ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 562 - 9/2/2010
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INFORMAR & FISCALIZAR
A imprensa no pelourinho

Por Ivan Berger em 3/11/2009

Em tempos de comunicação instantânea e ilimitada, nada mais natural que todo mundo se sinta estimulado a opinar sobre tudo, mesmo sobre o que nada entende, o que por sinal é o que mais acontece. Daí, por exemplo, a quantidade cada vez maior de gente posando de expert em imprensa e jornalismo. É uma festa como diplomados, medalhões ou simples palpiteiros de outras áreas ditam cátedra, se arvoram a ensinar como se escreve e se edita, como se os jornais e revistas fossem feitos por néscios ou amadores. Também, pudera: depois do virtual rebaixamento da categoria decretado pelo Supremo Tribunal Federal, com a supressão da Lei de Imprensa e o fim da exigência do diploma para o exercício da profissão, o que não falta são leigos para ensinar o vigário a rezar missa. A começar pelo presidente Lula.

Isso que, como se sabe de cor e salteado, a falta de formação específica nunca chegou a ser um impedimento para o ingresso e o uso regular da imprensa por quem quer que seja, o que por si só já seria um bom motivo para que a profissão fosse preservada, pelo menos no aspecto jurídico, já que na prática ter canudo ou não nunca passou de mera formalidade. Afinal, se é como decretou o editor-chefe do Jornal Nacional, William Bonner, que disse não precisar mais do que seis meses para formar um profissional à altura da Globo, na concorrida palestra que fez recentemente a alunos de uma faculdade de jornalismo em Brasília, desdenhando a capacitação formal, bastaria passar pelo tal treinamento intensivo e estamos conversados. Qualé, Bonner? Qualé?

Jornalista de cepa

De qualquer modo, Bonner deve saber o que diz, com a experiência de quase duas décadas a frente do noticiário de maior audiência e influência no país, se bem que foi no depoimento que deu pouco depois a Marília Gabriela, em seu programa de entrevistas no GNT, que esse desapreço pela capacitação formal, compartilhado por muita gente no setor, se mostra contraditório e ambíguo, para dizer o mínimo.

Perguntado sobre qual considera o grande desafio do trabalho de chefiar e editar o eterno campeão de audiência da casa, Bonner disse que a maior dificuldade – e fruto de constante insatisfação e questionamento – é filtrar o noticiário conforme o grau de importância dos eventos. Ou seja, intuir, garimpar no manancial de informações que pipocam na redação aquilo que é mais relevante, de interesse público – e, é claro, que venha a repercutir, como convém a um jornalismo que se preze.

Pois ao confessar a dificuldade permanente em lidar com a mais elementar função da prática jornalística – a tarefa de dissecar e ordenar os fatos sob o ponto de vista do interesse público –, Bonner inadvertidamente não deixa de admitir que o aprendizado da profissão é bem mais complexo do que falou, requer bem mais preparo do que, retoricamente, talvez para impressionar a platéia de neófitos, bravateou em Brasília. E de fato, não são poucas as queixas e reclamações sobre as pautas e o enfoque que o engessado noticiário do Jornal Nacional costuma apresentar, às voltas com o esforço ainda mais inglório de informar sem provocar melindres e contrariar a imagem de neutralidade que a Globo, pelo menos em relação a seu carro-chefe, vê-se na obrigação de aparentar.

De um modo geral, a afluência cada vez maior de colaboradores de todos os calados e matizes na imprensa não chega a ser um transtorno, muito menos um desprestígio para o jornalista-padrão, aquele que efetivamente faz o trabalho pesado. Muito pelo contrário, opiniões especializadas de outras áreas são sempre bem-vindas, ainda que raramente isentas e imparciais, como seria o ideal. De mais a mais, há que se separar o jornalismo convencional do analítico, do profissional que exerce o ofício em sua plenitude do franco-atirador que eventualmente aparece para tecer considerações de cunho pessoal, em suma, que não representa a posição da casa. Muita gente boa ainda faz confusão sobre isso, a dano do jornalista de cepa, aquele que arregaça as mangas e sai à cata da notícia, ao contrário do jornalismo almofadinha que fica com a fama, dos figurões que se penduram ao laptop cozinhando e, não raro, cafetinando o trabalho alheio.

