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ARMAZÉM LITERÁRIO
Autores, idéias e tudo o que cabe num livro
RONEY CYTRYNOWICZ
Guerra sem guerra
Guerra sem guerra – A mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial . Edusp/Geração Editorial, São Paulo, 2000, 420 págs, com caderno de fotografias, R$ 36,00.
O que aconteceu na cidade de São Paulo de 1939 a 1945, enquanto durou a Segunda Guerra Mundial? O que pensavam e como viviam os paulistanos enquanto a maior catástrofe do século devastava a Europa e mudava a própria percepção da humanidade diante de seu destino e de sua civilização?
Originalmente uma tese de doutorado defendida por Roney Cytrynowicz no Departamento de História da Universidade de São Paulo, Guerra sem Guerra – A mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial narra com sabor de época o cotidiano em São Paulo nos anos 40, além de apresentar um painel da política, da sociedade, da cultura e da economia do período do Estado Novo e dos anos da guerra.
Roney Cytrynowicz, 36 anos, é historiador. Graduou-se em Economia na USP e na mesma universidade concluiu mestrado e o doutorado em História. Publicou Memória da Barbárie - A história do genocídio dos judeus na Segunda Guerra Mundial (Edusp/Nova Stella, 1990) e o volume de contos A vida secreta dos relógios e outras histórias (Scritta, 1994), que ganhou o Prêmio Nascente de prosa em 1993 (USP/Editora Abril).
O "pão de guerra" e o fator dieta (*)
Roney Cytrynowicz
(*) Capítulo de Guerra sem Guerra – A mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. Foram omitidas as notas de rodapé.
[...] Vomitar esse tédio sobre a cidade. / Quarenta anos e nenhum problema / resolvido, sequer colocado. / Nenhuma carta escrita nem recebida. / Todos os homens voltam para casa. / Estão menos livres mas levam jornais / e soletram o mundo, sabendo que o perdem. // Crimes da terra, como perdoá-los? / Tomei parte em muitos, outros escondi. / Alguns achei belos, foram publicados. / Crimes suaves, que ajudam a viver. / Ração diária do erro, distribuída em casa. / Os ferozes padeiros do mal. / Os ferozes leiteiros do mal [...] (Carlos Drummond de Andrade, "A Flor e a Náusea", em A Rosa do Povo, 1943-1945)
"Brasil em guerra, alarme da escassez [...] Economia de guerra sem guerra, um fenômeno estranho: de repente, havia muita gente. Pão de farinha de trigo, só em certas padarias, certos dias, certas horas. O trem das 6:30 h chegava atopetado, despejando metade da pança em Osasco, multidão desesperada dos demais subúrbios da zona oeste: russonas de Carapicuíba, onde seu pai tinha uma cerâmica, saíam pelas janelas, como carnes vestidas, de um moedor, rumo a um melhor lugar na fila do pão" (Décio Pignatari, Panteros).
"O pão é símbolo de nossa alimentação" (frase inscrita em embalagem de pão Jabal Sanin, 1997).
Cinqüenta anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1995, um livro de receitas culinárias editado em São Paulo publicou uma receita de nome "pão de guerra", preparada na cidade durante os anos de guerra. A receita informa que, na falta de farinha de trigo, o pão era feito dissolvendo-se o macarrão e reaproveitando-se a farinha de trigo. Nina Horta, a autora, escreve que a receita foi resgatada por Alicita Ferraz, professora de cozinha, mas que a mesma receita está no caderno de sua avó com o nome de "pão de macarrão" e inclui os seguintes ingredientes: 500 g de macarrão; 2 ovos batidos; 20g de fermento fresco dissolvido em leite morno; 1 colher de açúcar; 1 colher (chá) de sal; 2 colheres de manteiga ou banha; farinha para polvilhar e clara de ovo para pincelar.
O "pão de guerra" ou "pão de macarrão" afirmou-se como receita e foi inscrito em um livro que é um dos cânones de culinária chique na década de 90. Nina Horta, mantém uma coluna sobre culinária no jornal Folha de S.Paulo e é uma das mais conhecidas proprietárias de buffet da cidade nos anos 90.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo federal tomou várias iniciativas de mobilização que incidiam sobre questões alimentares da população. Além do pão de guerra, foi lançada uma "sopa de guerra", estimulado o plantio da "horta da vitória"; o leite foi tornado arma na constituição do front interno e as vitaminas foram transformadas em garantia do território e da soberania nacional.
