ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 564 - 17/11/2009
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O DIREITO NA IMPRENSA
Demagogia e agressões na área jurídica

Por Dalmo de Abreu Dallari em 17/11/2009

O noticiário da área jurídica tem sido concentrado em fatos relacionados com o Supremo Tribunal Federal e com o Conselho Nacional de Justiça, mas sempre dando absoluto relevo às opiniões e às determinações do presidente do Supremo Tribunal, ministro Gilmar Mendes, que atualmente é também presidente daquele Conselho.

Diariamente a figura do ministro presidente aparece na grande imprensa, em vistosas fotos, ilustrando matéria em que ele faz o julgamento prévio de fatos e autoridades, antecipando mesmo sua opinião sobre questões que muito provavelmente chegarão ao Supremo Tribunal Federal por via recursal, para decisão daquela Corte, presidida por ele mesmo.

Já é opinião corrente na área jurídica que o setor mais ativo do Judiciário brasileiro na atualidade é a assessoria de imprensa do presidente do Supremo Tribunal Federal. O que se observa, entretanto, é que tal dinamismo, centrado na promoção pessoal da figura do presidente, configura uso indevido de recursos públicos, pois a manutenção e o uso dessa assessoria personalizada consomem, irregularmente, recursos orçamentários da mais alta Corte brasileira.

Significado positivo

Com freqüência a matéria divulgada contém acusações a juízes e tribunais, afirmando ou sugerindo que o Judiciário trabalha muito pouco e daí a grande demora nas decisões, a par da afirmação da incompetência e falta de responsabilidade dos dirigentes, que são apontados como incapazes de imprimir uma boa gestão e que praticam o mais escandaloso desperdício dos recursos financeiros destinados ao tribunais, sendo prova disso a elevada despesa com pessoal, que supera muito os demais itens da despesa.

Partindo deste último ponto, seria espantoso, isto sim, se um tribunal gastasse mais com equipamentos e materiais do que com pessoal. A despesa básica dos tribunais é e deve ser, precisamente, com pessoal, pois o Judiciário presta serviços de alta relevância social, valendo-se das atividades de pessoas que se ocupam das mais diversas tarefas, desde a coleta e organização de documentos e sua intensa movimentação entre diferentes setores do Judiciário e dos que nele atuam, até uma decisão final e sua divulgação.

Isso é fundamentalmente diferente, por exemplo, de uma Secretaria de Obras, que deve comprar máquinas, aparelhos diversos e grande quantidade de ferramentas, de equipamentos e de materiais, para a execução de obras e serviços.

Acrescente-se, ainda, que a partir da Constituição de 1988 cresceu muitíssimo o volume de trabalho dos juízes e tribunais, o que tem um significado altamente positivo, pois revela que milhões de brasileiros que antes não tinham acesso à Justiça agora buscam, com o apoio do Judiciário, a defesa e efetivação de seus direitos.

Promoção pessoal

Tem sido freqüente o noticiário, com títulos chocantes, sobre a elevada despesa do Judiciário com pessoal, mas nenhum órgão da imprensa fez referências ao tremendo volume de trabalho dos órgãos judiciários, sem que tenha ocorrido uma substancial melhoria de suas instalações e de seus meios de atuação. Seria justo, e muito valioso para o fortalecimento do sistema democrático brasileiro, esclarecer o povo sobre a quantidade de processos que ingressam diariamente no Judiciário, dando algumas informações sobre a complexidade de sua tramitação e, com ênfase, sobre a quantidade de decisões proferidas.

Chamar a atenção para esses pontos seria um serviço público relevante, pois na tradição brasileira o Judiciário é um Poder mais fraco, sobretudo em termos de participação nos orçamentos públicos. E as regras constitucionais sobre a tramitação das leis orçamentárias legalizam essa fraqueza, pois o Judiciário deve enviar ao Executivo sua proposta de orçamento, que normalmente sofre cortes substanciais, não tendo qualquer possibilidade de influir para que o Executivo e o Legislativo, que negociam a versão final da lei orçamentária, reconheçam suas necessidades e lhe assegurem os meios necessários.

Assim, pois, em lugar de contribuir para a promoção pessoal de personagens e para a desmoralização do Judiciário a imprensa deveria atuar com responsabilidade, dedicando grande espaço às atividades judiciárias e ressaltando sua importância para a convivência pacífica e justa dos brasileiros.

