ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 572 - 12/1/2010
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SOLIDARIEDADE AO HAITI
Até quando?

Por Alberto Dines em 18/1/2010

Comentário para o programa radiofônico do OI, 18/1/2010

O Haiti já não existe, este foi o título de primeira página de domingo (17/1) no jornal espanhol El País. Ruíram ou foram soterradas pelo sismo as precaríssimas instituições do Estado.

Não se sabe e nunca se saberá quantos haitianos morreram. Qualquer estatística será enganosa, as divergências entre o número de vítimas (de 40 mil a 120 mil) talvez seja o aspecto mais aterrador da situação: nenhuma autoridade, municipal ou estatal, é capaz de assumir responsabilidades, tomar decisões e determinar providências, exceto o comando brasileiro da missão da ONU que se encarrega da segurança e os americanos que coordenam a ajuda humanitária.

Uma catástrofe sem dados, sem termos de comparação, um apocalipse sem gráficos, infográficos, baseado em fotos dantescas e histórias individuais horripilantes, anônimas, mudas, sem lágrimas – quanto tempo conseguirá a mídia internacional manter aquilo que foi o Haiti nas manchetes e na "escalada" da mídia eletrônica?

E nossa solidariedade, quanto durará?

Nossa compulsão para driblar tragédias, principalmente as distantes, quando começará a se impor ao dever humanitário de compartilhar sofrimentos?

Volta à rotina

Estamos no verão, temporada de férias, prazeres, os anunciantes querem a cobertura dos desfiles de moda, a São Paulo Fashion Week está aí, almas machucadas pela dor resistem aos impulsos compristas e a mídia adora bolhas, vive delas. Logo, logo, voltaremos às abobrinhas e irrelevâncias, à fleuma e ao burocratismo.

A revista IstoÉ minimizou o Haiti na capa, no domingo o Estado de S.Paulo acabou com o caderno haitiano e passou a cobertura para as páginas internacionais.

As tragédias em Angra dos Reis, Ilha Grande, São Luiz de Paraitinga e Porto Alegre aconteceram há18 dias, e no último fim de semana já não haviam evaporado.

Enterrados os mortos, estabelecido algum tipo de rotina em Porto Príncipe, o que restou do país terá ainda menos interesse. A indústria da notícia – ou circo da notícia – não suporta continuidades.