Ao contrário do que poderia sugerir o discurso da escassez em tempos de guerra, no entanto, este capítulo tentará mostrar que – diante de uma escassez sempre relativa, nunca um limite objetivo incontornável e que, fundamental, jamais significou fome em decorrência da guerra na Europa – foi a escassez (relativa) – instrumentalizada e mobilizada como política – que trouxe a guerra para o cotidiano de São Paulo, criando um poderoso efeito de mobilização e de constituição do front interno. As repercussões desta escassez continuam a dominar o registro da memória daqueles anos em São Paulo, passados 55 anos do fim da Segunda Guerra. Os episódios e os causos em torno da falta de pão e das filas para comprar o pão, além do uso do gasogênio nos automóveis, são os mais comumente contados em meio à memória familiar de guerra na cidade.
"O trigo tem sido a bússola orientadora da decadência e hegemonia dos povos. Ou, melhor dizendo, o índice sem igual da liberdade econômica dos povos e sua fartura e progresso, ou de seu estoicismo, laboriosidade, inteligência e patriotismo", escreveu Leone Atílio Muraro, técnico rural no Rio Grande do Sul em artigo publicado em julho de 1944 na revista Cultura Política, núcleo ideológico de intelectuais pró-Getúlio Vargas. O pão, por sua vez, escreveu ainda o técnico rural do Rio Grande do Sul,
constitui, juntamente com a carne e o leite, a alimentação fundamental da humanidade. Por isso todas as nações do globo fizeram sua luta pelo pão de cada dia [...]. E pretenderam conquistá-lo, como pretenderam conquistar o ferro, o carvão de pedra, o petróleo e, alguns, a borracha, sem medir óbices quanto ao preço de custo ou ao trabalho e sacrifício que mobilizassem. É que todos bem cedo se convenceram de que país sem trigo é país pusilânime, escravo, faminto, e que pão quer dizer alegria, espiritualidade, humanidade, independência e vitalidade. O pão é o alimento de todos os povos, através do tempo e do espaço.
A afirmação peremptória sobre o trigo definindo a decadência ou hegemonia dos povos, sua liberdade ou escravização – comparado ao ferro, ao carvão, ao petróleo e até mesmo à borracha – e isto em pleno julho de 1944, quando estava em curso o mais duro ano da guerra na Europa, mostra a gravidade com que a questão da agricultura do trigo era tratada, ao menos no discurso da emergência de guerra.
Diante do aumento de importações de trigo registrado nos anos 30, o governo havia lançado uma campanha para incrementar a produção do cereal a partir de 1940, quando a produção nacional, a exemplo de 1939, caíra em relação a 1938 de 137.268 toneladas para 101.107 (1939) e 101 739 (1940). Entre 1941 e 1943, a produção manteve-se entre 216 e 232 mil toneladas e sofreu uma maior queda, para 170.586, em 1944. Subiu novamente para 233.298 em 1945, depois 212.514 em 1946, subindo depois, em 1947, para 359.363. O ano de 1944, portanto, foi o de menor produção entre 1939 e 1946 e menos da metade do que seria em 1947, evidência de que havia de fato relativa escassez de trigo no mercado interno (os dados acima não foram ponderados com as importações do produto naqueles anos).
Falta dramaticidade, no entanto, ao relato da escassez de trigo e da falta de pão. A escassez do pão não significou fome em São Paulo e predomina um registro de memória leve e divertido na lembrança das filas, mais atento aos causos do cotidiano e mecanismos para burlar as restrições à venda, como os padeiros "amigos" que entregam pão por fora. "Na última guerra, dizem que teve racionamento de pão: nunca fiquei em filas para conseguir mantimento. Os donos da padaria eram muito amigos; nunca faltou pão em casa", conta D. Alice em Memória e Sociedade, de Ecléa Bosi. "Dizem que", conta D. Alice, como se se tratasse de um assunto distante do qual ela, apenas vagamente, ouvira falar. As filas, no entanto, são muito lembradas em relatos de guerra, mas quase sempre como uma curiosidade da memória daqueles tempos.
