ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 568 - 15/12/2009
  Caderno da Cidadania
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SARNEY E A CONFECOM
Resistência à censura judicial é uma causa de todos

Por Alberto Dines em 18/12/2009

Quando se afirma que esta é a Era da Comunicação colocamos a Comunicação como prioridade na agenda de debates. Acontece que raramente a mídia e a imprensa estão na pauta da mídia e da imprensa, contradição difícil de ser explicada e mantida por mais tempo. Neste sentido, a própria realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação, a Confecom, constitui um salutar avanço.

Algumas das propostas aprovadas pelo plenário, se implementadas, poderão corrigir graves disfunções do nosso sistema midiático. Uma delas é a restrição a concessão de canais de rádio e televisão a parlamentares e governadores. Outra proposta que poderá corrigir e contornar o lamentável erro do STF ao extinguir a obrigatoriedade do diploma é a criação do Conselho Nacional de Jornalistas, uma espécie de Ordem dos Jornalistas. Certamente aparecerão outras quando for publicado relato final e formal do evento.

A Confecom porém equivocou-se ao ignorar de forma ostensiva a censura imposta ao Estado de S.Paulo" há 140 dias pelo Tribunal de Justiça de Brasília a pedido de Fernando Sarney gestor, dos negócios da família do presidente do Senado.

A única moção de protesto contra José Sarney aprovada na sessão final foi vaga e imprecisa ("por patrocinar o cerceamento da liberdade de expressão"). Não se referia especificamente ao caso da censura ao Estadão e poderia valer para o caso de uma blogueira do Amapá, vítima de dezenas de processos movidos pelo presidente do Senado.

Novo modelo

A desistência do clã Sarney de prosseguir na calamitosa censura prévia ao jornal agrava o lapso cometido pelos organizadores da Confecom. Perderam uma maravilhosa oportunidade de retirar das mãos das entidades empresariais o bastão da luta pela liberdade de expressão.

Abdicar da luta contra a censura porque ela só interessa ao patronato é um grave erro político combinado com uma vocação profissional suicida. Além de constituir-se numa arrevesada forma de reviver a luta de classes.

A censura judicial que ora se implanta no país prejudica mais os jornalistas do que os empresários. Veja-se o caso da decisão divulgada na quinta-feira (17/12, pág. A-13) condenando a Folha de S.Paulo e seu repórter investigativo, Frederico Vasconcelos, pela revelação das irregularidades cometidas pelo juiz Ali Mazloum. O jornal terá que pagar 1,2 milhão de reais como indenização por ofensas morais, mas o repórter foi enquadrado, intimidado, cerceado no seu direito e no seu dever de informar a sociedade.

O fato da censura imposta ao Estadão beneficiar os negócios da família Sarney, principal aliado do governo, não deveria comprometer ou mitigar o engajamento dos profissionais na luta pela liberdade de imprensa. A resistência à censura togada é uma causa que deve reunir com igual empenho todos os segmentos da atividade jornalística.

Ignorar o novo modelo de mordaça é uma forma de partidarizar e relativizar as lutas pelo Estado de Direito. Se a defesa da democracia não consegue mobilizar todas as tendências políticas do país algo, está errado com elas.

***

Fernando Sarney anuncia desistência de ação contra o Estado

Reproduzido do portal estadao.com.br, 18/12/2009 (16h52)

O empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), anunciou nesta sexta-feira, 18, ter desistido da ação que move contra O Estado de S.Paulo. Liminar aceita em 31 de julho pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJ-DF) impede o jornal de publicar reportagens sobre a Operação Faktor, antes conhecida por Boi Barrica, da Polícia Federal. A censura o Estado e ao estadao.com.br perdura há 140 dias.

Até o momento o jornal não recebeu nenhum documento que confirme o pedido de desistência e seus termos. Enquanto não houver decisão judicial sobre o pedido a decisão que censurou o jornal continua em vigor. A análise do pedido só deve ser feita em janeiro, já que o TJ-DF entra em recesso nesta sexta-feira (18/12).

Um dos investigados na operação, que está sob segredo de Justiça, Fernando Sarney é suspeito de tráfico de influência, lavagem de dinheiro e remessa ilegal de divisas para o exterior. Por "cada ato de violação" da decisão judicial, o TJ-DF determina aplicação de multa de R$ 150 mil – , isto é, para cada reportagem publicada.

Junto com a nota à imprensa, Fernando Sarney também encaminhou uma carta à Associação Nacional de Jornais (ANJ) justificando o que o levou a processar o jornal.

