ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 560 - 19/10/2009
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LEY DE MEDIOS
Cristina fez o que Lula não fez

Por Venício A. de Lima em 20/10/2009

No dia 10 de março passado escrevi neste Observatório artigo em que perguntava: "conseguirá Cristina fazer o que Lula não fez?" (ver aqui). Referia-me, então, ao anúncio da presidente argentina na abertura da sessão legislativa do Congresso reiterando o envio de um projeto de lei de regulação dos serviços audiovisuais, no dia 1º de março de 2009. O projeto, dizia Cristina, teria por objetivo desmonopolizar o mercado e democratizar a comunicação, substituindo o decreto-lei 22.285 promulgado pela ditadura militar, em 1981.

No último 10 de outubro, o projeto anunciado se transformou na Lei 26.522 – Serviços de Comunicação Audiovisual. Amplamente discutido em todo o país, foi alterado duzentas vezes durante sua tramitação e, finalmente, aprovado na Câmara dos Deputados (146 votos a favor, 3 contra e 3 abstenções) e no Senado (44 votos a favor e 24 contra).

Exatos sete meses depois, portanto, a resposta à pergunta formulada é: Cristina Kirchner conseguiu, sim, fazer o que Lula não fez.

Garantindo a liberdade de expressão

Você leitor(a) já deve ter ouvido e/ou lido sobre a nova lei Argentina (certamente, contra). Ela contraria interesses de poderosos grupos de mídia locais que contam com aliados também poderosos no nosso país.

Pergunto, todavia, se ouviu e/ou leu em algum veículo de comunicação no Brasil, a própria lei ou mesmo o endereço eletrônico que dá acesso a ela? Faço-lhe, então, um convite: leia e estude a Lei 26.522 e tire, você mesmo, suas conclusões. Ela está disponível aqui.

O leitor(a) que se der ao trabalho verificará que a lei argentina busca a regulação do mercado de mídia, que fica dividido em três partes iguais: para a iniciativa privada, o Estado e a sociedade civil. Com isso, impede-se a concentração da propriedade, a propriedade cruzada e, sobretudo, promove-se a pluralidade e a diversidade através da garantia da liberdade de expressão de setores até aqui excluídos do "espaço público midiático" – povos originários, sindicatos, associações, fundações, universidades – através de entidades sem fins comerciais.

Além disso, são garantidas cotas de exibição para o cinema argentino, para a produção nacional, o fomento à produção de conteúdos educativos e para a infância. As novas concessões e as renovações de concessões terão que passar por audiências públicas e foi criada uma Autoridade Federal de sete membros e um Conselho Federal de 15 membros, que cuidarão do cumprimento da lei, incluindo os vários itens a serem ainda regulamentados pelo Congresso Nacional.

É interessante observar que algumas das normas da lei argentina constam também de nossa própria Constituição. Como, todavia, aqui essas normas não foram regulamentadas, se transformaram em letra morta. Muitas normas já são, também, rotina em democracias consolidadas.

Onda latino-americana

A lei audiovisual argentina foi aprovada num momento histórico em que alterações na regulação da mídia ocorrem em países latino-americanos que passam por transformações políticas profundas: Venezuela, Bolívia, Uruguai, Equador, Nicarágua.

O que há em comum entre os países que hoje patrocinam iniciativas de regulação do setor audiovisual?

Primeiro, é preciso lembrar que as mudanças tecnológicas das últimas décadas fizeram das antigas regulações da mídia leis obsoletas e, portanto, de atualização inevitável. Segundo, os atuais governos desses países tiveram sua origem na mobilização e participação de setores da população até aqui marginalizados ou excluídos dos processos políticos e chegaram ao poder através de eleições democráticas, em geral, enfrentando a oposição partidarizada, explícita ou não, da grande mídia local.