Durante a Segunda Guerra Mundial, na Polônia ou na União Soviética, pão foi muitas vezes o único alimento disponível, sinônimo de sobrevivência física, e sua falta resultou em fome e, certamente, morte por inanição. Não se trata, neste caso, de escassez relativa nem tampouco de uma memória leve e divertida. Foram mais de 24 milhões os mortos soviéticos entre 1941 e 1945 e certamente a existência ou não de pão marcou uma linha divisória na possibilidade de sobrevivência de milhões de pessoas. A visita a uma padaria soviética em Moscou, nos anos 80 (em que a União Soviética ainda existia), poderia demonstrar, empiricamente, o valor físico e simbólico deste alimento, em um país com a lembrança trágica da guerra e reais problemas de produção e de distribuição de alimentos. O pão era talvez o produto mais bem disposto nas lojas que vendiam produtos alimentares, com enorme variedade de tipos. O colorido, fartura e exuberância dos pães soviéticos contrastava com qualquer outro produto, herança talvez da importância central do alimento na sobrevivência da população entre 1939 e 1945.
A mobilização do pão em São Paulo deu-se com o lançamento, por parte do governo federal, de um "pão de guerra", integral, e de preço mais barato que o pão feito de farinha de trigo. O pão de guerra seria vendido a 1,60 em vez de 2,50 o quilo, "pois o pão constitui, sem dúvida alguma, o principal gênero de alimentação das nossas populações das cidades", escreveu a revista O Observador. Pão e banana, dizia-se, eram a alimentação do trabalhador. O pão de guerra foi definido em 4 de setembro de 1942 durante a primeira reunião da Coordenação da Mobilização Econômica, órgão criado pelo governo federal para gerir a economia "de guerra". Em 13 de outubro de 1943, a Comissão de Abastecimento do Estado tabelou o preço do pão. A fórmula do pão de guerra era baseada em um aumento da extração da moagem do trigo de 70% para 80% a 85%, implicando o aproveitamento de parte dos envoltórios da semente e do germe, o que provoca uma alteração na cor da farinha e um escurecimento do pão (o que na década de 1990 se tornou o preferido, em alguns setores das classes médias e altas, "pão integral").
No discurso do governo, a instituição do pão de guerra não era medida apenas destinada a sanar uma escassez ligada à guerra. Integrava-se em uma política de melhorar a alimentação da população, considerando-se que uma população bem nutrida era essencial ao esforço de guerra do front interno, segundo as teorias da guerra moderna e a ideologia do Estado Novo. O consumo brasileiro de pão era considerado baixo. Havia nutricionistas que consideravam o pão integral como o "pão do futuro" e como muito mais nutritivo e saudável que os tipos correntes feitos de farinha branca, cuja extração variava de 60% a 74%, eliminando-se o germe e os envoltórios, servindo-se apenas o endosperma (corpo farinhoso), por conveniências econômicas no uso de moagem industrial.
Apesar de mobilizado no cotidiano e no discurso que o tornava alicerce de uma nação, pode-se dizer que a população impôs uma certa recusa à aceitação do pão de guerra. Na falta de uma escassez alimentar absoluta – como na guerra na Europa, que tornasse uma campanha como a do pão de guerra condição física de sobrevivência – o pão e a mobilização via pão foram rejeitados. Mas não se credite apenas à inexistência da escassez absoluta a recusa popular. A recusa, pode-se dizer, foi à mobilização em si, à tentativa do governo de tornar o pão – um arraigado hábito do cotidiano – um fator político da consolidação do front interno. As filas pareciam "naturais" diante da escassez (relativa). Já o pão de guerra representava uma intervenção do governo, inaceitável aos olhos da população.
"O pão endureceu e adquiriu um gosto de milho misturado com areia", escreveu Jorge Americano, reitor da Universidade de São Paulo em 1944, engajado no esforço de guerra com a criação dos Fundos Universitários de Pesquisa (FUP) e cronista atento aos gostos e hábitos do paulistano. "A população brasileira tem já criado o hábito do pão branco. A instituição do pão de guerra, naturalmente, não será recebida com entusiasmo pelo consumidor acostumado ao pão branco, muito embora este seja mais caro", escreveu o Correio Paulistano em julho de 1944. A população reclamava que o pão tinha gosto de milho.
