5/7

Procure no arquivo

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro


ASPAS

HOUAISS vs. AURÉLIO
Rachel Bertol e Mauro Ventura

"Dicionário 'Houaiss' entre farpas e verbetes", copyright O Globo, 2/09/01

"Abra o novo ‘Dicionário Houaiss da língua portuguesa’ na página 1.034 e você encontrará oito definições para a palavra dicionário. Pois nos últimos dias o verbete merecia ganhar mais um significado, o de alvoroço. O ‘Houaiss’ estabelece um marco na língua portuguesa, no Brasil e em Portugal, onde também será publicado. Desde que foi anunciado o lançamento do novo dicionário, há uma semana, a editora Nova Fronteira, responsável pelo ‘Aurélio’, reagiu ao novo empreendimento, o maior do mercado editorial brasileiro nos últimos tempos. O alvoroço também atingiu as livrarias, que fizeram encomendas que superaram as expectativas da Objetiva.

Nem Roberto Feith, dono da Objetiva, nem os responsáveis pelo Instituto Antônio Houaiss deixam sem resposta as farpas lançadas por Carlos Augusto Lacerda, da Nova Fronteira. A imprensa tornou-se a tribuna onde cada lado defende a importância do seu produto. Até hoje, o ‘Aurélio’ mantinha-se imbatível como o mais importante dicionário do português contemporâneo.

- Todas as línguas de cultura têm diversos dicionários e o Brasil não tinha. O ‘Houaiss’ é o maior mergulho realizado na língua portuguesa nos últimos cem anos - declara Mauro de Salles Villar, que, depois da morte do tio Antônio Houaiss, em 1999, tornou-se o cabeça do novo dicionário.

O ‘Houaiss’, que levou 15 anos para ser concluído e exigiu o trabalho de cerca de 150 especialistas, oferece 228 mil verbetes, contra 160 mil do ‘Aurélio’. Mas a principal diferença não é quantitativa: a ambição que moveu a realização do ‘Hoauiss’ é totalmente diferente. Na primeira edição do ‘Aurélio’, de 1975, seu mentor, o professor Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, explicava que se tratava de uma obra de referência média, ou inframédia, que significa abaixo da média. Já o ‘Houaiss’ busca abranger toda a língua portuguesa, não apenas a que se fala no Brasil, mas em todos os países lusófonos - Portugal e as antigas colônias da África e da Ásia. Na equipe de especialistas, participaram professores de todos esses países.

- O ‘Aurélio’ teve um papel muito importante como referência do português vivo, mesmo em Portugal. Mas os dicionários dialogam entre si e os de português em geral têm muitos erros. Fizemos um esforço para corrigi-los no ‘Houaiss’ - afirma Mauro de Villar, que esteve semana passada em Lisboa, onde foi tratar da versão que será lançada em Portugal no início do próximo ano.

Além de caçar palavras em todo o mundo, a equipe do Instituto Antônio Houaiss busca apresentar suas raízes etimológicas, seguindo o manual estabelecido pelo filólogo, um dos mais profundos conhecedores da língua portuguesa. Sobre a palavra alvoroço, por exemplo, pode-se conferir a origem: ‘ al-burûz 'sair em grande pompa, com gritos de alegria, para receber alguém’ - exatamente como o ‘Houaiss’ está saindo da gráfica italiana onde foi impresso para buscar a aclamação geral.

Quer dizer, quase geral.

- O ‘Houaiss’ tem uma proposta elitista, extensa e cara, para inglês ver - diz Carlos Augusto Lacerda, um dos donos da Nova Fronteira.

Ele recusa comparações entre os dois dicionários.

- Há uma tendência de se transformar tudo em Fla-Flu. Não vamos entrar no clima promovido pelos herdeiros do Houaiss. Os dois dicionários têm propostas diferentes e podem conviver bem. Em vez de dividir, acredito que o ‘Houaiss’ ampliará o mercado.