Dessa forma, a desqualificação rotineira de populistas ou neopopulistas que a grande mídia latino-americana – e seus aliados – faz a esses governos carece de qualquer fundamentação conceitual ou teórica. Não é sem razão, portanto, que conceitos como "autoritarismo eleitoral" (?!) já começam a ser utilizados, pelo menos no Brasil, entre os setores da grande mídia e/ou acadêmicos que defendem "a circulação democrática das elites" e se estremecem diante até mesmo da possibilidade de aumento da participação popular no poder.

Partidarização

É dentro deste amplo contexto político que adquire sentido a crescente partidarização da grande mídia, certamente um fenômeno que não está restrito às democracias da América Latina (vide o que acontece nos Estados Unidos e/ou na Itália), mas que assume, aqui, um caráter particular. [Ver, neste Observatório, "A mídia como partido político", "A imprensa entre o `quarto poder´ e o `quarto partido´" e "O governo entrou no jogo"]

Registre-se que a partidarização da mídia não é um fenômeno novo. Trata-se de tema universal que tem sido objeto de pesquisa e análise nos estudos de Comunicação e da Ciência Política há décadas e que conta com robusta bibliografia.

Se a "crise" que, sobretudo, a mídia impressa enfrenta, em decorrência da revolução digital, está hoje levando à partidarização como forma (equivocada) de sobrevivência, o fenômeno histórico não pode, com o mínimo de seriedade, ser reduzido a uma mera "acusação ideológica da esquerda radical à imprensa".

A cobertura que a grande mídia brasileira tem oferecido às iniciativas de regulação das atividades de comunicação nos países referidos – Argentina, Venezuela, Bolívia, Uruguai, Equador e Nicarágua – certamente passará à história como exemplo emblemático de partidarização e defesa dos próprios interesses.

A Lei 26.522 – Serviços de Comunicação Audiovisual aprovada na Argentina precisa ser estudada e debatida por todos nós. Ela certamente servirá de exemplo para iniciativas democráticas de regulação que pretendam garantir aos cidadãos a liberdade de expressão, plural e diversa, e, ao mesmo tempo, a competição complementar e equilibrada no mercado de mídia.