O governo, por sua vez, insistia que "o nosso povo recebeu bem o pão mais escuro e mais saboroso, apreciando devidamente as suas qualidades", segundo Castro Barreto, consultor do Serviço Técnico de Alimentação Nacional, criado pela Coordenação da Mobilização Econômica, sendo que "o número de reclamações é insignificante: são pessoas exigentes, gente refinada, mas uma campanha de propaganda esclarecerá as vantagens nutritivas das farinhas de extração elevada e sua expressão na saúde e no vigor da população". "Esperávamos que o aumento da extração das farinhas de trigo provocasse entre nós alguns protestos do público, como aconteceu na Inglaterra, devido principalmente ao ligeiro escurecimento do pão. O povo está habituado ao pão de farinha alva", admitiu Castro Barreto. Na Inglaterra, houve também quem contestasse o valor nutritivo, que cairia com o aumento da extração, baseado na idéia de digestibilidade maior das farinhas de baixa extração. É revelador, no entanto, que, apesar da insignificância no número de reclamações, que partia de "gente refinada", fosse interessante ou necessário fazer-se uma campanha de propaganda. E a campanha insistiria nas vantagens nutritivas e na saúde, uma vez que a cor e o sabor haviam sido rejeitados.
Além disso, conforme a receita de Nina Horta, como faltasse farinha de trigo, acontecia de pessoas comprarem pacotes de macarrão e o desmancharem na panela, para utilizar a farinha na confecção do pão. Muitas vezes, o macarrão era importado da Argentina. O mais importante é que foi esse pão, o da receita de Nina Horta, que superava a escassez, que ficou conhecido no repertório culinário como o "pão de guerra" e não o "pão de guerra" oficial (com este nome) lançado pelo governo.
Pão de guerra, portanto, foi o feito – caseiramente – à base de farinha de trigo e não o mobilizado para a guerra, escuro e com gosto de milho. Além disso, faltava pão mas havia macarrão, evidência suplementar da inexistência de uma escassez absoluta e de fome comparável à guerra na Europa. Segundo o relato de um imigrante japonês, muitas donas de casa faziam polenta de farinha de milho para substituir o pão: a água era fervida, adoçada com açúcar mascavo, adicionada à farinha de milho e, depois, o conteúdo era misturado por uns quarenta minutos. A polenta ficava então esfriando até a manhã seguinte para ser cortada.
Outras resistências foram operadas como recusa em substituir o açúcar branco pelo açúcar preto, mascavo ou amarelinho ou ainda pela rapadura. Com a criação do Instituto do Açúcar e do Álcool, houve um processo de mudança e de padronização daqueles tipos de açúcar e da rapadura pelo açúcar branco. Quando, durante a guerra, faltou açúcar branco, cristal, refinado, muitos se recusaram ao consumo dos outros tipos. Da mesma forma que o açúcar mascavo ou "sujo" (que também voltaria a ser consumido como produto chique na década de 1990), o pão "escuro" estava associado a pão de pobre.
Como se vê, o pão mais escuro e mais saboroso não foi bem aceito por uma população que já havia internalizado o pão branco como um ideal matutino. Branco, alvo, refinado, eis o ideal de pão, como o açúcar, que tinha de ser branco, não mascavo, mais refinado, mais trabalhado, mais distanciado do estado da natureza. Pão "preto" e "de pobre" e pão "branco" podem sugerir ainda outros caminhos interpretativos, conforme a pirâmide racial brasileira do antropólogo Roberto Da Matta, para quem o ideal "racial" da sociedade brasileira, segundo suas classes médias e elites, é o branqueamento da população.
