ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 571 - 5/1/2010
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APURAÇÃO OU INTIMIDAÇÃO?
A médica, o twitter e o jornalista

Por Ronaldo Tiradentes em 8/1/2010

Ser jornalista é como ser juiz. Em algumas ocasiões, as duas funções se assemelham. O juiz quando decide, agrada um lado do conflito e, desagrada o outro. A parte vencedora vai achar que a justiça foi feita. O perdedor, dirá que foi vítima de uma injustiça. No jornalismo também é assim. Uma matéria-denúncia deixa o denunciante mais aliviado de uma eventual injustiça e, o denunciado, revoltado.

Às vésperas do Natal, assisti a uma reportagem na TV que me deixou com lágrimas nos olhos. Vi o desespero de uma mãe, com um filho de 8 anos nos braços, que teve um olho perfurado com um graveto, correndo em vários hospitais de emergência em busca de socorro. A via crucis daquela mãe durou quase 24 horas. Os oftalmologistas que deveriam estar de plantão não apareceram naquele dia para cumprir sua obrigação.

A criança só foi operada no dia seguinte. Por causa da longa espera pelo socorro, terá uma sequela irreversível. O líquido do olho (humor vítreo) da criança vazou e ela corre o sério risco ficar com o olho murcho.

A falta de médico em hospital público é problema recorrente. As redações recebem reclamações às toneladas, todos os dias.

Atendendo sucessivas reclamações de ouvintes, resolvi sugerir aos nossos colaboradores da Rádio CBN Manaus, uma série de visitas às Unidades Básicas de Saúde – UBS, também conhecidas como "casinhas de saúde". Recomendei que fossem flagrantes, com a verificação da presença e assiduidade do médico e a opinião dos pacientes que estivessem aguardando atendimento.

Qual foi nossa surpresa. Das 7 "casinhas" visitadas, não encontramos um médico sequer. Tudo com transmissão ao vivo.

Fomos informados pelo secretário municipal de Saúde, Francisco Deodato, que os médicos das UBS, recebem 10 mil reais de salário por mês, convenhamos, um excelente salário, para ter dedicação exclusiva, ou seja, com expediente das 8 as 12 e das 14 as 17 horas. Expediente semelhante ao da grande maioria dos trabalhadores brasileiros.

Na "casinha" do Campo Dourado, um dos bairros mais pobres de Manaus, sem água tratada, saneamento básico, luz elétrica regular e, onde circulam centenas de crianças subnutridas e atingidas por verminoses, coceiras e pela falta de amparo do poder público, constatamos uma situação dramática. Segundo depoimentos dos moradores, vizinhos da "casinha", desde setembro eles aguardam uma consulta com a médica que deveria estar lá, todos os dias, em tempo integral.

Dependência obsessiva

A reportagem foi gravada na manhã da segunda feira (4/1), primeiro dia útil de 2010, após as festas e os prolongados feriados de fim de ano. Neste mesmo dia, no início da noite, recebi o telefonema de uma amiga, cuja profissão é a promoção da justiça pública. Naquele momento, minha amiga fazia o papel de advogada da médica acusada de não atender pacientes deste setembro do ano passado. Vejam o disparate.

Primeiro, a "advogada" tentou justificar que a médica não se encontrava no local de trabalho na hora da reportagem, porque estava naquele mesmo momento, apresentando o relatório de suas atividades ao Distrito de Saúde da Cidade Nova. Mais tarde viemos comprovar que o tal relatório, naquele momento, não existia, era apenas uma desculpa para uma "gazeta" básica. Depois, minha amiga pediu que nós levássemos em consideração o fato de a médica acusada de desídia estar grávida. Ponderei dizendo que gravidez não é doença nem incapacita a médica a fazer simples consultas, atividade que não exige nenhum esforço físico. Também argumentei que a médica, pela formação que tem, saberia o momento exato de suspender os trabalhos para se dedicar ao sublime ato de ser mãe.

Fui informado que apenas no dia 6 de janeiro, três dias após nossa reportagem, a médica ingressou com atestado médico na SEMSA, de três dias, a contar do dia 5, para os exames pre-natais. Logo, na segunda feira, dia 4, ela deveria estar no posto médico para atender suas pacientes, pelo menos aquelas que aguardavam pela consulta desde setembro, ouvidas pela reportagem da CBN.

A reportagem foi ao ar na terça feira (5/1). Horas depois, recebi um CD, enviado por um ouvinte, contendo mais de 200 páginas do twitter da médica acusada de deixar os pacientes à espera por uma consulta desde setembro.

