ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 565 - 9/2/2010
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LEITURAS DO LIBÉRATION
A mão santa de Thierry Henry

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 24/11/2009

Os jornalistas de Libération fizeram na semana passada uma edição histórica num genial exercício do que os franceses chamam de "autodérision" (auto-zombaria). Na quarta-feira (18/11) à noite, a seleção francesa de futebol ganhou da Irlanda no Stade de France, em Paris, e se classificou para a Copa do Mundo. Uma vitória de 1 a zero, arrancada a fórceps. Ou melhor, arrancada pela mão esquerda de Thierry Henry, o capitão da seleção francesa, numa falta providencial que escapou ao juiz sueco Martin Hansson, mas não aos jogadores irlandeses e a todos os espectadores do jogo, em casa ou no estádio.

O jornal poderia ter feito uma cobertura correta, defendendo a ética no futebol, lamentando a classificação marota. Mas Libération foi mais longe.

Longe de qualquer chauvinismo, os jornalistas de Libération fizeram da edição de sexta-feira (20/11) um jornal para ser guardado preciosamente por quem se interessa por jornalismo e pelo trabalho de edição de um jornal em papel. A começar pela capa, totalmente ocupada pela foto da mão "milagrosa" de Thierry Henry e fugindo à paginação do novo projeto gráfico, que reúne na "primeira" ao menos cinco chamadas variadas, com fotos, dos principais assuntos.

O título, dentro da tradição do Libé de fazer jogos de palavras, que muitas vezes tornam difícil a compreensão a quem não domina o francês coloquial, dizia: "C´est pas le pied". A mão de Henry não é o pé, com o qual se deve jogar futebol, evidentemente. Mas a expressão também significa algo que não é legal, não é uma boa coisa. Logo, a mão "c´est pas le pied", não é legal.

A melhor seleção

Na edição que o talento dos jornalistas comandados por Laurent Joffrin tornou digna de colecionadores, havia mãos da primeira à última página, em todas as matérias. No lugar da foto jornalística dos personagens, apenas a mão ou as mãos dos mesmos, sem o rosto. Até a matéria da correspondente no Brasil, Chantal Rayes, sobre a votação do Supremo Tribunal Federal brasileiro pela extradição de Cesare Battisti tinha apenas a mão do presidente. O título dizia: "Lula, dernier recours de Battisti". Em vez do rosto, a mão de Lula com quatro dedos.

Crítico, o diretor de redação do jornal assinou o texto curto da capa que dava o tom da edição. Nele, Laurent Joffrin sonha com um mundo ideal no qual um jogador que comete uma falta não vista pelo juiz se denuncia. Neste caso, o juiz anularia o gol, feito com a ajuda da mão salvadora, e o jogo continuaria, com a vitória da melhor seleção que, no caso em questão, não era a francesa. Joffrin sonha, ainda, com uma idéia menos cínica e chauvinista do futebol.

Gol de placa

Na página 4, a última das três dedicadas ao assunto e na qual os entrevistados debatem a possibilidade de refazer o jogo de classificação França vs. Irlanda – e o que pode ser feito para evitar esse tipo de erro no futuro – o jornal contou o making-of da edição que, aparentemente, causou muito prazer aos jornalistas.

A Redação ficou dividida entre os indignados defensores da ética, que viam no resultado uma desonra, porque "roubado", e os fatalistas que diziam que futebol é isso mesmo: ou o juiz vê a falta e marca ou não vê e nada acontece.

O making-of tem o título de "Terceiro tempo no Libé".

O jornal marcou um gol.

