ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 573 - 19/1/2010
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DIREITOS HUMANOS
O que a imprensa esconde

Por Luciano Martins Costa em 22/1/2010

Comentário para o programa radiofônico do OI, 22/1/2010

A imprensa brasileira fez um ótimo serviço ao colocar em debate o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos.

A imprensa brasileira fez um péssimo serviço ao adotar atitude tendenciosa diante do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos.

Essas são as duas posições antagônicas e inconciliáveis que se pode identificar nos comentários sobre o decreto publicado em dezembro e que só foi descoberto pelos jornais na segunda semana de janeiro. No entanto, nenhum jornal ainda mergulhou profundamente na questão. Apenas artigos esparsos, sempre em flagrante minoria em relação às opiniões contrárias, defendem o decreto.

As escolhas da imprensa, destacando textos que condenam tópicos específicos do decreto, estimulam claramente uma visão conservadora sobre uma medida que representa, na sua totalidade, a consolidação de conquistas sociais importantes dos brasileiros.

Para entender e discutir as possíveis distorções, seria essencial oferecer antes um panorama completo do que representam os três programas já apresentados nos últimos quinze anos.

Já se disse aqui que os PNDHs são conjuntos de propostas que trazem a visão do Estado brasileiro – e não de um governo ou grupo político, especificamente – sobre questões fundamentais para a estratégia do país. Essas propostas, em todas as três versões, foram amplamente discutidas em reuniões públicas, desde a primeira delas. Participaram dos debates entidades representativas de movimentos sociais de todos os tipos e tendências.

Temas polêmicos

A partir do 2º PNDH, os debates também aconteceram pela internet. Só não se manifestaram aquelas organizações que, por sua própria natureza, evitam colocar em público a defesa de seus interesses e preferem atuar nos bastidores – ou através da imprensa.

Essas propostas reproduzem e consolidam compromissos assumidos pelo Brasil em acordos internacionais.

Ninguém pode tirar do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – que anda estranhamente calado sobre o tema – a autoria da proposta original, elaborada quando ele ainda era o chanceler, no governo José Sarney.

E desde a primeira versão, o Programa Nacional de Direitos Humanos vem indicando uma tendência que a imprensa tenta agora fazer reverter: a de impor o controle social sobre os meios de comunicação.

Outras questões, como o direito da mulher a dispor de seu próprio corpo, são pontos pacíficos nas legislações dos países desenvolvidos há décadas. Da mesma forma, a necessidade de julgar os torturadores é questão já decidida. Mesmo porque, os opositores do regime militar já foram "julgados", à maneira da ditadura. Muitos deles foram torturados, alguns até a morte, outros simplesmente executados; há desaparecidos cujo paradeiro ainda não se conhece; milhares foram prejudicados em suas vidas profissionais e familiares.

Para entender os temas realmente polêmicos, que teriam sido contrabandeados para dentro do decreto por militantes ressentidos, a imprensa precisaria antes propor o debate sobre o sentido geral do decreto, coisa que ainda não fez.

Distorcendo o debate

Façamos de conta, então, que não existe o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, apresentado pelo atual governo, e motivo de tanta celeuma. Fiquemos com o 2º PNDH, decretado em 2002 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Comecemos pelo capítulo referente à "Garantia do Direito à Liberdade – Opinião e Expressão", tema tão caro à imprensa nacional. Está escrito lá, no item 101:

"Apoiar a instalação, no âmbito do Poder Legislativo, do Conselho de Comunicação Social, com o objetivo de garantir o controle democrático das concessões de rádio e televisão, regulamentar o uso dos meios de comunicação social e coibir práticas contrárias aos direitos humanos".

Em seguida, leia-se o item 102:

"Garantir a possibilidade de fiscalização da programação das emissoras de rádio e televisão, com vistas a assegurar o controle social [grifo meu] sobre os meios de comunicação e a penalizar, na forma da lei, as empresas de telecomunicação que veicularem programação ou publicidade atentatória aos direitos humanos".

No texto introdutório, o então presidente referendava o 1º PNDH, publicado quase seis anos antes, em maio de 1996 – no meio do seu primeiro mandato, diga-se de passagem –, no qual foi criada a orientação geral para a legislação referente aos crimes do regime militar, como a lei 9.140/95, que definiu o reconhecimento das mortes de pessoas desaparecidas em razão de participação política, "pela quais o Estado brasileiro reconheceu a responsabilidade por essas mortes e concedeu indenização aos familiares das vítimas". Cita ainda, como resultado do 1º PNDH, a lei 9.455/97, que tipificou o crime de tortura.