A liminar que proibiu a publicação de informações sobre a investigação da PF veio em meio às pressões para que José Sarney deixasse a presidência do Senado, e foi acatada pelo desembargador Dácio Vieira em 31 de julho. Para o magistrado, o jornal não poderia publicar qualquer informação que estivesse sob segredo de Justiça.

Convívio social

Ex-consultor jurídico do Senado, o desembargador é do convívio social da família Sarney e do ex-diretor-geral do Senado Agaciel Maia. Vieira foi um dos convidados presentes ao luxuoso casamento de Mayanna Maia, filha de Agaciel, da qual Sarney foi padrinho. Ele foi fotografado ao lado do senador. Na mesma data, o Estado revelou a existência de atos secretos na Casa.

Em fevereiro, Sarney já havia comparecido à posse de Dácio Vieira na presidência do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Distrito Federal. Antes de se tornar magistrado, Dácio Vieira fez carreira no Senado.

O pedido de Fernando Sarney vem oito dias depois de decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que deixou de analisar o mérito de uma reclamação do Estado, mantendo a censura ao jornal. A Corte entendeu que este não era o meio correto de discutir a questão.

O recurso foi ajuizado com base em decisão do Supremo que revogou a Lei de Impresa. Neste acórdão, o tribunal concluiu que "não há liberdade de imprensa pela metade ou sob as tenazes da censura prévia, inclusive a procedente do Poder Judiciário". A Lei de Imprensa que vigorou até o julgamento de abril era um documento legal do tempo do regime militar (1964-1985).

A íntegra da nota

"Nota à Imprensa

Encaminhei à Justiça de Brasília desistência da ação que movo contra o Jornal O Estado de São Paulo.

A ação foi necessária para defesa de meus direitos individuais protegidos pela Constituição e sob tutela do segredo de Justiça, reconhecidos pelo Supremo Tribunal Federal. Infelizmente este meu gesto individual de cidadão teve, independente de minha vontade, interpretação equívoca de restringir a liberdade de imprensa, o que jamais poderia ser meu objetivo. Para reafirmar esta minha convicção e jamais restar qualquer dúvida sobre ela, resolvi tomar esta atitude, considerando que a Liberdade de Imprensa é um patrimônio da democracia e que jamais tive desejo de fazer qualquer censura a seu exercício.

Fernando Sarney, São Luis, 18 de dezembro, 2009"

***

Filho de Sarney desiste de ação contra jornal O Estado de S. Paulo

Reproduzido da Folha Online, 18/12/2009 (16h50)

O empresário Fernando Sarney desistiu da ação que movia contra o jornal O Estado de S. Paulo. Filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), Fernando conseguiu uma liminar que impedia o jornal de publicar reportagens sobre as investigações que vinculam seu nome à Operação Boi Barrica (rebatizada de Faktor), da Polícia Federal.

A operação investiga suspeitas de ilegalidades em movimentações financeiras feitas por empresas da família Sarney na campanha eleitoral de 2006 no Maranhão.

Fernando Sarney foi indiciado no dia 15 de julho deste ano por formação de quadrilha, gestão de instituição financeira irregular, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. O empresário nega as acusações.

O jornal O Estado de S. Paulo está sob censura desde 31 de julho. A censura ao jornal – que durou 140 dias – foi determinada pelo desembargador Dácio Vieira, do TJ do Distrito Federal e Territórios.

Ao justificar o motivo de ter recorrido à Justiça contra o jornal, Fernando Sarney disse que tentou proteger seus direitos individuais. "Infelizmente, este gesto cidadão teve, independente de minha vontade, interpretação equívoca de restringir a liberdade de imprensa, o que jamais poderia ser meu objetivo", afirmou ele em nota.

O empresário afirma que desistiu da ação para reafirmar sua defesa da liberdade de imprensa. "Para reafirmar minha convicção e jamais restar qualquer dúvida sobre ela, resolvi tomar esta atitude, considerando que a liberdade de imprensa é um patrimônio da democracia e que jamais tive desejo de fazer qualquer censura a seu exercício."

Ele enviou carta para a ANJ (Associação Nacional de Jornais) informando sobre a decisão. "Desisto da ação. Não dos meus direitos."

A disputa judicial

Após a decisão do TJ-DF, o jornal tentou derrubar a censura em outras instâncias. O caso chegou ao STF em 17 de novembro, quando o jornal entrou com recurso contra a decisão do tribunal tomada em setembro. Na ocasião, o tribunal determinou que a competência para julgar o processo é da Justiça Federal do Maranhão, onde corre o processo sobre a operação da Polícia Federal, e manteve a censura.