Fiquei perplexo e impressionado com a assiduidade e a quase-obsessão da médica pelo twitter, o site de relacionamentos que é febre mundial. A atuação da médica no twitter faz inveja a qualquer adolescente viciado em internet. Os tweets dela são diários, seguidos, de manhã, de tarde, de noite, de madrugada.

Fiquei imaginando e me perguntando se no meio de tantos tweets e hashtags haveria tempo para a família. Pensei também como é que uma pessoa que tem a obrigação de trabalhar pelo menos sete horas num posto de saúde, pode ficar nessa dependência obsessiva pelo twitter. Como será o convívio entre o twitter, dezenas de seguidores e os pacientes doentes.

Uma tuitada entre uma consulta e uma dipirona receitada, outra tuitada e a dica para uma mãe combater a taenia solium (também conhecida como solitária) do filho barrigudo.

Deve ser uma loucura esse convívio.

À míngua

Depois me perguntei. Será que lá no bairro Campo Dourado, onde não há sequer água encanada, existe internet? Depois me lembrei que a médica pode ter um modem sem fio. Essa tecnologia moderna permite as tuitadas, nos escritórios, nos shoppings, nos consultórios, inclusive nas casinhas de saúde, mesmo aquelas localizadas nos locais mais longínquos, os quais também são chamados popularmente de "onde o vento faz a curva".

Voltei a falar com minha amiga. A "advogada" da médica tuiteira. Descobri que ela também é tuiteira (só nas horas vagas). Ambas são seguidoras uma da outra. Talvez, por isso, minha amiga tenha me ligado para defendê-la fervorosamente da acusação de desídia.

Fui acusado de ter sido injusto, de ter atacado uma mulher grávida que "trabalha todos os dias", cuidando daquelas crianças cheias de verminoses com suas respectivos mães também doentes. Voltei a lembrar que gravidez não é doença. Os doentes eram os pacientes da médica tuiteira.

Indaguei minha amiga por que ela, habituada a promover a justiça, defendia tão cegamente a médica acusada de deixar seus pacientes morrendo à míngua. Ela respondeu-me que tem vocação para ficar do lado dos mais fracos, insinuando que eu, com a Rádio CBN, éramos o lado forte da relação, enquanto a médica estava do lado da hipossuficiência.

À espera da consulta

Ser chamado de injusto é algo que me incomoda muito. Para livrar-me dessa pecha, lancei um desafio à minha amiga: "Vamos juntos, eu e você, visitar o bairro Campo Dourado. Vamos conversar com os moradores. Você escolhe a casa. Vamos bater na porta e ouvir a opinião deles sobre a assiduidade da médica e o zelo profissional dela". Comprometi-me a pedir desculpas de público e fazer a devida reparação à médica, caso se confirmasse qualquer injustiça que tivesse sido praticada contra a amiga dela, por mim e pela CBN.

Insisti na proposta. Infelizmente, minha amiga não topou. Não sei por quê.

Desse episódio todo, cheguei à seguinte conclusão. Acho que cumprimos nosso papel social. Fizemos com que a denúncia dos moradores do Campo Dourado chegasse ao conhecimento das autoridades. A SEMSA abriu sindicância para apurar porque as 7 unidades de saúde visitadas pela CBN estavam sem médicos.

Minha amiga deve ter ficado com raiva de mim. Talvez eu não tenha tido a competência para convencê-la de que, na relação entre o paciente, a médica grávida, o twitter e o jornalista, o lado fraco, o hipossuficiente, é o doente que ainda continua aguardando por uma consulta. Se o twitter deixar.

 

