ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 568 - 15/12/2009
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1ª CONFECOM
O misterioso e suspeito desaparecimento do Conselho de Comunicação Social

Por Alberto Dines em 15/12/2009

A Conferência Nacional de Comunicação é uma iniciativa que merece ser saudada e prestigiada. Sobretudo diante do misterioso e suspeito desaparecimento do Conselho de Comunicação Social (CCS), órgão auxiliar do Congresso previsto pela Constituição para a tomada de decisões. Demorou 14 anos para sair do papel e depois de breve existência eclipsou-se misteriosamente.

O CCS teve vida breve, porém profícua e, por isso, resumida praticamente a um único mandato (2003-2005). Em seguida suicidou-se, graças à diligência do coveiro indicado pelo chefe do Legislativo, senador José Sarney, para enterrá-lo.

Na pauta das discussões da Conferência, não aparece nenhuma sugestão destinada a revivê-lo e, assim, superar a afrontosa ilegalidade atual. Mas há propostas para criar Conselhos de Comunicação Social nas esferas municipal, estadual e federal sem vinculação com o Executivo e o Legislativo.

Exigência constitucional

O CCS, além de ser fruto de uma exigência constitucional longamente debatida pelos constituintes de 1988, tinha legitimidade, foi escolhido por um acordo partidário, endossado pela Mesa do Senado. Sua arquitetura era precária (dos cinco representantes da sociedade civil apenas três não possuíam vinculações corporativas, um dos quais era o presidente, não-votante). Mesmo assim, foi possível discutir importantes tópicos da agenda midiática (os oito conselheiros restantes foram escolhidos equitativamente pelas corporações empresariais e profissionais).

Na pauta de discussões da Confecom não é mencionada com clareza a necessidade de se criar um órgão regulador nos moldes da FCC (Federal Communications Comission) americana ou do modelo europeu das Altas Autoridades para o Audiovisual. Esta é uma questão central que não deveria estar camuflada ou disfarçada. A existência da FCC nunca foi seriamente contestada nos EUA e os seus recuos na Era Bush não chegaram a anular os benefícios que produziu na matriz da livre iniciativa. O mesmo acontece na União Européia com os diversos organismos reguladores, aceitos com naturalidade pelo segmento do empresariado mais conservador.

O Estado é laico

A regulação viola o venerando conceito da liberdade de impressão defendido já no século 17 por John Milton. A mesma regulação, porém, será de capital importância para evitar o caos produzido pela convergência de tecnologias nas mídias eletrônicas e digitais.

As propostas preliminares colocadas diante da Confecom mencionam a necessidade de reorganizar o sistema de concessões para o audiovisual, mas nenhuma ONG encarou a aberrante distribuição de canais de rádio e TV para parlamentares, vergonhoso comércio de favores que compromete visceralmente tanto a nossa mídia eletrônica como a própria lisura dos procedimentos parlamentares. Sem este saneamento estrutural será impossível criar um sistema audiovisual minimamente isonômico e justo.

O dossiê oferecido pelos órgãos governamentais contém propostas positivas e realistas:

** Aprovação de uma lei que garanta o direito de resposta e regule o valor das indenizações (corrigindo-se a lamentável decisão do STF que extinguiu integralmente a Lei de Imprensa);

** Coibir a comercialização para terceiros do tempo da programação de rádio e TV;.

** Criação de instrumentos para controlar o número máximo de concessões para grupos empresariais;

** Flexibilizar a Lei de Licitações para facilitar a compra de conteúdos regionais independentes;

** Restringir a propriedade cruzada de meios de comunicação, sobretudo em cidades médias e pequenas (tal como preconiza a FCC americana);

** Garantir o acesso à banda larga para todo cidadão;

** Regular por lei o preceito constitucional da classificação indicativa da programação de TV;

** Exigir contrapartidas dos fabricantes de bebidas alcoólicas, sobretudo cervejeiras, para mensagens de alerta para o perigo do seu consumo.

Algumas propostas oficiais não escondem a sua natureza centralizadora e intervencionista:

** A redução dos custos dos pequenos jornais é uma ilusão e uma forma de controlá-los. Melhor seria adotar os modelos ora em discussão no Congresso americano que prevêem para a pequena imprensa ameaçada de extinção o formato de sociedade não-lucrativa, livre de impostos.