No entanto, mesmo mobilizado em campanha oficial, durante a guerra em São Paulo, o "pão de guerra" era difícil de ser encontrado e quando existia era "quase sempre sabotado", conforme denunciou o Correio Paulistano. No que consistia essa "sabotagem"? Não assar direito a massa, deixar de pôr fermento e outros ardis que "tornam o pão integral mais ou menos semelhante aos paralelepípedos de rua de tão duros". Os sabotadores eram os "padeiros tubarões", acusados de sonegar a proporção de trigo necessária e fabricar clandestinamente pão duro para os ricos. A música Haja Pão, de Russo do Pandeiro e Felisberto Martins, de 1944, mostra a ação dos especuladores, fraudadores, e ainda ironiza as filas para comprar pão:
Haja pão, que é negócio da China
da China!...
Eu vou comprar uma padaria,
Porque no pão
Ninguém faz economia.
Vai haver, vai haver "bolacha"
Na padaria
Na padaria...
Quem comprar pão,
De quebra leva rosca
Quem comprar rosca,
De quebra leva pão
Eu quero ver,
Formar na fila
Uma grande confusão.
Haja rosca
Haja pão!...
Conforme a música de Russo do Pandeiro e Felisberto Martins, gravada pela dupla Joel e Gaúcho, o pão era um autêntico negócio da China. Mais do que possuir pão, lucrativo era ser proprietário de uma padaria, que vende "bolacha" (provavelmente pão duro ou velho) e rosca como se fosse pão e que tem filas para comprar o produto. Adicionalmente, os compositores queriam é ver confusão na fila, confusão entre pão e rosca, recusa ao alinhamento e à mobilização.
Conforme o poeta-cronista de pseudônimo "Pilatos", que assinava uma coluna ironizando as dificuldades do cotidiano das classes médias no Correio Paulistano, era prática corrente alterar-se a composição dos produtos:
Preço a mais, peso de menos...
Mas é questão de somenos,
Sem nenhum dolo ou malícia,
Palavra, sou justiceiro...
Eu tiraria o padeiro
Dos apertos da polícia.
Houve roubo da balança?
De modo algum, que esperança!
Que esta já ninguém mais faz.
Houve, sim, compensação:
– Se pesou menos o pão,
O preço subiu demais!
Trazendo como manchete de contracapa, "Lucros Extraordinários Realizados pelos Padeiros em São Paulo", escreveu o Correio Paulistano em 1944 que
nos bons tempos de outrora (cinco anos atrás), em que havia carne e açúcar em quantidade, tempos em que a cidade cheirava a gasolina e não a gasogênio, a ética de Mercúrio, Deus do comércio, preconizava que apenas os lucros de dez ou vinte centavos eram razoáveis. Os costumes desses já recuados tempos exigia esses dez ou vinte centavos da praxe, de maneira que o negociante poderia ir realizando sua vidinha e permitindo que também os outros comessem, morassem e vivessem. Hoje as coisas são muito diferentes. Temos o "boom". Todos querem ganhar o máximo, enriquecer-se de um momento para o outro.
Diante das resistências cotidianas e das sabotagens dos especuladores, o discurso do governo para criar uma população saudável como arma do front interno e ideal do Estado Novo parecia correr em outro plano de acontecimentos, sem implicação na vida cotidiana de filas, pequenas sabotagens e resistências ao pão oficial. Em março de 1944, na Hora do Brasil – programa radiofônico criado pelo governo Getúlio Vargas –, o ministro Marcondes Filho alertou para a necessidade de vigilância permanente contra as manobras da quinta-coluna e disse que "é indispensável que tenhamos a mentalidade de guerra porque então veremos que o minério que extraímos, o algodão que tecemos e a carne que enlatamos podem destruir uma fortaleza inimiga, resguardando as tropas das intempéries, e alimentar nossos soldados". Disse o ministro que é preciso uma "mentalidade de guerra" para destruir as fortalezas inimigas.
"Nada mais útil a um país do que a aplicação, diante da guerra, das vitaminas como fator básico de defesa nacional", escreveu a revista A Defesa Nacional em junho de 1944, citando o Serviço Técnico de Alimentação Nacional.
Guardar uma nação é antes de tudo preparar os seus homens. E a robustez dos jovens depende sobretudo do equilíbrio vitamínico do seu organismo [...] Vitaminizar amplamente a Nação é o primeiro passo para a garantia do seu território e do respeito à sua soberania. A Defesa Nacional efetiva é um tema científico e alimentar. As Vitaminas emprestarão aos nossos soldados do ar, de terra e do mar, a potencialidade que os fará maiores na luta pela democracia e pela liberdade dos direitos do Homem.
