ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 599 - 20/7/2010
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MÍDIA & VIOLÊNCIA
O machismo na cobertura de crimes passionais

Por Sylvio Micelli em 20/7/2010

A mídia – sempre ela – mais uma vez está em palpos de aranha diante da cobertura de dois crimes passionais ou que ao menos imaginamos que sejam passionais. E a visão machista acaba por permear o noticiário. Eliza Samudio e Mércia Nakashima pagaram com a vida por crimes que não se justificam. Se é que algum crime, ainda mais de morte, pode ser justificado. Mais do que pagar com a vida, elas pagam com a reputação pelo simples fato de serem mulheres.

Vamos caso a caso.

Eliza Samudio foi, no início do caso, totalmente desqualificada pela mídia. Primeiro pela "grife" de amante do goleiro Bruno Fernandes das Dores de Souza, bom jogador do Flamengo, um dos clubes mais importantes do país. O termo amante, ainda que hipocritamente acreditemos viver numa sociedade aberta, é um mero eufemismo para vagabunda. Depois descobriram que ela teria feito filmes pornográficos e que o goleiro a teria conhecido numa "orgia". Ou seja: sob a ótica de parte da mídia, o que se entregava para a sociedade é que ela era uma prostituta, uma "maria chuteira" qualquer e que sua morte aconteceu porque ela "procurou". Alguns dias atrás o noticiário era bem esse. A partir do momento que o crime foi sendo desvendado, principalmente pelos requintes de crueldade, pela quantidade de pessoas envolvidas e pela sua quase clara premeditação, Elisa passou a figurar como vítima.

Longe de mim entrar no mérito do que ocorreu, até porque odeio mundo-cão e esta cobertura que boa parte da imprensa faz é nojenta. Com a esfarrapada desculpa de "esclarecer os fatos", reviram-se os ossos de uma sociedade apodrecida para que seja dado a ela mais sangue e, se possível, muitas cabeças na bandeja para o orgasmo das "cleópatras" de plantão.

Sobrou um bebê na história

Parece-me que tanto ela quanto Bruno vieram de famílias problemáticas. Ela tentou o seu lugar ao sol. Ele conquistou o seu lugar ao sol e, possivelmente, jogou tudo para o alto cercado por péssimas companhias. E aqui ressalte-se que os clubes de futebol no Brasil "usam" os jogadores, mas não lhes dão nenhum suporte psicológico diante da grana fácil e dos pseudo-amigos que aparecem. A ambos, enfim, faltou o forte esteio de família, coisa que a sociedade já não sabe muito bem o que é. Ainda que esta moça não tivesse um comportamento adequado aos padrões que se acreditam corretos, não cabe nem a mim nem a ninguém julgá-la e como já afirmei, nada justifica sua morte.

O fato de Bruno ter vindo de camadas pobres da população também não justifica o crime. Trata-se de mais um preconceito tosco. Já tivemos pai de classe média alta jogando a filha pela janela, filha de classe alta mandando matar os pais e até jornalista de grande veículo matando a namorada.

Sobrou um bebê na história, mas poucos dão a devida importância. Em breve, sua guarda será "leiloada" na Justiça e padeço em imaginar quão sofrida será esta criança.

Cobertura rançosa

Mércia Nakashima é um caso um pouco diferente. Ela era uma "moça de família" conforme imagina a tal da opinião pública, essa massa amorfa que vai para lá ou para cá, de acordo com os diversos interesses. Vem de uma família, em tese, bem estruturada, era advogada, ou seja, nada poderia ter acontecido com ela. Exceto pelo fato de seu ex-namorado, Mizael Bispo de Souza, não ter se conformado com o fim do relacionamento e, possivelmente, até pelo fato de ser ex-policial e ter fácil acesso a uma arma, ter resolvido matá-la.

Ainda assim, o noticiário é machista ma non tropo. Ouvi outro dia numa rádio que Mizael acreditava estar sendo traído e que "precisava limpar sua honra". Leia-se, subliminarmente, que ela é culpada e que merecia morrer. Aqui volto à mesma retórica. Ainda que ela tivesse traído o namorado, nada justifica sua morte.

