O título da matéria sobre os recentes resultados do Saresp (Sistema de Avaliação e Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) na Folha de S.Paulo (27/02), não poderia ser mais ambíguo: "Ensino em SP tem melhora, mas segue ruim". Mutatis mutandis, seria o mesmo que dizer, em contexto hospitalar, que o paciente melhorou... e morrerá em breve. A melhora é irrisória. Tudo continua ruim.
No Estado de S. Paulo, no mesmo dia, matéria semelhante ostentava título diferente: "Ensino na 4ª e 8ª série melhora; médio piora". No Portal Terra (26/02), a situação está cada vez melhor – "SP: Saresp mostra melhora generalizada nas escolas estaduais". O UOL Educação (26/02) preferiu mostrar que o ruim ainda piorou – "Saresp 2009: Alunos do ensino médio vão mal em matemática e professores ficam de `recuperação´".
Essas incongruências se devem ao modo como os resultados (fracos) foram apresentados pela Secretaria de Educação. O tom da divulgação foi de otimismo e esperança, em sintonia com o clima de campanha presidencial do governador José Serra. A pasta da Educação em São Paulo é ponto vulnerável de uma longa gestão do PSDB, e o secretário Paulo Renato Souza tenta disfarçar a inegável vulnerabilidade.
A manipulação inconvincente
Segundo Paulo Renato, estão sendo adotadas, finalmente, medidas corajosas para que a educação paulista encontre o "rumo certo" e melhore cada vez mais. O rumo certo está mencionado literalmente no release que a Secretaria de Educação divulgou em seu site sobre "a melhora generalizada nas escolas estaduais". Ora, se encontraram o rumo certo, que reconheçam terem, eles próprios, andado sem rumo, durante 15 anos!
A estratégia atual é simples: dizer com voz cheia de entusiasmo que tudo melhorou. Bem se vê que o ensino público em São Paulo encontra-se imerso nas águas do abandono e do descaso, mas cabe ao secretário afirmar, com grande convicção, que o dilúvio passou, que tudo está cada vez melhor, como nessa peça publicitária.
Em apenas um ano, a educação em São Paulo já melhorou, inexplicavelmente. Mas para que essa melhora tão rápida e promissora pareça convincente era preciso forçar as palavras um pouco mais. E foi o que aconteceu.
A revista Veja (ed. nº 2154), na matéria "A lição do mérito", assinada por Ronaldo França, referindo-se aos mesmos resultados do Saresp, noticia que "só no último ano 18% dos alunos da 4ª série do ensino fundamental foram alçados, em português, do nível insuficiente para o adequado". E aqui está a manipulação inconvincente.
Palavras para além dos números
Até 2008, ao se divulgarem os dados do Saresp, havia quatro níveis: "abaixo do básico", "básico", "adequado" e "avançado". Destes, somente o "adequado" e o "avançado" eram considerados satisfatórios. Neste ano, porém, surgem apenas três níveis: "insuficiente", "suficiente" e "avançado". O "suficiente" passa a englobar o "básico" e o "adequado" e é considerado como satisfatório.
A Veja faz uma composição da terminologia, cria uma nova tabela de valores. Afirmando que em apenas um ano tantos alunos saíram do nível "insuficiente" para o "adequado", dá a entender que houve progresso espetacular. O que se deu, porém, ao que tudo indica, foi um remanejamento mágico. Os números foram submetidos às palavras. E nós, sem saber ao certo o que dizem esses números, ficamos também sem palavras diante da súbita mudança de termos, no meio do jogo, em nome de interesses nada educacionais.