Comentários (12)
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Ruth  Cambeses Pareschi , S.Paulo-SP - Administrador
Enviado em 27/10/2009 às 19:22:18
Seria convenienteque este artigo fosse enviado aos parlamentares(a maioria) que detem midia impressa ou eletrônica para que tomem conhecimento do que deveria servir de exemplo aqui neste País. Infelizmente, nem os integrantes do PT lutaram para retirar esse monopólio, om a rede Globo dominando tudo e todos, infelizmente, servindo de norma de conduta de maciça parte de nossa população!
Jose de Almeida Bispo , Itabaiana-SE - Publicitario e radialista
Enviado em 25/10/2009 às 19:18:29
Lula, ou tá com medo ou apostando que "a besta" vai desaparecer sozinha engolida pela lei de mercado que a engendrou. Não vai! Se auto punição valesse não haveria um só ladrão roubando. Está mais que provado que são raríssimos os ladrões que se dão bem sob o ponto de vista de preservar o produto do roubo; todavia, mesmo estes têm o preço alto a pagar de nunca se sentir tranquilo já que a qualquer momento alguém lhe apontará o dedo, e ele, sem argumentos, o máximo que pode fazer e reagir criminalmente contra o acusador. Piorar as coisas. Os "capi" da mídia brazurca logo estarão refeitos da pancada dada pela internet e consequente democratização da opinião. A abertura da contestação. O povo vai continuar necessitando de conteudos prontos e em linguagem popular, inclusive a chula. E chega um momernto em que a gente cansa de defender quem não se auto protege. Comunicação de massas é educação. Controle, domínio. Só governo pode ter esse domínio e, para que o mesmo não se torne ditatorial, que ele venha na forma de representação popular. A iniciativa privada gerindo a comunicação da forma que é feito no Brasil, invarialvelmente vai volver-se para o banditismo; gangsterismo com prática de extorsão descarada. Em minha opinião, rede só de governo com finalidade específica de educação, e só. É preciso proibir até formação de cartéis no fornecimento de notícias a emissoras isoladas.
Alexander Reis , BH-MG - Jornalista
Enviado em 25/10/2009 às 15:16:53
Cristina "estatizou" o futebol argentino, gastando milhões, dinheiro público, para comprar as transmissões futebolísticas locais. É isso mesmo que vcs querem para o Brasil? Conheçam melhor Cristina antes de comprarem esses clichês que a primeira vista parecem belos.
Cristiana Castro , Rio de Janeiro-RJ - Advogada
Enviado em 22/10/2009 às 03:06:30
Liberdade de crítica Max Suel? Está te parecendo mesmo, liberdade de crítica, o que a imprensa vem fazendo com esse governo? Vc acha mesmo isso? Se vc me dizer que sim, que acha mesmo que a imprensa só está fazendo o seu trabalho, eu vou respeitar a sua opinião. É só uma pergunta.
Max Suel , SP-SP - Engº
Enviado em 21/10/2009 às 12:12:00
Não. Lula não fez o que Cristina fez porque não pôde, não porque não quis. Lula não fez o que Cristina fez porque aqui as instituições democráticas AINDA não foram todas aparelhadas pelo lulo-petismo; o mesmo lulo-petismo que açambarcou todos os fundos de pensão estatais, todas as boquinhas e boconas federais. Lula não fez mas bem que tentou, basta lembrar a falida tentativa de criar um "conselho federal de jornalismo" , que seria puro chapa branca, e seria uma mordaça para os jornalistas isentos e críticos de seu (des)governo. "Covardes" gritou o pres Lula, para os jornalistas que não defendiam a criação de tal estrovenga. Covardes, digo eu, são todos os que se calam quando a liberdade de crítica sofre abusos e ataques como o da Cristina e do pres. Lula
José Paulo Badaró , São Paulo-SP - desempregado
Enviado em 20/10/2009 às 22:02:25
Em vez de “Cristina fez o que Lula não fez” a matéria ficaria mais próxima da realidade se questionasse “Se fosse no Brasil, Cristina faria o que Lula não fez ???”. Creio que não. Começa com um dado difícil de engolir, mas que é a pura realidade: o argentino é muito, mas muito mais politizado do que o brasileiro e, portanto, independente de que lado esteja sabe que o fundamental é preservar os valores democráticos. Em segundo, um dado que praticamente encerra a discussão: Os Kircheners possuem a maioria no Senado argentino, enquanto o presidente Lula não tem, e ainda por cima é obrigado a carregar um presidente do Senado achincalhado, linchado e torrado pela imprensa tupiniquim. Terceiro, o povo argentino, diferentemente do brasileiro, tem verdadeira ojeriza em relação a tudo quanto é resquício da ditadura, como era falecida lei de imprensa de 1981, enquanto aqui os torturadores de ontem andam soltos pelas nossas ruas e calçadas. Quarto, o que é o El Clarin para quem tem que encarar a Globo, Veja, Estadão e Folha???
Cláudio Rangel de Oliveira Borges , Salvador-BA - ex-jornalista
Enviado em 20/10/2009 às 19:20:04
...idéias, mesmo que muitas vezes absurdas ou contraditórias, mesmo que muitas vezes fascistóides, idéias essas com as quais todos devem concordar e fazer “amém”, em qualquer tipo de circunstância. Parece que o jornalista é a única classe profissional que pode falar qualquer tipo de besteira, em qualquer situação, e ainda acha que não pode ser criticada! E ainda dizem (eles próprios, e algumas pessoas da classe média que repetem feito papagaios o que a mídia fala) que Lula “está sendo ruim” com a mídia. Pela qualidade da mídia brasileira, acho que ele está sendo bonzinho até demais! Lula deveria fazer exatamente o que Cristina fez na Argentina.
Cláudio Rangel de Oliveira Borges , Salvador-BA - ex-jornalista
Enviado em 20/10/2009 às 19:17:21
Só mesmo uma pessoa muito ingênua (na melhor das hipóteses) para ler/ver os jornais da grande mídia brasileira atual sem fazer comparações com outras fontes, sem perceber a parcialidade escancarada da maior parte das matérias. Não é de hoje que os jornais/empresas de comunicação tradicionais perdem a sua credibilidade. Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo… tem também as versões pasteurizadas dessas farsas, como o A Tarde, daqui da Bahia, por exemplo. As profissões/atividades são, quase todas, regulamentadas. A mídia (ainda?) “todo-poderosa” brasileira, nas mãos de algumas famílias beneficiadas pelo regime militar, não quer qualquer tipo de regulamentação, e, quando é feita a mínima crítica a qualquer tipo de idéia ou angulação (ou mesmo a mentiras descaradas que muitas vezes são publicadas), essa mídia grita bem alto, travestindo de “interesses nacionais” os interesses empresariais/econômicos voltados simplesmente à manutenção dos seus grupos e das suas idéias conservadoras. A mesma mídia que defendeu, apoiou e/ou se beneficiou da ditadura militar vem agora, cinicamente, falar em “liberdade de expressão”. Como se qualquer tipo de crítica feita a eles fosse “cerceamento da liberdade de expressão”, e como se liberdade não implicasse responsabilidade. Ou seja… a grande mídia simplesmente não quer ser regulamentada de forma alguma e quer que só ela grite as suas...
Milton  Silva , Brasília-DF - Entregador de Pizas
Enviado em 20/10/2009 às 18:29:02
Tudo bem! Viva los hermanos! A questão é que esta regularização foi aprovada por um parlamento em fim de mandato e com o outro já eleito e com a correlação de forças diferentes, ou seja, representante de uma sociedade que pensa diferente. Mas, como para os "bolivarianos" não há limites desde que seja a favor deles, tudo bem. Pelo menos, aqui, por enquanto o Lula ainda não aderiu a este bolivarianismo tosco. Apesar de de vez em quando funcionar como boneco do Chaves.
Anderson  Moraes , *-RJ - *
Enviado em 20/10/2009 às 14:26:29
É inacreditavel que alguns "FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS" de alguns estados fiquem o dia todo em pleno horário de SERVIÇO "comentando" na internet ou será que esses estados criaram "REPARTIÇÕES PÚBLICAS" para controlar a sua imagem na internet. PS: Pode parecer loucura, mas quem reparar vai perceber que tal "REPARTIÇÃO PÚBLICA" parece mesmo existir, pois "todos" os comentários "anteriores" a esta mensagem somente eram postados em horário "comercial" entre 8:00 às 17:00 ( é comprovado que mesmo APOSENTADO se mantém hábitos antigo emprego). É claro que a partir de agora isso pode mudar para não "chamar" muita atenção. Ou talvez mude o seu Nick (Nome de Identificação) no Observatório da Imprensa, mas não tenham dúvidas será fácil reconhecer-los por certas atitudes.
Kaio Almeida , Rio de Janeiro-RJ - estudante de jornalismo
Enviado em 20/10/2009 às 14:18:11
e do Dicionário Global-Elitista-Autoritário-desde-sempre, "regulação das atividades de comunicação" significa: não poder agir como Deus; perda de controle absoluto para além do bem e do mal; redução das barganhas por espaços e verdades ; descentralização; redução de receitas zilionárias; ter que ouvir opinião e réplica, tréplica... de pobres e minorias que passaram pela história amordaçados.
Mario Netto , SP-SP - F.Publ.Apos.
Enviado em 20/10/2009 às 11:26:28
E no Dicionário Bolivariano, "regulação das atividades de comunicação": Controle estatal da liberdade de expressão, Censura.
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