ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 566 - 1/12/2009
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OPERAÇÃO CAIXA DE PANDORA
Novo mensalão, velha imprensa

Por Rodrigo Chia em 1/12/2009

Se a imprensa brasileira avançou muito nas últimas décadas, a de Brasília, capital federal e quarta maior cidade do país, parou no tempo. O caso envolvendo o governador José Roberto Arruda, tornado público pela Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal, é apenas o exemplo pronto e acabado do nível de compromisso ético do principal jornal local, o Correio Braziliense, e de seu (distante) concorrente Jornal de Brasília. A cobertura, nos dois dias seguintes à divulgação das acusações feitas pelo ex-secretário Durval Barbosa, fartamente documentadas com gravações de áudio e vídeo, traz saudades dos casos mais pitorescos – e absurdos – protagonizados por Assis Chateaubriand, o Chatô, fundador dos Diários Associados.

No sábado, um dia após o caso se tornar público, o Correio Braziliense saiu-se com a seguinte manchete: "GDF e distritais são alvo de investigação". À parte a impossibilidade de o "governo do Distrito Federal", por razões óbvias, ser alvo de uma investigação criminal, a ausência de menção a José Roberto Arruda, inclusive na submanchete ("PF e Justiça apuram suposto esquema de propinas a parlamentares"), ignora qualquer critério jornalístico conhecido. A manchete do Jornal de Brasília, o presumido concorrente, foi ainda mais surreal: "Arruda exonera secretários".

De olhos bem fechados

Apenas para efeito de contraste, confira as manchetes dos três jornais mais vendidos no país, no mesmo dia:

O Globo: "Governador do DEM é suspeito de pagar propina a deputados"

PF grava José Roberto Arruda negociando repasse de dinheiro com assessor

Folha de S.Paulo: Governador do DF é acusado de corrupção

Segundo a PF, secretário gravou pedido de distribuir R$ 400 mil a aliados; Arruda (DEM) nega acusação

O Estado de S. Paulo: Polícia flagra "mensalão do DEM" no governo do DF

Suposto esquema teria até mesmo participação do governador Arruda

No domingo, o Jornal de Brasília, talvez convencido de que o envolvimento de Arruda no caso era indisfarçável, admitiu citá-lo em sua manchete: "DEM pressiona o governador". No entanto, o Correio, líder absoluto do mercado brasiliense, não só manteve os olhos fechados, como pôs no alto da primeira página sua série especial sobre o crack. Abaixo da dobra, veio o tema secundário, e novamente por vias oblíquas: "OAB-DF pede explicações sobre denúncias". O nome de Arruda, ou mesmo o cargo de governador, não apareceu nem no imenso texto abaixo do título: "Instituição determina abertura de processo para analisar suposto esquema de corrupção no GDF. Com vários distritais citados no inquérito, Câmara não chega a consenso. TV divulga vídeos gravados pelo ex-secretário Durval Barbosa, exonerado do cargo".

Vice-governador, um ser diáfano

Em resumo, nas duas edições subseqüentes à divulgação do apurado na Operação Caixa de Pandora, o nome do governador José Roberto Arruda apareceu uma vez na primeira página do jornal mais vendido de Brasília. Uma.

Os grandes jornais do país, por razões insondáveis, mantiveram o interesse pelo caso no domingo [29/11].

O Globo (manchete): DEM admite que situação de Arruda é insustentável

Imagens mostram governador do DF recebendo dinheiro e negociando propina

Folha de S.Paulo (segunda manchete): Governador do DF aparece em vídeo recebendo dinheiro

O Estado de S. Paulo (segunda manchete): Em vídeo, Arruda recebe R$ 50 mil

Fita incrimina o governador do DF, suspeito de ser "chefe da quadrilha" (segunda matéria)

Se o nome de Arruda mal apareceu nas primeiras páginas dos jornais de Brasília, o vice-governador, Paulo Octávio, tornou-se um ser diáfano – ninguém sabe, ninguém viu.

Ainda nos tempos de Chatô

Mas que interesses levariam Correio e Jornal de Brasília a proteger o governador e o vice-governador?

Ignore-se que os maiores anunciantes de ambos são o governo do Distrito Federal e o setor imobiliário. Ignore-se que Arruda e Paulo Octávio comandam os gastos do GDF com publicidade e que este último é dono da maior construtora da capital. Ignore-se que Paulo Octávio é sócio dos Diários Associados – donos do Correio – na TV Brasília. Ignore-se que Durval Barbosa denuncia, além das propinas e desvios, uma reunião "jornalística" entre Arruda, José Celso Gontijo (dono de construtoras e sócio de Paulo Octávio) e Álvaro Teixeira da Costa (presidente do Correio). Ignore-se que, a se julgar por recente matéria da revista Época, o empresário Marcos Lombardi, dono do Jornal de Brasília desde 2007, mantém relações, por assim dizer, bastante próximas com Jose Humberto Pires de Araújo, secretário de governo de Arruda.

Ignore-se tudo isso, e mais um pouco, e não há por que achar que Correio Braziliense e Jornal de Brasília se empenharam em tentar fazer desaparecer do noticiário – também em seus sites Correioweb e Clicabrasilia – um escândalo envolvendo governador, vice-governador, secretários e deputados distritais, além de empresários do setor mais poderoso da capital.

A questão é: até quando o cidadão do Distrito Federal vai continuar ignorando que os esquemas de propina, os desvios de verba pública, os favorecimentos, as fraudes e os abusos dependem não só de políticos, servidores e empresários inescrupulosos, mas também da manutenção de uma imprensa que parece não ter avançado nada desde os tempos de Chatô, quase cem anos atrás?

Link da Época:

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI93944-15223,00-TERRENO+EM+BRASILIA+SOFRE+ESPETACULAR+VALORIZACAO.html

Comentários (3)
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Marcelo Ramos , Brasilia-DF - Publicitario
Enviado em 4/12/2009 às 21:37:37
Ótimo artigo, pena que não traga muitas novidades. O hoje blogueiro e articulista do Globo, Ricardo Noblat, quando esteve no Correio como editor-chefe, fez o famoso jornalismo combativo. Hoje, tanto o Noblat (no Globo) quanto o Correio fazem o jornalismo que seus patrões mandam. O Correio tem posto em prátia aquela frase do filme Jerry Maguire: Show me the money! E se você mostrar o dinheiro, como Arruda fez, não precisa esperar oposição. Os outros jornais fizeram cobertura burocrática. Falaram o mínimo mas não aprofundaram a questão do Mensalão. Aliás, esse aqui sim, Mensalão. Dinheiro para pagar o deputados para que votassem projetos de interesse. A propósito de uma frase do autor, sobre a imprensa de 100 anos atrás, há uns tres anos, mencionei que a imprensa no Brasil, com poucas variações ainda funciona como em uma cidade do interior do Brasil na década de 1920. Ainda bem que outros percebem.
Aryana Aragão , Brasília-DF - estudante
Enviado em 4/12/2009 às 18:48:31
Há algum tempo li um artigo, na Internet mesmo, questionando como os jornais de Brasília nunca conseguiram emplacar como grandes jornais nacionais, assim como Folha e Estadão (não que esses também não tenham seus pecados). A resposta está acima, no artigo do Rodrigo. São jornais comprados, sustentados pelo governo local. Jornais que acham que a sociedade não merece a melhor apuração, feita com isenção e resposabilidade, não merecem realmente estar entre os melhores do país. Isso para o bem de toda sociedade. Lembro-me do dia das últimas eleições presidenciais, quando o Correio Braziliense fez o perfil dos candidatos Lula e Alckmin. Deste ressaltando as qualidades, daquele foram buscar até deslizes cometidos na infância, como a vez em que Lula mentiu para a mãe. Como diz F. Gabeira, "jornais, não confio em nenhum. Por isso, leio todos". Realmente não é fácil lidar com esse tipo de mídia que ainda fala em nome da democracia!
Reonauto Souza Jr , Aracaju-SE - Advogado
Enviado em 2/12/2009 às 16:45:51
Brilhante artigo, Rodrigo! Preciso, conciso, objetivo, independente, sóbrio e o mais importante: lúcido. Escrito por um cidadão de olhos bem abertos. Aliás, esses deveriam ser predicados atávicos de todo e qualquer meio de comunicação, mas infelizmente não são.
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