Assim, associavam-se idéias sobre a necessidade de robustecer o povo e a constituição de um "fator dieta" na organização civil para a guerra, conforme o anúncio do início do racionamento de carne na cidade do Rio de Janeiro, a partir de 5 de outubro de 1944, feito pelo médico José Queiroz Guimarães, do Serviço de Higiene Escolar:
os modernos conhecimentos da ciência da nutrição mostraram a grande influência da "dieta" sobre a resistência física e espiritual do povo. Isso indica a importância desse "fator dieta" na guerra atual, tanto para as tropas como para a população civil. Mostrou ao mesmo tempo a necessidade de a frente interna ser bem alimentada para suportar os bombardeios aéreos e todos os suprimentos da guerra moderna.
O fator dieta tornou-se tema central na mobilização.
No mesmo ano de 1944, a Coordenação de Mobilização Econômica lançou uma Campanha de Vitaminas para o Povo, para prover a população, especialmente os mais "desprotegidos" entre os escolares, de sais minerais e vitaminas em geral. O Serviço Técnico de Alimentação Nacional, órgão da Coordenação, elaborou um produto de vitaminas concentradas que seria distribuído em todos os Estados e o decreto-lei 6.172, de 6 de janeiro de 1944, concedeu isenção de impostos por 180 dias para importação de vitaminas e de sulfamilamidas, derivados e respectivas preparações, além de determinar que o Banco do Brasil e a Coordenação de Mobilização Econômica deveriam facilitar a importação dessas substâncias, consideradas medicamentosas. Um decreto-lei suspendeu ainda as patentes e quaisquer privilégios de preparação e uso.
Para difundir o ânimo patriótico e possivelmente minorar a falta de alimentos, o governo estimulou a população a plantar no quintal de casa as chamadas "hortas da vitória". Ficou célebre o poema "A Horta da Vitória", de Prescilliana Duarte de Almeida, avó de 70 anos, dedicado ao neto. O colunista Lellis Vieira elogiou que "os grupos escolares poderão aproveitar esses versos para propaganda dos canteiros do triunfo e os nossos compositores musicais se tomarem essa letra por inspiração nas suas belas melodias hinárias terão concorrido para maior entusiasmo da batalha contra a barbárie":
Planta a "Horta da Vitória"
Alfaces e rabanetes,
Couve, repolho, chicoreas,
Tomates – da mesa enfeites!
Planta, com tua mãozinha,
Taroba, agrião, serralha,
Pois é muito queridinha,
A criança que trabalha
Já que a mortalidade infantil, a subnutrição e as carências alimentares não recuavam, melhor era mobilizar as próprias crianças para o trabalho. Trabalho da Vitória. Canteiros do Triunfo. Curioso que um poema que supostamente estimula a produção chame os produtos de "enfeites" da mesa. E o retorno seria em amor, afeto, da criança, que se tornaria mais "queridinha". Segundo o médico tisiólogo José Queiroz Guimarães, do Serviço de Higiene Escolar, em outubro de 1944, "o estado de nutrição da maioria dos escolares paulistas é assustador", havendo 80% de desnutridos.
Segundo o médico Getúlio de Lima, do Departamento Nacional da Criança, de cada mil crianças, que nasciam no Estado de São Paulo, 270 morriam antes de completar um ano. Outro médico entrevistado estimou que a mortalidade infantil atingia 30 ou 40%. No final de outubro de 1944, o Correio Paulistano defendeu a introdução de uma sopa escolar por conta do Estado, justificando que o baixo índice de "assimilação mental" dos alunos dos grupos escolares era devido, provavelmente, à subnutrição. Em outubro de 1944, o governo projetou criar um Departamento Estadual da Criança para lutar contra a mortalidade infantil e a desnutrição e estabelecendo como uma das prioridades promover a distribuição de leite. Havia também muitas campanhas sobre alimentação dos trabalhadores e projetos para instalar restaurantes nas fábricas, com a criação do Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS). A alimentação sadia era considerada garantia da defesa nacional.
