ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 559 - 9/2/2010
  Imprensa em Questão
Início > Índice Geral > Imprensa em Questão + A | - A
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
 

RIO OLÍMPICO, 2016
Perdido na cidade?

Por Jon Lee Anderson em 12/10/2009

Reproduzido do suplemento "Prosa&Verso" de O Globo, 10/10/2009; título original "Perdido no Rio?", intertítulos do OI

No último dia 28, segunda-feira, primeiro dia útil da semana em que seria escolhida a cidade-sede das Olimpíadas de 2016, a revista americanaThe New Yorker publicou uma reportagem de 12 páginas assinada por Jon Lee Anderson, um de seus mais respeitados colaboradores, sobre o tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Intitulado "Gangland. Who controls the streets of Rio de Janeiro?" ("Terra de gangues. Quem controla as ruas do Rio de Janeiro?"), o texto era resultado de uma apuração de três meses durante os quais o jornalista conversou com policiais, jornalistas, pesquisadores, políticos e traficantes sobre o cotidiano de violência a que são submetidos os cariocas moradores de favelas e de áreas próximas a elas. A imprensa brasileira comentou com desconfiança a escolha da data de publicação da reportagem, temendo que ela prejudicasse a campanha afinal vitoriosa do Rio para sediar as Olimpíadas, e analistas contestaram sua precisão. Neste texto especial para o "Prosa & Verso", Anderson fala sobre seu trabalho e responde aos críticos.

Eu me interessei pela cultura das gangues do Rio de Janeiro na minha primeira visita à cidade, em 1997. Tiros de armas automáticas soavam ao longe quando saí do aeroporto. Como jornalista e como observador experiente de sociedades em guerrilha, fiquei fascinado pelo espectro de uma cultura fora da lei existindo mais ou menos livremente em plena "Cidade Maravilhosa".

A meu pedido, alguns amigos providenciaram uma visita a uma favela na Zona Norte. Ela ocupava a encosta íngreme de um morro não muito distante do Sambódromo. Fui acompanhado por Zuenir Ventura, veterano jornalista autor do livroCidade partida, sobre as favelas do Rio. Fomos escoltados por um ativista social, um homem barbado na casa dos 40 anos, que coordenava uma ONG na favela. Os chefes da gangue da favela o toleravam, ele nos disse, porque ele não se metia nos negócios deles, que eram – e ainda são – baseados no comércio ilegal de drogas.

Ele nos guiou a pé pela passarela de concreto estalando de nova que serpenteava favela adentro. Era um projeto seu recém-concluído, e ele estava muito orgulhoso. A passarela ziguezagueava morro acima, com um corrimão muito útil para as mulheres com crianças de colo ou com sacolas das compras feitas na rua de baixo. Antes, elas usavam vielas de terra que viravam um lamaçal depois da chuva.

Num certo ponto, notei o que pareciam ser manchas de sangue fresco na passarela nova. As manchas continuavam por uns 50 metros. Começavam como pingos e nódoas e se tornavam grandes borrões sinuosos. Apontei-os para nosso anfitrião, que apenas assentiu silenciosamente. Ventura sussurrou: "Sim, é sangue".

Paramos para um papo na casa de uma senhora. Perguntamos sobre as manchas de sangue. Depois de fechar cuidadosamente as persianas de seu pequeno barraco de madeira, ela explicou o que tinha acontecido. Falou em voz baixa, temerosa. Os gângsters tinham matado um suposto informante na noite anterior, ela disse. Fizeram isso abertamente, à vista de qualquer um que por acaso estivesse ali na hora. Eles então arrastaram seu corpo, sangrando, por toda a extensão da nova passarela, para que todos vissem o que tinham feito. Depois, retalharam o corpo e desapareceram com os pedaços.

Tudo que restou dele foram as manchas de sangue.

A notícia se espalhou rapidamente e a polícia mandou alguns homens à favela naquela manhã. Eles fizeram uma ronda, mas não havia com quem falar, e nenhum corpo, e portanto nenhuma prova de que um crime tinha sido cometido. Os policiais foram embora. Não tinham o que fazer ali.