Ainda em setembro, o Conselho Especial do Tribunal de Justiça do Distrito Federal decidiu afastar, por suspeição, o desembargador Dácio Vieira, que censurou o jornal. Na ocasião, foram julgados dois pedidos do jornal que tentavam afastar o juiz.

O primeiro argumentava que ele é amigo do ex-diretor-geral do Senado Agaciel Maia, ligado a Sarney, e que Vieira ocupava cargo de confiança na Casa antes de ser nomeado para o TJ-DF. Para os desembargadores do conselho, isso não acarretava suspeição.

O segundo argumentava que Vieira havia criticado o jornal ao se defender, por escrito, do primeiro pedido de afastamento. Por 10 votos a 2, decidiram afastá-lo. O afastamento, no entanto, não anula as decisões de Vieira no caso.

Leia também

A íntegra do comunicado de Fernando Sarney

A íntegra da carta enviada para a ANJ

Comentários (10)
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Ney José Pereira , São Paulo-SP - Contador
Enviado em 20/12/2009 às 19:37:07
E no Amapá o esquema do suserano maranhense (e autoenteado amapaense) José Lulático Sarney é com o funcionalismo público municipal e estadual e federal. Atenção, o O Estado de S. Paulo: Que tal uma "reportagem especial" sobre o esquema do suserano maranhense José Lulático Sarney no Amapá?!. Observação: Como pode o presidente do Senado Federal José Lulático Sarney ser também (concomitantemente) colunático folháctico?!. Abaixo a promiscuidade sarnática/octaviática!.
Camilo Capiberibe , Macapá-AP - Deputado Estadual
Enviado em 20/12/2009 às 12:22:40
Caro Dines, a Moção de Repúdio cita expressamente a censura ao Jornal O Estado de São Paulo, pode ser que não na ementa, mas a censura que se faz em São Paulo não é maior do que a que se produz no Amapá. Transcrevi só o segundo parágrafo que trata do tema do seu artigo. Atenciosamente MOÇÃO DE REPÚDIO Ao senador José Sarney, por patrocinar o cerceamento da liberdade de expressão de blogs e meios de comunicação dos Estados do Amapá e São Paulo, e, consequentemente, do Brasil. (...)No Estado de São Paulo, o Jornal O Estado de São Paulo encontra-se há 137 dias sob censura por ter publicado matérias que continham informações da Operação Faktor, mais conhecida como Boi Barrica. O recurso judicial, que pôs o jornal sob censura foi apresentado pelo empresário Fernando Sarney, filho do senador José Sarney. Diante do exposto, nós, participantes da I Conferência Nacional de Comunicação (CONFECOM), vimos manifestar através desta moção, nosso repúdio ao senador José Sarney por patrocinar o cerceamento da liberdade de expressão de blogs e meios de comunicação do Amapá, de São Paulo e do Brasil. Brasília, 17 de dezembro de 2009
Carlos Lopes , Belo Horizonte-MG - Consultor
Enviado em 20/12/2009 às 02:01:11
É lamentável o nível dos petistas que entram aqui para baixar o pau no Dines e louvar a famiglia Sarney.
Henrique Teixeira , Brasília-DF - Jornalista
Enviado em 19/12/2009 às 21:32:56
De fato, se ficar definido que políticos não possam ter outorgas (autorizações, permissões e concessões) de rádio e TV podemos avançar no aspecto da democratização das comunicações. Mas segundo investiguei recentemente na pesquisa - Outorgas e renovações de rádio e TV: a radiodifusão no Senado 1999 a 2008 - quase 80% dos 5.429 atos aprovados no período foram destinados para os próprios estados dos senadores. Dessa forma, como pode haver seriedade na mídia estadual? Um absurdo que precisa ser corrigido rapidamente. Do contrário, será difícil romper essa realidade de manipulação dos meios de comunicação estadual.
Luiz Fernando Mendes de Santana , Rio de Janeiro-RJ - Eng. Mecânico
Enviado em 19/12/2009 às 21:18:45