A cobertura da imprensa já vem rançosa. Os fatos acontecem e deveriam ser analisados dentro do contexto do fato em si, sem outras adjetivações. Passou da hora de a mídia rever seus conceitos. Os crimes ainda renderão muitas páginas impressas e eletrônicas. Outras coisas medonhas acontecerão. E depois tudo será esquecido quando os holofotes forem desligados.

Comentários (10)
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Márcia  Coelho , Rio de Janeiro-RJ - Jornalista
Enviado em 23/7/2010 às 22:44:07
O machismo é uma cultura que pertence à mulher e ao homem. Mas não sei por qual cargas d água, ser feminista, no senso comum, virou quase o mesmo que ter o comportamento masculino da cultura machista. Aí as coisas ficam meio estranhas, porque, se o homem pega a geral ele é canalha, mas se a mulher faz o mesmo e recriminam é por conta da cultura machista. As mídias glamurizam a prostituição de luxo - e a santa e a prostituta são duas faces da mesma moeda machista dos países de tradição cristã. As mídias muitas vezes glamurizam até mesmo prostitutas que a cidade quase toda sabe que tem relações com o tráfico de drogas. E isso é feito com um certo sentido de conquista feminista. A meu ver, existe muita confusão de referenciais. Até porque se desconstrói sem se propor novas referências ético-morais. Se fala em machismo como um lugar comum, sem se ter claro os referenciais históricos de cada aspecto dessa cultura. Meu pai, por exemplo, era super machista, mas ele era um homem civilizado e passou a vida condenando, entre amigos e familiares, a violência contra a mulher. O comportamento do homem violento - seja contra a mulher ou no jogo de futebol - é algo típico apenas do machismo, ou é algo que tem mais a ver com tradições bárbaras X padrões civilizatórios? Às vezes, temo estarmos martelando um ponto, quando o cerne da questão pode ser outro.
alice franca leite , rio de janeiro-RJ - professora
Enviado em 23/7/2010 às 14:58:39
Por falar nisso...desde quando as notícias de crimes vieram a ocupar as primeiras páginas? Antes só saiam na chamada IMPRENSA MARROM: aquela de jornais em que se espreme e sai sangue!Agora quem assume a imprensa marrom ? O Fantástico,o Datena,o UOL,etc...
Emerson Mathias , Sao Paulo-SP - economista
Enviado em 23/7/2010 às 13:15:38
Sim, trata-se de machismo mesmo, embalado as vezes num discurso politicamente correto para "incluir" as mulheres. Essa pauta tem que ser permanente aqui no Observatorio, pois a midia da sinais de mistificar o que se ve nas ruas, seja no machismo implicito do modo como se transformam as mulheres em objeto de propaganda e consumo, seja no noticiario policial que coloca as mulheres como vitimas de um sociedade que supostamente lhes concede igualdade de direitos, o que nao eh verdade. Se assim fosse, nao teriamos a necessidade da lei Maria da Penha, a qual muitas vezes sequer eh observada pelas autoridades competentes. A cobertura da imprensa segue na mesma batida dos preconceitos de genero que adotamos no cotidiano. Os holofotes estao acesos para o corpo morto, ou oculto, de vitimas que poderiam ter sido salvas, como outras que anonimamente estao deixadas em valas, corregos, lagoas e rios, para que se ocultes os crimes praticados. Que os escandalos sejam a oportunidade de fazer essa pauta ocupar espaco maior e permanente na sociedade. Abs.
Tony Leão , Belém-PA - Professor
Enviado em 23/7/2010 às 10:22:02
Duas outras questões devem ser consideradas: 1. O excessivo espaço que a mídia esta dando para o fato. Tornou-se mais um espetáculo tratar estes dois temas. Como se outro milhares de casos de assassinatos passionais (se o são de fato) não tivessem a mesma importância que estes. Os casos são tratados como um enredo cheio de episódios macabros que acompanhamos todos os dias na TV. Uma espécie de novela da vida real que acompanhamos como se fosse um reality show, com direito a detalhes íntimos; 2. Relacionado a isso: espetacularizam dois casos e esquecem de discutir o que seria relevante para a sociedade como um todo: a questão da violência contra a mulher, do patriarcalismo e do machismo cotidiano da sociedade brasileira. Isso sim é tema a ser debatido, discutido em detalhes, com dados, com informação abalizada. Isso sim deve tomar mais da metade dos jornais da televisão e folhas dos jornais impressos. Mas isso não interessa ser discutido pelos grandes meios de comunicação de massas. Seria um reality show pouco divertido e pouco popular, segundo a lógica do espetáculo! Obrigado. https://twitter.com/Tony_Leao http://www.mimcomigomesmo.blogspot.com/
