ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 566 - 1/12/2009
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OPERAÇÃO CAIXA DE PANDORA
Cobertura do CB tem sujeito oculto

Por Chico Sant´Anna em 1/12/2009

Desde os primeiros anos do ensino fundamental, os estudantes aprendem que as orações poderão ter sujeito oculto. A oração com sujeito oculto é aquela em que o sujeito da ação não está explícito e sua identificação só é possível graças à pessoa do verbo.

Também é nos primeiros anos do ensino de Jornalismo que o futuro profissional aprende que o sujeito do fato é elemento fundamental da redação jornalística para a devida compreensão dos acontecimentos pelos consumidores de informação. É na faculdade que se aprende a famosa pirâmide invertida, pela qual o repórter deve responder a seis perguntas básicas ainda nas primeiras linhas do seu texto. Quem?, O quê?, Quando?, Onde?, Como? e Por quê?

Na cobertura do recente escândalo de corrupção verificado no âmbito do governo do Distrito Federal, apelidado pela imprensa de "mensalão do DEM", pelo qual o governador do Distrito Federal e pessoas bem próximas a ele são suspeitas de desviar R$ 60 milhões, o Correio Braziliense, principal diário da Capital Federal – com uma tiragem estimada em mais de 200 mil exemplares – parece ter preferido seguir as normas das escolas fundamentais do que as rotinas jornalísticas. No escândalo da Caixa de Pandora, Arruda virou sujeito oculto.

Nome só aparece na 33ª linha

As denúncias, sob apuração da Polícia Federal, Ministério Público Federal e Superior Tribunal de Justiça, apontam para José Roberto Arruda, único governador de estado dos Democratas, como líder de um esquema de corrupção que coletava dinheiro junto às empresas fornecedoras do governo do Distrito Federal (GDF) para ser repartido entre membros da base aliada na Câmara Distrital.

A documentação divulgada pela justiça seria inequívoca: o acórdão do STJ afirma que Arruda teria sido gravado por um auxiliar quinta coluna orientando sobre como fazer a partilha das propinas arrecadadas. Entretanto, nas páginas do Correio Braziliense de sábado (28/11), Arruda vira sujeito oculto e o leitor do jornal fica sem saber exatamente o que aconteceu. Na chamada de capa, o Correio estampa: "GDF e Distritais são alvo de investigação".

Com esta manchete, o Correio não só esconde quem supostamente seria o comandante do esquema de corrupção, bem como os beneficiários, como também dilui a responsabilidade por toda a estrutura do GDF e do parlamento local de Brasília. O governo do Distrito Federal possui dezenas de secretarias e 174 mil servidores. Por sua vez, a Câmara Distrital possui 24 parlamentares. Estariam todos eles envolvidos e sob suspeição policial? Quem lê a chamada de capa do Correio subentende que sim, que todo mundo está envolvido no "mensalão do DEM", quando na verdade as investigações alcançam dez pessoas: Arruda, seu assessor de imprensa, seu chefe de gabinete, o chefe do gabinete civil, os secretários de educação e de relações institucionais (este, responsável pela delação) e quatro parlamentares distritais.

O assunto volta a ser tema na capa e em mais duas páginas internas do caderno "Cidades". Quatro repórteres foram escalados para fazer a cobertura. O nome do governador Arruda só aparece na 33ª linha, na segunda coluna do texto. Diz o texto: "Durval gravou, em 21 de outubro deste ano, uma conversa com o governador José Roberto Arruda, sobre o destino de R$ 400 mil em poder do então secretário."

Autor de ação moralizadora

O texto se recusa a informar que o governador é o alvo central da operação Caixa de Pandora comandada pelo Ministério Público Federal com autorização do Superior Tribunal de Justiça. Entretanto, o foco das investigações, segundo o Correio, são pessoas jurídicas e não físicas. Pela ordem: a Câmara Distrital, o governo do Distrito Federal e o Tribunal de Contas do DF, quando na verdade o alvo dos 29 mandatos de busca e apreensão são as dez pessoas citadas anteriormente.

