ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 563 - 9/2/2010
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FIM DO MURO E DA CORTINA
Mídia cobriu a festa sem entender

Por Alberto Dines em 10/11/2009

A eufórica rememoração dos 20 anos da derrubada do Muro de Berlim logo seguida pelo destroçamento da Cortina de Ferro necessita de alguns contrapesos. A mera exaltação em torno de triunfos produz perigosos desvios cuja soma pode resultar na subversão dos fatos.

A mídia – internacional e brasileira – tem se mostrado exímia em simplificar os significados da derrubada daquela barreira entre as duas Alemanhas. Com as mesmas imagens, sutis manipulações lingüísticas e rememorações incompletas fabrica-se uma História virtual, reduzida, diferente da real.

A queda do muro berlinense e o fim do império soviético não significaram o fim do socialismo. Essa balela não honra uma imprensa qualificada que se pretende isenta e livre. O que caiu – de podre – foi o comunismo, sobretudo a sua versão stalinista, estúpida, sanguinária, totalitária.

O socialismo democrático, ou mais precisamente a social-democracia, não foi despedaçado a golpes de martelo e picareta em 9 de novembro de 1989. Ao contrário, forneceu o cimento de altíssima qualidade para a construção não apenas da República Federal Alemã, a Alemanha Ocidental, como do Mercado Comum Europeu na qual se alimentou e prosperou.

Mesmo quando fora do poder o Partido Social Democrático Alemão (SPD) conseguiu manter todas as características de um welfare-state, estado previdencial, rigorosamente democrático, herdeiro legítimo do humanismo da República de Weimar.

Imperiosa outra correção de caráter histórico-filológico: o liberalismo vitorioso não foi propriamente o liberalismo político, essencialmente democrático, mas o econômico (logo depois apelidado de neoliberalismo), aquele que abomina a função reguladora e social do Estado. O chanceler Helmuth Kohl representava o conservadorismo alemão, mas comparado com os congêneres de outros rincões, sobretudo o anglo-americano, poderia ser qualificado como progressista. Margaret Thatcher e George Herbert Walker Bush representavam o capitalismo agressivo, sem controles, implacável. Este mesmo capitalismo que se estatelou em 2008 e agora Barack Obama e Mikhail Gorbachev tentam consertar.

Messianismo futurista

Examinados pelo espelho retrovisor e com um intervalo de duas décadas, estes equívocos podem parecer insignificantes. Na realidade, foram os responsáveis por uma ilusão extremamente perigosa. A partir de 1989 – e mais visivelmente a partir de 1991 – o mundo foi intoxicado por um monolitismo medieval. E a mídia foi o arauto de uma diabólica arrogância que não apenas liquidou o Outro, como liquidou as noções de alternativa e alternância.

Fomos empurrados prematuramente para a era da Infalibilidade e das Certezas; o triunfalismo de 1989 não deixou lugar para as dúvidas, questionamentos e ceticismo. E a imprensa só existe, só funciona e só é necessária quando consegue vocalizar dúvidas, questionamentos e ceticismo.

O desvario da mídia brasileira começou justamente nesta época. Foi a fase da "brindologia", farta distribuição de brindes encartados nas edições de domingo. Os jornais queriam aumentar as tiragens de qualquer maneira. Perderam as referências, esqueceram os limites e os compromissos. Quem mandava era o marketing e os consultores internacionais. Foi exatamente naquele momento que desembarcou em nosso país a turma da consultoria Inovación Periodística a serviço da Universidade de Navarra e da Opus Dei.

Jornais e semanários de informação resolveram dar marcha a ré, retroceder na busca da qualidade. Uma imagem vale mil palavras, lembram-se desta bobagem? A vitória sobre o "socialismo" animou os esquartejadores: o mundo estava salvo, a informação qualificada era agora desnecessária. A felicidade e a prosperidade estavam disponíveis, universais. Dispensaram-se os correspondentes estrangeiros, enxugadas as páginas de noticiário internacional, criados os "pátios dos milagres" (páginas de medicina e saúde alimentadas por press releases da indústria farmacêutica).

As primeiras negociações para a criação do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) na Unicamp – embrião deste Observatório – datam justamente de 1993, quando o circo da mídia começou a funcionar em alta velocidade.

Naquele vale-tudo pós-Muro e pós-Cortina de Ferro, apareceram as novas tecnologias de informação, a internet, o messianismo futurista, o endeusamento dos gadgets, o culto da obsolescência. Sem clima para duvidar e sem tempo para exercitar a prudência, todos se aboletaram nas modas, ondas e bolhas.

Mundo de ontem

O Muro de Berlim resultou da vitória sobre o nazi-fascismo. Sua derrubada liquidou um dos protagonistas desta façanha, o totalitarismo de esquerda. O esfacelamento deste criou um totalitarismo vândalo, sem filiação, rotativo, fragmentário. Igualmente opressor.