Preocupada em dar espaço às opiniões mais conservadoras, a imprensa anda escondendo esses detalhes.

Aguarda-se artigo do ex-presidente Fernando Henrique para esclarecer devidamente o assunto.

Comentários (17)
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Silvério Cardoso Corrêa , Juiz de Fora-MG - Advogado
Enviado em 28/1/2010 às 13:49:29
Artigo intócavel em seu conteudo. Mas faça uma correção. Fernando Henrique Cardoso foi Chanceler no governo Itamar Franco, não de Sarney.
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 24/1/2010 às 20:08:17
Claro que deve haver algum tipo de controle. E para quem não concorda, não é preciso ir muito longe - a câmara distrital de Brasília, por NÃO SOFRER CONTROLE EXTERNO, decidiu encerrar o pedido de impeachment do governador Arruda. Mas mantendo-se dentro do âmbito da imprensa, alguém concordaria com, por exeplo, a Record controlada pela Ku Klux Klan? A única coisa que eu realmente gostaria de ver é todos os veículos de comunicação declarando suas ideologias nos expedientes. Tudo ficaria muito claro.
Ricardo Camargo , Porto Alegre-RS - advogado
Enviado em 24/1/2010 às 13:27:13
Respondendo ao estudante, quem decide aqui e decidirá, tanto quanto nos EUA e em todos os países tributários do pensamento democrático-ocidental, é o único dentre os Poderes que é obrigatoriamente apartidário, que é o Judiciário. Por outro lado, lanço-lhe uma perguntinha: o DEM, o PP e o PSDB não são partidos?
Felipe Faria , Rio-RJ - estudante
Enviado em 23/1/2010 às 20:15:15
...."mas isto se se fará com o cerceamento da liberdade dos donos dos meios de comunicação",.... sei, e daí, no futuro que decidirá quais liberdades podem ser exercidas e quais nãompoderão ser exercidas, os partidos políticos?
Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 23/1/2010 às 19:49:25
As viúvas da Ditadura se apressaram tanto em achar um novo "perigo comunista" no PNDH que não se preocuparam sequer em compreender o que significava aquele singelo numeral "3" aposto ao final da legenda. Agora os apressados estão começando a ver que as tais mudanças substanciais não são afinal tão "substanciais" assim, pois boa parte delas já estava contemplada nos planos anteriores. O pior de tudo foi terem se prestado a este episódio que fica mais ridículo e contrangedor a cada dia que passa. Mas há quem ainda vá morrer abraçado à tese do novo comunismo para não admitir que foram manipulados infantilmente por uma imprensa cheia de motivações para tal, a começar pelo medo desta imprensa em perder seu status quo e suas concessões eternas. É como diz meu avô: para uma mentira é sempre necessária outra e outra e outra...
Geraldo Reco , São Paulo-SP - Advogado
Enviado em 23/1/2010 às 14:15:12
Na minha modeta opinião, a abordagem realizada por boa parte da imprensa acerca do PNDH3 não é uma questão jornalística, mas política. É preciso urgentemente implemantar a completa liberdade de informação no Brasil, mas isto se se fará com o cerceamento da liberdade dos donos dos meios de comunicação, que fazem de tão cara princípio filosófico não um, negócio, mas uma negociata. Como dia Boris, aquele, tivesse ele, isto é uma vergonha.
José Lins Lins , Taquaritinga do Norte-PE - Aposentado
Enviado em 23/1/2010 às 07:42:17
Nào consigo compreender porque as instituições sociais temem controles externos, extra corporis. Observe: uma empresa que deseja ser efetiva, permanente, estabelece sempre controle de qualidade para seus produtos e os parâmetros que constituem tais controles estão fora da empresa, são determinados pelo consumidor, pelo usuário. O corporativismo tem lá seus méritos mas também pode ser uma coisa muito ruim, uma doença mortal. O" homo sapiens" é um bicho passivo de erros e com uma incapacidade medonha de reconhece-los necessita pois de críticas, controles para melhorar sua própria qualidade. Ora, vivendo em sociedade, formando organismos sociais precisa igualmente de vigilância. O pavor ao controle só se justifica pelo orgulho, pela vaidade, por presumida supremacia coisas que definitivamente são ruins.Partindo-se dessa premissa, que é verdadeira, os tribunais, o executivo, o legislativo, a imprensa,ongs, etc. etc., tudo necessita de controle para não cometer excessos e melhorar permanentemente e crescer, eser vigoroso e ser útill. Seja pois a Lei elaborada objetivando a justiça e seja então a Lei maior que as vaidades.