O noticiário é rico em fotos, oito ao todo, mas todas no caderno "Cidades" e nenhuma na capa do jornal. Arruda também não aparece em nenhuma delas. Nem mesmo numa foto de arquivo. Talvez o Correio Braziliense não tivesse nenhuma no departamento fotográfico. Mas o arquivo fotográfico foi pródigo em localizar uma foto datada de 09/01/2003, na qual aparecem lado a lado o ex-governador Joaquim Roriz, desafeto de Arruda, e Durval Barbosa, secretário de Relações Institucionais do governador do Democratas e responsável pelas denúncias e gravações secretas. Na legenda da foto, que ocupa quase que um quarto de página, o Correio alerta aos leitores que Barbosa atuou como presidente da Companhia de Desenvolvimento do Planalto na gestão Roriz e que nesta condição foi condenado por improbidade.

Nas páginas do Correio Braziliense, o governador Arruda só vai deixar de ser sujeito oculto numa matéria onde ele aparece como autor de uma ação moralizadora, ao determinar o afastamento dos integrantes do primeiro escalão de seu governo citados no suposto esquema de pagamento de propinas.

A "rádio corredor"

É bastante curiosa esta técnica de cobertura do Correio Braziliense que subtrai o sujeito da ação, deixando-o oculto, e torna difuso o envolvimento dos suspeitos. Que paradigmas jornalísticos devem nortear tal técnica profissional, quando sabemos que o CB tem por hábito fazer denúncias bem explícitas contra o governo federal e o Congresso Nacional? A forte presença publicitária do GDF nas páginas do Correio teria algum efeito anestesiante?

A chamada "rádio corredor" da imprensa brasiliense alerta que haveria um acordo entre o GDF e o principal jornal da capital para que não se fale mal do governador. É difícil dizer se a "rádio corredor" está bem informada – possivelmente, não –, mas o comportamento editorial do jornal, que almeja ser um referencial da imprensa nacional, no principal escândalo político-policial dos últimos anos na cidade deixa a desejar. O Correio parece não respeitar o famoso contrato entre imprensa e leitor que o obriga a trazer a verdade e toda a verdade sobre os fatos. Tudo que o ele deixou de escrever foi fartamente divulgado pela imprensa local e nacional e até pelos portais de assessoria de imprensa da justiça. A postura do CB revela que o seu leitor deve ligar seu desconfiômetro ao lê-lo, pois no mínimo ele estará correndo o risco de não estar recebendo a totalidade dos fatos, quiçá de estar sendo deliberadamente enganado.

Comentários (15)
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Franco  Brasil , Brasília-DF - Comerciário
Enviado em 4/1/2010 às 00:11:50
A não-cobertura do Correio Braziliense do Mensalão do DF é um acinte e um anti-jornalismo total. O que está praticando, de fato, é o acobertamento dos fatos, cujas reportagens sequer mencionam os nomes do Arruda e do Paulo Otávio, governador e vice, respectivamente. No início do Governo Cristóvam Buarque - 1994/1998 - foram descobertas algumas marmitas com alimentos "quentinhas", na UnB, que teriam sido distribúídas pelo governo da época, para estudantes em greve, salvo engano. Ao contrário de agora, o Correio Braziliense criou um clima de caça às bruxas, querendo tornar o assunto em escândalo nacional. Felizmente o povo não caiu no conto. Concluindo, o velho CB continua o mesmo jornal Chapa Branca, nada mudando desde os velhos e saudosos tempos (para eles, imagino) dos governos militares. PS: Em razão disso, cancelei minha assinatura daquele periódico.
josé aprigio nogueira cesarino , brasília-DF - jornalista
Enviado em 8/12/2009 às 19:27:37
O articulista só comete um erro: não acredito que o Correio ainda almeje ser referência nacional. E já tem muito tempo que não tem a menor condição de sê-lo, principalmente no que se refere à cobertura política. Não é à toa que aqui em casa, como em muitos outros lares, as assinaturas vêm sendo canceladas. A cobertura do caso Arruda é deplorável. Envergonha qq jornalista sério deste país e lá mesmo tem vários. Mas o patrão...
Marcelo Ramos , Brasilia-DF - Publicitario
Enviado em 5/12/2009 às 21:25:00
Ola Dioclécio. Lembram de quando o Noblat era editor-chefe do Correio? Tudo bem, depois que ele foi para o Globo "entrou na onda", só escreve o que os patrões querem. Mas lembro que quando ele foi editor-chefe do Correio, fez um jornalismo combativo, um exemplo de como a imprensa deveria se portar, sempre. Aí, parece que um amigo do Roriz, o jagunço-de-terno, comprou ações dos Diários... no dia seguinte, despediram o Noblat. Infelizmente, é assim que funciona. De lá pra cá, os Diários deixaram claro sua filosofia: gastem dinheiro em minhas páginas e, de quebra, levem artigos elogiosos grátis. Desde então, assim tem sido. Como o Arrudão contribuiu bastante para a estabilidade econômica dos Diários, indiretamente ou através do vice, tava na hora de o jornal ajudar, né? Afinal, o Arruda deve ter perguntado:"pago você pra quê?"
Luiz Serenini , Goiânia-GO - Professor
Enviado em 5/12/2009 às 19:00:47
Bom tempo em que havia democracia, e opiniões como a deste artigo não eram publicadas em lugar algum. Precisamos urgentemente descobrir como desliga esta tal de Internet.
Natalia de Paula , Brasília-DF - estudante
Enviado em 5/12/2009 às 17:40:38
Não quero aqui defender o C.B. Mas me parece óbvio que absolutamente todas os jornais de grande circulação têm interesses e para tanto omitem fatos de relevância. Com relação a esse escândalo - e lamento profundamente a cobertuda dada pelo maior jornal de Brasília - o Correio está agindo de forma vergonhosa. Mas e os outros tantos? O problema está na cobertura de Brasília ou na cobertura nacional? Repórteres da maior Rede de Comunicação do Brasil recebem propinas para não veicularem fatos importantes. A questão aqui não é a abordagem dada pelo Correio Braziliense, é a corrupção existente no jornalismo brasileiro como um todo. Isso inclui blog, TVs, jornais. Esse episódio é um exemplo, dentre os vários acontecimentos que ocorrem diariamente e os jornais, comprados, se omitem ou se pronunciam parcialmente.
celio costa , brasilia-DF - professor
Enviado em 2/12/2009 às 17:35:46
Lembrando aos amigos do observatório. Observar que um dos sócios acionista do CB é um dos supostos acusados. P.O. será que ele mesmo ia se julgar. Fiquemos espertos.
Eduardo Goulart , Niteroi-RJ - estudante
Enviado em 2/12/2009 às 16:13:47
Se a "grande imprensa" continuar noticiando sobre os escândalos daqui a pouco Arruda vai copiar o exemplo petista e dizer que a culpa é da imprensa.
Dante Caleffi , Rio de Janeiro-RJ - Publicitário
Enviado em 2/12/2009 às 13:10:54
Pelo menos ,o " O Globo" do Rio de Janeiro,compensou o vexame dado pelo Correio Braziliense. Corajosamente na manchte de hoje,aponta o verdaeiro mentor do "Mensalão do DEM": Luis Inácio Lula da Silva.!
A. Torres Torres , Belo Horizonte-MG - Engenheiro
Enviado em 2/12/2009 às 12:37:04
Caros internautas, voçês que estão alarmados com a promiscuidades entre Arruda e o Correio Braziliense, não imaginam o que acontece em Minas, entre Aécio e toda a mídia mineira. É de dá nôjo, dá vômito! E vejam que é "toda" mídia mineira.
Madruga Duarte , Curitiba-PR - jornalista
Enviado em 2/12/2009 às 10:17:09
Li ontem no Observatório o artigo de Chico Sant!Ana sobre o Correio Braziliense. Ele informa que o Correio tem tiragem de cerca de 200 mil exemplares/dia Em realidade, tiragens nada significam para os jornais. O que vale mesmo é a circulação, sempre que for auditada. O CP integra o IVC e, por ele, toma-se conhecimento de que a sua circulação media, segunda a sabado, é de aproximadamente 50 mil exemplares, subindo aos domingos para cerca de 90 mil. Como se deduz, muoto abaixo dos 200 mil estimados pelo colega. Madruga Duarte, jormnalista
JANIO IESO JANIO , BRASILIA -DF - FUNC PUB FED
Enviado em 1/12/2009 às 21:53:37
Meu caro Chico Sant´ana aqui no DF este jornalzinho deixou de divulgar os fatos ao longos dos anos, começou no famigerado desgorverno do Roriz e culminou no desgoverno do Arruda, É um jornal sem crdedibilidade tanto é que as vezes são distrubuidos pela capital gratuitamente.
Reginaldo  Andrade , Brasília-DF - Servidor Público
Enviado em 1/12/2009 às 19:50:19
Aqui no DF, estamos, há muito tempo, excluídos do direito de podermos ler um jornal local com o mínimo de imparcialidade. É vergonhoso. Denunciei há alguns meses a cobertura realizada pelo CB quando da greve dos professores. Foi criminosa a postura deste jornaleco. Como cidadão, ingressei com denúncia no TCU a respeito de contrato firmado entre o GDF e o CB para fornecimento de jornais às escolas. Desvio de recursos (e de finalidade) do FUNDEB. A escola em que trabalho recebe cerca de 40 exemplares por dia. A maioria vai para o lixo!
Mario Silveira Soares , Betim-MG - Garcon
Enviado em 1/12/2009 às 18:52:34
Pior que o Correio Brasiliense foi o Estado de Minas que não deu uma linha sequer sobre o caso na sua edicão do dia seguinte que estourou o escandalo. E o EM é do grupo. Tá tudo dominado...
Asclê Junior , Brasília-DF - advogado
Enviado em 1/12/2009 às 17:32:38
Está claro que ao omitir nomes, numa tentativa de dissociar o nome de alguns políticos de situação no DF, o CB mostra todo o viés situacionista que vem mostrando nos últimos anos. Suas notícias omitem propositalmente o nome do futuro candidato ao Governo do DF, o ex-senador Joaquim Roriz, cujo envolvimento está intrinsicamente ligado ao motivo pelo qual o sr. Durval optou pela delação premiada. Além disso, as reportagens sobre a operação Aquarela, veiculadas pelo CB, omitiram vários fatos acerca da investigação, assim como maquiou pontos importantes, como se não quisesse indicar os indiciados. Além disso, o CB não destaca o fato de que as empresas de informática envolvidas na investigação estavam envolvidas no escândalo da Codeplan/ICS por motivos idênticos aos do tal "mensalão" atual. Infelizmente, o Distrito Federal não pode contar com veículos de imprensa escrita isentos ou menos tendenciosos, eis que todos eles parecem ter ligação com políticos desta Capital. A questão é: será que os jornais locais ajudarão a eleger algum outro escolhido seu? Por fim, acho que o DF, outrora politizado, merecia veículos de imprensa que, ao menos, mostrasse todos os fatos acerca de suas matérias, porque é isso que se espera da imprensa.
Dioclécio Luz , Brasília-DF - Jornalista
Enviado em 1/12/2009 às 15:00:25
Comecei a juntar as edições do CB a partir de sábado (28/11). Eu já sabia que o CB iria fazer isso: ocultar seu chefe, corrijo, o governador. E fez. E está fazendo. Quem mora em Brasília, e tem o desprazer de ler o CB, havia notado que não saía uma linha de crítica ao governador arruda. E agora não seria diferente. Há meses... No domingo um repórter do CB escreveu "supostamente" e "suposto" na mesma linha antes de falar de arruda. Bem, o Chico Santana foi na veia. Na verdade. isso que o CB faz não é jornalismo. é outra coisa. Propaganda? Sei lá. Mas jornalismo não é. E, insisto, não é de hoje. Detalhe: não é somente o Correio Braziliense que inventa o sujeito oculto. Os jornais de BsB (salvo raras exceções) seguem essa linha. Enfim, pratica-se algo que simula jornalismo. Mas não é. Tenho defendido nesse Observatório que o problema do jornalismo não é diploma, mas essas coisas que simulam jornalismo. Também tenho defendido que o Sindicatos, os sindicatos, criem ouvidorias para defesa do cidadão. Quando vejo essas coisas, eu tenho certeza de que precisamos disso, de quem proteja o cidadão do falso jornalismo. O que o Correio Braziliense está fazendo - e não é de hoje - merece ser levado aos tribunais, merece ser avaliado pela comissão de ética do sindicato, precisa ser debatido com a sociedade. Não podemos permitir que o jornalismo seja confundido com isso
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