ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 566 - 1/12/2009
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INFORMAR & FISCALIZAR
Boas histórias de assalto ao Tesouro

Por Rolf Kuntz em 1/12/2009

As violências contra o Tesouro têm sido um dos assuntos mais constantes da imprensa, embora a vítima nem sempre seja citada de modo explícito. O Estado de S.Paulo mostrou indícios de fraude em nove convênios do governo com a União Nacional dos Estudantes (UNE), mimoseada em dois anos com R$ 2,9 milhões pelo Ministério da Cultura. A Folha de S.Paulo contou como se pode criar uma igreja e ficar livre de impostos com investimento de apenas R$ 418,42. As duas matérias foram publicadas no domingo (29/11). Na semana anterior, jornais noticiaram e discutiram as novas bondades fiscais concedidas a setores eleitos pelo Executivo, incluído o automobilístico, o mais influente segmento da indústria.

Segundo o Estadão, os convênios da UNE estão em situação irregular, por falta de documentos e de prestação de contas. Um dos financiamentos, no valor de R$ 342 mil, foi destinado à realização do congresso nacional da entidade, em Brasília. Parte da verba seria usada para segurança e a previsão dessa despesa foi baseada em orçamento de uma empresa fantasma. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a pré-candidata Dilma Rousseff estiveram no evento.

Programas emperrados

A matéria é especialmente importante porque o presidente da UNE, Augusto Chagas, já se declarou estudante profissional, em mais de uma entrevista, e afirmou ser obrigação do governo dar dinheiro a entidades estudantis. A matéria também cita, como exemplo da generosidade oficial, a entrega de R$ 435 mil para a produção de um livro e de um documentário. Nenhum dos dois foi produzido e não houve prestação de contas.

A imprensa tem contado histórias semelhantes a respeito de dinheiro entregue ao MST, mas o Ministério do Desenvolvimento Agrário insiste em afirmar a correção de sua política de repasse de verbas.

A reportagem da Folha revela como bastaram dois dias úteis e R$ 218,42 em despesas de cartório para a fundação da Igreja Heliocêntrica do Sagrado Evangelho. Com mais R$ 200, os três fundadores já tinham conseguido o CNPJ e puderam abrir uma conta bancária e realizar aplicações financeiras livres do Imposto de Renda e do Imposto sobre Operações Financeiras.

Não é preciso indicar um número mínimo de fiéis nem dar informações sobre a doutrina da igreja. Basta apresentar o registro da assembléia de fundação e o estatuto oficializado num cartório. Assim se interpreta o preceito da liberdade religiosa inscrito na Constituição. Talvez seja complicado restringir a aplicação desse preceito, mas a reportagem mostrou como é fácil aproveitá-lo para a vigarice e para a fuga do pagamento de impostos. Certamente mais fácil, em termos legais, seria selecionar com maior seriedade as instituições beneficentes para a concessão de ajuda financeira e de isenção fiscal. Na última discussão do assunto, o governo preferiu jogar para o alto a seleção e restabelecer o financiamento a todas as entidades. Muito mais simples e politicamente menos custoso.

Deve-se creditar alguma defesa do Tesouro Nacional ao Tribunal de Contas da União (TCU), órgão auxiliar do Legislativo. O presidente da República e alguns de seus ministros têm responsabilizado o TCU – quando não o Ibama – pelo emperramento de seu programa de obras. Em muitos casos, como já se mostrou muitas vezes, o projeto nem sequer foi detalhado tecnicamente. Noutros, as normas de elaboração de projetos e de licitação de obras foram simplesmente ignoradas. Tudo isso já foi publicado.