Claque vibrante

Muito do mau juízo que se faz da imprensa deve-se a essa casta de áulicos que se dedicam a especular sobre os dejetos da política como forma de chamar a atenção e se manter na crista da onda. São jornalistas que não fazem o jornalismo castiço, e sim um tipo de colunismo que, salvo uma ou outra exceção, se equilibra entre o esgoto que denunciam e a lama das segundas intenções. Do alto de sua relativa independência, já que ninguém vive de brisa, acabam não sendo levados a sério exatamente pela radicalização, ostensiva, por verem só um lado da moeda – o que é uma pena na medida em que muito do que criticam e abominam não só procede como deveria repercutir bem mais junto a opinião pública.

Tais distorções, por assim dizer, acabam sendo um prato cheio para os patrulheiros de plantão, aquela turma a que me referi de início, que não perde a chance de malhar a imprensa mesmo por motivos banais, por birra ou simplesmente para aparecer. Leigos que nunca entraram numa Redação, que desconhecem as técnicas, o domínio que é preciso ter dos mais variados recursos e temas, de tudo que envolve a elaboração e edição do material que chega ao público, sem falar na busca da informação em si. E ninguém melhor que este Observatório da Imprensa para volatizar idiossincrasias que no mais das vezes não passam de panfletos permeados de mal-disfarçadas motivações político-partidárias, e por isso mesmo tão pouco proveitosas quanto os ensinamentos que pretendem impingir.

Tolices como implicar com o teor de obituários, como se a quantidade de linhas devesse corresponder à importância do morto; esquadrinhar capas e capas de publicações por simples preciosismo e pedantismo; comparar nomes e épocas passadas para provar teses jornalísticas capciosas; contestar o destaque dado pelo Jornal Nacional à criminosa destruição de dez mil pés de laranja por vândalos do MST, por conta da marota conjectura de que a filmagem poderia ter sido adulterada; e por aí afora. Disparates, antolhos que, afora a consternação pelo ranço de preconceito e discriminação que emanam, só fazem sentido para a claque que vibra quando Lula diz que o papel da imprensa e do jornalismo é apenas de informar, e não fiscalizar.

Ora, se a imprensa não pode fiscalizar, se o TCU também não pode, qualé, meu ? Qualé?

Comentários (13)
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waldecy carlos dionisio dionisio , São Paulo -SP - advogado
Enviado em 8/11/2009 às 16:28:52
Bonner não fala a verdade, como também é falsa a idéia de que o jornalismo da TV Globo é o mais influente em todo país, até porque hoje as pessoas têm a disposição a valiosa ferramenta da internet para buscar informações mais isentas. Por outro lado, seis meses pode ser o suficiente para a lavagem cerebral que a emissora realiza, antes de autorizar um funcionário da casa a emitir opiniões sobre o que está em pauta, considerando a linha editorial, parcialidade e direcionamento do jornalismo da Globo.
jose carlos lima lima , goiania-GO - estudante
Enviado em 6/11/2009 às 12:06:23
Como votarão os novos ricos? Dentre estes mais de 18 milhões de brasileiros, muitos não só melhoraram de vida como ficaram ricos. Como será que estes novos ricos votarão nas próximas eleições uma vez que foi graças à política de Lula que eles mudaram ascenderam para uma classe social? Será que eles adotarão o comportamento conservador e medroso das novas classes para as quais migraram? Assumirão um comportamento diferente ou se deixarão levar pelo "eu tenho medo do Lula", de Regina Duarte? http://www.dm.com.br/materias/show/t/18_5_milhoes_de_brasileiros_ficam_mais_ricos
jose carlos lima , goiania-GO - estudante
Enviado em 6/11/2009 às 07:27:24
Pela democratização da imprensa, pelo fim do monopólio da informação nas mãos de 6 castas, segue link com foto do jogador Sorin e texto sobre a mudança na Argentina http://4.bp.blogspot.com/_eM_0eYUczbE/SvPKXuoMwzI/
AAAAAAAAFhI/Uvi_Kn2cxPY/s1600-h/argentina.JPG
 
