregando cartazes com palavras de ordem como "A prova da incompetência", "O jovem no Brasil não é levado a sério", "Nem Ordem Enem Progresso", "Enem feito na pressa, com problemas começa", "Educação não é circo". Acusam o MEC de não levá-los a sério. Queixam-se do cancelamento da prova. Ora, o que desejavam eles? Que o MEC não reagisse às evidências da fraude? E por que não se indignam contra os que se apropriaram da prova, causando esta confusão?

Esses estudantes estão no Orkut. Sua comunidade nasceu no dia 1º de outubro e conta com um pouco mais de mil membros. Reivindicam a melhoria do ensino brasileiro. São a Nova Organização Voluntária Estudantil (NOVE), e se definem como apartidários e pacifistas. Sua aparição serviu para que certa mídia ilustrasse a matéria, na ausência de outras fotos [ver, neste Observatório, "O novíssimo movimento estudantil"]. O que se vê nelas são estudantes meio abestalhados, sem discurso e sem rumo.

Por outro lado, a maioria dos estudantes que foi prejudicada bem percebe que o inconveniente não era desejado por ninguém, muito menos pelo MEC. O NOVE é um óvni nessa história, e cumprirá papel decorativo. As fotos nos jornais, nas revistas e na web sequer dão a impressão de que o ministério está sofrendo imensa pressão popular.

A reação de Haddad

O ministro Fernando Haddad reagiu ao problema com agilidade e firmeza, desarmando a bomba. Dirigiu-se ao povo brasileiro em cadeia nacional, assegurando-nos que encontraria os responsáveis por esse atentado e faria valer o direito dos estudantes a participarem do novo Enem.

Um tanto de perplexidade, contudo, se lê neste comentário de Haddad: "O impacto deste ato de delinquência pode ser comparado ao assassinato de John Lennon ou do presidente Kennedy. Foge completamente ao controle. E não se explica o porquê" (IstoÉ Dinheiro).

Os nomes de Lennon e Kennedy não foram mencionados à toa. Idealistas (na arte, na política), tiveram a trajetória carismática interrompida de maneira violenta. No caso do Enem, que com este episódio ganhou aos olhos da opinião pública importância inusitada, os criminosos amadores (manipulados por alguém ou movidos pela insensatez) tentaram assassinar uma iniciativa democrática, contra cuja realização não existem razões convincentes.