Mas o editor não deixa de alfinetar o concorrente sobre a origem dos recursos que viabilizaram o ‘Houaiss’:

- Se o Weffort (ministro da Cultura, Francisco Weffor t) quiser me ajudar como ajudou a Objetiva, eu parto para fazer um dicionário maior do que o deles amanhã - ironiza ele, referindo-se ao dinheiro que empresas estatais aplicaram no ‘Houaiss’, via Lei Rouanet. - Usaram dinheiro do contribuinte para um projeto com fins lucrativos.

Francisco Manoel de Mello Franco, diretor do Instituto Antônio Houaiss ao lado de Mauro de Villar, diz que o ‘Houaiss’ não foi realizado para concorrer com o ‘Aurélio’ ou qualquer outro dicionário.

- O ‘Houaiss’ é um formidável dicionário para o aprofundamento do estudo da língua. Não se compara, nem concorre com os outros. É muito maior, mais vasto e extenso. Se eu quiser concorrer, faço um dicionário menor, desidratado - diz o diretor, que garante que, a partir de seu rico banco de dados, poderia realizar em 15 dias um dicionário com o perfil do ‘Aurélio’.

A Lei Rouanet, afirma Francisco Manoel, foi utilizada apenas na obtenção de recursos para a pesquisa. O governo liberou a captação de cerca de R$ 6 milhões a R$ 7 milhões, mas o instituto não chegou a conseguir todo esse montante. Em Portugal, que tem uma lei nos moldes da Rouanet, o governo também deu aval para o Instituto Antônio Houaiss buscar recursos com empresas.

Já a Objetiva investiu mais R$ 5 milhões, dos quais R$ 1,25 milhão obtidos via BNDES num sistema de crédito disponível para o mercado editoral. Segundo Feith, o restante foi totalmente financiado por instituições privadas. A editora pagou a impressão do dicionário, sua revisão - ‘uma massa impressionante de trabalho’, diz ele - a publicidade, a adaptação do banco de dados para o CD-Rom, que deve ser lançado em outubro, e para o ‘Houaissinho’, o minidicionário de 30 mil a 35 mil verbetes programado para chegar às livrarias em novembro.

- Desde que me interessei pelo projeto, há cerca de cinco anos, tinha a convicção de que havia espaço para um dicionário mais abrangente. Conversei com muitos especialistas e isso ficou muito claro para mim - diz Feith, para quem o adversário não deve ser menosprezado. - A concorrência é realmente muito forte.

No fim da semana passada, a editora contava 15 mil ‘Houaiss’ encomendados da tiragem inicial de 60 mil, toda ela impressa na Itália.

- Já estamos começando a buscar recursos para uma primeira reimpressão. Agora, nosso objetivo é estabelecer a marca de uma família de produtos de excelência. Enfrentamos uma maratona, não uma corrida de cem metros.

A Objetiva resolveu sugerir um preço de venda do dicionário, copiando a política adotada pela Nova Fronteira em relação ao ‘Aurélio’. O preço sugerido é, em média, de R$ 125, mas no fim da semana era possível encomendar o dicionário por R$ 109 nas livrarias virtuais, que anunciavam desconto de cerca de R$ 30. Feith diz que há conversas com alguns portais para que o dicionário também possa ser consultado via internet.

- Um livro comum vende muito logo que é lançado, mas com o dicionário é o contrário. Ele tem maior longevidade. É um trabalho para décadas e por isso podemos trabalhar com uma margem de lucro menor que a dos livros.

A Nova Fronteira está com uma campanha até dezembro que faz com que o ‘Aurélio’ saia a R$ 70, desde que o cliente dê em troca um dicionário usado - qualquer um, em qualquer língua - que será doado para o projeto Comunidade Solidária ou escolas carentes.

A família de produtos com a marca Houaiss promete ser grande. Depois do CD-Rom e do minidicionário, está programado o lançamento no primeiro semestre do próximo ano de um dicionário de sinônimos. Mauro de Villar diz que também está sendo estudado um dicionário de abonações, ou seja, de citações de autores que exemplifiquem o uso de palavras - o ‘Houaiss’, que data a origem de todas as palavras, diferentemente do ‘Aurélio’, não faz abonações. Um dicionário inglês-português - que chegou a ser realizado por Houaiss - também está nos planos da Objetiva. E Francisco Manoel reconhece que seria uma boa idéia um dicionário - ou mesmo uma enciclopédia - gastronômico. O ex-ministro da Cultura Antônio Houaiss, tradutor do rebuscado ‘Ulisses’, de James Joyce, era também um gourmet.

