ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 577 - 16/2/2010
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CAIXA DE PANDORA
Lições do escândalo que não terminou

Por Venício A. de Lima em 16/2/2010

O poeta candango Nicolas Behr conseguiu sintetizar com humor o desconforto envergonhado que, nas últimas semanas, aflige a imensa maioria daqueles que, honestamente, trabalhamos e residimos em Brasília. Ele passou a usar uma camiseta com a frase: "Sou de Brasília. Mas juro que sou inocente!".

Muito já foi dito sobre o comportamento da mídia local, sobretudo o Correio Braziliense, o jornal de maior circulação no Distrito Federal (ver, neste OI, "Sugestão de pauta para reunião da ANJ"), e, certamente, muita água ainda vai rolar debaixo da ponte desse imenso escândalo que envolve a "turma" que controla o Governo do Distrito Federal (GDF) há muitos anos. Todavia, para o observador da mídia, lições já podem e devem ser tiradas. Aí vão algumas delas:

1. A mídia – nacional e local – não acompanhou os desdobramentos do pedido de providências judiciais encaminhado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) à Procuradoria Geral de República (PGR) no dia 9 de fevereiro, terça feira. O pedido incluía o afastamento de Arruda da chefia do GDF e sua prisão preventiva. Na quinta-feira (11/2), dia da prisão, todos parecem ter sido pegos de surpresa, pois não foram capazes de antecipar nem a ação do PGR e muito menos a rápida decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Na verdade, no dia 11, a capa do Correio Braziliense não trouxe uma única referência ao assunto (a manchete principal era sobre a elevação das taxas de juros), e a última página do caderno "Cidades", que vinha sendo reservada para a discretíssima e enviesada cobertura do escândalo, destaca as relações do jornalista Edson "Sombra" com "personalidades" que "transitam entre grupos políticos de diferentes correntes".

Debaixo dos panos

2. A rapidez com que a informação de que o STJ estava votando o pedido de prisão de Arruda se espalhou pelo Distrito Federal, na tarde de quinta-feira (11), é mais uma comprovação da imensa capilaridade da internet. Celulares, emails, twitters e blogs estiveram quase sempre à frente das agências de notícias tradicionais.

3. Registre-se a inacreditável "virada" na cobertura do Correio Braziliense a partir do afastamento e prisão de Arruda: o que era cuidadosamente escondido passou a ser tratado em manchetes de primeira página. Na sexta-feira (12/2), por exemplo, toda a capa do jornal é sobre o escândalo e a manchete principal berrava: "Arruda é preso. DF sob ameaça de intervenção". Logo abaixo, em letras vermelhas, um trecho do voto do ministro relator no STJ: "A organização criminosa instalada no GDF continua valendo-se de poder econômico e político para atrapalhar as investigações e, assim, garantir a impunidade".

4. A apuração do escândalo começa a revelar o submundo de uma imprensa quase clandestina de jornais e revistas que existe e prolifera no Distrito Federal (ver, no Observatório, "A outra caixa de Pandora"). Quem já ouvira falar antes neste jornal O Distrital, cujo proprietário é o jornalista Edson Sombra? Não será surpresa se ainda outros jornalistas e veículos de comunicação surgirem como envolvidos no decorrer das investigações.

5. A forma como a grande mídia tem coberto o chamado "mensalão do DEM de Brasília" certamente merece uma comparação detalhada com as coberturas anteriores dedicadas aos chamados "mensalões" do PSDB de Minas Gerais e do PT. É impossível não lembrar que há muito pouco tempo, Arruda, ex-líder do governo FHC no Senado Federal, era celebrado como exemplo de bom administrador, credenciado, inclusive, como uma das alternativas do DEM para vice na chapa de José Serra à presidência da República em 2010 (ver, por exemplo, "Ele deu a volta por cima", "Páginas Amarelas" de Veja, edição 2121, de 15/7/2009).

Muito ainda haverá de ser desvendado e revelado publicamente, com certeza.

Esperança e desalento

Apesar da esperança de melhores dias, registre-se certo desalento que é impossível evitar em conjunturas como esta. As ações da PF, do MP e do Judiciário, além da esperada punição de todos os culpados, não eliminam uma sensação de impotência diante de tamanha desfaçatez por parte de políticos profissionais.

E, claro, também por parte de grupos de mídia que apenas confirmam seu total desprezo pela ética jornalística e pelo interesse público.

