ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 600 - 27/7/2010
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RESULTADOS DO ENEM
O óbvio e o relativo

Por Gabriel Perissé em 27/7/2010

As férias escolares de julho vão terminar, o que parece ter trazido com renovado impulso à pauta de jornais e revistas o tema recorrente da qualidade educacional. Também as listas de "melhores" e "piores" escolas, com base nos resultados do Enem e do Ideb recentemente divulgados, despertam na mídia o desejo de dar aulas sobre o pedagogicamente correto.

O jornalista Daniel Salles, na Veja São Paulo (28/7), declina as "Dez lições da escola número 1". As dez obviedades, porém, explicam apenas que o sucesso do "campeão" do ensino médio, o Colégio Vértice, reside em circunstâncias anteriores ao exame que faz dele um hors-concours.

Que sentido há em concorrer com o Vértice ou compará-lo com as demais escolas? Ele já começa a "disputa" vencendo, como seu nome indica: ápice, cume. Os alunos só são admitidos porque aprenderam a estudar, seus pais podem pagar a alta mensalidade, os professores do colégio ganham cerca de 7 mil reais por mês, as turmas são pequenas, os alunos têm acompanhamento individualizado, existe um projeto pedagógico unificado, interdisciplinar, aberto a variados esportes e ao mundo artístico.

Não se questionam os méritos do Vértice. Questionável é relatar sem relativizar. Na outra ponta da história também é razoável relativizar o fracasso de grande parte das escolas do ensino médio brasileiras (públicas e privadas), na medida em que suas próprias obviedades (situação social precária, professores desvalorizados, classes lotadas etc.) invalidam desde o início a tentativa insignificante, e em última análise injusta, de denunciá-las como escolas fracas.

Outras qualidades essenciais

As notas médias de uma escola são relativas porque nem todos os alunos inscritos no último ano se submetem ao Enem, dado o seu caráter voluntário. A matéria "Qual é o peso do Enem?", da revista Época (26/07), assinada por Camila Guimarães, enfatiza essa relatividade. De resto, verdade seja dita, tal consideração está explícita na Nota Técnica do Inep.

Nesta Nota, há algo mais. O desempenho dos alunos, que em tese reflete o nível da instituição onde estudam, não depende somente do quanto um colégio é "bom" ou "ruim". A Nota lembra a importância do trajeto escolar de cada estudante, das suas circunstâncias familiares, bem como da comunidade onde está inserido, e emprega ainda um genérico "entre outros aspectos".

O fato é que a qualidade da Educação não se mede adequadamente (se é que se mede...) sem se levar em conta o imponderável, esses "outros aspectos" que as provas não capturam. Não capturam, por exemplo, o heroísmo de tantos alunos que as enfrentaram em inferioridade de condições. Suas notas menores mereceriam ser elevadas à potência de seus esforços de superação, somados à generosa dedicação dos seus professores.

O Enem é instrumento necessário de avaliação. Ajuda-nos a ver o óbvio: existe uma seleção socioeconômica e cultural prévia, decisiva. No entanto, cabe à mídia relativizar esses resultados, cobrando, sobretudo em relação à educação pública, e em especial às prefeituras e aos governos estaduais, outras "qualidades" que antecedem a própria realidade escolar: a qualidade da saúde, da alimentação, da moradia, do transporte etc.

Comentários (2)
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Augusto Cézar Contreiras de Almeida , Guará-DF - professor de 1º e 2º graus
Enviado em 27/7/2010 às 20:14:39
Simples e bom o texto. Conforme argumenta o articulista, não podemos nos deixar seduzir pelo simplismo da mídia que simplesmente emite frases como "parabéns ao colégio X, Y ou Z" pela sua colocação. Poderiam tentar (sei que na mídia comercial é utópico) relativizar e entrar no porquê do mau desempenho, principalmente das escolas públicas. Seria um grande serviço que elas poderiam prestar. Outro ponto é que a nota não representa o cara da escola. As escolas particulares por exemplo, podem estimular só os melhores (que, teoricamente, são quase todos os alunos) a fazer a prova do ENEM. Na escola pública, todos os alunos podem fazer o prova, independente dos seus requisitos intelectuais. Por que a mídia não debate isto e outras questões. Portanto, tudo isso reforça a tese do articulista: várias coisas devem ser levadas em conta no resultado do ENEM, que deve, portanto, ser relativizado e levar em conta, como o próprio autor da matéria diz, o imponderável.
Arthur Vinícius , Belo Horizonte-MG - Estudante de composição (música)
Enviado em 27/7/2010 às 17:45:24
Gostei do texto. Em contrapartida, gostaria de comentar o seguinte parágrafo: "O fato é que a qualidade da Educação não se mede adequadamente (se é que se mede...) sem se levar em conta o imponderável, esses "outros aspectos" que as provas não capturam. Não capturam, por exemplo, o heroísmo de tantos alunos que as enfrentaram em inferioridade de condições. Suas notas menores mereceriam ser elevadas à potência de seus esforços de superação, somados à generosa dedicação dos seus professores." Acredito ser impossível, na ordem atual das coisas, avaliar o ensino brasileiro sem indicadores de qualidade. Realmente não há como medir o imponderável. Esses alunos-heróis, verdadeiros "pontos fora da curva", são uma ínfima parcela de alunos. Onde quero chegar? Determinar "exceções como regra" pode nos levar a uma análise super-distorcida. É achar normal um aluno ter que ser herói para se ter sucesso escolar (não retiro, de forma alguma, o mérito deles). Não, o aluno "não-herói" precisa é de condições favoráveis para o aprendizado, e a produção desses "heróis nacionais" só nos comprova o quanto ainda estamos aquém de uma educação de qualidade. Concordo que devemos sempre aprimorar e atualizar nossos indicadores de qualidade, não podem ser somente baseados em desempenho-conteudista, mas também em aspectos econômicos, sociais, familiares, etc.
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