Teócrito Abritta , Rio de Janeiro-RJ - Físico e Escritor
Enviado em 22/1/2010 às 23:22:22
O artigo deveria falar em um ponto fundamental. Cabe ao governo, em particular aos ministros da Defesa e da Casa Civil, devolver os cadáveres dos desaparecidos políticos. Para isto não depende de lei ou decreto. Basta ser bem intencionado. Devemos considerar ainda que ocultação de cadáver é crime, estando o governo e seus ministros passíveis de uma ação penal!
Diva Pio , Sao Paulo-SP - advogada
Enviado em 22/1/2010 às 22:26:15
Vejo com desolação a falta de maturidade da imprensa brasileira para conduzir com clareza, precisão e transparência a discussão do Programa Nacional de Direitos Humanos. Nossos talentosos profissionais ainda não perceberam que estão com a faca e o queijo na mão.
Ana Bednarski , florianopolis-SC - pesquisadora
Enviado em 22/1/2010 às 20:42:37
O que me incomoda é analizar que a mídia que é chamada de quarto poder é na verdade o primeiro poder, em qualquer epóca da história que focarmos veremos que a mídia contribuiu com a formação de tudo que há de pior, seja, política, moral ou eticamente falando, quando perco meu tempo olhando as manchetes de revistas jornais, tipo Veja, Isto é, Folha, estadão, Jornais de TV, como a Globo e aBand, vemos eles se preocupando em acusar , acusar, o PNHD, nenhum deles mostra o texto por completo ou diz como ele foi produzido, isto é uma mídia democrática? sinceramente depois da Internet se tem algo que mostra cada vez mais a "cara" controladora e fascista é a mídia, o unico controle que eles precisam é de uma internet cada vez mais forte e cada vez mais livre.
Bruno Lima , São Paulo-SP - estudante
Enviado em 22/1/2010 às 17:23:55
O medo que dá é ver as forças armadas fiscalizando a livre circulação da informação, acredito que todos são partidários disso, o que não vai acontecer por agora, mas para isso não acontecer lá na frente é necessária a investigação desses mesmos, se não a gente entra num processo que George Orwell falava de alteração da história, onde 2+2=5.
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 22/1/2010 às 13:49:13
por parte da imprensa, um clima semelhante a 64, numa onda de denúncias falsas de ataques à democracia por parte do governo mais democrático e representativo que tivemos desde a ditadura militar. Todos sabemos que a única força capaz de levar o país aos porões de uma nova ditadura são os militares apoiados na imprensa oligarquica. Os comunistas, se é que ainda existem, não teriam nem força nem apoio para realizar algum sonho de ditadura proletária. Tudo o que se tem dito sobre o assunto cheira a campanha eleitoreira em favor da oposição ao governo Lula na figura do PSDB e Gov. Serra para as próximas eleições, numa tentativa desesperada de manutenção intacta desses oligopólios da comunicação que aí estão. Estou certo que o governo Lula possui muitos pontos merecedores de críticas, mas o que temos visto é uma tentativa generalizada de condenação a qualquer obra ou ação desse governo. Isso já passou dos limites.
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 22/1/2010 às 13:39:48
Luciano, você pergunta sobre as motivações para o silêncio de FHC. Você mesmo a seguir oferece a resposta: A imprensa tenta reverter a possibilidade de um controle social sobre a mídia. Ora, o PSDB tem sido sistematicamente apoiado pela mídia, portanto, em ano eleitoral, não vale a pena se indispor com o quarto poder; melhor silenciar a defender o PNDH3 do Lula (segundo a imprensa). O PNDH 3 tem muitas propostas para ser recusado na íntegra. Eu por exemplo sou amplamente favoravel ao controle social sobre os meios de comunicação, tanto das públicas quanto das privadas (que aliás, detêm concessão pública para operar), mas de outro lado, não compartilho dos plenos direitos da mulher sobre o próprio corpo, principalmente quando o que está em questão é uma vida gerada no corpo, mas que não é o corpo e, portanto, nesse sentido, independente. Essa é uma questão polêmica, mas não me eximo de discutí-la. Isso é o que faz a imprensa, ela não discute as propostas em época propícia e, depois, as condena a todas de rodo. Esse OI, em seus muitos artigos, vem abordando a origem social da imprensa. Observando-a detidamente é fácil concluir seu descolamento das origens e sua perda ou, no mínimo, desvio de função. De qualquer forma, sua cobrança por uma tomada de posição por parte do ex-presidente FHC é absolutamente legítima e necessária, pois vem se configurando nesses tempos . . .(continua)