Governantes felizes

Como se nenhum desses dados fosse relevante, o Executivo insiste na tentativa de limitar a fiscalização. O projeto da Lei Orgânica da Administração Pública recomenda o exame das obras acabadas e dos serviços concluídos, devendo ser excepcionais o controle prévio ou concomitante. Esses pontos foram divulgados nas últimas semanas. A grande novidade na cobertura do assunto foi apresentada em manchete pelo Globo, na sexta-feira (27/11): uma entrevista com o ministro-chefe da Controladoria Geral da União (CGU), Jorge Hage. "O capítulo de controle precisa ser profundamente alterado, tem coisas inaceitáveis. Propõe praticamente a eliminação do controle preventivo, quando, a nosso ver, a idéia é exatamente o contrário (...) O primeiro dever dos órgãos de controle interno é reagir preventivamente", disse o ministro, segundo o Globo.

A entrevista é excepcionalmente relevante porque Jorge Hage comanda um setor do Executivo, sendo, portanto, dependente da Presidência da República. A mesma crítica, segundo o jornal, havia sido feita pelo chefe da CGU numa reunião do grupo de infraestrutura do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, com participação de outras importantes figuras do gabinete presidencial.

Todas essas matérias são exemplares, não só pela qualidade do trabalho, mas também porque mostram quanto é difícil traçar uma fronteira entre informação e fiscalização. Essa fronteira provavelmente não existe e por isso os jornais não poderão atender à recomendação do presidente Lula. Segundo ele, os jornais deveriam limitar-se a informar, sem fiscalizar. Para seguir esse conselho, terão de afrouxar a atividade informativa. O governo certamente ficaria mais feliz.