** A regulamentação do proselitismo religioso é uma balela, tentativa de manter o status quo antidemocrático: o Estado brasileiro é laico. Ponto final. Proselitismo religioso faz-se nos templos que já gozam de amplos privilégios fiscais e trabalhistas.

Recurso de "judicializar" é inadequado

Lamentável a decisão de não participar da Confecom adotada pelas seis mais importantes entidades empresariais de mídia (ANJ, Abert, Abranet, ANER, Associação Brasileira de TV por Assinatura e Associação de Jornais e Revistas do Interior). Sem uma plataforma mínima para o exercício da convivência e da negociação (já alcançada no falecido CCS) será difícil evitar futuras confrontações.

O recurso de "judicializar" todas as pendências políticas mostrou-se neste ano rigorosamente inadequado. Os supremos magistrados estão estressados pela excessiva visibilidade, desgastados por confrontos pessoais e afogados pela avalanche de demandas. As partes insatisfeitas promovem imediatamente a volta à estaca zero. Melhor conversar ou, pelo menos, ouvir.

 

Leia também

Biblioteca com os documentos oficiais e propostas da Confecom

Comentários (6)
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Augusto Cézar Contreiras de Almeida , Guará-DF - professor de 1º e 2º graus - História
Enviado em 22/12/2009 às 09:49:52
Simples e objetiva suas colocações. A grande mídia privada é avessa a qualquer tipode controle . Chama a atenção sua colocação sobre direito de resposta, quando, às vezes, se tem que recorrer á justiça para garantir o mesmo.
João Brant , São Paulo-SP - Radialista
Enviado em 21/12/2009 às 01:06:47
Caro Dines, em consonância com suas preocupações, a Confecom aprovou propostas sobre: - reativação imediata do CCS - laicidade na exploração dos serviços de radiodifusão - proibição de outorgas para políticos - regulação da radiodifusão por órgão independente Um abraço João Brant
jose carlos lima , goiania-GO - estudante
Enviado em 17/12/2009 às 10:32:04
Estou muito feliz com a aprovação da resolução sobre a criação do Conselho Nacional de Comunicação pelo Confecom, por sinal uma determinação da Constituição Federal. Assim, aos poucos vamos democratizando a mídia. Esperamos que a relização das Confecom passe a ser uma obrigação legal. Assim mesmo, aos poucos vamos conseguindo fazer com que o Brasil passe a ter uma imprensa que digne dizer-se como tal e respeite os princípios básicos do jornalismo, da ética, da dignidade humana. Grato, Idéia Sem Freios http://josecarloslima.blogspot.com/2009/12/ideia-sem-freios-historia-de-ideia-i.html
jose carlos  lima , goiania-GO - estudante
Enviado em 16/12/2009 às 21:09:03
A Confecom já é um sucesso, aprovado o Conselho Nacional de Comunicação, já previsto na CF,mas que o baronato da mídia sempre barrou. http://josecarloslima.blogspot.com/2009/12/conferencia-de-comunicacao-na-tv-globo.html
Ibsen  Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 16/12/2009 às 17:31:31
Não vejo muito mistério no desaparecimento do CCS. O congresso tem minado tudo que é bom na área da comunicação e cedido muito ao corporativismo. Para mim está claro que nessa matéria (como se nas outras algo fosse diferente) eles legislam em causa própria.
Gilberto de Almeida , Rio de Janeiro-RJ - Téc. Informática
Enviado em 15/12/2009 às 15:11:49
As entidades que representam as "grandes" efetivamente não querem algo que vá controlar a lisura de seus veículos, mas precisam entender que a sociedade quer! Enquanto não houver um controle efetivo onde se possa responsabilizar empresa e jornalista com regras claras neste país ficaremos à merce das "Dita Brandas" da vida, o que é uma palhaçada. Atualmente não compro jornal, revista ou o que o valha uso a internet para me informar, mas sempre confrontando veículos nacionais e de fora do país e já vi cada porcaria da nossa "imprensa". Ontem a Globo falou a respeito em três linhas, mas assistindo a TV BRASIL que deu um enfoque bem didático do evento pude entender melhor e concordar com as propostas de um controle efetivo da mídia. Para tudo tem que ter regras senão vira o samba do crioulo doido, é igual à Cidade do Rio de Janeiro quando governada pelo César Maia a verdadeira "casa da sogra" cada um faz o que quer e dane-se o resto.
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