Roberto Figueiredo , Sao Paulo-SP - Aposentado
Enviado em 6/11/2009 às 01:02:18
Enquanto este blá-blá-blá ocorre, o "bonzinho" MST está arregimentando um grupo paramilitar por este país afora visando o óbvio, e seus líderes parasitas viajam de jatinho para se juntarem aos comes e bebes do nosso presidente bonachão. Tudo às custas do povinho que, para a esquerda festiva, é um mero detalhe em sua busca desesperada pelo poder. Que venha a CPI do MST!
Fernando  Matias , sp-SP - engenheiro
Enviado em 5/11/2009 às 18:41:25
O articulista não admite, por que não quer, que os veiculos de maior penetração da imprensa brasileira tornaram-se extensões dos partidos politicos hoje na oposição. Melhor dizendo assumiram o papel que deveria caber aos partidos já que esses se pautam pelo que é publicado. Esquece que os mesmos veiculos que hoje criticam governos seletivamente foram até ontem colaboradores da ditadura. Chegaram ao cumulo de chamar de "ditabranda" o regime militar brasileiro. Essa imprensa não pode fiscalizar nem denunciar nada e ninguem porque não tem isenção para isso. Mesmo a hipocrisia em relação ao Presidente da Republica carece de base factual pois quem leu as declarações de Luis Ignacio sobre a imprensa sabe que em nenhum momento ele afirmou ser contrario a denuncias fundamentadas. O problema é que as 5 familias detentoras do quase monopolio da informação pretendem copiar, com atraso evidentemente, a imprensa americana. Esse comportamento não tem a ver com a exigencia ou não do diploma de jornalista. Tem a ver com o carater daqueles que se submetem as ordens dos donos sem contestação mesmo que isso vá contra seus principios. Todos sabem como a Casa Branca sob o governo Obama se refere a rede Fox - são republicanos disfarçados de jornalistas. Até agora o Palacio do Planalto não tomou atitude semelhante, uma pena.
Zé da Silva Brasileiro , Belo Horizonte-MG - Bancário Aposentado
Enviado em 5/11/2009 às 17:58:19
Estamos evoluindo. O eminente articulista já admite que pelo menos os não jornalistas são raramente isentos e imparciais... O alerta é muito importante. Os ainda remanescentes leitores de jornais impressos precisam estar atentos para identificar e distinguir as matérias feitas por jornalistas profissionais e, portanto, não passíveis de críticas, daquelas resultantes de colaborações de profissionais de outras áreas, possivelmente despidas da isenção e imparcialidade que ornamentam o trabalho dos jornalistas profissionais...
Ricardo Buono , São Paulo-SP - Assessor de imprensa
Enviado em 5/11/2009 às 17:47:14
Domínio da técnica jornalística: saber o que é um lead, uma retranca, um gc, como abordar um tema etc. não são, a despeito do que tenta passar o autor, a essência do Jornalismo (com letra maiúscula) e nem o que o estudante de comunicação deveria buscar numa escola de nível superior. A Universidade é o espaço da reflexão e da busca da consciência crítica (ou deveria ser). Lá, o estudante de comunicação deve discutir os próprios meios de comunicação, suas influências, suas linguagens, a quem eles servem e como servem, seus vícios etc. Filosofar um pouco, estudar ética, legislação, formas de comunicação. Saber que ele é parte do próprio público. Saber a diferença entre opinião pública e opinião publicada etc etc etc. Ser fiscal, NÃO. Desconfiar, sempre. Investigar, a fundo. Ouvir as partes envolvidas, o contraditório. Ser Jornalista não é sair ditando regras como se dono da verdade fosse. Ser Jornalista é levar ao público a informação desvelada, revelada à luz dos fatos. O resto é o que temos hoje na chamada grande imprensa, onde imperam os Bonner, que falam para os Simpsons da vida, como eles próprios admitem.
Vitor Carleial , Jundiaí-SP - jornalista
Enviado em 5/11/2009 às 16:20:09
A imprensa não tem meios para fiscalizar. Não tem acesso às declarações de rendimentos ou à movimentação financeira. Não tem acesso a informações protegidas por sigilo bancário, fiscal, profissional ou segredo de justiça. E não deveria, com expedientes de câmera escondida, por exemplo, violar o direito à honra e à intimidade das pessoas. A menos que se considere ético praticar um crime para revelar outro. Ou revelar escutas telefônicas protegidas. Ou se deixar levar por informações de bastidores, em off, muitas vezes ditas no exclusivo interesse das fontes, tratando-as como se fossem a pura expresão da verdade. Imprensa é narração dos fatos relevantes, debate de posições contrárias, análise das conjunturas políticas e econômicas. tudo por meio de informações públicas ou publicáveis e de interesse público. O resto é uso, exploração da imprensa pra fins privados, inconfessáveis, por quem não ousa sair da escuridão em que se encontram e que, por isso mesmo, não pode ter seu nome revelado.