Se a máquina Houaiss promete nunca mais parar, a trégua também não está nos planos dos realizadores do ‘Aurélio’. Uma guerra de palavras sem fim."

 

MV

"'É uma campanha deselegante'", copyright O Globo, 2/09/01

"A lexicógrafa Marina Baird Ferreira, de 79 anos, viúva de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, se queixa do clima de rivalidade que se criou com o lançamento do ‘Dicionário Houaiss da língua portuguesa’.

- É uma guerra forjada. Se o Houaiss estivesse vivo, não haveria este clima. E Aurélio certamente aplaudiria o lançamento do dicionário ‘Houaiss’.

Coordenadora do dicionário ‘Aurélio’, ao lado da lexicógrafa Margarida dos Anjos, com quem trabalha desde 1966, Marina vem mantendo uma rotina estafante para terminar o minidicionário ‘Aurélio’ escolar, que chega às livrarias em dezembro. Marina, que ficou casada com Aurélio de 1945 até a morte do dicionarista, em 1989, promete novidades para a nova edição do dicionário.

A senhora já viu o dicionário ‘Houaiss’?

MARINA BAIRD FERREIRA: Não. Fiquei curiosa, mas o dicionário ainda não foi lançado e eles não me enviaram um exemplar. O Houaiss foi um dos primeiros a receber o ‘Aurélio’, mas nós não recebemos o dicionário ‘Houaiss’.

O que a senhora tem achado desta guerra dos dicionários?

MARINA: É antiético o que está sendo feito. Não estou entendendo esta campanha tão deselegante. Virou uma guerra de sabão, uma disputa comercial. Não haveria este clima se o Houaiss estivesse vivo.

Por quê?

MARINA: Houaiss e Aurélio eram amigos queridos, ajudavam-se quando tinham dúvidas, havia uma cumplicidade, um respeito e uma admiração mútuas. O Houaiss chegou a dizer que Aurélio era a figura mais importante da lexicografia da língua portuguesa nos últimos 150 anos. Se o Aurélio estivesse vivo, ficaria felicíssimo com este lançamento.

A senhora concorda quando dizem que o ‘Aurélio’ é um dicionário conservador, por não incluir muitas gírias e palavras estrangeiras?

MARINA: Não diria conservador. Aurélio era muito cuidadoso, só incluía a palavra depois de vê-la consolidada. A editora do dicionário inglês ‘Roget's thesaurus’ dizia que colocava a gíria numa prateleira por sete a dez anos e só então decidia se a registrava. A gente também põe a palavra em quarentena, senão sobrecarrega o dicionário com verbetes inúteis. Não podemos usar coisas supérfluas.

O dicionário ‘Houaiss’ inclui verbetes como beaux-arts e beautiful people e o ‘Aurélio’ não. Por quê?

MARINA: Nunca incluiria, já que você tem correspondentes em português, como belas-artes e elite, ou ‘nata da sociedade’. Mais importante que os estrangeirismos e as gírias é a atualização científica. O novo ‘Aurélio’ terá, por exemplo, muitas palavras novas sobre engenharia genética.

E palavras da informática?

MARINA: Aurélio não gostava de palavras híbridas, metade numa língua e metade em outra. É o caso, por exemplo, de printar, atachar. Ele não tinha medo de usar palavras estrangeiras, mas só quando eram necessárias. Evitamos incluir a palavra até que ela se imponha de tal forma que não dê para refutar seu uso. Atachar provavelmente será incluída, mas printar não. É muito melhor usar imprimir.

É possível comparar os dois dicionários?