Herman Fulfaro , Sorocaba-SP - taxidermista
Enviado em 22/7/2010 às 19:58:31
Diz a sabedoria popular que a malícia está nos olhos de quem vê. Casos como os dos Nardonis, do goleiro Bruno ou da advogada Mércia inevitavelmente acabam suscitando o interesse de algumas pessoas, não exatamente pela quantidade de sangue ou requintes de maldade, mas muito em função do mistério que se estabelece no momento em que os supostos autores passam a negar a autoria do crime, a despeito das evidências. E não foi outro, senão o desafio de lógica e inteligência, consistente em cercar o criminoso de evidências que levem ao desfecho do caso como num tabuleiro de xadrez, que notabilizou escritores como Arthur Conan Doyle e a genial Agatha Christe, os quais, apesar do tema recorrente em matéria dos crimes de sangue, certamente não podem ser acusados de estimuladores de orgasmos múltiplos, nem no homem comum, nem nas cléopatras de plantão. De modo que, liberto da hipocrisia, do bom-mocismo e/ou do politicamente correto, não tenho a mínimo constrangimento em admitir que normalmente tenho interesse, sim, em crimes com essas características. Antes o PIG desse ao noticiário político a mesma atenção, equilibrio e volume de informação que dá a esses casos.
Laércio Lucas Baryoussef , Juazeiro-BA - Estudante de Jornalismo
Enviado em 22/7/2010 às 19:39:16
Não suporto mais ouvir falar do caso Bruno, ainda mais depois que vi um reportagem no Fantástico em que o repórter deu uma aula de como "fazer a caveira" de um suspeito pra deixá-lo em maus lençóis perante a opinião pública e a Justiça. Jornalistas, de maneira geral, gosta de SUPOR, e isso deveria ser um pecado capital. As suposições da imprensa infestam o imaginário de todos. Conclusões antecipadas, opiniões (mal) formadas com base em depoimentos de alguém que contou ou que ouviu fulano dizer. Todas essas hipóteses pintadas de verdade são responsáveis pela nossa descrença nas instituiçõeas; nossa desesperança de um sociedade melhor; nosso descrédito para com as pessoas, etc. Chega!!
Herman Fulfaro , Sorocaba-SP - taxidermista
Enviado em 22/7/2010 às 19:37:44
Em tempo: Liberto do bom-mocismo com ou sem cedilha...
Lílian de Araújo Soares , Brasília-DF - jornalista
Enviado em 21/7/2010 às 23:20:06
Parabéns, caro articulista! Até que enfim, um texto crítico de bom senso e bem escrito, que aponta e comenta os equívocos da Mídia, sem hipocrisia e sem tendências contrárias às convencionais, mas igualmente prejudiciais a uma análise mais profunda. Quanto ao problema apontado, a mídia realmente precisa ver seus conceitos e, sim, é fato, esse vai ser um crime esquecido, até que surja outro para reinar sob os holofotes!
Roberto Ribeiro , Pocinhos-PB - Arqueólogo
Enviado em 21/7/2010 às 07:38:06
Esse artigo me lembra uma piada russa. Um elefante de circo ia passando pela rua e um cachorrinho começou a latir desesperado para ele. Quando o elefante passou, um outro cachorro perguntou pq ele tinha feito aquilo. Ele respondeu que sem risco nem esforço ficava com fama de valente, pois desafiava até um elefante! É isso. É fácil vituperar moralidade quando não nos custa nada. É bem barato escrever artigos assim e poder mostrar o quanto se é bom e honesto e politicamente correto. Sem risco, sem enfrentar poderosos, sem perder amizades. Muito fácil.
sandra  rigatto , campinas -SP - professora universitária
Enviado em 20/7/2010 às 15:16:47
Quantas mulheres mais serão preciso para que as autoridades se posicionem de forma clara e realista sobre a dura realidade que nos cerca. Quatas Mércias, Elisa e Marias sao necessárias ainda pra que façamos valer o Direito à Vida e a Dignidade Humana?
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Sylvio Micelli

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