ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 581 - 16/3/2010
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IMPRENSA BAIANA
O complexo de inferioridade

Por Erick da Silva Cerqueira em 16/3/2010

O Campeonato Baiano de futebol nunca foi a "oitava maravilha do mundo", pelo contrário. A polarização dos títulos entre a dupla BA-VI (Bahia e Vitória) nos últimos 40 anos sempre desestimulou os patrocinadores a investir nos times do interior. Outro fator que implicava na ascensão do certame local era a falta de visibilidade dos jogos. A Rede Globo, ex-detentora dos direitos de transmissão dos jogos, comprava o Campeonato e não exibia suas partidas. Esse ato, de extrema prepotência, foi a estratégia utilizada pela empresa sulista para divulgar o grande Campeonato Paulista. Rico e muito mais interessante economicamente, o Campeonato Paulista atraía os grandes patrocinadores nacionais. Com isso, muitos nordestinos passaram a ter muito mais amor pelos times paulistas do que pelos scratchs locais. Mas isso não é novidade. Nas décadas de ouro do rádio, todas as transmissões dos jogos de futebol vinham do Rio de Janeiro. Com isso, os brasileiros das outras regiões passaram a ter o Flamengo, Vasco e Botafogo como times do coração, renegando assim os pobres times locais do resto do país.

Outra característica nasceu dessa massificação da divulgação dos times sulistas. Os nordestinos, principalmente, passaram a torcer por dois ou mais times. "Sou Vitória e Flamengo" ou "sou Bahia e Corinthians" são expressões comuns no nosso estado e tema de brincadeira do apresentador Jô Soares com o músico baiano Bira, que torce para um time em cada estado.

Marcação dos comentaristas

Mas a Globo perdeu os direitos de não-transmissão dos jogos do nosso campeonato e a Record Bahia (TV Itapoan), passou a exibir os jogos da dupla BA-VI quando realizados no interior do estado. Foi algo memorável. Como todos sabem, o torcedor baiano é muito apaixonado pelo esporte. Somente para exemplificar, o Bahia quando esteve no inferno da Série C, foi recordista de público das três divisões do Campeonato Brasileiro. Vencendo inclusive, o Flamengo e o Corinthians. Era um time de terceira com um público de primeira, brincavam os comentaristas.

Mas apesar dessa grandiosa mudança de mãos, o Campeonato Baiano de futebol agora sofre com novo problema. A maldita falta de profissionalismo da crônica esportiva baiana. Alguns dos principais cronistas esportivos do estado passaram a possuir o "passe" de alguns jogadores que atuam nos dois grandes clubes da Bahia. Com isso, caso o treinador não coloque em campo o jogador que pertence ao locutor, logo é taxado de burro, imaturo, prepotente, dentre outros adjetivos. Assim, eles excitam as torcidas a pedirem a saída dos "técnicos teimosos" e se esforçam de tal maneira para esse ínterim, que normalmente conseguem seu sórdido objetivo.

Como se não bastasse esse tráfico de influência, ainda surgem perseguições motivadas pelo sentimento de torcedor de alguns comentaristas. O apresentador Raimundo Varela é um exemplo típico desse tipo de profissional. Totalmente despreparado para o cargo, Varela usa da sua influência junto às massas, conquistada pela sua grande audiência em um programa popularesco, para trabalhar como comentarista esportivo. Protagonista de pérolas como "esse jogador jogou pelo Bahia ano passado, mas eu não conheço bem ele", "seu" Valera acaba usando seu ímpeto de torcedor para perseguir jogadores e até um time inteiro. Não há um jogo do Bahia onde ele não enxergue um erro do juiz favorecendo o tricolor e nem um jogo do Vitória onde ele não veja perseguição do árbitro contra o seu time do coração. Além disso, o apresentador passou a "pegar no pé" da principal contratação do Bahia na atualidade. O veterano jogador Edílson, pentacampeão mundial. O jogador é o principal alvo das críticas de seu Varela. Mesmo depois de disputar uma partida, jogando bem, correndo o campo inteiro até o final do jogo e dando inclusive passes para o gol, Edilson sofreu muito mais com a marcação dos apresentadores e comentaristas do que com os zagueiros adversários.

Um "horroroso" zero a zero

Edilson é uma figura emblemática no futebol brasileiro. Um jogador que deu nova visibilidade ao time do Bahia e ao Campeonato Baiano como um todo. O "Capetinha", mesmo sem tocar na bola, foi destaque em programas esportivos de todas as principais emissoras de TV do Brasil. Somente isso deveria servir de estímulo aos nossos cronistas, para aproveitar o momento e valorizar o nosso pobre Campeonato Baiano e buscar novos investidores. Mas isso não acontece, fruto de um terrível complexo de inferioridade da imprensa baiana.

Esse complexo de inferioridade acaba repercutindo em âmbito nacional. A imprensa baiana se resume a falar mal dos times locais. Talvez por isso, o único jogador revelado na Bahia a vestir a camisa da atual seleção brasileira é Daniel Alves. E isso porque ele já jogava no Sevilha da Espanha. Sair de algum time baiano direto para a Seleção Canarinho, o último foi Dudu Cearense, do Vitória, em 2003.

Criticar as equipes é uma grandiosa burrice da nossa imprensa. Se os times não prestam, o campeonato também não irá prestar. Se isso ocorre, qual patrocinador irá querer investir seu dinheiro em propagandas nas transmissões dos jogos? Qual será a vantagem de associar a marca de uma grande empresa a um produto tão ruim? Será que ninguém percebe algo tão simples quanto isso? Nessa disputa entre o Campeonato Baiano e os cronistas esportivos da Bahia, o resultado é um hor-ro-ro-so zero-a-zero, como gosta de gritar o locutor da TV Itapoan. Todos perdem. Mas, pelo menos, agora podemos assistir aos jogos pela televisão. É só apertar a tecla mute do controle remoto e tudo se resolve...

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