Os mediadores entregaram-se à pressa e aceleraram mudanças que sequer suspeitavam. A mídia assistiu ao desmoronamento do Muro e da Cortina de Ferro sem os entender. Ao contrário da mobilização contra o terror nazi-fascista dos anos 1930 e 40, em 1989 e 1991 a mídia clicou flashes e câmeras sem perceber o que acontecia. Iludiu-se e iludiu.

O suspiro nostálgico do Eric Hobsbawm ao afirmar que o Muro de Berlim mantinha o mundo em segurança precisa ser entendido no contexto da sua Viena e do mundo de ontem. O historiador condenava o caos e o desvario que substituíram a Alemanha dividida e liquidaram os valores que a humanidade perseguiu sistematicamente ao longo de alguns milênios.

 

Leia também

Capitalismo precisa de sua perestroika – Mikhail Gorbachev

Antes do Muro de Berlim – Alberto Dines

O muro interior – Marcos Flamínio Peres entrevista Eric Hobsbawm [para assinantes da Folha/UOL]

Comentários (15)
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Chico  Mendes , são paulo-SP - servidor público
Enviado em 15/11/2009 às 18:32:25
O reporter da globo dizendo que o Muro foi construido por Lenin é patético. Lenin faleceu em 1924, mas como Stalin é vilão para todos, o jornalista da Globo quer jogar a culpa para cima do Lenin. E ainda tem quem acredite que foi Lenin.
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 15/11/2009 às 16:25:28
Não sei quanto o resto da Humanidade, mas para mim é muito clara a diferença entre intenção e prática política. Intenções são as idéias que são postas na mesa. "Cartas de intenções", por assim dizer. A prática é o que efetivamente foi colocado a funcionar. Para encurtar : os países do leste europeu usaram como diretriz política, entre 1917 e 1989, uma teoria social pura, que foi posta a prova. Evidente que a prática mostrou erros grosseiros - vinda proletariado ou não, ninguém que não seja elite gosta de ditaduras. Elas desabam de velhas. Isso contaminou todo o processo, já que o governo assumiu o maior vício das democracias ocidentais - colocou a "nomenklatura" em primeiro lugar. Faltou correção de diretrizes aos soviéticos - se a humildade e a Guerra Fria tivessem permitido, iriam eliminando as excrecências da teoria de Marx, e acabariam chegando a alguma coisa muito próxima à social democracia.
Angelo  Frizzo , Bento Gonçalves-RS - desempregado
Enviado em 15/11/2009 às 01:04:16
Que maravilha de jornalismo. Também estou surpreso. Espero que lendo seu artigo, uma parte nossa "imprensa democrática", comece a pensar e estudar mais profundamente no que está acontecendo no mundo. È terrível ler e ouvir desqualificados falarem bobagens, principalmente sobre assuntos que não conhecem ou não estudam. O mundo precisa da VERDADE, DA INFORMAÇÃO DEMOCRÁTICA, DA VISÃO IMPARCIAL DOS ACONTECIMENTOS.
Gonçalo Osório , Jundiaí-SP - Contador
Enviado em 14/11/2009 às 15:09:53
Mestre, Com o respeito que sempre lhe devo creio ter a liberdade de corrigir graves distorções no seu artigo. Dizer que o Muro resultou da vitória do nazi-fascismo é totalmente equivocado. O Muro foi um acerto entre as super potencias da época -- e logo os alemães ocidentais se sentiram abandonados pelos EUA. Seu argumento de que a social democracia alemã ocidental guarda qualquer semelhança com o "socialismo" ou "comunismo" do lado de lá faz Willy Brandt dar voltas no túmulo. É completamente absurdo. Como é absurda a correlação entre o evento do Muro e problemas de qualidade na imprnesa brasileira, que você mesmo vinha apontando no saudoso Jornal do Brasil já em 1977....lembra? Acho que você está escrevendo para a torcida. E recebendo aplausos do que há de pior no "pensamento" sobre imprensa no Brasil. Você não precisa disso. abração do discípulo
Bernardo Costa , Rio de Janeiro-RJ - jornalista
Enviado em 13/11/2009 às 19:06:53
Parabéns Dines. Vida longa ao Observatório da Imprensa.
Carlos N  Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 13/11/2009 às 18:02:21
Sr. Dines, o sr. está aí? Foi o sr. mesmo que escreveu este artigo fantástico? Que corrobora a luta que nós estamos mantendo contra o doutrinarismo triunfante? Apenas faço uma observação : É LÓGICO que os jornalistas que confundem a derrocada do Muro de Berlim com o fim do socialismo sabem a diferença entre totalitarismo esquerdista e teoria socialista - confundir os dois é por demais conveniente para eles, esse rei está nú há muito tempo. E tem também o corolário derivado dessa teoria - só existem ditaduras de esquerda. É só checar o que andaram escrevendo ultimamente os profetas desse credo. Para eles, dividir algo com alguém necessitado é o grande pecado capital - que o diga Obama e sua reforma previdenciária.
Werter  Macedo , brasilis-DF - economista
Enviado em 13/11/2009 às 15:57:11
Esqueceram-se também de informar o que estavam comemorando? Até aqui o que se observa no lado oriental é um processo de involução economica com desindustrialização e aumento do desemprego. O que salta aos olhos é o aumento da desigualdade entre o lado oriental e o ocidental. E claro que se pode argumentar que as pessoas que imigraram para o lado ocidental podem estar melhor, mas o que se esperava da cobertura seria um balanço critico dos resultados da unificação, para o conjunto da população e não apenas para os eventuais bem-sucedidos.
Wallace Lima , Recife-PE - Músico
Enviado em 13/11/2009 às 07:34:26
Parabéns, Dines! Sempre que, nos dias de hoje, temos a oportunidade de ler um texto jornalístico com essa qualidade, didático, com clareza, isenção, nos dá uma sensação boa de quem estivesse com surpresa recebendo uma dádiva, recebendo até com um certo acanhamento de quem não se sentisse merecedor. Essa democracia burguesa tem feito isso conosco. A única dúvida que ficou assim, de leve, a me fazer cócegas, é se a mídia realmente “se iludiu” e, em conseqüência, “iludiu”, como diz o texto, ou se, pelo menos, boa (?) parte dela não estava tão inocente e sem discernimento assim naqueles dias em que foi o arauto daquele entusiasmo pós-Muro, pós-Cortina de Ferro...
Lotar Kaestner , Curitiba-PR - jornalista
Enviado em 11/11/2009 às 23:06:44
É um prazer delirante ver o muro cair e a pretensão de alguns supostos líderes sanguinários...que se alimentaram como vampiros repugnantes da riqueza que foram incapazes de produzir. Se teorias masturbadoras desenvolvessem países o III Mundo seria I Mundo. Somente falta festejar fidel castrado para o desespero de alguns bêbados do palavreado senil e doentio que pretende se perpetuar
Onofre Santiago , Salvador-BA - aposentado
Enviado em 11/11/2009 às 17:21:07
Parabéns, senhor Dines! Excelente texto. Tive a oportunidade de conhecer bem alguns países da antiga cortina de ferro e acredito que grandes lições podem ser tiradas de lá. Basta que afastemos o fantasma do messianismo neoliberal que tem assolado o mundo nos últimos 20 anos.
Lenin Araujo , Guaraci-SP - Analista de Sistemas
Enviado em 11/11/2009 às 11:36:25
É por textos como este que o Observatório nos cativa nesse maremoto de baboseiras que se transformou a imprensa.
Geraldo  Barros , Salvador-BA - contabilista
Enviado em 11/11/2009 às 08:06:38
Primoroso texto. Parabéns!r
Carlos Diniz , Rio de Janeiro-RJ - estudante
Enviado em 10/11/2009 às 21:53:16
Não sr. Luciano,o que o Dines dizia é que o capitalismo naquelas tempos foi conciliado com políticas de welfare state,Ironicamente bandeira dos partido socialistas/trabalhistas que na verdade já existiam desde o século XIX,mas diferente do comunismo não procuravam mudar o sistema ou pregar "revolução".Pra você ver como generalizações nem sempre correspondem a realidade. Maior participação do estado na economia,hoje visto como resquício totalitário foi regra por muito tempo no capitalismo do pós-guerra,baseado nas idéias do Keynes.É irônico que foi justamente dessa época até inícios dos anos 70 "a era de ouro do capitalismo",com as maiores taxas de crescimento já vistas. Estado de bem estar social que aliás começou a ser desmantelado na década de 70-justamente com o ressurgimento das teorias do liberalismo econômico com Hayek-o mesmo cujos alunos foram "convidados" no Chile de Pinochet as testar suas teorias e conômicas,sendo seguido em maior escala na Inglaterra de Tatcher e nos EUA. O engraçado em que nos países da escandinávios muito se manteve ainda do welfare state.E da época estatizante mesmo a França ainda apresenta resquícios,vide ao fracasso de Sarkozy alguns anos atrás de implantar "reformas".
Luciano Vasconcelos , Fortaleza-CE - Funcionário público
Enviado em 10/11/2009 às 20:35:45
Pelo que entendi o Sr. Dines está afirmando que na Alemanha como em toda a Europa ocidental o sistema econômico vigente não é o capitalista. De acordo com seu pensamento, naquele continente não deve existir propriedade privada dos meios de produção nem a existência de mercado livre que são a base do capitalismo em qualquer lugar do mundo.
Geraldo Silva , Belo Horizonte-MG - **
Enviado em 10/11/2009 às 20:30:51
O que caiu foi o socialismo. O comunismo é etapa posterior ao socialismo. Etapa essa que não foi alcançada
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