ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 573 - 19/1/2010
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IMPRENSA MANAUENSE
Um fenômeno efêmero?

Por Lúcio Flávio Pinto em 19/1/2010

Reproduzido do Jornal Pessoalnº 457, 2ª quinzena/janeiro 2010

Manaus tem quase 1,8 milhão de habitantes, dos quais 965 mil lêem jornais. É o segundo maior índice de leitura de jornais do Brasil, superado apenas pelo de Porto Alegre, que é de 73%, segundo pesquisa do instituto Ipsos Marplan, divulgada no final do mês passado. Quem encomendou o trabalho foram os jornais Diário do Amazonas e Dez Minutos, do mesmo grupo empresarial, a Editora Ana Cássia. Eles seriam lidos por 726 mil das 965 mil pessoas que constituem o mercado de jornais impressos da capital amazonense. Um índice formidável de domínio de 79%. Ainda mais porque Manaus tem sete jornais diários, enquanto em Porto Alegre eles são apenas três.

Com essa pesquisa, os donos da corporação procuram demonstrar o acerto de suas decisões. O jornal mais antigo, o Diário, tem uma tiragem menor, mas é mais influente, por ser o preferido pelos leitores com mais de 35 anos. Já o Benjamin da cadeia, que tem menos de um ano e meio de vida, se tornou o de maior vendagem no estado, por conquistar o público da faixa entre 18 e 24 anos, com tendência a se dissociar da imprensa convencional ou abandoná-la por completo. A conquista foi facilitada pelos preços dos jornais – o Diário a 50 centavos e o Dez Minutos a 25 centavos, os menores da praça.

Pelos dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC), a tiragem paga do Dez Minutos é de 63 mil exemplares, que o coloca em 12º lugar no ranking nacional, e a do irmão mais velho fica próxima de 20 mil. Para cobrirem todo o público que lhes é atribuído, cada exemplar deve ser lido por 10 pessoas, o dobro da média máxima constatada em pesquisas sistemáticas (ou mais do triplo do índice médio de leitura). Os dois jornais amazonenses estariam circulando por mais mãos, o que pode favorecer o crescimento da vendagem mais adiante. Se a amplitude não for fantasiosa.

Caderno sensacionalista

Não consegui ter acesso à íntegra da pesquisa para poder analisá-la melhor. Ela confirmaria a tendência recente, sobretudo a partir da concorrência da internet, de preferência do público por publicações impressas de leitura fácil, aparência atraente e com recursos para conquistar leitor (mulher nua, crime, esporte, show bizz, fofocas e promoções comerciais). Mas se a pesquisa da Marplan está certa, há um componente específico no caso amazonense para explicar o crescimento espantoso do Dez Minutos em tão pouco tempo. Superou não só os seus concorrentes estaduais como quebrou a tradicional hegemonia dos jornais de Belém, que nunca haviam sido perturbados por qualquer outra publicação regional.

De certa forma o índice de leitura dos dois jornais traduz a supremacia de Manaus, que tem o 7º maior PIB dentre as capitais do país, sobre Belém, que ficou na quarta pior posição. O índice de riqueza material, por outro lado, é produto da maior diversificação econômica e social da capital amazonense, com a presença marcante do imigrante, tanto pessoa física quanto jurídica. Ele não conhece a história local nem tem compromissos com sua elite mais antiga.

A Zona Franca atraiu empresários e executivos, mas também técnicos e operários. Eles passaram a ter acesso a uma versão mais convencional do modelo de jornais expressos, que é o Diário, e outra mais ao gosto popular, mas ambas com o atrativo de uma aparência de independência e dinamismo que faltou aos concorrentes, sobretudo o grupo de A Crítica, com 60 anos de atividade (e líder disparado durante a maior parte desse período).

A versão fast food da família Calderaro, o Manaus Hoje, não deu para a competição e o órgão tradicional não se renovou. O grupo do Diário obteve vitória completa, algo que a família Maiorana não conseguiu com sua dupla O Liberal-Amazônia contra o Diário do Pará, que imobilizou o segundo jornal dos oponentes com um caderno de polícia sensacionalista e anúncios classificados populares. Ao invés de esmagar o adversário, a aplicação paraense da fórmula provocou mais autofagia do que expansão.

Efeito proveitoso

Essa é mesmo a fórmula do sucesso, veio para ficar e será o meio de reposicionar os jornais no universo das mídias? Ainda é cedo para apresentar uma resposta. No caso do Amazonas, os baixos preços só poderão ser mantidos se surgirem novas formas de faturamento – ou nos próprios jornais ou agregando novas mídias, como a televisão, que o grupo Ana Cássia não tem.

Esse investimento também dependerá do futuro da Zona Franca, atingida pelos efeitos positivos e negativos do câmbio atual e da crise internacional. E pela própria posição editorial que os jornais assumirem a partir da campanha eleitoral, identificados com o público ou com os grupos políticos.

De qualquer maneira, o fenômeno Dez Minutos tem um efeito proveitoso: obriga quem quer entender o que acontece a examinar os fatos com mais atenção, rigor e lucidez.

Comentários (4)
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Alessandra Magalhaes , Manaus-AM - Estudante
Enviado em 26/1/2010 às 06:52:38
Tal fenômeno, sem dúvida, deve-se ao fato de a empresa ter procurado renovar suas estratégias para atingir novos leitores e manter os leitores que já tinha, já que a concorrência dos jornais on line tem decretado o iminente fim do jornal impresso. Não se deve questionar aqui a qualidade do conteúdo, ou mesmo do leitor, mas a estratégia usada, que atende às exigências de um público que busca a informação, cada vez mais resumida. É uma forma de sobrevivência diante desta nova demanda. O próprio jornal Diário do Amazonas adotou um formato mais dinâmico, menor e com reformulações na sua diagramação e na sua linha editorial.
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 25/1/2010 às 16:31:37
Pelo artigo, parece que Manaus caminha contra a corrente do eixo Rio-Sp-Brasília, onde os leitores do jornal impresso e revistas só diminui em detreimento da Internet. Lúcio, parece que você vincula o acesso à internet como provedor de informação com a baixa qualidade e exigência de seus leitores. Se é esse o caso, não posso concordar. Digo que na Net e, esse Observatório é o grande exemplo lê-se com muito mais qualidade e isenção. Há pluralidade de idéias e o leitor participa ativamente da produção da notícia. Gostaria de ter acesso à pequisa e a garantia da isenção da pesquisa. De qualquer forma, é muito bom perceber que o Brasil não é só SP-Rio como a grande mídia faz crer.
Mario Adolfo  Filho , Manaus-AM - Jornalista
Enviado em 25/1/2010 às 13:41:11
Vale destacar que o IVC atesta o DEZ Minutos como o jornal de maior circulação das regiões Norte e Nordeste!
Eric Gamboa , Manaus-AM - jornalista
Enviado em 25/1/2010 às 11:42:39
Importante citar também que os jornais da Editora Ana Cássia não recebem qualquer verba publicitária do Governo do Estado. quem é repórter sabe a diferença que isso faz no trabalho diário.
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