Comentários (8)
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Willian Vieira , São Paulo-SP - Estudante
Enviado em 3/2/2010 às 21:22:03
É possível conseguir uma cópia eletronica dessa edição do Liberátion?
Tâmara  Gadelha , João Pessoa-PB - Estudante de Relações Públicas
Enviado em 29/11/2009 às 17:28:10
A utilização de artifícios e técnicas mirabolantes pra um time poder ganhar vantagens está cada vez mais diversa, é jogador caindo sozinho pra fingir pênalti, é outro tentando atrasar o jogo dissimulando dores e até ajeitadinhas com a mão pra fazer gol. Assim foi garantida essa aparente “pseudo classificação” da França na copa, pois é, o esperto capitão do time da França Thierry Henry deu o seu jeitinho sutil pra colocar seu time nos jogos da copa e ainda disseram que não teve mão naquela jogada, ok!!! Criaram pra essa jogada a frase "LA MAIN DE DIEU", eu retificaria assim "LA MAIN DE HENRY". Bem vindos a copa França!
sergio ribeiro , são paulo-SP - bancário
Enviado em 25/11/2009 às 11:09:11
Realmente uma jogada de craque do jornal, pela criatividade e inovação. Quanto ao lance, ele remete imediatamente ao lance de Maradona. Após a chamada "mão de Deus", o craque argentino também evitou com o braço um gol da equipe de Camarões na Copa de 90, o que irritou a FIFA a ponto de estabelecer que, a partir dali, quem fizesse mais algum lance daquele tipo, independente de o juiz vê-lo ou não, seria suspenso. Seria o caso de dar alguma punição ao jogador. Sou também favorável ao uso de tecnologia como apoio à arbitragem. Muita gente entende erroneamente que isso interromperia o jogo o tempo todo. Com a tecnologia atual, é possível que lances como esse sejam pego na hora. Com a ajuda de microfones e sensores é possível marcar um impedimento ou determinar se a bola entrou ou não. Ganha o espetáculo pois se estabelece a justiça acima de tudo. As polêmicas que fiquem para as escalações, as estratégias de jogo, etc.
Laercio Lucas Baryoussef , Juazeiro-BA - Estudante de Jornalismo
Enviado em 24/11/2009 às 19:21:24
Eu queria ver se fosse o contrário, um jogador da Irlanda usar uma jogada de basquete. Tenho certeza que haveria um quebra-pau na FIFA para anular o jogo. Henry, espere a rebordosa na Copa.
Herman  Fulfaro , Sorocaba-SP - taxidermista
Enviado em 24/11/2009 às 17:11:28
O que não dá para entender é a posição burocrática, retrógrada e tapada da FIFA diante de acontecimentos como esse. Um lance discutível daqui, um impedimento não marcado dali, desde que não seja algo escandaloso ou esteja dentro do limite da razoabilidade, da falibilidade humana, tudo bem. Mas, quando o mundo inteiro vê e registra uma sacanagem como essa do Henry e deixa passar, não é nem o futebol, o torcedor ou o esporte que perdem. Ações que afrontam diretamente a ética, a moralidade, o espírito esportivo e, sobretudo, ao tal do Fair Play que a FIFA jura defender transcendem o âmbito esportivo e se transformam num espetáculo deprimente para os mais velhos, em péssimo exemplo para os mais novos. Lamentável, é o mínimo que se pode dizer.
Edmilson Fidelis , BH-MG - Analista de Sistemas
Enviado em 24/11/2009 às 15:31:34
Golaço! De placa! Digno de Zidane e Platini e não de Henry!
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 24/11/2009 às 14:59:04
O jornal marcou um gol e não foi de mão! A questão é complexa porque envolve o futebol como um jogo muito dinâmico. Mudar as regras, por exemplo, e interromper o jogo a cada lance discutível para observar o replay seria descaracterizar o espírito do futebol, por outro lado, exigir que o jogador confesse suas manhas e maracutais seria descaracterizar o ser-humano. Estamos pois, numa sinuca de bico, já que esses erros arbitrais maculam o espetáculo e o uso constante da tecnologia a interromper o jogo para restabelecer a verdade também.
Fabio Souza , São Paulo-SP - Programador
Enviado em 24/11/2009 às 14:39:17
Só um detalhe: o jogo foi 1 x 1 e não 1 x 0 pra França. Ótimo texto.
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