João Paulo de Oliveira , Juiz de Fora-MG - Jornalista
Enviado em 22/1/2010 às 11:12:26
Quando comecei a me interar pelo assunto, logo percebi que era um agendamento midiático-político. Primeiro, provocando o conservadorismo com a questão dos militares e dos grandes latifundiários, mas já mirando a segunda rodada: quando entraria a imprensa e os grupos de mídia na jogada. Fizeram até VT no JN contra a "censura". Brincadeira! http://twitter.com/jkerouac
José Albino , São Paulo-SP - Engo.
Enviado em 22/1/2010 às 10:57:19
Caro Luciano, brilhante, mais uma vez. Esclarecedor, com riqueza de detalhes. Mas com certeza, mesmo com seu texto ABSURDAMENTE esclarecedor, quem hoje faz ( ou fez) a leitura parcial e tendenciosa ( ou mesmo nem leu) o PNDH III, vai argumentar que desde o início era contra qualquer versão do programa, tenha sido feita por ministro de Sarney na época, ou tenha sido feita pela equipe atual. Ora se posicionam contra o plano por inventar “sinais” ou “digitais” da equipe do atual governo no texto, ora se posicionam terem sido sempre contra a idéia seja qual for, já sabendo que o argumento de autoria atual não funciona e que esta claro que a autoria original do plano remonta dos governos anteriores. A idéia vigente nos editoriais é enfatizar que o plano é “desumano”, como já disseram alguns aqui, e polemizar e tergiversar o conteúdo do mesmo, com vistas a dividendos eleitorais contra a equipe atual. Inexplicavelmente, como se vê nos editoriais e em textos e comentários publicados no OI, a tergiversação tem encontrado eco. O que quero dizer é que parece ser ineficaz buscar esclarecer com detalhes o significado do plano. Mas é de se perguntar o "porque" da mudez na época FHC sobre o plano, se era ou não influência o tio-general Alberto Cardoso. Quem sabe? Mas por favor, Luciano, continue sempre firme nesse brilhante trabalho informativo. Parabéns! Excelente texto!
Filipe Faleiro Machado , Passo do Sobrado-RS - Jornalista
Enviado em 22/1/2010 às 10:30:47
Parece que não existe vontade dos veículos de imprensa em trazer a tona todos aspectos do PNDH. Estou cansado de salientar os interesses que rodeiam essas questões. Temos os militares, os donos dos conglomerados midiáticos e uma população aturdida, que confia muito mais no que vê, ouve e lê nos media, do que nas instituições públicas. Não quero dizer que temos de baixar a cabeça e concordas com tudo que nosso presidente assina. Mas temos de procurar ter uma visão ampla.Um outro caso que também merece nossa atenção, e que vai nessa mesma linha, é o caso da Reserva Legal e das áreas de preservação permanente. Temos uma legislação lá da década de 60, em que agora começa a tomar corpo para ser cumprida. E o que acontece, pelo menos aqui no Sul, na região em que moro, onde a economia é voltada à produção primária. A imprensa noticia como algo absurdo, os produtores rurais, em seus sindicatos abominam essa lei, enquanto por outro lado, temos histórico de desmatamento exatamente nos pontos em que a lei toca; nas encostas dos rios. Então vem a chuva, invade as lavouras e as instituições sindicais, prefeituras, câmaras de vereadores se unem para buscar dinheiro nas esferas públicas, principalmente Estado e União. Seria cômico se não fosse trágico. Mas onde reúne diversos segmentos sociais, de diferentes ideologias, sempre haverá o confronto, por mais absudo que seja...
NILSON  TORRES , ARCOVERDE-PE - SERVIDOR PÚBLICO
Enviado em 22/1/2010 às 09:08:36
Onde está a VERDADE? Esta situação remete a Friedrich Nietzsche, que disse: "A MAIOR INIMIGA DA VERDADE NÃO É A MENTIRA. É A CONVICÇÃO". Parece-me que ambos os lados estão CONVICTOS de que estão com VERDADE. Ou não?!! Não estou querendo que vocês se amem. Só desejo que se respeitem. Um exercício muito bom é se colocar no lugar do outro e ver a situação sob outra perspectiva. Pensem nisso. Um forte abraço.
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