ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 565 - 9/2/2010
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MÍDIA & DIPLOMACIA
Visita emblemática, apagão e teorias conspiratórias

Por Sheila Sacks em 24/11/2009

Na semana em que o mundo louvava os vinte anos "sem muro" de Berlim e a mídia definia os "muros de hoje", erguidos em Israel (Cisjordânia) e nos Estados Unidos (fronteira com o México), como "barreiras construídas na contramão da história" (O Globo), o presidente de Israel, Shimon Peres, desembarcava em Brasília para uma visita emblemática, do ponto de vista político e diplomático, dada a confirmação da presença de Mahmoud Ahmadinejad no país, seis meses depois de uma anunciada visita que não se concretizou.

Com a missão subliminar de dar suporte emocional à comunidade judaica brasileira surpreendida com a disposição do governo de acolher o líder iraniano, visita defendida pelo presidente Lula, Peres amanheceu no Brasil justamente após uma noite de cão vivida por milhões de brasileiros por conta de um baita apagão que deixou às escuras 18 estados e o Distrito Federal. O colossal blecaute que há duas semanas interrompeu todas as atividades produtivas, provocando o caos nas ruas das cidades, a queima de aparelhos eletro-eletrônicos, a falta de água e prejuízos materiais da ordem de 340 milhões de reais, também esquentou os ânimos na capital federal.

Somando-se aos danos contábeis e à indignação da população, o apagão vazou na mídia internacional como um rastilho de pólvora, ganhando as manchetes internacionais que repercutiram a grita geral da imprensa local. A multiplicidade de versões e de declarações dos porta-vozes oficiais instalou um ambiente de cataclismo político em Brasília, forçando o presidente Lula, desde os primeiros minutos do day after, a focar a sua atenção na administração de mais esse pepino nacional. Com o circo armado, partilhar os efeitos danosos do curto-circuito com a recepção a Shimon Peres mantendo inalterado o bom humor não deve ter sido tarefa das mais fáceis para um anfitrião empenhado na luta por seu sucessor.

Cobertura ampla

Para esquentar ainda mais a situação, 48 horas antes dos dois eventos, um dos programas jornalísticos de maior credibilidade nos Estados Unidos – 60 Minutes –, da rede CBS, alertava sobre a possibilidade de países sofrerem ataques cibernéticos por parte de hackers. E citava o Brasil como exemplo de vulnerabilidade, ao revelar que os sistemas de controle de fornecimento de energia do país foram paralisados por invasores, nos apagões de 2005 e 2007. As afirmações, feitas por funcionários da CIA, foram igualmente lembradas pelo presidente Barak Obama, em maio último, em discurso sobre segurança em computadores.

Imediatamente articulistas se apossaram dessa probabilidade para desenrolar alguns novelos de teses conspiratórias associadas à visita do presidente de Israel. Feichas Martins, jornalista e mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília, em sua coluna no site da ABN News – Agência Brasileira de Notícias, escreveu que "o apagão teria sido uma sutil resposta a Peres, até que o governo brasileiro esclareça com seriedade esse transtorno". Segundo ele, "o Movimento dos Sem-Terra e grupos radicais islâmicos que estariam radicados na zona de fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina (Foz do Iguaçu) planejam de forma conjunta o controle das usinas hidrelétricas situadas na região sul brasileira e noroeste do estado de São Paulo, as quais abastecem a indústria brasileira e as principais capitais, assim como o controle das imensas reservas de água potável do Aqüífero Guarani, que se estendem da Argentina até a região de Ribeirão Preto". Tese rebatida pelo presidente da Itaipu Binacional, Jorge Miguel Samek, que descobriu um motivo mais singelo para o acidente. "Foi a Lei de Murphy", explicou.

Já no Rio de Janeiro, Peres teve que concorrer com a badaladíssima estadia da estrela pop Madonna, que deslumbrou e polarizou as atenções da imprensa, de megaempresários e das autoridades estaduais, desdobradas em atenções para com a deusa loura. Seus passos, passeios e atividades sociais e filantrópicas tiveram ampla cobertura, preenchendo preciosos espaços na mídia e chutando para escanteio outros assuntos relevantes. O que levou a secretária de Educação do município, Claudia Costin, a comentar, em tom jocoso, que ainda assim preferia Peres a Madonna.

Religião partidária

Entretanto, para a grande massa do eleitorado brasileiro a imagem que ficou da visita de Peres ao país é mesmo aquela em que o prêmio Nobel da Paz, ao lado do jogador Ronaldo, exibe a camisa número 9, do Corinthians, presente do "Fenômeno" ao ilustre estadista israelense. Foto made in São Paulo, cidade que Madonna – ainda bem – ignorou.

No mais, a escolha do presidente Lula pelo estado da Bahia, governado pelo correligionário Jaques Wagner, para cenário de seu encontro com Mahmoud Abbas, da Autoridade Nacional Palestina, mostrou mais uma vez que ser filiado ao PT é, prioritariamente, professar a religião petista em todos os momentos da vida nacional. Com ou sem explicações posteriores às comunidades judaicas.

Comentários (5)
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Alberto  Torres Lopes , Vitória-ES - publicitário
Enviado em 30/11/2009 às 08:07:16
A romaria desses senhores da guerra a Lula é ridícula. O que essa turma quer? Que a gente resolva os problemas deles? Mas se a gente nem consegue resolver nossos problemas sociais cabeludíssimos. Pára com isso! Chega de importar problemas estrangeiros para o povo brasileiro.
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 28/11/2009 às 17:28:49
Olha, não sou petista, não sou sequer sindicalista, mas a radicalização e belicosidade da imprensa brasileira em relação ao governo petista está me fazendo pensar seriamente no assunto. O cidadão, para ser "normal", tem que comer no McDonald s, votar no Serra e ler a Folha; agora, se ele tiver um pouquinho de consciência social e vota no PT ele assume a "religião petista"? Daqui a pouco vai ter gente vestindo túnicas brancas e queimando cruzes nas pracinhas do Morumbi. Valha-me Deus, quanta ignorância. E pior, tá todo mundo mais rico hoje do que com aquele príncipe sociólogo! Imagina se estivéssemos mais pobres.
Jorge Rodrigo  Ruiz , Rio de Janeiro-RJ - técnico em informática
Enviado em 28/11/2009 às 15:45:56
E olha que jornalista nunca escreve tudo o que sabe... teve ter muita mais coisa por aí embaixo dos panos. realmente não dá pra entender.
manoel  penna , Cachoeiro de Itapemirim-ES - aposentado
Enviado em 28/11/2009 às 00:48:10
É tanta coisa sem sentido escrita de uma só vez, que é inacreditável que seja publicado por um órgão de tamanha relevância. Por essa e outras o jornalismo e os jornais impressos no Brasil estão se acabando.-.
Ricardo Pereira , Campinas-SP - quimico
Enviado em 24/11/2009 às 14:54:33
Cara Sheila, como rezo pela cartilha nacionalista, acho que o Presidente do Brasil nao deve qualquer explicaçao às comunidades judaicas. Chega a opçao lambe-botas dos presidentes americanos em relaçao a Israel. Ainda bem que aqui a midia nao tem a influencia sionista pra criar constrangimentos ao Itamarati. O sr Peres representa um governo de ultra-direita, belicista e sanguinario. E isto Israel se nega a explicar ao mundo.
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