ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 565 - 9/2/2010
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AHMADINEJAD NO BRASIL
A imprensa e o equilibrista

Por Luciano Martins Costa em 24/11/2009

Comentário para o programa radiofônico do OI, 24/11/2009

Os principais jornais brasileiros foram cautelosos e conservadores na cobertura da visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, ao Brasil.

O Estado de S.Paulo, que tem maior tradição na cobertura da política internacional, preferiu abrir a reportagem principal citando uma frase do presidente Lula da Silva sobre o suposto direito do Irã de desenvolver um programa nuclear para fins pacíficos. Mas ressaltou o esforço brasileiro para se equilibrar no jogo das compensações diplomáticas, ao manter em destaque também a atitude do presidente brasileiro, de defender o direito dos israelenses a um Estado seguro e soberano e o estabelecimento de relações pacíficas entre israelenses e palestinos sem interferência do Irã.

A Folha de S.Paulo foi por um caminho semelhante, mas preferiu destacar o fato de o presidente brasileiro ter reafirmado que, embora busque manter as melhores relações possíveis com o Irã, tem uma política externa balizada pelos compromissos com a democracia e o respeito à diversidade.

A Folha viu nessa declaração uma crítica ao governante iraniano, que se tornou notório por representar um regime tirânico, que persegue homossexuais e outras minorias, desestabiliza as relações internacionais e é acusado de apoiar movimentos terroristas.

Noticiário torcido

Os três jornais brasileiros de relevância nacional buscam equilibrar as entrevistas e artigos que pendem para um lado ou para outro das controvérsias sobre os conflitos no Oriente Médio. Mas o Globo é o único a destacar na manchete um dos lados da questão, ao afirmar que "Lula é criticado por legitimar Ahmadinejad". Citando "analistas internacionais", o jornal carioca tenta na verdade legitimar uma opinião do próprio jornal. Comparado aos outros dois diários, o Globo claramente sai da linha e contamina o noticiário com uma seleção menos equilibrada de opiniões.

Assim como acontece com o noticiário sobre a Venezuela de Hugo Chávez e como ocorreu durante a crise do gás com a Bolívia, há dois anos, a imprensa brasileira tem mantido uma posição contrária às escolhas da diplomacia brasileira.

De modo geral, a imprensa também se opôs à escolha do Brasil por privilegiar as relações com seus vizinhos mais próximos e desprezar o projeto da Alca, insistentemente proposto pelo governo do ex-presidente George W. Bush.

O caso do Irã é ainda mais complexo, porque representa uma tentativa brasileira de se destacar no cenário internacional estabelecendo relações com um protagonista que não faz questão de ser ou parecer racional. Mas torcer o noticiário para um dos lados também não contribui para amenizar conflitos.

***

Ainda a Venezuela

O noticiário sobre a Venezuela segue contaminado pela escolha a priori da imprensa brasileira, que se recusa a tentar explicar o que realmente acontece no país governado por Hugo Chávez.

O Observatório da Imprensa na TV começou na semana passada – e prossegue nesta terça-feira – seu trabalho de revelar aquilo que não está dito nos jornais: a radicalização dos protagonistas da política venezuelana contaminou a imprensa local e pode conduzir o país a um confronto de graves proporções.

A imprensa brasileira claramente se omite ou toma partido, deixando de cumprir seu papel de contribuir com informação de qualidade para uma eventual pacificação.

Hugo Chávez tem certamente um perfil belicoso e suas declarações, assim como algumas de suas atitudes políticas, o transformam em personagem controverso. Mas a imprensa já tomou partido e não tem se esforçado para explicar o que se passa na Venezuela.

Alberto Dines:

Hugo Chávez continua produzindo manchetes. Mas a nossa mídia ainda não conseguiu vencer a sua adoração pela lei do menor esforço para explicar os bastidores da guerra da mídia que sacode a Venezuela. O Observatório da Imprensa foi lá para mostrar o dramático confronto que está em gestação. Nesta terça-feira (24/11), o segundo episódio da série realizada pelo jornalista Cláudio Bojunga e o cineasta José Araripe Jr. Às 23 horas pela TV Brasil em rede nacional. Em São Paulo pela NET, Canal 4 e 181 da TVA.

