ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 565 - 9/2/2010
  Jornal de Debates
Início > Índice Geral > Jornal de Debates + A | - A
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
 

NOVOS TEMPOS
As mudanças que virão na mídia

Por Luis Nassif em 25/11/2009

Reproduzido do blog do autor, 24/11/2009

A Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que está ocorrendo em vários estados, é uma ruptura com o modelo atual de mídia. Não será propriamente resultado da Confecom, mas das mudanças que ocorreram nos últimos anos na tecnologia e no mercado publicitário. Desde fins dos anos 60, montou-se um modelo de cartelização no mercado publicitário que impediu o crescimento de mídias de fora do cartel – incluindo a mídia do interior.

Nesse período, consolidam-se as agências de publicidade e o que se poderia chamar de mídia técnica, seguindo o modelo norte-americano. De cara, duas empresas se destacaram na profissionalização das relações com o mercado publicitário: a Editora Abril e o sistema Globo.

Com o tempo, formou-se uma aliança espúria, que acabou prejudicando outras mídias e os próprios anunciantes. Criou-se um modelo de remuneração das agências baseado no volume de publicidade que carreasse para cada um dos dois grupos de mídia: o chamado Bônus de Veiculação (BV), que seria proibido em qualquer país com o mínimo de respeito às normas do direito econômico.

Com o tempo outros veículos se organizaram – como o Estadão, a Folha, outras redes de televisão –, conseguindo beliscar uma parte do bolo publicitário. Esse jogo consolidou-se em torno se dois instrumentos complicados – e que terão que ser devidamente estudados. Um, o Ibope e seus índices de audiência. Outro, o IVC (Instituto de Verificação de Circulação).

Argumentos poderosos

Nesses anos todos, o Ibope tornou-se o aferidor único de audiência. Cada ponto a mais ou a menos nas audiências medidas significa rios de dinheiro para o vencedor. A importância da medição do Ibope é tamanha que os concorrentes da Globo teriam todo o direito de pedir acompanhamento constante das medições e auditorias periódicas.

A outra ferramenta – para a imprensa escrita – é o IVC. O instituto recebe as informações dos veículos e não costuma fazer auditoria. Em pelo menos dois casos – Veja e Folha – há inúmeros relatos de assinantes que continuaram recebendo mesmo depois de não renovarem a assinatura.

Esses dois institutos consolidaram a relação agências-veículos, fornecendo os argumentos para que os anunciantes fossem convencidos a concentrar as verbas em poucos grupos.

Deixou-se de lado a mídia técnica e consolidou-se a cartelização com os BVs.

Mídias alternativas

Agora, o jogo muda. Já há algum tempo, grandes anunciantes tinham percebido esse jogo e tirado o poder de distribuição das verbas das mãos das agências. O advento da internet, além disso, mostrou claramente a resistência das agências tradicionais em migrar para as novas mídias, levando ao aparecimento de novas agências especializadas e fora do cartel.

Finalmente, a decisão da Secretaria de Comunicação da Presidência da República de definir preços de veiculação na mídia regional criou parâmetros para que os anunciantes privados em breve migrarem para cardápios publicitários mais variados.

Nos próximos anos o novo poder das comunicações será, de um lado, das companhias telefônicas. De outro, o fortalecimento das mídias alternativas – imprensa fora do eixo da velha mídia, blogs, sites, mídia corporativa.

***

O modelo de negócio da velha mídia

É curioso como a velha mídia está desenvolvendo novos negócios para competir na internet. Na maioria dos casos, fogem ao seu negócio central.

A Broadcast passou a oferecer serviços de tecnologia. Montam sites rápidos para pequenas empresas e oferecem serviços para melhorar a sua colocação nas páginas de pesquisa do Google.

A UOL prepara-se para disputar o mercado de datacenters – onde existem dezenas e dezenas de empresas independentes consolidadas e os gigantes das telecomunicações.

A Abril está perdida, com seu portal servindo de bonificação para a publicidade veiculada nas revistas.

Nos demais casos, apenas assinatura e acordos com agências de publicidade. Dez anos após a explosão da internet, não conseguiram desenvolver um modelo comercial sequer.

A lição do episódio é que, em um sistema de mercado, a ausência de competição atrofia. Hoje em dia, a velha mídia está entre os setores mais anacrônicos da economia. Seu planejamento estratégico se reduz ao Manual da Redação; a interatividade com os leitores a espaço restrito para cartas.

A única exceção nesse marasmo total é a aventura muito bem sucedida da UOL.

Comentários (1)
Comentar
Compartilhe
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas – e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.
         
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
Remindo Sauim , Canoas-RS - aposentado
Enviado em 27/11/2009 às 20:08:03
Eu acho que o erro da grande mídia é entender que a internet é apenas um suporte e que sua visão de um jornalismo generalista funcionaria alí do mesmo modo que na velha mídia. O que o Globo, Folha e outros menos é apenas transpor para a rede, o mesmo que já saiu em seus jornais, rádios e TVs. Nossa grande imprensa está esclerosada, quer continuar fazendo seu jornalismo capitalista (suporte para anúncios e outros negócios menos éticos). Ainda leio jornal, mais por hábito do que por busca de informações. Estas, as que realmente interessam, não estão nos jornais. Mas ainda também não estão ainda na rede.
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Luis Nassif

Outros artigos desta Seção
PERGUNTA QUE NINGUÉM FEZ
Por que Ahmadinejad
não vai à Argentina?

Alberto Dines
24/11/2009
AHMADINEJAD NO BRASIL
A imprensa e o equilibrista
Luciano Martins Costa
24/11/2009
MÍDIA & DIPLOMACIA
Visita emblemática, apagão e teorias conspiratórias
Sheila Sacks
24/11/2009
ASSESSORIAS DE COMUNICAÇÃO
A teoria dos jogos
Hélio Ademar Schuch
24/11/2009
Release "pronto para uso"
Carla Algeri
24/11/2009
BALANÇOS DA VALE
Uma estratégia ou
apenas um acaso?

Lúcio Flávio Pinto
24/11/2009
REDONDA, CEARÁ
Uma guerra que
não passa na mídia

Túlio Muniz
24/11/2009
DEMOCRACIA PLENA
A libertação do
cárcere informacional

Gustavo Henrique Freire Barbosa
24/11/2009
NOVOS TEMPOS
As mudanças que virão na mídia
Luis Nassif
25/11/2009
OI NA TV
Sem lugar para jornalismo
na tragédia da Venezuela

Alberto Dines
26/11/2009
MÍDIA & MUDANÇAS CLIMÁTICAS
A informação desconectada
Luciano Martins Costa
27/11/2009
Notícias sem contexto
Alberto Dines
27/11/2009

Últimos 5 artigos de
Luis Nassif
CAMPUS PARTY
A nova opinião pública
26/1/2010
LEITURAS DA FOLHA
O jornalismo irresponsável
1/12/2009
LEITURAS DO ESTADÃO
A arte de ser conduzido
27/10/2009
LEITURAS DA FOLHA
Da arte de não admitir erros
29/9/2009
CRISE EM HONDURAS
Mídia é surrada pela notícia
29/9/2009
Mais artigos de
Luis Nassif >>