Murilo Guimarães , Salvador-BA - Consultor Jurídico / Escritor
Enviado em 5/11/2009 às 14:14:52
Penso que este artigo acaba por demonstrar um dos erros que tornaram a imprensa em uma instituição sem a mínima credibilidade atualmente: Ao dizer "opiniões especializadas de outras áreas são sempre bem-vindas, ainda que raramente isentas e imparciais, como seria o ideal", o autor dá a entender que o jornalista profissional detém os meios de preservar a uma presumida imparcialidade "ideal" na leitura que ele faz de um acontecimento. Falácia! O mito da imparcialidade deve ser abolido do repertório demagógico dos defensores do diploma de jornalista, para que não sobreviva na sociedade a idéia de que o noticiário esteja isento de ideologias e/ou vontades corporativas ou mesmo particlares. TODA NOTÍCIA É A EXPRESSÃO DA OPINIÃO DO VEÍCULO A QUE ESTÁ VINCULADA. Não creio existir outra forma de construção da notícia. Ocorre que o jornalismo de opinião tem ido além da prerrogativa de apresentar um fato e busca forjá-lo nas redações, para impô-lo à população. Basta que assumamos que o que lemos e assistimos nos notíciários representa a posição de determinado setor econômico ou político, e poderemos ouvir Bonner dizer suas besteiras vazias, sem medo de que ele influencie o brasileiro a acreditar que o jornalismo é o detentor de verdades. Quanto à imprensa como órgão de controle social, tenho amplas dúvidas acerca disso e rogo a que vigore logo a auto-regulação do setor.
Carlos N  Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 4/11/2009 às 15:03:40
Ai se a CartaCapital tivesse pisado na bola do obituário da ex-primeira-dama tucana... A análise do obituário de Mercedes Sosa feito pela VEJA é importante, sim. Mostra o quanto o jornalismo da revista está contaminado de ideologia. E quando se coloca ideologia, tem que se tirar um pouco do jornalismo. No caso, muito. E ninguém me garante se o MST não foi "contratado" pela Cutrale para dizimar os pés de laranja : tem muito fazendeiro paulista trocando fruta por álcool. Mas pelo mesmo problema ideológico, nenhuma informação recebemos diretamemente do MST, já que a ideologia impede que a imprensa paulista dê voz a essa gente. Vou falar claro : se a imprensa graúda paulista é corajosa o suficiente para ser parcial, tem que ser corajosa o suficiente para assumir isso. Ninguém leva a sério quem se esconde nas sombras, seja o MST ou a VEJA. E a críticas a nossa imprensa nesse OI são só um pequeno aspecto disso.
Edmilson Fidelis , BH-MG - Analista de Sistemas
Enviado em 3/11/2009 às 18:41:16
Prezado, Não sou da imprensa e não sou do TCU, mas ouso afirmar que não são a mesma coisa e que o segundo não depende em nada da primeira. Mas, posso estar enganado, não sou jornalista.
Cristiana Castro , Rio de Janeiro-RJ - Advogada
Enviado em 3/11/2009 às 15:44:16
Deixa ver se eu entendi, o pessoal não pode reclamar da qualidade da imprensa pq nunca entrou numa redação´? É tipo, eu compro um sapato, a sola sai na primeira pisada e eu não posso reclamar pq não sei como se faz um sapato? Eu hein... E, sendo assim, como jornalista vai exercer a função de fiscal?Por acaso já " entraram no TCU?
sergio ribeiro , são paulo-SP - bancário
Enviado em 3/11/2009 às 15:36:25
A imprensa e os jornalistas não gostam muito mesmo de serem criticados, como disse o ombudsman da Folha. Parece que pairam além do bem e do mal. O autor do texto parece incomodado com a popularidade de outro colunista do OI, que, ao contrário dele, tem sempre observações pertinentes sobre como mal trabalha nosso jornalismo. Ninguém está querendo substituir os jornalistas ou ensinar-lhes o ofício; apenas gostaríamos que houvesse abertura maior para o diálogo, coisa que a grande imprensa abomina.
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