ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 580 - 9/3/2010
  Caderno da Cidadania
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DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Comemorar o quê?

Por Ligia Martins de Almeida em 9/3/2010

Uma vez por ano, os jornais discutem a situação da mulher no Brasil e no mundo como parte das comemorações do dia Internacional da Mulher. E, embora tentem mostrar que houve evolução no mercado de trabalho, na ocupação de postos antigamente exclusivos dos homens, ainda há pouco a comemorar. Como revelou a Folha de S.Paulo na edição de domingo (07/03/2010):

"A desigualdade entre salários de homens e mulheres diminuiu no Brasil nos últimos 30 anos, mas o diferencial é, quase sempre, a favor dos homens. Dados tabulados pela Folha a partir da PNAD de 2008 mostram que, de um total de 61 ocupações analisadas, em apenas seis o rendimento das mulheres por hora de trabalho superava o de homens.

"Mesmo em profissões em que a participação masculina é inferior a 20%, o rendimento delas é, em média, menor. Secretários do sexo masculino, por exemplo, representam apenas 7% do total, mas recebem por hora 32% a mais que mulheres na mesma profissão. Nas poucas áreas em que as mulheres têm rendimentos maiores, isso ocorre porque o nível de escolaridade delas é superior ao dos homens na mesma profissão. Um exemplo disso pode ser constatado entre guardas e vigias, ocupação em que as mulheres são apenas 5% do total. O rendimento médio por hora de trabalho delas é 10% superior ao de homens. Mais da metade (53%) dessas profissionais têm ao menos nível médio completo. Entre homens, esta proporção não passa de 31%."

"Um fenômeno de desgaste"

Se a maioria das mulheres brasileiras – as pobres, com pouca escolaridade e com salário menor que os dos homens – ainda luta por oportunidades iguais, poderíamos comemorar o Dia Internacional da Mulher dizendo que houve uma significativa mudança da imagem da mulher. Parece que não. Se houve uma mudança, foi para pior, como diz o artigo do professor de ética é filosofia política da USP, Renato Janine Ribeiro:

"Há décadas, a mulher que posava para calendários de borracharia saía mal na reputação. Mas hoje, na mídia, é ela, como objeto de desejo, que controla o sujeito desejante. O jogo ficou mais complexo. O sujeito não manda, necessariamente, no objeto. Há mulheres que extraem poder de uma condição de objeto habilmente constituída. O problema é que essa não é uma verdade universal nem majoritária.

A mulher atacada sexualmente na rua não controla nada, não tem poder, é vítima de uma violência inadmissível. Mas um número menor de mulheres – que consegue ser protagonista do que [o filósofo] Walter Benjamin chamava a reprodução mecânica e que hoje chamaríamos a imagem na mídia – ganha dinheiro, fama, poder com isso. O problema é que há mais estupros do que capas de Playboy, de modo que o poder e a riqueza de algumas não apagam o abuso sobre muitas. Finalmente: quando a mídia defende o direito (da cervejaria? da socialite? do espectador voyeur?) à propaganda com Paris Hilton, vivemos um fenômeno de desgaste: durante milênios o erotismo esteve no jogo entre o que se vê e o que apenas se adivinha" (Folha de S.Paulo, 07/03/2010).

Duas candidatas a presidente

Seria o caso, então, de celebrar as conquistas referentes às liberdades individuais? Não parece, a julgar pelo artigo publicado no Suplemente Feminino do jornal O Estado de S. Paulo no mesmo dia 7. Segundo a historiadora Mery Del Priore, as mulheres enfrentam hoje novas formas de submissão:

"Não vemos mulheres liberadas se submeterem a regimes drásticos para se conformarem a um único modelo físico: o do tamanho 38? Não as vemos se infligir sessões de musculação nas academias, empanturrando-se de todos os tipos de anabolizantes? Não as vemos se desfigurando com as sucessivas cirurgias plásticas, negando-se a envelhecer com serenidade? Tamanho grande? Só no fundo da loja.

"A energia que as mulheres consagram aos seus corpos para não deixá-los enrugar e engordar é impressionante. E tudo para caber em um outro cárcere: aquele do olhar masculino. Se ainda existem mulheres engajadas em lutas, vale lembrar essa, contra as novas formas de submissão. Contra o servilismo moldado pela mídia, pela televisão, pelos outdoors. E, quem sabe, o Dia Internacional da Mulher ajude a pensar esse trágico erro: o de que só o corpo pode falar a linguagem da sedução?"

Talvez só nos reste celebrar o fato de que no dia 8 de março do ano de 2010, o Brasil tem duas mulheres confirmadas para a disputa das eleições presidenciais. Pode ser que não mude nada – efetivamente – para as milhões de brasileiras que sonham com um futuro melhor. Mas a presença das duas na campanha pode fazer com que a mídia esqueça um pouco das mulheres objeto e dê mais destaque às outras mulheres, as mulheres comuns que terão um papel decisivo nas próximas eleições.

