ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 600 - 27/7/2010
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ALÉM DA PAUTA
Os cochilos da cobertura

Por Rolf Kuntz em 27/7/2010

Maior acionista privada da Petrobras, a americana Black Rock vendeu ações da estatal por causa de incertezas quanto à capitalização. A Colossus, com sede no Canadá, deverá comandar a nova exploração de ouro em Serra Pelada, mas em seu escritório, em Toronto, o repórter só encontrou uma secretária. O ex-ministro Mangabeira Unger, sem destaque na eleição brasileira, é o novo guru da oposição argentina. O Brasil virou importador de mão de obra e em cinco anos foram dados vistos a 177,5 mil trabalhadores estrangeiros. Todas essas boas histórias destoam da pauta rotineira e confirmam: jornais podem ser interessantes, divertidos e relevantes, quando pauteiros, editores e repórteres decidem ir além da cobertura burocrática e das entrevistazinhas e repercussões coletadas por telefone.

A reportagem sobre Serra Pelada saiu no Estado de S.Paulo de domingo (25/7). A matéria contém um relato sobre a montagem do novo esquema de exploração de ouro, com a formação de empresas no Canadá e no Brasil e o envolvimento da associação de garimpeiros. A articulação foi conduzida pelo senador Edison Lobão, quando ministro de Minas e Energia. Não há denúncia direta de ilegalidade, mas o texto enumera fatos estranhos em número mais que suficiente para justificar uma investigação mais detalhada. O vice-presidente da Colossus Internacional, um geólogo brasileiro, confessou, segundo a reportagem, desconhecer o nome do presidente, "um inglês", e só o informou depois de ouvi-lo soletrado por uma voz feminina: "R-a-n-d-y R-e-i-c-h-e-r-t".

Importância menor

A matéria da Folha de S.Paulo sobre a venda de ações pela Black Rock, publicada na quarta-feira (22/7), tratou de forma concreta e clara para qualquer leitor um problema enfrentado pela Petrobras no mercado de capitais, O nome Black Rock já tem aparecido na imprensa brasileira. Mas a cobertura das Bolsas dificilmente vai além da apresentação dos indicadores, de preços e de comentários de alguns operadores. A história fica mais interessante e mais viva quando um funcionário de uma grande investidora explica por que se decidiu agir desta ou daquela forma em relação aos papeis de uma empresa – no caso, uma grande companhia de petróleo necessitada de muitos bilhões de dólares para a exploração do pré-sal.

O relato das novas aventuras políticas do professor Mangabeira Unger – já vinculado ao PDT e ao PRB e agora ligado ao PMDB – foi uma das mais divertidas leituras da semana. Antes conhecido por um público restrito, ele ganhou notoriedade ao descrever o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como o mais corrupto da história republicana. Sua notoriedade cresceu quando o presidente Lula, atendendo ao vice José Alencar, o convidou para ser ministro e ele aceitou. Ele viajou pelo menos quatro vezes à Argentina nos últimos dez meses, segundo o jornal Valor, e tem aconselhado tanto opocisionistas da União Cívica Radical quanto peronistas rompidos com o kirchnerismo. "Ele falou sem parar durante duas horas", disse o cineasta e deputado Pino Solanas, narrando um jantar em sua casa.

Assuntos mais próximos da pauta do dia a dia têm rendido também material interessante. Todos os jornais deram destaque à estimativa da economia informal produzida pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Segundo o trabalho, a atividade informal, também conhecida como economia subterrânea, equivaleu em 2008 a R$ 578 bilhões, 18,4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro – ou, simplesmente, um ano de produção da Argentina. Nem todas matérias explicaram, no entanto, como calcula o tamanho da informalidade – um dado essencial para a avaliação do leitor. O Globo fez um bom repique, nos dias seguintes, mostrando, com base em pesquisa da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), o custo e as dificuldades da formalização de empresas no Brasil.

Na mesma semana os jornais falharam na cobertura de dois assuntos importantes. Na segunda-feira (19/7), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou as medidas provisórias (MPs) 495 e 496. A de nº 496 elevou o limite de endividamento dos municípios sedes da Copa do Mundo de 2014. Grandes jornais noticiaram o assunto nos cadernos de Esportes, sem dar importância a um detalhe político e econômico: o afrouxamento – mais um – das normas de responsabilidade fiscal.

Leitura que não houve

A mudança pode nem ser muito grave, do ponto de vista financeiro, mas está longe de ser desprezível. Mas o governo brasileiro tem o costume de sobrecarregar as MPs como árvores de Natal, pendurando no mesmo documento vários assuntos. Os jornais simplesmente desprezaram os tópicos adicionais, como as novas normas de acerto de créditos e desapropriação de bens da extinta Rede Ferroviária Federal ou de compensação entre regimes previdenciários. Aparentemente, o pessoal da cobertura desprezou a leitura do texto.

Algo bem mais estranho ocorreu no caso da MP 495. A parte inicial e mais importante mudou itens da Lei de Licitações, estabelecendo preferências para produtos nacionais no caso de concorrências para venda de bens e serviços ao governo. A mudança envolve grandes interesses empresariais e é uma decisão polêmica, defendida por segmentos da indústria brasileira e criticada por alguns analistas. A primeira reportagem sobre o assunto só apareceu dois dias depois de assinada a MP e foi publicada na Folha de S.Paulo. O Valor também cuidou do assunto em pelo menos duas matérias.

Durante um dia o assunto foi ignorado pelos jornais, mas o detalhe mais intrigante é outro. Na mesma MP o presidente concedeu maior liberdade para contratos de interesse de escolas superiores e institutos de pesquisa federais. Esta parte da MP foi noticiada nas seções de Educação de grandes jornais. O fato é estranhíssimo, à primeira vista, porque esses dispositivos foram incluídos na segunda parte do texto. Terão os jornalistas lido apenas a segunda parte da MP e saltado a primeira, a mais importante economicamente e mais polêmica? A explicação parece bem mais simples. O Ministério da Educação soltou um press-release sobre o tema de seu interesse e avisou os jornalistas. Aparentemente, ninguém se dispôs a procurar imediatamente o texto completo. 

Trabalhar pode ser até divertido, de vez em quando, mas é bom não abusar. Exageros podem fazer mal à saúde.

Comentários (7)
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Herman Fulfaro , Sorocaba-SP - taxidermista
Enviado em 2/8/2010 às 19:19:31
Penso que é apenas um problema de agenda e/ou de prioridades. Ou bem os pauteiros, editores e repórteres se empenham de corpo e alma na campanha do candidato Serra, como de fato estão fazendo, ou se dedicam aos assuntos que realmente interessam. Como dizia minha santa avó, não dá pra assobiar e chupar cana ao mesmo tempo.
Dagoberto Azzoni , Jundiaí-SP - Jornalista
Enviado em 1/8/2010 às 19:30:40
É, Rolf: enquanto isso, os diretores de redação e os RHs da vida ficam preocupados em treinar os editores para que se tornem eficientes "gestores" da burocracia de suas respectivas editorias, o que antes era feito, com eficiência, pelas secretárias. Jornalismo que é bom, necas de pitibiribas... Um grande abraço, amigo.
Roberto Ribeiro , Pocinhos-PB - Arqueólogo
Enviado em 30/7/2010 às 17:15:46
Eu já fiz muito release e mandei pra imprensa e sei que, na maioria das vezes, pra não dizer sempre, o valente jornalista se limita a reduzir um pouco o texto por causa da paginação. A gente tem apenas de dominar a técnica da prirâmide, colocando as informações relevantes no começo e as complementares no fim, para poder cortar facilmente. Acho que nunca modificaram um release meu ao publicar... Depois querem que a gente acredite que tem de ter diploma pra ser jornalista.
Gilson Luís  Haubert , Farroupilha-RS - Analista Financeiro
Enviado em 28/7/2010 às 11:54:45
O problema é que a nossa imprensa, de modo geral e precisamente o rádio e a televisão, são diletantes, o que explica em muito nossa condição de republiqueta bananeira. Não é de se estranhar o fato de que temos um povo refratário à política e à economia, assuntos vitais e determinantes na vida de qualquer um. A mídia apenas " divulga " notícias, e não promove reflexões e debates, pois que amordaçada por leis e dependente de verbas publicitárias, qual meretriz. Não à toa, que nosso povo se dispõe a perder tempo com mobilizações inúteis e inócuas, como o carnaval, futebol, carreatas para homenagear celebridades obscuras, etc ...
laécio  Almeida , Aguas Lindas de Goiás-GO - estudante
Enviado em 27/7/2010 às 20:06:07
É duro ver como a formação de noticia no Brasil não há nem a minima preocupação em informar, fico pensando as vezes abro o firefox e procuro o site dos jornalões pra ver como anda as coisas, depois procuro este observatório e outros de igual importância pra como de fato é a noticia. o incrivel é que é muito mais facil entender o que si passa lendo os textos nos sites do congresso do ficar a par da noticia fornecida por tais jornalões, ou tem vezes que fico sabendo e o bonde já está a muito tempo andando, esta imprensa brasileira vive só boatos e repercursões informação mesmo é coisa de outro mundo!
luiz galvao , sao paulo-SP - jornalista
Enviado em 27/7/2010 às 18:48:38
pode ficar tranquilo,o instituto millenium vai repercutir
Jafar  Barreiros , Salvador-BA - Estudante de Jornalismo
Enviado em 27/7/2010 às 16:33:45
Esse caso da Colossus faz jus ao nome da empresa. Já existe todo um projeto arquitetônico para as "minas" que serão construidas e está la no site da empresa pra todo mundo ver, em ingles e portugues. Quanto às licitações, há uma carta do presidente nacional do IAB(Instituto dos Arquitetos do Brasil) manifestando-se contra os pouquíssimos concursos feitos pelo governo federal, além dessa seujeira com as licitações. Atenção especial para Ricardo Teixeira, isso mesmo, o presidente "absolutista" da CBF.
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