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Carlos Magno  M. Dias , BH-MG - PROFESSOR
Enviado em 16/1/2010 às 02:10:14
O fato em questão mostra a importância da existencia de um orgão que regule o exercício da profissão do Jornalista. Um conselho Nacional de Jornalismo é impressindível para a consolidação democrática. Digo isso porque se o referido jornalista estivesse sujeito às punições previstas para o exercício irregular da profissão ele nunca teria colocado uma matéria dessas no ar. Da mesma forma a emissora exigiria mais responsabilidade de seus profissionais. O argumento do "jornalista" ofende qualquer um com o menor senso de discernimento e é uma afronta à liberdade de expressão e ao estado democrático de direito. É inaceitavel que a imprensa brasileira que sempre lutou pela liberdade de expressão não possa fazer nada para impedir o uso dos instrumentos da mídia para oprimir e agredir qualquer indivíduo. É preciso que pressões de todo Brasil sejam feitas a fim de que o mal profissional seja demitido e impedido definitivamente de exercer uma das profissões mais importantes da democracia. Somente com uma imprensa verdadeiramente livre, plural e comprometida com a verdade poderemos mudar o país, combater a corrupção.
Ney José Pereira , São Paulo-SP - Contador
Enviado em 13/1/2010 às 16:50:38
Por que a tal rádio CBN implica tanto assim com o tal twitter?!. Por que a tal rádio CBN (de São Paulo) não implica com os tais "blogs"?!. Há um tal Heródoto Barbeiro na tal rádio CBN (de São Paulo) que implora e pede e mendiga aos ouvintes da tal rádio CBN (de São Paulo) para acessarem e visitarem e recomendarem o seu "blog"!. É um tal de blog do barbeiro para lá e blog do barbeiro para cá, insistentemente!. E o tal Heródoto Barbeiro ainda diz: "Blog do Barbeiro que sou eu" E repete isso (que o blog do barbeiro sou eu!). Dá a impressão que o blog é o barbeiro em vez do tal Barbeiro ser o próprio Heródoto (que não é cabeleireiro) titular do tal "blog"!. E esse "aviso" que o blog (o Barbeiro, né) sou eu é um plágio do falecido radialista (rádio Bandeirantes de São Paulo) Vicente Leporace que dizia ao fim do seu programa que aquele programa era da responsabilidade de Vicente Leporace (que sou eu!). Mas, o Vicente Leporace dizia aquilo por causa da censura!. Ou seja, ironizava a tal "censura"!. Atualmente nenhum radialista do Brasil precisa plagiar o Vicente Leporace, pois, censura no rádio não há mais!. Agora censura há, mas, no... twitter!. Censura no twitter perpetrada pela própria rádio CBN (no caso, de Manaus)!. Observação: Que tal a rádio CBN proibir (censurar) todos os twitteres cebenáticos?!. E por que blogs e twitteres na rádio CBN podem?. Não podem para os ouvintes, né!.
Ney José Pereira , São Paulo-SP - Contador
Enviado em 12/1/2010 às 19:30:51
Não queremos "respostas" nem de Zallo Comucci nem de Ronaldo Tiradentes!. Queremos que a diretora nacional de jornalismo da rádio CBN Mariza Tavares "determine" (após verificação) se houve ou não houve "erro" da rádio CBN de Manaus. E se houve "erro" que este sirva de "exemplo" para que não haja novos "erros" cebenáticos!. Observação: A rádio CBN tem um "Manual (ético) da Reportagem"?.
Ney José Pereira , São Paulo-SP - Contador
Enviado em 10/1/2010 às 19:21:04
Repito: E ainda bem que eu não twitter!. O twitter é proibido na rádio CBN?.
Leandra Carneiro , BELO HORIZONTE-MG - Médica
Enviado em 10/1/2010 às 12:33:59
Gostaria de acrescentar que alguns jornalistas se ressentem das mídias socias e na verdade o “jornalista do futuro” é aquele que consegue construir uma forte conexão com a sua audiência. É aquele profissional que sabe usar todas essas ferramentas - Flickr, Twitter, blogs, Orkut - para criar um relacionamento com o público e as USA. E realmente me pareceu que o jornalista estava muito mal informado mesmo. Veja essa resportagem do El País.com sobre um médico do PSF de lá que usa o twitter para informar e aconselhar seus pacientes: http://www.elpais.com/articulo/tecnologia/Doctor/
Twitter/elpeputec/20091222elpeputec_1/Tes
 Por tudo isso, cada vez mais essa repostagem da CBN me parece retaliação política à Dra. Bianca!!
Waldir  Cardoso , Belém-PA - Médico
Enviado em 10/1/2010 às 12:02:16
Ronaldo, Temos um colega seu para também ser convidado a nos acompanhar na visita: Ismael Benigno.Vc deve ter lido o artigo dele: APURAÇÃO OU INTIMIDAÇÃO? (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=571FDS020) Ele ouviu a Dra Bianca e a história da Taxa de Lixo. E vc? Bem, nosso proposta está de pé. Caçar a verdade. Doa a quem doer. Como determina o bom jornalismo investigativo.