Comentários (6)
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alice franca leite , Rio de Janeiro-RJ - professora aposentada/ufrj
Enviado em 12/3/2010 às 15:58:56
NO MEU TEMPO(anos1950...) ERA MUITO PIOR! Tinha que ter muita ROUPA,andar de CHAPÉUS CARÍSSIMOS nos casamentos( o meu se acha em qualquer camelô) e 10 anáguas,usar combinação em baixo da blusa do colégio senão não entrava;perguntavam: "AINDA não tem namorado?";se tivesse sacaneavam "Quando vai ficar NOIVA?";(nem podia falar "SACANEAR" porque era.... FEIO!") Se ficasse noiva perguntavam: "É noiva de aliança no dedo?"; de fosse vinha: "Tá de casamento marcado?" Se casasse lá vinha:"Quando é que vem o neném?"; se fosse pra faculdade,diziam: "Tá ENCALHADA,fazendo o curso de ESPERA MARIDO""...etc; as mais bestas se orgulhavam de ter um marido que NÃO DEIXAVA TRABALHAR PORQUE ELE GANHAVA BEM E ELA,(coitadinha!) NÃO PRECISAVA!!!! Resumindo: A gente ERA INFELIZ E NÃO SABIA!"; não sei se melhorou como eu gostaria pois há as que morrem fazendo PLÁSTICAS NA BARRIGA,ou com caras remendadas como CÁGADAS" e cara porcelanizada de boneca de louça! Mudou e não mudou: a prova é que ninguém mais é chamada de "SOLTEIRONA",,etc com exceções para bem e para mal!!!
Zenaide Dalcin , SM-RS - Prof
Enviado em 11/3/2010 às 16:02:25
É mas a Ministra Dilma bem que podia ter deixado a plástica de lado.Com capricho mas sem essa violência de retoques. Umas rugas tornariam mais verdadeira. Quero denunciar a violência na televisão. Milher batendo em mulher por causa de homem e aqui fora uma adolescente de 14 anos mata outra de 16 com um canivete fora a quantidade de meninas se arrastando pelos cabelos porque viram nas novelas. A mulher, se quer ser mais livre,não pode ser inimiga de outra. Tem de deixar ela ,em 1º lugar, de ser machista.
Rafael Medina , Campinas-SP - Publicitário
Enviado em 10/3/2010 às 16:06:39
Tantas coisas a se comemorar, Ligia. Apesar dos aspectos relevantes e recorrentes colocados, não gosto do tom pessimista que você os apresenta ainda numa realidade em que as mulheres conquistam cada vez mais, por exemplo, no mercado de trabalho.
Mario Nascimento , Rio de Janeiro-RJ - aposentado
Enviado em 10/3/2010 às 15:18:20
Lígia.O machismo é a pior forma de opressão de todos os tempos.Ele considera a Mulher um ser inferior ao homem e por isso descartável. Ignora que a nossa Mãe Natureza ao criá-la, juntamente com o homem, deu só à Ela, e únicamente à Ela, o poder de gerar Vidas conscientes com os privilégios de tornar tudo Real que existe no nosso Mundo. Nós gênero homem, fomos criados com uma única finalidade, coadjuvá-las na criação de suas crias, todas as Crianças. Os machistas, torpemente ignoram esta Realidade. Seria oportuno e fundamental para a existência dos Seres Humanos iniciarmos no nosso País uma campanha pra esculpirmos na nossa Constituição um inciso, destacado sobre todos os outros, concedento todos os Privilégios, imagináveis e inimagináveis, às Mulheres. Se a nossa Mãe Natureza concedeu sòmente à Mulher o maior de todos os Privilégios que é o de gerar Vidas, por que nós humanos, pretenciosamente, procuramos ignorar este Bem maior que todos os Outros?Nunca devemos esquecer que: "A maior riqueza de um Povo é suas Crianças e Quem as geram, as Mulheres". Nelson Rodrigues sempre diz: "Se os fatos provam tudo isso, pior para os fatos".
Cristiana Castro , Rio de Janeiro-RJ - Advogada
Enviado em 9/3/2010 às 22:50:09
Texto perfeito e irretocável, parabéns, a autora.
sônia maria góes , porto feliz-SP - sanitarista aosentada
Enviado em 9/3/2010 às 19:10:54
Excelente sua matéria, uma rflexão que faço também nas reuniões comuitárias.Somos hoje escravas de nós mesmas, da nossa vaidade do nosso medo de envelhecer, de sermos nós mesmas, e não seres esterotipados da nossa pobreza interior,contiuamos tõa dependntes internamente em relação a dependencia afetivae de maneira exarcebada.porque a Promoção da Mulher não é apenas uma questão de atatus social, de padarão de beleza externa, mas uma questão de status quo- da nossa nobreza como seres humanos. emancipação da nossa alma ou Eu interior Mas ccontiuamos tão pobres de nós mesmas, apesar do "avanço e dos alcances ?"de cidadania aliás muito frágili das mulhere e pouca ifnluencia nas mudanças e valores que poderiamos estar fazendo para criar bem-estar humano e social.Obrigada pela coragem de falar o que muitos movimentos de mulheres não o fazem, nem refletem.Continuamos prisioneiras mesmo. com amarras internas...Sõnia.
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