Comentários (18)
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eduardo salina , são paulo-SP - engenheiro
Enviado em 7/12/2009 às 21:57:52
Jorge Hage nunca foi candidato a vice do Alckmin.Talvez o taxidermista que passou uma descompostura no articulista quisesse se referir ao senador José Jorge,A ignorância pode ser perdoada, afinal ninguém é obrigado a saber tudo.Mas a ignorância arrogante é imperdoável.
Zemário Santos , Ibaiti-PR - Jornalista
Enviado em 7/12/2009 às 18:17:36
Sr. Kuntz, não estaria havendo no texto uma confusão entre investigar e fiscalizar? Ou deixou escapar o "lulêz" que confundiu a reportagem investigativa com o ato de fiscalizar? Afinal, sabemos que sempre existiu o jornalismo investigativo, sem o qual as falcatruas que acontecem em todos os âmbitos governamentais (não apenas no governo federal) não se tornariam públicas. Agora, nunca vi jornal e nem jornalista sair por aí lascando multas ou interditando qualquer coisa que seja. A "fronteira" é justamente essa diferença...
Herman  Fulfaro , Sorocaba-SP - taxidermista
Enviado em 7/12/2009 às 18:10:44
"..uma entrevista com o ministro-chefe da Controladoria Geral da União (CGU), Jorge Hage. " - - Um dia, talvez quem sabe, vou entender porque o Kuntz só sabe argumentar com a sua cabeça demo-tucana. Ou seja, será que ninguém se recorda que o Jorge Hage (PFL-PE) era o vice na chapa do derrotado Picolé de Xuxú, o templário Geraldo Alckimin???
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 7/12/2009 às 18:04:05
O negócio é acabar com essa partidarização tacanha. É corrupto, cometeu crime, cana nele. O governo federal vai ter que construir muitas cadeias prá colocar todos os corruptos dos três poderes e ainda abrir outras alas para os corruptos dos partidos políticos
Wendel  Anastacio , Barbacena-MG - Vendedor
Enviado em 7/12/2009 às 17:35:11
É corrupção para todos os gostos e de todos os lados! Até dos comentáristas deste blog! Vamos parar de hipocrisia? Existe corrupção em todos os governos sejam federais, estaduais e municipais, STF, TCU, TCE, TJ. TSE, AGU, CNJ, GADU, PT, PSDB, DEM, PSB, OAB, UNE, MST, ANJ, ABI, etc, etc e etc. Esquecí alguns? Talvez muitos, pois muito poucos se salvam! Mas...., ficar citando corrupção, já está cansando e muito! Nós mesmos tão ilibados e honestos, quantoas vezes manipulamos o IRPF: subornamos o guarda para aliviar a multa; infrigimos os sinais de trânsito, etc, etc e etc. Mas...., façamos de conta que não é conosco, que somos santos e os culpados são eles! É realmente um grande faz de conta e uma grande hipocrisia!!!!!!!!!!!!!!! PS.: Isto sem falar nos "jornalistas togados" que conforme muitos dizem, vamos esfolar, pois de repente uma promoção virá a calhar!
eduardo salina , são paulo-SP - engenheiro
Enviado em 6/12/2009 às 12:46:29
Ah,não deu outra, o Badaró confirmou as expectativas: segundo o velho relativismo moral das esquerdas, os ladrões deles são inocentes, suaves, infantis, aprendizes de feiticeiro.O mensalão foi brincadeira de crianças.Os grandes ladrões, claro, estão do outro lado.E a "sofisticada organização criminosa" chefiada por José Dirceu que o procurador-geral da República denunciou ? Nada disse existe,é tudo fantasia dos demos, da mídia.Como deve ser bom ser de esquerda e dormir à noite em paz com seu travesseiro.Eles não têm conflitos morais.Simplesmente mandam os escrúpulos para escanteio e dormem o sono dos justos.Antes dormiam sobre pilhas de cadáveres.Agora dormem sobre pilhas de dinheiro.
Valmir Gôngora , Brasília-DF - Bancário
Enviado em 6/12/2009 às 10:34:55
Discutir a legislação que permite incentivos ou isenções a quem quer que seja seria tarefa importante de quem pretende informar: são apenas igrejas e entidades estudantis? Há outros setores que se beneficiam? Mas, a partir daí, rotular o governo federal de pai e beneficiário de todos os desmandos é coisa de quem tem outra intenção. Aliás, talvez por isso o articulista tenha se limitado ao oportunismo do governo federal, sem menções a executivos estaduais. Quanto à fiscalização, há muito que a chamada grande impressa enxerga com um único olho: o do dono do negócio. E, convenhamos, negócios não se pautam pela imparcialidade.
Marcio Batista Martins , Jaraguá do Sul-SC - redator
Enviado em 6/12/2009 às 09:39:26
Os privilégios fiscais do jornal, estes sim estão corretos e não devem ser fiscalizados, bnemn questionados, nem sequer citados. Errados estão os outros, claro.
José Paulo Badaró , São Paulo-SP - desempregado
Enviado em 6/12/2009 às 03:22:17