A reclamação de censura do Dines é seletiva. Ele nunca questionou o pacto de silêncio feito na Grande Mídia para encobrir o filho de FHC com a jornalista da Globo Míriam Dutra. Seria um assunto privado se não envolvesse um candidato a presidente na época. Esta jornalista foi para a Espanha com salários pagos pela emissora. Nunca fez uma matéria no tempo em que ficou lá. Que acordo foi feito entre um candidato a presidente e a grande mídia para ocultar isto? Não existe almoço grátis. Em 1989 o jornal O Globo publicou editorial denominado "O Direito de Saber" defendendo que a população deveria saber tudo sobre os candidatos a presidente - justificando a exposição do caso Lurian. Este editorial só valeu para o Lula. Será que FHC teria sido eleito se a população ficasse sabendo que um modelo de retidão, virtude e moral, tinha tido um filho fora do casamento e acima de tudo, não registrado? FHC ficou devendo "favor" a Grande Mídia? Como este "favor" foi pago? Dines nunca se preocupou com isto.
Moacyr Pinto Costa Junior , Santos-SP - Advogado
Enviado em 19/12/2009 às 19:45:33
Parabéns ao autor pelo excelente artigo. MOACYR PINTO COSTA JUNIOR Advogado e Professor Universitário http://mpcjadv.blogspot.com
Fernando  Vieira , Santos-SE - Analista de Sistemas
Enviado em 19/12/2009 às 19:06:21
Dines Não entendi até agora o emprego do termo "censura".Um caso está sendo investigado em segredo de justiça, um jornal quer publicar a dados da investigação e ai é censura. Acho que deve ter algum motivo para ser uma investigação correr em segredo de justiça Abraço a todos e boa tarde
Wendel Anastacio , Barbacena-MG - Vendedor
Enviado em 18/12/2009 às 23:33:39
É Dinis, voce agora pode dormir tranquilo! Ou será que o final deste episódio o deixará mais incomodado por falta de adversários? À época, talvez tivesse surtido o efeito desejado pela mídia, que era atingir o Pres. do Senado, e por vias indireta a sustentação que o mesmo dá ao Presidente Lula, mas agora... As "virtudes" da família Sarney, nada pessoal, são por demais conhecidas à séculos, mas a mídia somente as descobriu agora! Estranho não? Bem, assunto ultrapassado! Vamos ver no que vai dar as propostas da 1ª Confecon. Espero vê-lo quando as mesmas estiverem no Congresso, e os políticos "vendidos" e "vendáveis", mostrarem a cara! Inté..........
Marcio Flizikowski , Curitiba-PR - Professor
Enviado em 18/12/2009 às 22:39:15
Gostaria que alguém me explicasse uma coisa: o Estadão não estava sob censura e proibido de publicar qualquer notícia sobre a Operação Faktor (ex-Boi Barrica) envolvendo Fernando Sarney? Se o jornal estava censurado, como explicar esta parte da notícia publicado no portal do EStadão: "Um dos investigados na operação, que está sob segredo de Justiça, Fernando Sarney é suspeito de tráfico de influência, lavagem de dinheiro e remessa ilegal de divisas para o exterior. Por "cada ato de violação" da decisão judicial, o TJ-DF determina aplicação de multa de R$ 150 mil – , isto é, para cada reportagem publicada." São informações sobre a operação. E a censura? A censura nunca existiu. O Estadão poderia publicar todas as notícias sobre o caso, inclusive falar sobre as acusações que recaiam sobre Fernando Sarney (como fez agora). O que o Estadão não podia era publicar informações sigilosas do inquérito, obtidas por meio de vazamento ilegal. Em suma, censura nenhuma. Apenas a garantia do sigilo daquilo que a JUSTIÇA determinou ser sigiloso e não um editor ou repórter decidiu que eram relevantes ao público.
Dante Caleffi , Rio de Janeiro-RJ - Publicitário
Enviado em 18/12/2009 às 22:08:27
O Estadão vai ter que queimar as pestanas para descobrir um novo marketing.Essa da censura nem a SIP acreditava. Se a Folha vai "morrer"em 1milhão e duzentos para o juiz Masloun, quando deve valer a ficha fraudada da Ministra Dilma? É bom que os Frias filho,organize melhor o seu fluxo de caixa,porque vai começar a arder o bolso. A VEJA,que pratica o "jornalismo de esgoto",já tem uma "conta difamação",para suprir essas eventualidades. Pelo, visto deve valer a pena:os Civita desde o governo Brizola se dedicam a denegrir,difamar e assassinar reputações.Contudo,perderam todas. Para seu conforto,contam com o corporativismo, alto custo da justiça,iinstrumentoslegais difusos e as táticas protelatórias.Invariavelmente,para a vitima é sempre uma vitória de Pirro. Para "eles",mais um negócio.
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