Carlos Andrade , São Paulo-SP - Médico Ortopedista
Enviado em 10/1/2010 às 10:30:55
Jornalista é ser jornalista.Por favor,não se compare,e macule,nossos magistrados.Estes de tão sobrecarregados pelas filigranas de nossas leis,são,ao contrário de você bastante estudiosos e responsáveis em seus veredictos. Em São Paulo,capital,não se encontra, de plantão, oftalmologista, em nenhum hospital público.Em poucos serviços privados sim.São Paulo, escrevo da terceira ou quarta maior cidade do mundo! Temos aqui um dos melhores sistemas de saúde do Brasil, em qualidade e em quantidade.Isto demonstra o pouco entendimento que o Sr. (não foi pesquisar antes?) como funciona o nosso SUS(no papel, o melhor sistema de saúde do mundo) e a nossa medicina complementar da rede privada. Oftalmologista, em Manaus, e de plantão?! Não entendi, e aí aparece toda a tendência do seu texto, como você conseguiu relacionar o problema estrutural da saúde(má distribuição de profissionais,falta de condições) dos primeiros parágrafos, com o twitter da minha colega. A tentativa é bastante equivocada de relacionar a falta de trabalho e posts neste microblog. Eu o faço - com bastante frequência - e na verdade, sou até elogiado por meus superiores.Nosso governador aqui é um “geek” confesso! Um dos melhores jornalistas da CBN-SP ... Mais em meu Blog www.andradfootorto.vox.com
Leandra Carneiro , Belo Horizonte-MG - Médica
Enviado em 9/1/2010 às 23:49:50
Algumas considerações: - Olho perfurado com graveto = urgência médica PSF= consultas eletivas, de medicina PREVENTIVA, sem caráter urgente ou emergente . -"A falta de médico em hospital público é problema recorrente. As redações recebem reclamações às toneladas, todos os dias." Por que o jornalista não investigou a falta de médicos em HOSPITAIS?? Por que saiu da pauta das denúncias para investigar Medicina da Família (PSF)?? . - Realmente procurei tweets em horário de trabalho e não achei no perfil da Dra. Bianca Abinader - (http://twitter.com/bia_abinader) . - Quantos tweets por dia o jornalista acha que uma pessoa saudável pode dar e apartir de quantos se torna obssessiva?
Miriam Moura , Manaus-AM - publicitária
Enviado em 9/1/2010 às 16:09:50
Juiz pelo menos ouve os dois lados antes de julgar... Este cidadão não tem caráter pra pensar no mal que pode estar causando a gravidez de uma mulher, e nem se manca que pode ser responsabilizado por isso.
Luiz  Cesar , Vitória-ES - Professor
Enviado em 9/1/2010 às 08:59:26
Lamentável o OI dar espaço para artigos de, exclusiva, disputa pessoal. Lamentável.
Edwi Feitoza , São Paulo-SP - Desenvolvedor de Software
Enviado em 9/1/2010 às 08:40:31
Se um juíz se comportasse como este "jornalista" se comporta ele estaria mais para chefe de quadrilha, não para aplicador da impacialidade e da lei. Quando se há denúncia feita por um meio jornalístico espera-se, NO MÍNIMO, provas que embasem esta denúncia. COISA QUE NÃO SE VIU! O que me alegra é que em breve o jornalismo se verá livre de tipos como você. Com a internet e monopólio da informação MORREU!!!
marcelo schimuda , curitiba-PR - bancário
Enviado em 8/1/2010 às 21:16:27
poderia compartilhar conosco o conteúdo do cd?
Renato Silva , Rio de Janeiro-RJ - .
Enviado em 8/1/2010 às 20:27:33
O "jornalista" Ronaldo bateu tanto na tecla de que a médica Bia Abinader tem obsessão pelo twitter, mas não divulgou o endereço do twitter da moça: http://twitter.com/bia_abinader . Ele poderia aproveitar e indicar quais mensagens que ela teria escrito no site que foram feitas durante a hora do expediente. Coisas básicas do jornalismo que esse senhor não sei porque não fez. De tudo que li até agora a médica Bia Abinader está de parabéns por enfrentar os poderosos de Manaus.
Alberto porem jr. , Lucas do Rio Verde-Mt - consultor agrícola
Enviado em 8/1/2010 às 18:27:54
O fato de Bianca Abidaner, a tal médica twitteira, estar promovendo através do twitter uma campanha contra a "Taxa do lixo" em Manaus em que buscava parceiros na arrecadação de dinheiro para a colocação de outdoors contra a proposta do legislativo local; a recusa terminante das empresas de outdoor da cidade em fazer tais cartazes sob a ameaça de apresentação pelo mesmo legislativo de uma lei "Cidade Limpa" como São Paulo fez não tem nada a ver é só mera coincidência não é mesmo?
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