Jornalismo preguiçoso

Desde essa visita, eu tinha vontade de explorar o Rio e de me envolver mais a fundo com suas realidades paralelas. Finalmente tive essa oportunidade este ano, passando várias semanas no Rio em duas viagens diferentes, durante as quais visitei algumas favelas. Conheci gângsters, cidadãos comuns, legisladores, políticos e analistas. Conversei com cariocas de todos os tipos sobre a cidade e seus problemas. Tive muitas experiências sobre as quais terminei não escrevendo, simplesmente porque havia assunto demais para algo que, no fim, era apenas um artigo de revista – não um livro.

Esse artigo foi publicado na revistaThe New Yorker com o título "Gangland" ("Terra de gangues"), em 28 de setembro. No fim das contas, foi a meros cinco dias da decisão do Comitê Olímpico Internacional sobre qual das cidades finalistas – Madri, Tóquio, Chicago ou Rio – sediaria os Jogos de 2016. Foi uma péssima ocasião, ou uma ocasião muito favorável, para meu artigo ser publicado, dependendo do ponto de vista. No Brasil, muitos consideraram a ocasião péssima.

Nos dias seguintes à publicação do artigo – na acalorada reta final para o Dia D olímpico –, fui submetido a todo tipo de crítica, e até difamação, por certos setores da imprensa brasileira. Foi amplamente sugerido que eu era cúmplice de alguma nefasta conspiração americana para sabotar a candidatura olímpica do Rio em favor de Chicago. Também foi sugerido que eu era um forasteiro desinformado, que eu não tinha consultado especialistas, que eu estava enganado sobre os fatos, e que tinha repetido muitos clichês e boatos sobre o Rio. Fui criticado por fazer jornalismo preguiçoso, por me colocar no centro da história, e foi dito que as favelas nas quais me concentrei, na Ilha do Governador, não eram representativas daquelas no resto da cidade.

Fora de controle

Não levei em consideração a maioria dessas alegações, tomando-as como reações defensivas de cariocas que se sentiam feridos por minhas observações, publicadas num momento especialmente sensível. Posso entender essas reações, mas, no fundo, a maioria dos meus críticos deve saber que estava sendo injusta. Porque tudo que qualquer um com meia consciência no Rio precisa fazer é olhar em volta para ver que tudo o que escrevi, e muito, muito mais, é verdade sobre a cidade que eles amam – e negligenciam – tanto. Se a beleza do Rio é de tirar o fôlego, o mesmo pode ser dito de sua pobreza, sua miséria, seu crime e sua violência. O Rio não esconde sua injustiça social, ostenta-a.

Enfim, o Rio ganhou o direito de sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Como alguém que desenvolveu um profundo afeto pela cidade e por seus habitantes, estou muito satisfeito com a escolha. Acredito que ela oferece uma notável oportunidade para que autoridades e cidadãos do Rio concentrem sua atenção nos urgentes problemas sociais da cidade e dediquem-se a eles nos próximos sete anos. O Rio pode até se tornar uma cidade governada pelo domínio da lei, em vez de pela criminalidade descontrolada.

No fim das contas, isso sim seria um feito maravilhoso, sem dúvida melhor, até, do que sediar as Olimpíadas.

Leia também
Um gringo na selva carioca – Sylvia Moretzsohn
Comentários (4)
Comentar
Compartilhe
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas – e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.
         
