ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 564 - 9/2/2010
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DEPOIS DO APAGÃO
A quem pertence a informação?

Por Sylvia Moretzsohn em 17/11/2009

Peço emprestado o título de um famoso livrinho do jornalista Washington Novaes, publicado nos anos 1980, para propor um desdobramento a uma nota de Luiz Egypto publicada neste Observatório (ver aqui), que apontava "cenas de jornalismo explícito" na tentativa de uma repórter da Rede Record entrevistar ao vivo o secretário de Minas e Energia, que aguardava no link da Globo o momento de entrar no ar, no dia seguinte ao apagão que atingiu praticamente o país inteiro por algumas horas.

Peço emprestado esse título porque não quero entrar nos detalhes sobre o fato imediatamente aparente – o conflito Record x Globo, de que este episódio foi mais uma peça, especialmente depois de divulgado no Youtube sob o título evidentemente exagerado que acusava a Globo de impedir a concorrente de trabalhar. Mesmo porque, não foi propriamente (ou, pelo menos, não foi diretamente) a Globo que impediu a entrevista, mas a assessoria de imprensa do ministério.

Independentemente das considerações sobre os procedimentos habituais de agendamento de entrevistas, há um fato concreto: o programa (Hoje em Dia) da Record estava no ar, chamando a repórter ao vivo. O secretário aguardava – e aguardou durante pelo menos oito minutos, o tempo de duração do trecho do vídeo disponibilizado na internet – para dar entrevista à Globo. O que o impedia de falar com a outra emissora, nesse período? A obediência ao agendamento previamente acertado pela assessoria. O que deve causar espanto para o público leigo, para quem as emissoras de rádio e TV prometem o fato no ato, a informação em tempo real, entre outros slogans que reiteram a urgência como uma característica do jornalismo.

Inventário necessário

O vídeo serviu para explicitar a cena: uma autoridade pública, estática, com o sorriso protocolar congelado, subserviente às regras determinadas pela assessoria, incapaz de uma reação autônoma. E o assessor, nervoso com o imprevisto e cioso do seu dever de zelar pela agenda previamente acertada. Por acaso, com a Globo.

Seria ocioso perguntar se o comportamento seria diferente se a situação fosse inversa. Seja porque é inútil falar sobre hipóteses, seja porque seria raríssima a hipótese de a Globo não ter prioridade, em qualquer caso.

No entanto, se a informação é um bem público, é assim que deveria ser considerada, independentemente de interesses privados. Especialmente quando é uma autoridade pública a fonte da informação. Mais ainda quando se trata de uma informação sobre um fato que abalou quase todo o país.

Quem tem alguns anos de vida se recorda de uma das maiores e mais escandalosas cenas de privatização explícita da informação, durante o lançamento do Plano Collor, em 1990, quando a então ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, subitamente deixou a coletiva e, ato contínuo, apareceu para uma exclusiva com Lilian Witte Fibe, na TV Globo.

Hoje, às vésperas da Conferência Nacional de Comunicação, com sua extensa pauta sobre democratização da informação – e apesar da arrogante ausência das maiores empresas de comunicação do país, aliás boa parte delas concessionárias de um serviço público –, valeria a pena fazer um inventário dessa relação entre empresas jornalísticas e assessorias. Especialmente quando se trata de assessorias de órgãos públicos. Porque talvez seja útil demonstrar que o compromisso com o público exige que se pense além da cartilha.

Comentários (3)
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Valter Guimarães Guimarães , Macaé-RJ - publicitário
Enviado em 19/11/2009 às 11:24:04
Entre as muitas ipótses sobre o apagão, não deve ser descartada uma que ainda não foi aventada; hackers a mando do crime. As horas que o Brasil ficou as escuras foram suficiêntesa para entrar por ar, terra e mar, drogas, armas e todas outras alternativas que possam mante-los abastecidos. Quanto maior a pressão, maior será a criatividade do poder paralelo que conta com recursos maiores que a própria lei.
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 18/11/2009 às 11:09:06
Precisamos discutir urgentemente a questão da mídia como concessão do Estado. Não adianta se ater a briguinhas estúpidas que, ao final, só cobram uma outra hierarquia de um mesmo privilégio o que precisa se colocar na pauta é a filosofia das relações entre poder público, concessionárias e o direito do cidadão a uma informação de qualidade senão isenta, que desse voz a todos os lados da moeda.
Lucas Souza dos Santos , vila velha-ES - comerciante
Enviado em 18/11/2009 às 00:01:14
A repórter da rede record poderia muito bem falar com o ministro após a entrevista como ele se propôs a fazer, mas a repórter foi lá para provocar a confusão e não trazer informação. Não havia esta nescessidade imediata de falar como ministro antes ou durante a entrevista com a globo, mas a record está disposta a transformar a "guerra" com a globo numa baixaria que atingiu vengonhasamente o seu departamento jornalistico. No vídeo podemos ver como o jornalista do estúdio da emissora instiga a reporter a continuar com sua estúpida tentativa de entrevistar o ministro inclusive invadindo o link da globo bem como sua tenda onde seria feita a famigerada entrevista.
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