Comentários (14)
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tina tavares , marília-SP - jornalista
Enviado em 20/1/2010 às 11:48:48
Parabéns ao Observatório e obrigado ao Wendel por transcrever o artigo sobre o Haiti, foi louvável esta iniciativa! Diria ser um grande acontecimento jornalístico , uma mediação cidadã promovida pelas novas tecnologias e que não teve rapapés e vaidades editoriais, parabéns!!
Ismael Mamédio , Cascavel-PR - instalador elétrico
Enviado em 18/1/2010 às 22:25:39
"...e no ultimo fim de semana ja não haviam evaporado." Confesso que fiquei perdido no sentido desta frase, as tragédias haviam ou não haviam evaporado ? Quanto ao restante do texto, parabéns por trazer às claras a desfaçatez de nossa mídia em tirar de cena tais tragédias tão sentidas e consequentemente a reconstrução de cada uma delas, para dar espaço a futilidades da moda e outros afins.
wendel Anastacio , Barbacena-MG - Vendedor
Enviado em 18/1/2010 às 22:05:59
.../... (continuação)O grupo é apoiado pelo embaixador americano em Porto Príncipe, James Foley, que foi enviado para o Haiti em setembro passado e a partir daí passou a ter reuniões contínuas com os “rebeldes’’. Do currículo de James Foley há sua passagem pelo Kosovo. Ele chegou lá antes da ocupação da OTAN, em 1999 e, de imediato apoiou o Exército de Libertação do Kosovo (ELK) de conhecida ligação com o narcotráfico. O desfecho dessa história ainda está por acontecer. No dia 29 de fevereiro, quando assinou o documento de renúncia, o presidente haitiano estava sob a mira das M-16 das tropas especiais dos Estados Unidos e na frente dos embaixadores James Foley Thierry Burkard, o embaixador francês. Foi embarcado num avião sem saber qual o destino, caracetrozando o seqüestro e deve ser substituído por um dos sanguinários rebeldes que vêm servindo aos frequentes golpes de estado submetidos ao povo haitiano.
wendel Anastacio , Barbacena-MG - Vendedor
Enviado em 18/1/2010 às 22:03:30
.../... (continuação)O ódio secular do sistema francês é tão profundo que uma das primeiras providências tomadas por Quai D´Orsay para a articulação do golpe foi o pedido para que as nações do continente não participassem da festa de 200 anos de inependência. Enquanto as conversas ficaram por conta dos franceses, os americanos trataram de armar os “rebeldes” que estão equipados com armas mais modernas que a indústria armentista tem a oferecer no momento. Levando-se em conta a pobreza do país, é no mínimo suspeita a origem dessas armas. A Casa Branca contou com o apoio incondicional da República Dominicana que facilitou a entrada dos rebeldes por suas fronteiras. E quem são eles? Figuras conhecidas dessa triste história: Guy Philippe, , acusado do assassinato de dezenas de civis durante o golpe militar de 1990, JeanTatouene, conhecido torturador e integrante de forças paramilitares, Jode Chamblain, ex-Tonton Macoute, força policial do sanguinário ditador haitiano, Jean-Baptiste Duvalier, o “Papa Doc” e Emanuel Constant que em 1994, acompanhado de cem soldados invadiu a pequena aldeia de Raboteau á procura de aliados de Jean Aristide e terminou promovendo um massacre de 30 pessoas, com requintes de crueladade. Todos eles têm com ligações com o narcotráfico. (continua)
wendel Anastacio , Barbacena-MG - Vendedor
Enviado em 18/1/2010 às 22:00:09
.../... (continuação)De preferência, que Fidel caia antes de novembro de 2004, quando Bush vai enfrentar uma difícil reeleição contra o democrata John Kerry. Coincidentemente, foi Kerry quem 1989, denunciou a CIA de estar envolvida com o tráfico e comércio de drogas. Onde? No Haiti. Na época a famosa central de inteligência americana tramava o golpe de estado de 1990 que derrubou Aristide e pôs em seu lugar Raoul Cedras, antigo dirigente dos esquadrões da morte do Haiti. Enquanto Bush planeja transformar o Haiti em base para controlar todo o Caribe, as razões para a França são ainda mais mesquinhas. O governo de Jacques Chirac (e de seus antecessores, inclusive o socialista François Miterrand) nega-se a pagar um adívida que a França contraiu com o Haiti no século XIX. Aristide vinha insistentemente cobrando a dívida que o orgulho francês não deixa pagar. Os remanescentes da aristocracia francesa que acompanharam Bonaparte na sua política expansionista jamais perdoaram o Haiti por ter derrotado o poderoso exército de Napoleão em dezembro de 1803. Era a mais próspera das colônias e tornou-se independente, criando a primeira república negra das Américas em primeiro de janeiro de 1804. (continua).
wendel Anastacio , Barbacena-MG - Vendedor
Enviado em 18/1/2010 às 21:57:15