Sr. Salinas : Não dá pra aceitar a sua proposta, até porque seria absolutamente injusto e desonesto de minha parte. No DEMensalão, além de governador, vice, presidente da Câmara, secretários, tem envolvido de tudo quanto é lado, respingando a merdolência inclusive em SP e Minas, de onde saiu um cidadão de fala mansa que andou vendendo produtos de informática a preços módicos por aqui, isso pra não falar em dono de jornal, empresários, gente do judiciário, jornalistas, deputados de vários partidos, empresários... Enfim, se o MP levar a coisa a sério vai dar ai bem uns 80/90 indiciados - fora os do Tucanoduto ou Mensalão mineiro, dos quais, por conveniência ou simpatia, V. Sa. se esqueceu, e tirante o fato de que no DEMensalão há fortes indícios coisa mais pesada, tipo extorsão - enquanto no modesto Mensalão petista tem apenas 39 aprendizes de feiticeiros! Não seria justo e nem honesto eu concordar com o mesmo tratamento para todos. Nem tanto pelo pecado que cada um, mas por falta de vagas na papuda.
Paulo Pereira , SJC-SP - .
Enviado em 5/12/2009 às 19:32:31
O texto foi feito em 1/12/2009, o arguto jornalista ainda não tinha lido o Estadão. 30 de novembro de 2009, 00:58 - Estadão Online: “Esquema desvia R$ 40 milhões do Detran de SP” (Pergunto: quem é o governador de SP?) 28 de Novembro de 2009 – Estadão: “Polícia Federal investiga mensalão do DEM no governo Arruda”
Ney José Pereira , São Paulo-SP - Contador
Enviado em 5/12/2009 às 17:50:53
Há fiscalização é há informação, mas, a corrupção não acaba não por causa da falta de condenação!.
Max Suel , SP-SP - Engº
Enviado em 5/12/2009 às 14:27:44
Excelente artigo. Concordo também com o comentário do Eduardo Salina. Cometeu crimes tem que ser processado, julgado , e se condenado, punido. O que nos faz a terra da corrupção e do crime é a certeza da impunidade. Isto nos diferencia das demais nações civilizadas, como nos EUA, onde existem muitos criminosos, mas que, pegos, são julgados e condenados e cumprem prisão. Aqui, o prs Lula passa a mão na cabeça dos seus aloprados e mensaleiros, ao invés de dar o exemplo e condenar as práticas criminosas.
eduardo salina , são paulo-SP - engenheiro
Enviado em 4/12/2009 às 21:48:32
Badaró, vamos voltar ao mensalão do DEM. Eu proponho a destituição e a prisão do Arruda. E você, topa dar o mesmo destino aos 39 do mensalão do PT?
Jaime Collier Coeli , Itanhaem-SP - Aposentado
Enviado em 3/12/2009 às 10:17:15
Pois é, Rulf, mas é possível estabelecer uma linha divisória entre o interesse particular e o publico? Não há seção de compras na atividade particular em que não corra um "jabazinho". Quando o candidato a um cargo eletivo atinge 25 por cento de aprovação nas pesquisas, começam as "adesões", ou seja, a doação de fundos para a campanha. Nas prefeituras geralmente a compensação ocorre pelas concessões (por exemplo o lixo, transportes publicos) e a remuneração dos "quadros politicos" se dá pela participação nas multas. O patrimonialismo dos partidos (e de todas as outras instituições) ocorre pela cobrança de taxas "por fora" nas concessões de obras. E isso ocorre também nas instituições privads e não governamentais, que contratam obras para terem uma fonte de numerario. O paradoxo consiste no fato de o politico mais honesto ser, afinal, o que disputa as eleições para perdê-las e para destinar a um paraiso fiscal as sobras de campanha. Maracutaia, nesse quadro, é o bom negocio para o qual não fomos convidados. O sistema está podre e se alimenta da propria podridão. O restko é apenas hipocrisia. Panmetones e dinheiro nas cuecas é apenas uma amostragem pifia do que de fato ocorre. Em decorrencia, o moralismo é imoral. Assim, bem simples.
Artur Nobre , Brasília-DF - Antropólogo
Enviado em 2/12/2009 às 16:26:04
Complementando a visão do inferno midiático de Dante (Caleffi) eu diria que, não raro, eles fazem isso tudo na ordem inversa, ou seja, sentenciam, julgam, acusam, fiscalizam e informam.
Dante Caleffi , Rio de Janeiro-RJ - Publicitário
Enviado em 2/12/2009 às 12:33:07
Jornais,informam,fiscalizam,acusam julgam e sentenciam. Diferentemente da justiça,não há recurso a favor dos condenados em instância alguma. Vai além. A pena não se extingue nem depois de "cumprida". Acompanha o sentenciado além de sua morte.Às vezes atingindo seus sucessores.
José Paulo Badaró , São Paulo-SP - desempregado
Enviado em 1/12/2009 às 22:30:52
Mais um artigo para tirar as atenções sobre o DEMensalão. Ninguém merece. Fala sério...
Nélio Jaider  Lage , São José da Barra-MG - Eletrotécnico
Enviado em 1/12/2009 às 16:36:59
Ainda bem que alguns jornais além de informar, fiscalizam. Se não fosse assim nada de errado seria divulgados neste país!
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