Comentários (18)
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jennifer soares , gjá-SP - não
Enviado em 26/1/2010 às 12:56:41
Ah tá. não é tomar nenhum partido...mas quer dizer que s Folha de SP é a culpada de tudo? e o Serra boicotou o exame pra prejudicar o Lula-molusco? ah, pelo amor de deus. nem voltarei mais a esse site. estão defendo muito um dos lados... Vamos deixar que afundem o pais...e eu espero que não esteja mais em terras brasileiras qdo isso ocorrer...
Cristiana Castro , Rio de Janeiro-RJ - Advogada
Enviado em 19/10/2009 às 03:33:00
Ibsen, eu não sei se é bem assim, não pq o mundo veio abaixo e não era a patuléia que estava no topo da pirãmide. A bem da verdade, tudo qto é trambique, falcatrua, roubo, desvio, superfaturamento, falsidade ideológica, tráfico de armar e drogas... leva a assinatura da turma do topo da pirãmide e não é político, não. ( pelo menos, não só).
Roberto Locatelli , São Paulo-SP - Empresário
Enviado em 15/10/2009 às 15:32:37
Tanto Serra quanto o articulista usaram a expressão "fraude". Mas não houve fraude. Houve vazamento. Fraude seria se estudantes fizessem a prova com conhecimento prévio do conteúdo. Não foi o caso. A expressão "fraude" serve apenas a Serra e seus apaniguados para tentarem tirar proveito político do episódio. Quanto ao vazamento, quem vazou foi a gráfica da Folha de São Paulo. Não importa quem foram as pessoas físicas que executaram o roubo, a responsabilidade é da empresa, a qual quebrou uma cláusula do contrato assinado, colocando o sigilo em risco. E sem avisar ao MEC, pois com certeza o Ministério não aprovaria. Portanto, a única culpada pelo adiamento é a gráfica de Serra, digo, da Folha de São Paulo.
jose carlos  lima , goiania-GO - estudante
Enviado em 15/10/2009 às 13:01:30
A gráfica Plural/Folha foi sim cúmplice ao fazer vista grossa para o furto que estava sendo filmado, acompanhado em tempo real. Pena que os autores deste crime de inteligência nunca são mostrados, eles ficam sempre na moita,como sempre.
jose carlos  lima , goiania-GO - estudante
Enviado em 15/10/2009 às 12:59:31
Você sabia que a Folha não foi convidada para acompanhar Lula em sua comitiva ao Rio São Francisco? Bem feito, isto teria que ser feito mesmo, pois a família Frias é capaz de tudo. Como foram capazes de roubar a prova do ENEM para prejudicar Lula e ajudar Serra a arranjar um motivo para boicotar o exame, eles poderiam muito arrumar alguma trapaça na viagem ao São Francisco. Que fique bem claro para a populaçãoque a Folha é inimiga numero 1 de Lula. Sim, Lula, tal como o bambu, tem se curvado durante a tempestade para não quebrar mas, como se vê, nem tanto né....rsss www.josecarloslima.blogspot.com
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 15/10/2009 às 11:59:52
Infelizmente o Governo Federal tem priorizado o ensino de nível superior em detrimento dos níveis fundamental e médio que são onde se encontra o verdadeiro gargalo da educação. Enquanto a base continuar capenga o topo da pirâmide tende a balançar, isso é ciência exata pura!
Cristiana Castro , Rio de Janeiro-RJ - Advogada
Enviado em 14/10/2009 às 21:05:11
Concordo com o Geraldo. QQ iniciativa no sentido de integrar grupos excluídos é rapidamente, absorvida pela elite. A verdade é que nossa elite, se acha a expressão da competitividade mas só compete qdo sabe que o rival está em desvntagem, senão não vence, nunca.
Geraldo Silva , belo horizonte-MG - **
Enviado em 14/10/2009 às 18:54:00
SEm essa paranóia de indústria do vertibular, A partir do momento em que o enem substituir o vestibular na sonhada vaga nas grandes universidades , as apostilas, os cursinhos, enfim todas as atenções serão voltadas para ele Enem. OU seja trocará seis por meia dúzia.
vinicius dias , rio de janeiro-RJ - func. publico
Enviado em 14/10/2009 às 18:32:53
...quanto ao manisfesto dos estudantes , o nariz vermelho lembra o movimento cansei.
vinicius dias , rio de janeiro-RJ - func publico
Enviado em 14/10/2009 às 18:30:27
Toda esta historia é muito estranha, mas tem fatos que não aprecem e não são analisados, Cesgranrio e CESPE, não participaram da liciutação como esta sendo divulgado, pelo contrario, alegaram que o enem seria muito trabalhoso e preferiram não participar, mas agora ambos e principalmente a CESPE aparece como salvador da patria, existe um mercado de aplicações de concursos que deve girar por anos em torno de 1 bilhão de reais ou até mais, o ministro anda duizendo que pretende acabar com o processo licitatorio para o enem e inclusive concursos publicos e aventou de que as duas que seriam responsaveis pelos concursos da união seriam a ENAP ou a CESP, tem muito mais coisa por baixo deste tapete, averiguem senhores jornalistas
Antonio Lemos , São Paulo-SP - consultor
Enviado em 14/10/2009 às 17:35:32
Por que EM LUGAR NENHUM que tenha lido sobre esta história do ENEM que a dona da gráfica é a FOLHA???? Sim, a Folha que cria ficha falsa, faz alarde sobre 40 milhões de infectados da gripe suína, etc. Não estaria a Folha envolvida nesta bandalheira, não?