Comentários (10)
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Zé da Silva Brasileiro , Belo Horizonte-MG - Bancário Aposentado
Enviado em 20/11/2009 às 10:05:32
O eminente Jurista poderia nos brindar com um artigo sobre a necessidade ou não de um efetivo controle externo do judiciário. Essa idéia foi amplamente debatida e recebeu grande aceitação mas no final o que surgiu foi o CNJ - Conselho Nacional de Justiça - um órgão interna corporis onde os membros do próprio poder judiciário constituem ampla maioria e que, ademais, não tem jurisdição sobre o STF. O fato é que enquanto nós, cidadãos, somos corresponsáveis pelas mazelas dos poderes executivo e legislativo de vez que somos chamados periodicamente a referendar os seus mandatos, no caso do poder judiciário, os cidadãos brasileiros só têm realmente o direito de pagar os elevados impostos que custeiam a obesa, cara, lenta, inapropriada e inoperante justiça brasileira. Recentemente um ministro do STF denunciou a existência de sessenta recursos em um processo penal de um figurão. É evidente que a admissão de ritos processuais tão ultrapassados, caros e inoperantes só pode ter como resultado a aplicação da justiça apenas aos pobres que não têm recursos para custear esses caros ritos processuais. Alguém já disse que se Bernard Madoff, condenado a uma pena de prisão de 150 anos nos Estados Unidos, tivesse cometido os seus crimes no Brasil, ele estaria por aí livre e solto, enquanto as autoridades que tivessem a coragem de causar-lhe constrangimentos estariam respondendo a processos...
HERBERT BRUGGEMANN , Brasília-DF - Aposentado
Enviado em 19/11/2009 às 23:08:19
Excelente. A auto-promoção de GM está com os dias contados, graças ao fim próximo do seu famigerado mandato. Aliás, GM está em baixa mesmo...
Teócrito  Abritta , Rio de Janeiro-RJ - Físico e Escritor
Enviado em 19/11/2009 às 21:10:05
Que o douto jurista me perdoe. Mas ouso discordar de sua inexplicável “cegueira”. Considero que a imprensa em geral é até condescendente, ou “amaciada” no trato dos assaques do crime organizado aos tribunais superiores e não dá o destaque merecido, ou até mesmo tenta desqualificar, o heroísmo da banda judiciária sadia, que com juízes e procuradores honestos tenta defender a sociedade brasileira, da corrupção que campeia livre nos três Poderes da República. Não me alongarei, pois já escrevi diversos artigos sobre este tema, principalmente aqui no Observatório da Imprensa. Seria mais realista que Dalmo Dallari conclamasse advogados, juízes, promotores e desembargadores a romperem com as farsas corporativistas de segredo de justiça e foro privilegiado, escolhendo entre a denuncia da verdade ou a podridão da vala comum da corrupção.
Laércio Lucas Baryoussef , Juazeiro-BA - Estudante de Jornalismo
Enviado em 19/11/2009 às 12:44:57
O Sr. Gilmar Mendes aparece na mídia como presidente do Supremo, porém sempre mete os pés pelas mãos opinando politicamente, a velha mania dos sabichões, abundantes no judiciário. As palavras mal saem da boca e tomam um rumo que não é de sua "jurisdição". É um pitaco atrás do outro. Mas será o Benedito? Cada macaco no seu galho, ora, bolas.
Fábio de Oliveira Ribeiro , Osasco-SP - advogado
Enviado em 19/11/2009 às 12:11:34
Concordo em parte. A culpa do gasto excessivo com auto-promoção publicitária dos Juízes (o senhor citou Gilmar Mendes, mas há outros casos) não é da imprensa, mas dos próprios Juízes. São eles que administram o orçamento que o senhor considera exíguo. Se gastarem menos com auto-promoção e mais com o aumento de pessoal as coisas melhoram. Há ainda a disparidade entre o tratamento que os Juízes dão aos seus salários e aos salários dos demais servidores. Enquanto não houver vinculação entre os reajustes dos salários Juízes e dos demais servidores, eles tenderão a engordar os seus vencimentos e manter magros os vencimentos dos outros (como tem acontecido). Há ainda uma outra questão relevante: os Juízes exercem uma parcela da soberania popular, mas não são nem eleito nem removidos dos cargos pela população. Isto fomenta o corporativismo e a impunidade e merece ser corrigido.
Joana Pondes de A. Venancio , São Paulo-SP - Bacharel em Direito
Enviado em 19/11/2009 às 03:05:53
De novo atacando o ministro Gilmar Mendes?? Mas o que acontece? É inveja??
José Paulo Badaró , São Paulo-SP - desempregado
Enviado em 18/11/2009 às 15:49:04