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
Davi Silva , Brasília-DF - economista
Enviado em 20/10/2009 às 11:51:23
Gostei da reportagem, é bom ver os nossos problemas pelos olhos de um estrangeiro que não está acostumado a helicoptero derrubado por artilharia anti-aérea em sua cidade. Mostra o quanto estamos acostumados com o terror. Acho rídiculo este ufanismo que afirma que todos os problemas serão resolvidos por conta de uma olimpíada. Este mesmo argumento foi usado no pan e o que se viu foi corrupção e um acordo, inclusive com dinheiro, entre o estado e o crime para garantir uma "tranquilidade" durante os jogos. A típica solução carioca, junta-se o licito com o ilicito e se faz um carnaval. É no minimo irresponsável qualquer evento no rio de janeiro, cidade totalmente dominada pelas "gangues", quem discorda tente andar pelos morros sem pedir permissão aos traficantes ou milicianos, tente furar blitz da polícia, tente denunciar corrupção policial, etc.
sylvia moretzsohn , rio de janeiro-RJ - professora
Enviado em 15/10/2009 às 10:38:45
Se o repórter tivesse a humildade que deveria caracterizar qualquer profissional sério - jornalista, pesquisador, cientista -, teria aproveitado o generoso espaço que o Prosa & Verso lhe deu para esclarecer as críticas à sua reportagem: por que generalizou uma situação existente numa parte específica da cidade; de onde tirou a informação de que o Rio é o lider MUNDIAL de homicidios dolosos, e assim por diante. Foram críticas objetivas, que deveriam ser respondidas com objetividade, e não com alegações falaciosas sobre difamação e essa fantasia sobre uma reação movida pelo orgulho nacional ferido. O pior é que as críticas são vistas de acordo com essa lógica binária do tudo ou nada: se criticamos uma reportagem que "fala mal" da cidade, é porque não queremos ver as nossas mazelas. Ora, as mazelas do Rio são evidentes, tropeçamos em gente degradada a cada esquina, e será mesmo curioso ver como o governo resolverá a nossa "questão social" secular em sete anos. Daí a dizer que a cidade é dominada por traficantes vai uma diferença tão monumental quanto óbvia. Alertada por alunos, vi que o repórter deu entrevista sobre a repercussão da sua matéria no blog de O Livreiro. Escrevi uma resposta, mas o melhor mesmo é assistir ao vídeo, em que ele fala em "forças hostis" observando a cidade e outras barbaridades. http://olivreiro.com.br/blog/2009-10-07-entrevista-a-jon-lee-anderson
Boris Capone , Rio-RJ - Engenheiro
Enviado em 14/10/2009 às 17:27:26
Ele não estava mal intencionado. É só puro péssimo jornalismo mesmo.
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 14/10/2009 às 16:39:04
Jon, não se preocupe. A imprensa por aqui, nessa época, realizou até uma série de entrevistas com habitantes do Rio que negavam a violência na cidade, alguns negaram peremptoriamente a violência alegando que nunca haviam sido assaltados. Uma maravilha, de repente o Rio passou a ser a cidade mais segura do país. Infelizmente não compartilho de seu otimismo de que as Olimpíadas serão uma oportunidade para que o Estado de Direito se implante definitivamente na cidade. Acho que ao contrário, o Estado fará mais um acordão às escuras para coibir a violência na cidade no período da realização das Olimpíadas 2016, em troca haverá livre comércio na cidade. É sabido (apesar de não provado) que o crime organizado tem se infiltrado gradativamente nas instituições do Estado. Infelizmente a coisa por aqui (Brasil) degringolou.
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Jon Lee Anderson

Outros artigos desta Seção
LEITURAS DAFOLHA
Solidariedade ao Estadão
deixa Sarney
mais encrencado

Alberto Dines
12/10/2009
IMPRENSA AMERICANA
A maior vítima da
crise, quase esquecida

Rolf Kuntz
12/10/2009
RIO OLÍMPICO, 2016
A celebração da diversidade
Washington Araújo
12/10/2009
Perdido na cidade?
Jon Lee Anderson
12/10/2009
Goela abaixo
Ivan Berger
12/10/2009
CRIME ORGANIZADO
A notícia pela metade
Luciano Martins Costa
13/10/2009
CASA BRANCA vs. FOX
A mídia como partido político
Venício A. de Lima
14/10/2009
PAUTA AMBIENTAL
A imprensa verde
Luciano Martins Costa
15/10/2009
LEITURAS & LEITORES
A grande imprensa e o profissionalismo
Enio Squeff
16/10/2009

Últimos 5 artigos de
Jon Lee Anderson
Mais artigos de
Jon Lee Anderson >>