Giordano Marim , Vila Velha-ES - estudante
Enviado em 14/10/2009 às 17:23:40
Coincidência ou não, a rede globo fez várias críticas ao vazamento, passando a impressão de que querem desmoralizar o MEC, o INEP, o governo, etc. O Jornal Nacional fez uma reportagem , bastante parcial, sobre o assunto e citou (brevemente) o modelo Inglês, de ingresso á universidade. Deixou bem claro que (não, não foi o modelo adotado que ficou claro e sim) aquele país, adota um sistema semelhante ao proposto aqui no Brasil pelo MEC, e QUE NUNCA HOUVE FRAUDE. Ao invés de fazerem uma reportagem ampla sobre o assunto, mostrando os exemplos de vários países e deixando claro que o Brasil é um dos poucos, ou o único, no mundo a adotar esse modelo perverso e excludente, preferem fazer críticas á proposta inovadora (mas, incômoda para certos grupos egoístas da nossa sociedade) implantada. É por esse e outros motivos que precisamos discutir sobre os meios de comunicação no Brasil. É preciso investir em mídias públicas, para fazer frente aos oligarcas da comunicação e esclarecer á população que é possível um país de todos e não de poucos, como querem esses coronéis da mídia.
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 14/10/2009 às 17:13:48
Considerando-se que o grande gargalo no ensino brasileiro é o ensino médio, tanto em termos de número de alunos, quanto em qualidade, não saberia dizer porque o governador riu tanto, afinal ele é um dos grandes responsáveis pelo lixo educacional que é o ensino público de hoje. Aliás, a prova do Enem baseia-se no mesmo princípio que norteia o sistema educacional do Estado de São Paulo: Avaliação de habilidades e competências contra o simples conteúdo. Se o governo federal e o MEC perderam, também perdeu o Estado de São Paulo e seus alunos. Parece que, como bons brasileiros, temos a tendência de detonar aquilo que é bom.
Cristiana Castro , Rio de Janeiro-RJ - Advogada
Enviado em 14/10/2009 às 17:07:09
Não houve amadorismo, foi crime político, evidente. Uma lástima e sim, Angelo, goste vc ou não, mais uma vez, com a conivência explícita da imprensa. Aliás, nesse caso, ao que tudo indica, ela nem foi só conivente. Essas são as nossas empresas de comunicação... Agora vão pra cima das crianças tb.
José Paulo Badaró , São Paulo-SP - desempregado
Enviado em 14/10/2009 às 15:17:32
Cherchez la femme! Uma provecta senhora chamada educação privada, ou cursinho para os íntimos, tão atuante e explícita nos anos dourados do lobby da educação na reluzente Brasília de FHC. De outro lado, chamou minha atenção desde o início - e até agora não sei a resposta e se alguém souber responder desde já agradeço – o fato de haverem dito que o tal do Pradella já teria passagem na Polícia! Pode até ser por agressão ou lesões corporais, já que seria lutador de capoeira nas horas vagas, mas confesso que fiquei curioso, dentre outras, para saber em que outra pratica delituosa teria ele se envolvido e, também, para tentar entender como é que a gráfica do Sr. Frias, supostamente preparada para serviços de qualidade, de precisão e segurança, teria contratado alguém com uma folha (sem trocadilho) de antecedentes dessas.
Dante Caleffi , Rio de Janeiro-RJ - Publicitário
Enviado em 14/10/2009 às 11:46:09
"Noves Fora",bom nome para um movimento de oligofrênicos adestrados pelo/a GLOBO. Combina bem o com o" nariz de palhaço",acessório vulgarizado nos protestos que atingem todo o arco de insatisfações da cidadania. Curiosamente marcam com a alienação típica da burguesia ( viu-se algum negro naquele grupo?),omitindo a questão mais importante: a quem interessa desmontar o ENEM? A indústria do vestibular age na surdina ,por motivos óbvios.Movimenta cursos,professores, apostilas,gráficas e a mídia. Portanto interesses dessa monta certamente até um "pivete" avaliaria em bem mais do 500 mil reais...
angelo azevedo queiroz , brasília-DF - funcionário público
Enviado em 14/10/2009 às 11:27:47
O articulista está correto. José Serra e os agentes da CIA estão envolvidos nisso.Querem desestabilizar o governo .Tenho certeza que se tudo for revelado, vamos saber também como, além de fraudar o ENEN , Serra e a CIA também esconderam as provas sobre sobre o ET de Varginha. Parabéns ao autor pela esperteza! A culpa é da mídia gol pista que esconde esse furo jornalístico!
Amaro Goldalau , Fortaleza-CE - Professor
Enviado em 14/10/2009 às 07:31:01
E a gráfica é do Sr. Frias que, querendo ou não querendo, meteu a estudantada numa fria. O homem é também dono da Folha de São Paulo. Não acredito em amadorismo nesse caso. Alguém tem que pagar a conta, no sentido literal da espressão. Novamente vai ser o contribuinte brasileiro? E tudo vai ficar por isso mesmo? E o contrato que foi feito com a gráfica do Sr. Frias, não serve para nada? A gráfica (pessoa jurídica) não vai ser processada? Que diabo de país continua sendo este?
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