MARINA: Não, são propostas completamente diferentes, dois perfis distintos. O ‘Houaiss’ tem mais verbetes, mas o número de palavras é apenas um dos critérios para se julgar um dicionário, e pode não ser o melhor. O ‘Aurélio’ é um dicionário médio, que tem como características a clareza, a simplicidade, a concisão, a transparência. Nada é rebuscado. Mas a aparente simplicidade é fruto de estudos demorados, já que o Aurélio era muito erudito. Ele lia dia e noite, queria sempre aperfeiçoar os verbetes. O Carlos Lacerda (criador da Nova Fronteira) tinha que dizer: ‘Vou aí arrancar, Aurélio.’

Quando será lançada a nova edição do ‘Aurélio’?

MARINA: A quarta edição vem sendo preparada desde que lançamos a terceira, em 1999. Mas ela só deve sair daqui a um, dois anos. Estamos terminando o minidicionário escolar ‘Aurélio’, que deverá ser lançado em dezembro. Ele tem várias novidades. Há palavras como apagão e pesque-e-pague, expressões como doença da vaca louca. Ele inclui também as formas de tratamento. E as tabelas de conjugação de verbos pularam de 60 para 94.

Há planos de se fazer um dicionário mais abrangente?

MARINA: Originalmente, o Aurélio estava preparando um dicionário em cinco volumes para a Editora Delta, mas o projeto parou por falta de verba. Ele ficou um pouco frustrado, tinha trabalhado quatro anos nisto, de 1966 a 1969, e já tinha 50% do material pronto. Mas, no mesmo mês, ele já começou a fazer o ‘Aurélio’. Essas fichas estão todas guardadas. Gostaria de lançar este dicionário, mas é um investimento caríssimo, que requer muita atualização.

Algum dia a palavra Aurélio vai virar verbete, como sinônimo de dicionário?

MARINA: Não, Aurélio era muito modesto, não ia concordar com isso."

 

MV

"A sopa de letrinhas do alfabeto", copyright O Globo, 2/09/01

"Aletra A assusta. A abnegada equipe que fez o ambicioso dicionário ‘Houaiss’ abriu mão de começar as atividades pela primeira letra do alfabeto e achou melhor concentrar as atenções iniciais no B e no D, antes de atacar o A. Afinal, o A é a letra mais abrangente do abecedário.

Quer um exemplo? Nas três frases que abrem este texto, há nada menos que 21 palavras começadas por A.

Há outros motivos que tornam a letra A mais complexa. Ela inicia muitos prefixos. Como ‘a(n)’, de origem grega, que significa negação - caso de ‘analfabeto’. Um outro complicador: muitos termos árabes incorporaram o artigo quando passaram para o português.

- Em ‘al-muhada’, por exemplo, o ‘al’ é um artigo que é aglutinado quando surge a palavra ‘almofada’ - explica a redatora e lexicógrafa Liana Koiller, que trabalhou na segunda fase do dicionário ‘Houaiss’.

- A letra A é sobrecarregada, então eles preferiram começar por uma letra que apresenta menos problemas, como a B. Mas a ordem não altera o resultado final - analisa o professor Leodegário de Azevedo Filho, presidente da Academia Brasileira de Filologia.

Outra razão explica a esnobada inicial na letra A. É melhor começar por uma letra mais simples, adquirir a técnica e aí então, já treinado, partir para desafios mais complexos.

A letra A tem 26.717 verbetes e se espalha por 364 páginas do dicionário ‘Houaiss’. A seguir, as letras mais inchadas são C, P, E, D e M. Já a letra X é a menos extensa, desconsiderando K, W e Y. Ela só tem 628 verbetes e ocupa apenas sete páginas do ‘Houaiss.’

Uma letra que também dá trabalho é a M porque registra muitos vocábulos originados do tupi e muitos africanismos, como mulôji (feiticeiro).

- A letra E é trabalhosa porque muitas palavras de origem grega e latina, quando passam para o português, ganham o E no início. É o caso de ‘especial’ - diz a lexicógrafa Renata de Cássia, da equipe do ‘Aurélio’.

Sutilezas da língua portuguesa."



                                Mande-nos seu comentário




Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe