ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 563 - 9/2/2010
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O MURO, 20 ANOS
Os trapalhões e o Muro de Berlim

Por Silio Boccanera, de Londres em 10/11/2009

É só um pouquinho de exagero dizer que o Muro de Berlim caiu por causa de uma entrevista coletiva. Mas se não fosse a trapalhada do porta-voz do governo alemão oriental naquela noite histórica vinte anos atrás, o Muro não teria caído. Ou, pelo menos, não em 9 de novembro de 1989, mas talvez semanas ou meses depois, como resultado de forças históricas já em ebulição.

Só que Gunther Shabowski merece o Prêmio Renato Aragão como o trapalhão do comunismo – ou do fim dele – porque divulgou uma informação errada naquela noite fria em que as pessoas em casa o acompanhavam pela televisão, em meio a movimentos populares de rebeldia no mundo comunista como nunca se tinha visto.

Muitos alemães-orientais entenderam as palavras dele como anúncio de que o Muro estava aberto e assim correram para os pontos de travessia oficial – reservados ao privilegiados – e os policiais tiveram de dar passagem mesmo, pois a alternativa era disparar contra uma multidão que crescia sem parar. E, afinal, os guardas também tinham ouvido a mancada de Shabowski em rede nacional.

Notícia quente

Em plena fervura dos protestos de rua sem precedentes em Leipzig, Dresden, Berlim do Leste e outras cidades da então Alemanha Oriental, Shabowski tinha tirado alguns dias de folga. Só um burocrata do mundo comunista fechado e censurado para não perceber a história pegando fogo em volta e sair de férias.

Quando retornou ao batente, ele faltou a um encontro da cúpula do governo, quando se discutiu justamente um plano para autorizar alemães do Leste a viajar ao Ocidente. Eles afinal já estavam fazendo isso de maneira clandestina e atabalhoada, o que deixava as autoridades comunistas em posição embaraçosa para explicar porque tantos fugiam do paraíso proletário.

Milhares de alemães do Leste que tinham ido à Hungria – trajeto permitido, porque o bloco soviético como um todo era fechado à saída para o mundo ocidental – se aproveitaram da recente abertura de fronteira entre Hungria e Áustria e cruzavam para o outro lado, onde pediam asilo na embaixada da Alemanha Federal, a parte não- comunista.

Na tal reunião oficial que Shabowski perdeu, o governo comunista decidiu que iria autorizar saídas – mas com ordem, sob controle, após a emissão de vistos, carimbos lá e cá, cópias em várias vias, até para o guarda de trânsito. Ou seja, pretendiam fingir abertura para baixar a pressão das ruas e controlar as massas, como de hábito.

Redigiu-se um press release com essa "decisão" e uma cópia foi entregue a Shabowski quando ele entrava no prédio horroroso do Centro de Imprensa Internacional, lotado de jornalistas estrangeiros porque os acontecimentos naquele período em Berlim eram quentes, notícia no mundo todo.

Metáfora nebulosa

Não custa lembrar que o secretário-geral do Partido Comunista, Erich Honnecker, tinha caído do poder poucas semanas antes, após duas décadas de comando autoritário. Em outubro, o líder soviético Mikhail Gorbachev tinha passado por Berlim-Leste e deixado claro que não ia usar suas forças baseadas na região para esmagar os movimentos de dissidência que se espalhavam pelo mundo comunista.

Sob este clima politicamente acalorado, a entrevista coletiva de Shabowski se arrastava com informações genéricas, até que um jornalista italiano perguntou sobre os tais planos do governo para autorizar viagens (boatos neste sentido já corriam). O porta-voz mal-informado responde que os planos tinham sido aprovados.

Epa! – anima-se um jornalista britânico. "Para efeito quando?"

Shabowski pega o press-release que lhe tinha sido entregue às pressas, olha de um lado e do outro, fiz uma leitura dinâmica e diz: "Efeito imediato, me parece".

"Em Berlim também?" – pergunta outro, surpreso, e logo acrescenta: "E o Muro?"

Shabowski responde com uma metáfora nebulosa sobre a eventual perda de "impermeabilidade" do Muro, o que ninguém entendeu, mas quando chegou a este ponto das explicações, suficientes para provocar infartos nos outros burocratas sentados a seu lado, quem ouvia de casa concluiu logo: "Liberou geral!"

Lição de história

Muitos saíram em direção ao Muro. Quem demorou ainda teve oportunidade de ver em casa o telejornal da emissora alemã-ocidental, captável do lado comunista e mais respeitada por não ser chapa-branca. O veterano locutor anunciou que centenas de pessoas estavam atravessando o Muro de Leste para Oeste (o contrário sempre foi possível). Ainda não era verdade, porque os guardas hesitaram um pouco em abrir as cancelas, mas logo se tornou realidade e milhares atravessaram.

Era noite de quinta para sexta-feira e logo o fim de semana iria permitir um passeio em massa de famílias, amigos, grupos, do setor comunista para o lado ocidental. Não uma mudança definitiva, mas uma visita curta, para rever parentes, conhecer partes do que um dia tinha sido um só país – e que em menos de um ano voltaria a ser. Os visitantes entravam em prédios, museus, cinemas, livrarias, lojas, sem conseguir esconder o choque diante da opulência e da fartura de Berlim Ocidental (superior inclusive ao padrão de outras cidades ricas alemãs). A oferta excessiva ofuscava quem estava acostumado com a austeridade do lado comunista.

Em semanas ou meses, outros países do bloco soviético na Europa passaram por transformações radicais, derrubaram regimes autoritários que duravam desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Dois anos depois, até a União Soviética desapareceu, pouco depois de uma tentativa desesperada da linha-dura para derrubar Gorbachev e suas reformas. Nas palavras de Karl Marx em outro contexto, após 70 anos de prática mal-sucedida, o comunismo na Europa virou cinza. E a abertura do Muro de Berlim serviu como símbolo das mudanças, uma lição de história.

Outra lição, como pode atestar Shabowski, é nunca dar uma entrevista coletiva mal informado.

Comentários (10)
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rafael palomino , araraquara-SP - professor
Enviado em 21/11/2009 às 12:07:56
Sr. Salinas, se a história não é treino de futebol, vamos parar de insistir com o capitalismo. Já deu bastante errado em muitas partes do mundo. Vem dando errado no Brasil há pelo menos cinquenta anos. E olha que não estou nem me referindo às guerras por petróleo para impulsionar indústrias dos países desenvolvidos, ou às inúmeras ditaduras de países capitalistas. Isso soa um argumento equivocado? Pois é o seu argumento. E está equivocado mesmo: assim como uma experiência capitalista fracassada em um país não significará, necessariamente, o fracasso do capitalismo, o fracasso da URSS não significará, necessariamente, o do socialismo. Para decretar o fracasso ou do socialismo ou do capitalismo, não basta recorrer a exemplos históricos. É preciso encontrar uma falha estrutural em suas proposições. Ou isso, ou a conversa será idológica demais e lógica de menos.
Marcelo Conti , São Paulo-SP - Bibliotecário
Enviado em 16/11/2009 às 18:38:09
Nossos nobilíssimos jornalistas, imbuídos do mais profundo sentido de altruísmo que se pode ter, não poderão jamais esquecer dos atuais muros da vergonha (EEUU x México e Israel x Palestina). Tenho certeza de que esses nobre profissionais estão escandalizados e tristes por viver num mundo cheio de muros, não é mesmo?
Paulo  Santos , Manhuaçu-MG - professor
Enviado em 16/11/2009 às 13:04:35
Caiu o muro de Berlim mas surgiram outros mais vorazes: na fronteiras do México, com os EUA, na Arábia Saudita, na faixa de GAza e até no Rio de Janeiro. O mundo continua polarizado como dantes : exploradores de uma lado e explorados do outro. Os exploradores, a custa de uma máquina militar jamais vista e uma indústria de propaganda da grande mídia, que faria inveja a Hitler, com ameaça permanente aos não alinhados e perseguição indecente como o caso de Cuba. Os explorados tem sua auto estima esmigalhada, entre outros fatores, pela restrição ao direito mais sagrado que o de ir e vir e o saldo banal (sic) de seis milhões de mortes por inanição anualmente (17 mil a cada dia).
CArlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 13/11/2009 às 18:24:03
Socialismo é ótimo. Capitalismo auto-consciente é bom. Ditaduras são ruins. Ditaduras são ruins, sejam socialistas, teocráticas, capitalistas ou comunistas. Liberdade é ótimo. Democracia é ótimo. Ponto. Dúvidas?
eduardo salina , são paulo-SP - engenheiro
Enviado em 12/11/2009 às 14:02:36
Caro Diniz, o socialismo, segundo a teoria marxista,é a etapa que precede o comunismo-a sociedade ideal, sem classes.(À qual,de resto,nunca chegaremos).Claro que os partidos trabalhistas são de origemsocialista,mas todos abriram mão do marxismo.A Guerra Frio persiste na Coréia separada e a diferença entre as duas Coréias é a prova viva do fracasso do socialismo.A China é um capitalismo de Estado sob gerência de um partido único,que é socialista só na retórica e no autocratismo.Resta saber até quando a sociedade chinesa aceitará abrir mão da liberdade e do pluralismo político em troca desse surto de modernização econômica.
Carlos  Diniz , Rio de Janeiro-RJ - estudante
Enviado em 12/11/2009 às 11:50:22
Socialismo(s) não é sinônimo de comunismo sr. Salina,os partidos trabalhistas europeus são por exemplo de origem socialista,se distanciando das idéias do Marx ainda nos idos do século XIX. O muro de Berlin caiu,mas outra herança da guerra fria continua na Coréia separada . E da China,que é uma ditadura,mas "aliada" e que adotou práticas do capitalismo poucos falam nesse momento...como a mídia facilmente se esqueceu dos protestos ano passado perto das Olimpíadas.
eduardo salina , são paulo-SP - engenheiro
Enviado em 11/11/2009 às 19:00:41
Se o fim d URSS não é o fim do socialismo,como diz o professor Palomino, devemos pressupor,então, que ele está disposto a tentar de novo.Pena que a sociedade humana não seja como treino de futebol, onde o técnico manda o perna de pau bater o escanteio até aprender.O socialismo não deu certo simplesmente porque obras de engenharia humana estão fadadas ao fracasso.O homem não foi feito para viver sob coerção.Muito menos sob uma coerção planejada.
rafael palomino , araraquara-SP - professor
Enviado em 11/11/2009 às 11:46:01
Entendo as críticas ao regime soviético e a razão de seu esfacelamento. Concordo, porém, com um comentarista abaixo: é difícil acabar com a História. Nem o bloco soviético poderia se perpetuar, nem se pode perpetuar o capitalismo de hoje e suas bolhas. A História caminhou de tal forma que, findo o bloco soviético, vivemos em pensamento único de novo, dessa vez no bloco capitalista, que é o mundo todo. Mas o fim da URSS não é o fim do socialismo, como querem os donos do poder monolítico de hoje. A História não pára.
Pedro pererira Pererira , palmas-TO - oleiro
Enviado em 11/11/2009 às 02:18:20
Obrigado por nao ser falacioso Ipso Facto
Jaime Collier Coeli , Itanhaem-SP - Aposentado
Enviado em 10/11/2009 às 12:16:44
Não é exagero observar que a historia do comunismo, por conseguinte, terminou em farsa. Mas há algo mais sério a perguntar: regimes monoliticos, fundamentados em propagandas opostas, uma para o publico interno, outra para o publico externo, terão condições de se perpetuar? De fato, é muito dificil acabar com a Historia e isso vale para todos. Uma estoria acaba, outra nasce.
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