ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 562 - 9/2/2010
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CLICHÊS SINISTROS
A guerra das palavras

Por Luiz Fernando Vianna em 3/11/2009

Reproduzido da Folha de S.Paulo, 1/11/2009

Ler e ouvir diariamente, por dever de ofício, dezenas de notícias policiais é desagradável não só pelas crianças feridas e pelo número absurdo de mortos – foram assassinadas no Estado do Rio, entre janeiro e setembro deste ano, 4.460 pessoas. Dói também a torpeza do estilo.

A banalização dos conflitos levou a imprensa a aplicar frases feitas que lhe são passadas pelas fontes da polícia, as únicas disponíveis ou procuradas. Sem minimizar as dificuldades das forças de segurança, seguem algumas tentativas de tradução:

** "Os policiais faziam um patrulhamento de rotina na favela X" – Não há patrulhamento de rotina em favelas onde há traficantes armados. Por segurança, só entram em grandes grupos. Ou então, para fazer negócio com os traficantes, como cobrar o arreglo – procedimento conhecido como "mineirar".

** "Os policiais foram recebidos a tiros pelos traficantes" – Se estão entrando para combatê-los, não estranha que sejam recebidos assim. É a infeliz lógica de guerra. Com frequência, como diz outra expressão clichê, "entram atirando". Crianças e idosos costumam ser surpreendidos nesses casos pelas chamadas balas perdidas.

** "X bandidos morreram na operação" – Pretos, pobres e mal vestidos são, a priori, bandidos, mesmo que não se saibam os nomes e se têm fichas policiais. Se familiares e moradores "fecham a avenida X para protestar com paus e pedras contra a polícia", desconfia-se que algum inocente tenha morrido.

** "Deu entrada no hospital X, mas não resistiu aos ferimentos" – Foi morto no confronto, mas não convém deixar o corpo para eventuais perícias –ainda que improváveis – ou queixas de parentes.

** "Será aberta uma sindicância para apurar as responsabilidades dos policiais" – Nada acontecerá.

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Paulo Pinheiro , Rio de Janeiro-RJ - Advogado
Enviado em 6/11/2009 às 15:33:00
É aí temos que engolir goela abaixo, toda essa guerra urbana, sem solução por questões de descaso político. As frases quando lidas ou levadas ao ar, por seus respectivos aparelhos, já dizem tudo. Como será tudo isso quando do acontecimento da Copa e Olimpíadas?
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