 

Comentários (8)
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Vera  Palmer , Rio de Janeiro-RJ - tradutora
Enviado em 1/12/2009 às 14:12:27
Sugiro vivamente que todos leiam o artigo abaixo referido, publicado no jornal Asia Times Online, sobre a visita do presidente do Irã e sobre o Brasil e o senhor presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula. ISSO que aí se vê é jornalismo. O que se faz e impinge aos desgraçados leitores-assinantes-pagantes eternamente tungados, por aqui, não é jornalismo. E não se converte em jornalismo apenas por ser observado . Esse "Observatório" é parte de farsa: diz que observa alguma imprensa, para, assim, comprovar que haveria alguma imprensa no Brasil. Por quê? A quem, afinal, ainda contam com continuar a enganar? Bem vindo ao eixo Luladinejad 27/11/2009, Pepe Escobar, Asia Times Online – http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/KK26Ak02.html Pepe Escobar é autor de Globalism: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War (Nimble Books, 2007) e Red Zone Blues: a snapshot of Baghdad during the surge. Acaba de lançar Obama does Globalistan (Nimble Books, 2009). Recebe e-mails em pepeasia@yahoo.com .
antonio carvalho , fortaleza-CE - advogado
Enviado em 29/11/2009 às 15:58:38
O HC ( que não é habeas corpus, mas Hugo Chaves) permite total liberdade de imprensa, desde que lhe rendam homenagens e total apoio. Não sendo assim a mídia é considerada como enviada pelo grande satã. Esse filme é velho e interessante como o maniqueísmo desperta tantos adeptos. Talvez seja pelo grau de simplificação que esse modelo oferece, não exigindo das pessoas um pouco mais de esforço intelectual. É o reino dos simplórios. Por isso que a risível tese do PIG ainda aparece nos comentários.
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 26/11/2009 às 11:25:37
Muito, muito importante essa iniciativa do OI de tentar explicar o que ocorre na Venezuela. Em minha ingenuidade, acreditei nos últimos anos que esse rancor contra Chavez devia-se a influência de Gustavo Cisneros na mídia brasileira. Mas este ano percebi que o noticiário norte-americano, num nível um pouco menos raivoso, tende a chibatar a figura de Chavez. Não que ele dê motivo, mas é interessante observar o governo americano agindo politicamente contra o presidente venezuelano enquando compra milhões de barris de petróleo do mesmo...
AILTON  AMARAL , sao paulo-SP - consultor de seguranca
Enviado em 25/11/2009 às 12:16:31
Bom, o tom da midia brasileira é, na maioria das vezes, tendencioso e voltado a defesa de um pequeno grupo ou de interesses que nao sao da maioria. Vendo algumas "matérias" no dia de ontem, relacionadas a visita do presidente do Irã, notei que sempre tem uma puxada para a critica às relacoes do brasil com qualquer pais que nao seja aprovada pelos EUA, parecemos capachos o tempo todo e o que é pior, a midia tenta tolher qualquer possibilidade de pensamento autonomo, influenciando com suas reportagens baratas e sem etica. ainda bem que tem pessoas como as que se pronunciaram aqui, que ja estao vendo a globo como ela realmente é, torço para que essas pessoas propaguem ainda mais essa capacidade critica de pensamento.
Herman Fulfaro , Sorocaba-SP - taxidermista
Enviado em 25/11/2009 às 02:39:17
Por essas e por outras é que há muito desisti de me informar sobre a realidade brasileira através do PIG. Basta uma passada de olhos pela imprensa estrangeira que sempre há alguma coisa mais próxima da realidade. Vale a pena ler, por exemplo, o um artigo enorme sobre o Brasil no El País de domingo "Brasil, el gigante despierta" ---> http://www.elpais.com/articulo/portada/Brasil/gigante/despierta/elpepusoceps/20091122elpepspor_7/Tes
MARELO  GONÇALVES PEREIRA , Nova Friburgo-RJ - médico
Enviado em 24/11/2009 às 20:53:54
Não sou contra nem a favor da Globo, sou sim a favor de um jornalismo íntegro. Íntegro é dizer crível, verossímel, verdadeiro. A técnica de todo o sistema Globo é o de "morde e sopra". Luz, câmera, ação: e...o texto, ao gosto do "Patrão" é impecavelmente dirigido. Neste mister palmas para este Big Brother que comanda o universo das nossas disilusões de uma forma tão suave nunca permitindo que a "gota d água" inicie a vasão, que nós utópicos por natureza gostaríamos que fosse o prenúncio do verdadeiro transbordar deste poço sem fundo do estar brasileiro.
Cristiana Castro , Rio de Janeiro-RJ - Advogada
Enviado em 24/11/2009 às 17:33:44
A Globo, não dá... Mas tem uma vantagem, já ensinei isso às minhas filhas, qdo vc quiser saber como uma coisa aconteceu, como é um sujeito, enfim, qq dúvida, ligue a Globo, o que eles disserem, é o contrário. Sempre funciona. Agora, a gente até se diverte com isso, mas antes, irritava.
Alexandre  Guimarães , Nepomuceno-MG - Empresário
Enviado em 24/11/2009 às 13:09:06
Não é de hoje que todos nós sabemos a quem a Grobu presta os "relevantes serviços" da desinformação e manipulação. Por que o espanto? Temos é que deixar isto bem claro para todos, um serviço de divulgação. A Grobu tem ainda alguns anos para ficar na frente da Internet, quando será possível que todos tenham acesso direto.
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