Mil perdões, professor, mas acho tudo isso irrelevante. Obter a prestação jurisdicional neste país é o mesmo que participar de uma ginkana! O que se pode esperar de um sistema legal que consagra o calote dos precatórios?! A troco de que perdermos tempo discutindo a promoção pessoal do Gilmar Mendes se isso não vai durar muito, já que em abril do ano que vem o mandato dele termina?! O problema, professor, é que tem gente que há muito superou a decantada morosidade da justiça, a corrupção, a fase dos recursos protelatórios, ganhou o processo, gastou uma fortuna com advogados, mas não viverá o suficiente para ver a cor do dinheiro que o Estado lhe deve. A culpa é do Legislativo que aprovou uma disposição imoral, desumana e iníqua como essa?! Perfeito! Então o Judiciário que não enrole, que não faça média com o Legislativo quando tiver que julgar uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, especialmente quando der de cara com uma aberração como essa dos precatórios. Se assim o fizer estará mostrando para o que serve.
Herodoto Carneiro , Rio de Janeiro-RJ - estudante de jornalismo
Enviado em 18/11/2009 às 02:44:27
Caríssimo Professor: A imprensa está correta em denunciar as mazelas do judiciário;este que é lento, obscuro e oneroso para a sociedade.Não esqueçamos a Ordem do Advogado$ que mais parece um cassino e que protege os profissionais corruptos em nome do papel pintado.Chamo-lhe à atenção para o processo 1993.001.063217-7 que tramita no TJRJ,onde advogados,juíza$,empresários e promotores de justiça sem registros no MPRJ participam de ROUBO de herança de idosos.Na cessão de direito de herança o herdeiro e inventariante foi alijado (vide cláusula primeira) a partir de uma declaração falsa.Não houve a partilha formalizada e inúmeras etapas do processo foram violadas.Um dos advogados da empresa de construção civil utilizou o nome do inventariante para pedir a avaliação do bem roubado,gerando uma dívida pública.Este advogado CRIMINOSO estudou na EMERJ e trata os juíze$ como iguais.O que dizer do estelionatário vinculado a empresa que atuou no processo sem ser advogado (vide notificação extrajudicial) ? Veja também o processo 2007.203.011631-5 (reintegração na posse).Esta [ ] atua no TJRJ com os beneplácitos do seu presidente, do CORREGEDOR GERAL DA JU$TIÇA(vide as relações perigosa$ em O GLOBO de 8 de Novembro de 2008) e principalmente do Ministro Inoperante da Ju$tiça. Uma pichação em um muro do Rio de Janeiro: A política é um prostíbulo e o judiciário uma latrina .
Jose Antonio mde Oliveira Oliveira , Rio de Janeiro-RJ - jornalista
Enviado em 17/11/2009 às 17:46:38
Uma parcela considerável da mídia tem apresentado uma imagem bastante positiva do presidente do STF. Mas não existe unanimidade. Basta ler Carta Capital, sites e blogs da Internet, hoje relevantes para a formação de opinião. É cedo para um balanço de sua atuação. A média que acompanha sistematicamente os membros do Executivo e Legislativo, até recentemente foi econômica ao noticiar as mazelas do Judiciário. Essa divulgação é de suma importância para a sociedade e para o próprio judiciário, desde que não se caia em reducionismos estigmatizantes. A proposito, na semana que passou o jornal O Globo fez uma série de reportagens com denúncias que envolviam membros do judiciário carioca. Não sei se o senhor teria algum comentário a respeito. De qualquer forma discussões de situações concretas evitam tergiversações longas e inúteis. Por outro lado, não basta um poder público mostrar que está se esforçando, o usuário necessita de respostas eficientes e eficazes, para suas demandas, em taxas aceitáveis. É público e notório que a capacidade do judiciário de responder às suas demandas está comprometida, por vários motivos. Se não depende só do judiciário melhoraria dessas respostas, temos que acionar os outros poderes da república para ajudar na modificação do seu perfil. sob os olhos atentos da sociedade.
Gustavo Sobral , Natal-RN - advogado e estudante de jornalismo
Enviado em 17/11/2009 às 15:05:31
Caro professor, seu artigo aborda questões do nosso tempo, uma delas, a promoção pessoal que atinge também juízes e promotores que pairam, muitas vêzes, sobre a notícia - um fato -; desconfio, acompanhando a imprensa local (Natal/RN), que há até assessorias de imprensa por trás da divulgação, porque uns "aparecem" mais que outros, e estes uns aparecem com frequência; a outra delas, o papel da imprensa na divulgação das atividades do judiciário. A imprensa deve continuar denunciando a morosidade, os cartórios abarrotados de processos, as propostas de reajuste de salários de juízes e promotores, a falta de cobrança do que seria uma espécie de "produtuvidade" dos juízes e promotores e de seus "assessores especiais", ou seja os nomeados, e não concursados.
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