ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 580 - 9/3/2010
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Alice no país da primeira página do jornal

Por Leticia Nunes (edição), com Larriza Thurler em 9/3/2010

Qual o limite da publicidade em jornais? É válido interferir em lugares nobres, como a capa, em nome do aumento de receita publicitária? Diante da crise na indústria jornalística, em que as publicações tentam se reinventar, adequar seu modelo aos novos tempos, chamar a atenção do público, estas questões aparecem sempre que algum veículo resolve inovar além da conta. Na sexta-feira (5/3), lá estavam elas novamente diante da primeira página do diário americano Los Angeles Times.  

No lugar das notícias, havia uma foto gigante do Chapeleiro Maluco, personagem interpretado pelo ator Johnny Depp no longa Alice no País das Maravilhas, que estreou no fim de semana nos EUA. A imagem ocupava a primeira página inteira e aparecia sobre duas matérias antigas, publicadas originalmente no mês passado. Apesar de uma primeira página "verdadeira" ter sido publicada em seguida à capa falsa, a criatividade logo se transformou em controvérsia.

Parede ética

O professor de jornalismo Roy Peter Clark, do Intituto Poynter, na Flórida, pondera que a difícil fase econômica e a queda nos anúncios publicitários forçaram os jornais a violar a parede ética que separava a primeira página dos anunciantes. "Esta parede se tornou, nos últimos anos, uma cerca, mas o Los Angeles Times a transformou em um portão", diz, completando que o mais preocupante é o fato de o diário estar disposto a enganar o leitor a pensar, pelo menos em um primeiro momento, que esta é realmente a capa.

Além disso, Clark afirma que o uso de matérias antigas servindo de fundo à peça publicitária constitui outro problema. "Fico particularmente tenso com eles publicarem matérias falsas que são, na verdade, matérias reais". Os dois artigos, de autoria do repórter Noam Levey, de Washington, e de Laura King e Alex Rodriguez, respectivamente correspondente e chefe da sucursal de Moscou, foram publicados originalmente em 18 e 19 de fevereiro. "Se eu fosse o autor das matérias, ficaria bem irritado", alfineta Clark.

Segundo o porta-voz do Los Angeles Times, John Conroy, a capa falsa foi apenas uma "rara oportunidade de se ampliar as fronteiras usuais e criar um anúncio inovador" com o propósito de chamar a atenção. Neste sentido, não há como negar que a idéia atingiu seu objetivo. Conroy não revela o preço da peça, mas deixa claro que o valor pago foi justo ao espaço que ocupou. "Nossa primeira página é nosso mais valioso bem". Segundo o site The Wrap, a Disney, que produziu o longa, teria pagado cerca de 700 mil dólares ao jornal. Novamente, neste sentido a idéia também atingiu seu objetivo. Com informações de Alan Duke [CNN, 5/3/10].

Comentários (6)
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Rafael Medina , Campinas-SP - Publicitário
Enviado em 10/3/2010 às 16:31:30
Concordo que a crise em que vivem os veículos impressos pode vir a facilitar a aceitação de iniciativas como essa. Facilitar, digo. Porém, esse é apenas um aspecto. Temos que considerar também a questão sob o ponto de vista publicitário, ou seja, as agências necessitam cada vez mais de criatividade para elaborar iniciativas inusitadas a fim de chamar a atenção de um público que ocupa seu tempo com umaquantidade imensa de informação e à exposição de anúncios publicitários das mais variadas marcas e segmentos. É preciso se diferenciar. Uma pergunta que eu deixo aqui para pensarmos: "Será que, se fosse feita a mesma proposta para o LAT num momento em que os impressos não estivessem atravessando uma crise, quem garantiria que ela não seria aceita?" Pois bem. Entendo a preocupação por parte dos jornalistas, mas vejo a iniciativa com bons olhos. Uma forma que a agência encontrou de se diferenciar, investindo, vale ressaltar, fora da virtualidade, numa midia velha mas que, como publicitário, acredito ainda que está muito longe de estar com os dias contados.
Hélio  Santos , Cuiabá-Mt - Historiador
Enviado em 10/3/2010 às 12:57:51
Fui precipitado no julgamento. Concordo contigo Karla.
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 10/3/2010 às 08:08:33
Nos jornais de demingo, se forem extraídas toda a publicidade, creio que não sobre nem mesmo a primeira página. Aqui no Brasil a gente costuma ver aquela primeira meia página e a última envolvendo o jornal, mas fica bem claro tratar-se de peça publicitária, nunca vi por aqui anúncio a ocupar toda primeira página, mas a utilização de peça publicitária logo ali já dá o tom dos novos caminhos que petende seguir o jornalismo em papel. Acho que essa proposta ultrapassa a simples questão financeira, talvez esteja aí inserida uma nova filosofia para o jornalismo.
Amanda Boccato , Campinas-SP - publicitária
Enviado em 9/3/2010 às 18:21:34
Acho interessante lembrar que aqui no Brasil, muitos jornais já vêm praticando essa prática de publicidade - capa falsa - há alguns anos e nunca li ou ouvi falar de uma discussão dessas por aqui! Do meu ponto de vista foi apenas uma falha do próprio jornal autorizar como fundo do anúncio matérias reais já publicadas. Poderia muito bem ter utilizado o formato que temos aqui no Brasil de "informe publicitário" onde a própria agência cria matérias como pano de fundo para o anúncio.
Karla  Mendes , Curitiba-PR - Jornalista
Enviado em 9/3/2010 às 14:28:15
Discordo do Hélio. Acho que a discussão sobre a relação entre a publicidade e o jornalismo é sempre relevante e o texto aborda esses limites.
Hélio Santos , Cuiabá-Mt - Historiador
Enviado em 9/3/2010 às 13:24:33
Será que também essa matéria no OI não é publicidade? "Enganado"pelo título, eu fui ler o artigo e não consegui entender o motivo do texto. Pelo visto, a Disney também andou visitando o OI.
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