Comentários (12)
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Wallace Lima , Recife-PE - Músico
Enviado em 21/2/2010 às 15:17:10
Parabenizo Venício de Lima pelo artigo, e Zé da Silva Brasileiro e Cristiana Castro pelos comentários!
Zé da Silva Brasileiro , Belo Horizonte-MG - Bancário Aposentado
Enviado em 20/2/2010 às 21:14:13
Cara Cristiana Castro. Concordo plenamente com você. Antes da eleição da Tancredo Neves no Colégio Eleitoral em 15 de janeiro de 1985, houve uma disputa no interior do PDS para a escolha do candidato entre os grupos de Paulo Maluf e Mário Andreazza, este último cercado de amadores que acreditavam nas promessas de votos dos políticos. Derrotado Andreazza, Tancredo Neves declarou: "Saem os amadores, entram os profissionais." A situação atual de Brasília é a mesma coisa. O "modus operandi" da turma do Arruda é muito acintoso, vulgar e grosseiro. Qualquer cidadão compreende que eles estão roubando. Eles roubam com um amadorismo digno dessas quadrilhas de corruptos de quarto escalão que sugam os recursos das pequenas prefeituras do interior brasileiro. Então, mais uma vez, sairão os amadores para entrar os profissionais. Afinal, até no roubo, é preciso competência e método e, por ausência desses predicados, eles estão sendo expurgados do mercado da corrupção..
Cristiana Castro , Rio de Janeiro-RJ - Advogada
Enviado em 18/2/2010 às 18:35:19
Eu concordo com o Alexandre Carlos, tá muito mal contada essa estória. Ofereceram o único governador do DEM e líder do bando que assalta o DF há décadas, em sacrifício e todo mundo ficou bonito na foto, Judiciário, OAB, MP, PSDB, imprensa... Tudo muito rápido, bem filmado e documentado, com direito a bilhete oferecendo suborno... Eu não sei não. Que tipo de quadrilha tão organizada entrega o líder tão depressa? Quem é o imbecil que corrompe mandando um bilhete? Só tá faltando aparecer um recibo, recebi, de sr. fulano de tal, a quantia de tanto, relativa a pagamento de propina... ou uma cartinha, querido Arruda, faturamos mais tanto dos cofres públicos, saudações, fulano. Beijo, me liga. Vou aguardar mais fatos.
Luciano Prado , Rio de Janeiro-RJ - advogado
Enviado em 18/2/2010 às 12:59:38
Quem quiser saber algumas das razões do porquê a velha imprensa finca os últimos pregos no seu próprio caixão dê uma lida no post do senhor Dines, aqui mesmo no OI: “Mídia demorou a entender o enredo”. Depois de tudo que foi dito sobre a omissão e conluio da velha imprensa com os crimes do governo Arruda, Dines eleva a velha imprensa à condição de milagreira, reparem: “A mídia produziu vários milagres simultâneos: em pouco mais de dois meses conseguiu a façanha de enfiar um governador no xilindró...”. O jornalista ao invés de ajudar no diagnóstico da doença que acomete a velha imprensa, não. Trata de elogiá-la num esforço que beira o fanatismo. Até parece o doutor Frankenstein apreciando sua monstruosa criação.
Edson Gonçlaves , São Paulo-SP - F. Público
Enviado em 17/2/2010 às 10:33:56
No meu entender tão lamentável quanto a existência de políticos corruptos é a conivência ou participção da grande imprensa de esquemas de favorecimento junto a esses políticos ou trabalhando em outro sentido que nãoo de informar o público. A grande massa de inconformados com esse quadro migram constantemente para a internet. Longa vida a net livre.
Alexandre Carlos Aguiar , Florianópolis-SC - Biólogo
Enviado em 17/2/2010 às 10:02:08
Tenho a impressão de que isso, a prisão do Arruda, é naturalmente necessária e prevista, assim como foi o impeachment do Collor. Não que se esteja resolvendo acabar com a impunidade, nada disso. O Brasil não está se tornando mais "cheiroso". Apenas que a sua projeção, a do Arruda, excessiva e abusiva na mídia, poderia por em risco os projetos de cupinchas e ex-parceiros para este ano eleitoral. Como se faz na Yakuza, corta-se um dedo podre, como punição ao incauto e recado aos assemelhados, ao invés de se deixar um braço inteiro gangrenar. Há muito mais podridão por aí, mas um ralinho tapado evita que o cheiro se espalhe.
Wallace Lima , Recife-PE - Músico
Enviado em 17/2/2010 às 00:50:24
Será que há mesmo uma luz no fim do túnel, perspectiva de dias melhores para este país com tanta sujeira sedimentada permeando suas estruturas, na política, na mídia (acabei de ler um artigo em que Alberto Dines diz: ..."o mundo e o submundo midiático"), em todas as áreas que ao menos teoricamente se destinam a cuidar da sociedade mas onde, na prática, estamos cansados de saber, ou de ouvir falar (e espero que nunca nos acostumemos com isso), as artimanhas e outras peculiaridades da indústria têm suplantado sobremaneira os deveres da instituição? Não temos bola de cristal, mas pelo menos sabemos que alguns países conseguiram diminuir significativamente índices altíssimos de corrupção. A prisão desse governador é mesmo auspiciosa e acho que vai ficar como um símbolo do começo de uma brava jornada de todos os que há muito estão profundamente desejosos e determinados a tornar esta nossa terra um lugar mais justo e mais digno de se viver.
Moyses Ferreira Nunes , Niteroi-RJ - Tecnico de Operação
Enviado em 17/2/2010 às 00:00:12
...1) o elo com a "justiça", quebrou a corrente! 2) óbvio! 3) resolveram mudar de lado ou jogar um boi para piranhas 4) lavagem de "informação"? 5) é só lembrar do circulo de oração ao ditribuidor ou entregador de dinheiro. Infelizmente fica a mostra a mais completa e escancarada associação criminosa destes meios.
Jorge Fernando dos  Santos , BH-MG - jornalista e escritor
Enviado em 16/2/2010 às 14:25:01
Falando nisso, alguém dos mensalões anteriores está na cadeia? Cadê aquele cara ligado ao Genuíno que foi preso com dinheiro na cueca? E o Zé Dirceu, continua dando as cartas na surdina? E o Azeredo, vai ou não vai a julgamento? E os demais escândalos que foram denunciados na esteira do mensalão do valerioduto? Oxalá o caso Arruda seja o início de uma nova era de apurações e condenações de mafiosos travestidos de políticos que hoje estão espalhados por quase todos os partidos da república. Parabéns pelo artigo, Jorge F.:
José  Ximenes , Brasilia-DF - Advogado
Enviado em 16/2/2010 às 13:29:37
Luciano Prado cita oportunamente o tratamento do correio brasiliense e da veja ao governador do DF. O diario foi contemplando com um contrato firmado com a secretaria de educação, sem licitação, para distribuiçao nas escolas publicas da capital. O jornal é fartamente abastecido com publicidade institucional e a semanal paulista tambem recebeu do gdf 500 mil reais em assinaturas. Curioso o fato que ninguem cobrou explicaçoes do serra, ja que o ate entao incensado e impoluto arruda era cotado para ser candidato a vice presidente. O que diria fhc das travessuras de seu ex lider no congresso?
Mario Avila de Jesus , São Paulo-SP - Jornalista
Enviado em 16/2/2010 às 02:29:01
Millôr Fernandes disse que jornalismo é oposição e o resto é armazém de secos e molhados. Ainda não conhecemos, no Brasil, com raras e honrosas exceções, jornalismo ligado diretamente aos fatos, sem a intermediação despótica das Agências, dos Aquários, dos Interesses Econômicos. Dizem que houve antes de 64 - não conheci.
Luciano Prado , Rio de Janeiro-RJ - advogado
Enviado em 15/2/2010 às 21:54:09
Eu não tenho receio em afirmar: a velha imprensa brasileira foi cooptada pelo crime organizado. Basta observar a cobertura da Operação Satiagraha, da Polícia Federal. Daniel Dantas nadou de braçada. O delegado e o juiz foram e continuam sendo massacrados pela velha imprensa. Basta dar uma passadinha pelas páginas da Folha de São Paulo. Além do que as facilidades de Dantas nas instâncias superiores do judiciário estão encobertas por um manto de suspeição, para não dizer outra coisa. No caso de Arruda, a revista Veja resolveu ressuscitá-lo. A troco do quê? Por que o Correio Braziliense silenciou sobre Arruda até não poder mais? Pelos lindos olhos dele é que não foi. É o crime organizado, imbecil!
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Venício A. de Lima

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