A título de contribuição transcrevo do Site "Nas entrelinhas", artigo de Memélia lMoreira com o título "Nossa América": Terça-feira, Março 09, 2004 UM GOLPE DAS POTÊNCIAS ALIADAS AO NARCOTRÁFICO Haiti, a nação mais miserável das Américas, com um índice de desemprego que beira os 80%, vive desde o dia 29 de fevereiro um dos mais eficazes golpes de estado que se tem notícia no continente. E não é para menos. Foi tramado em conjunto por duas superpotências: Estados Unidos e França, com total apoio do narcotráfico que faz de Porto Princípe, capital do País, a principal base de trânsito da cocaína que sai da Colômbia e entra nos Estados Unidos. O narcotráfico interessa aos credores. Paga os juros da dívida externa desse pobre país. A queda de Jean-Bertrand Aristide, presidente do Haiti, teve lances dignos de filmes de ação e espionagem. Ela começou a ser tramada em setembro de 2003 entre Washington e Paris e atende a interesses múltiplos. Para o presidente dos Estados Unidos, George Bush, a derrubada de Jean-Bertrand Aristide e a consequente militarização do Caribe ( a partir da ilha de Hispaniola, que tem Cuba a noroeste e Venezuela ao sul), é mais um passo para, em pouco tempo (espera Bush) derrubar Hugo Chávez, presidente da Venezuela e, máxima glória, Fidel Castro, o dirigente de Cuba. (continua)
Emerson Mathias Pinto , sao paulo-SP - economista
Enviado em 18/1/2010 às 20:11:12
Caro Dines, admiro a sua tenacidade e paciencia em compartilhar conosco seus pensamentos neste observatorio, em meio a tantos blogs e twitters que até nos dão a impressão de que sabemos (e devemos) escrever o que pensamos na internet. Falta memoria, falta vivencia, falta maturidade para boa parte de leitores e (quase) colaboradores deste espaço midiatico. Seus alertas, com base na sua memoria, vivencia e maturidade são essenciais para seguirmos lendo nas entrelinhas das noticiais o que preguiçosamente lemos apenas nas manchetes de jornais e portais de noticias. Abraços e feliz 2010.
Sebastião Wellinghton Novaes Rocha , PORTO ALEGRE-RS - bancário
Enviado em 18/1/2010 às 18:45:55
Compasrtilho a idéia do Wendel: As catástrofes naturais são pouco evitáveis, mas muito de seus danos pode ser atenuado. Ouvimos falar de furações nos Estados Unidos e Europa e - nao que eu torça que seja difrente - poucas vítimas. Nesses locais há prevenção, há estrutura que, arrisco dizer, são obtidas através da exploração de outros povos. No Hiati, em meio a tantas as instalações européias e americanas se abalaram bem menos. Então, há como prevenir, só que para isso são necessaŕios recursos. Os dos nativos já haviam sido depredados bem antes... e não pela Natureza.
Adriana Duarte de Oliveira , Brasília-DF - Psicóloga
Enviado em 18/1/2010 às 17:49:25
De fato o circo midiático não suporta continuísmos, porém o mais e inquestionável contiuísmo é o da ajuda humanitária ao Haiti , esse sim é de fundamental importância , com lentes ou sem lentes de fotográfos. Sabemos que desgraça vende e vende muito. O triste é cair num esquecimento coletivo a miséria que arrasa milhões de dignidades e sabemos que muitas sociedades miseráveis como várias na África tem um macabro financiamento, afinal nessa indústria de horrores alguém está lucrando. Será que algum dia essa conta vai fechar ? Qual será o verdadeiro significado disso tudo ?
Clarice  Alves , Juazeiro-BA - jornalista
Enviado em 18/1/2010 às 17:47:15
Vergonhoso, deprimente é ver as grandes redes de TV do Brasil e quem sabe as do mundo, ñ tenho como assistir a todas, brigando pelo tão desejado furo de reportagem. Como se a vida daquele povo já tão sofrido ñ significa-se nada. Esse é o papel da imprensa? Porque não vão saber do governador, do presidente daquele país o que será feita? Se estão no país vivendo a tristeza do seu povo?
João Marcos Fernandes , Jandira-SP - Dentista
Enviado em 18/1/2010 às 15:32:29
Alguem lembra do tsunami ???? 300.000 vítimas de uma calamidade apocaliptica e até hoje não lembro de uma cobetura jornalisitca digna sobre o ocorrido. Me pergunto como estarão os sobreviventes hoje e se a ONU efetivamente presou socorro adequado as populações. Sinto sede por informações. vejo que logo Haiti tambem caira no esquecimento.
Agildo Nogueira Junior , Campinas-SP - Jornalista
Enviado em 18/1/2010 às 14:59:52
O pior é que a imprensa está noticiando a tragédia como um "reallity show", preferindo destacar o drama dos sobreviventes como se fossem animais em perigo de vida.
Carlos Santiago , São Paulo-SP - Supervisor
Enviado em 18/1/2010 às 14:54:32
Clap! Clap! Clap!
Wendel Anastacio , Barbacena-MG - Vendedor
Enviado em 18/1/2010 às 10:36:37
Sr. Dinis, obrigado por citar esta pérola: "A indústria da notícia – ou circo da notícia – não suporta continuidades". Porque o Sr. não escreve um artigo citando o que era o Haiti no passado, e em que se transformou após as explorações e os saques praticados pela França e EE.UU ? Também daria um ótimo programa no OI, e seria uma exposição interessante, para os que não conhecem esta página negra da história! Principalmente, tendo em vista sua eloquência para se indignar! É por isto que relembro "ISTO É UMA VERGONHA"
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