Já em junho de 1942, nota na revista Nação Armada, que expressava opiniões das Forças Armadas, escreveu sobre uma campanha de leite recém-lançada que "o Exército Nacional, compreendendo o alto valor desta salutar campanha, estabeleceu o maior consumo do leite na tropa. Essa salutar medida implica até num ato de segurança nacional pois, melhor alimentado, maiores rendimentos pode ele apresentar na instrução e mais particularmente, na ação. O Leite é, pois, uma arma". Em 1942, o governo federal criou uma Comissão Executiva para organizar o mercado interno de leite, com ênfase sobre controle e padronização das condições de higiene. O programa foi inicialmente aplicado no Rio de Janeiro, com a distribuição de leite pasteurizado e em garrafas com fecho de alumínio inviolável.
Em agosto de 1944, o chefe do Serviço de Abastecimento do governo federal instituiu um "prato de guerra", com este nome, que deveria ser obrigatoriamente servido em restaurantes, devendo constar do cardápio. Além disso, o restaurante não poderia isolar um determinado local de sua área para servir o prato, devendo servi-lo em qualquer mesa. Está claro, pela prevenção oficial, que os restaurantes tentariam constranger os clientes menos afortunados, isolando-os ou obrigando-os a pedir um prato fora do cardápio.
As iniciativas do governo e a criação do front interno, no entanto, foram muito mais um efeito-demonstração interno destinado a mobilizar a população segundo os ideais do Estado Novo e com o objetivo de impor à escassez relativa uma sensação de escassez objetiva que tornasse a guerra uma experiência coletiva na qual todos sofreriam igualmente privações "de guerra". Ao intervir num hábito tão arraigado do cotidiano como o pão branco, o governo interferiu em um aspecto que a população certamente considerava inviolável. Sem uma escassez absoluta que talvez pudesse justificar uma política mobilizatória intervencionista em um hábito tão fundamental, a população reagiu contra o que considerava um rebaixamento social intolerável: consumir o pão de guerra, pão de pobre, escuro, duro, menos refinado, e ver, assim, recusada sua fantasia de ascensão à civilização branca européia.
Seria exagero interpretativo acreditar que essa estratégia foi intencionalmente premeditada pelo governo, mas seria apressado aceitar o discurso da escassez, da desnutrição e da saúde, quando os dados indicam que estes problemas eram muito mais sérios do que o discurso da mobilização pretendia crer e além da disposição do Estado Novo de resolvê-los. Desnutrição e má alimentação eram questões que agrediam a saúde da população. Mas a direção que a mobilização estado-novista indicava, alarmada pela emergência da guerra, certamente não contribuiria para resolver de fato as carências. Porque outro era o objetivo do discurso e das práticas alimentares, mesmo que secundariamente houvesse efeitos positivos do ponto de vista da saúde: o da mobilização e do controle do povo.
Para encontrar uma resposta sobre a intenção da mobilização é necessário, adicionalmente, fazer uma segunda pergunta, não a da esfera do consumo (da escassez), mas da circulação e da produção: por que faltava pão? Faltava pão porque faltava trigo, e faltava trigo porque o país exportava seu trigo, e o país exportava seu trigo porque isto convinha economicamente aos exportadores e porque o governo não impôs qualquer tipo de limite às exportações, que enriqueceram grupos econômicos particulares. Faltava trigo também porque a produção diminuiu, provavelmente optando os produtores por outros produtos mais imediatamente atraentes. Mas faltava sobretudo uma política de Estado para garantir a produção interna, que alimentasse de verdade o povo. O pão de guerra, da mesma forma que as filas para o transporte público em São Paulo, indica uma solução para a escassez na esfera do consumo, aquela que permite normatizar a vida da população, mais jamais intervém na organização da produção e da circulação.
***
A associação do pão branco com mais refinado, de luxo, de ricos, sugere uma abordagem de longa duração, conforme o historiador Fernand Braudel. Em Poitiers, em 1362, havia quatro variedades de pão: pão mole com sal, pão mole sem sal, pão de rafleur e pão reboulet. O pão mole, com ou sem sal, era o pão branco de qualidade superior, feito de farinha peneirada. Dependendo do preço, eram autorizadas mais ou menos variedades de pão, de três a sete categorias, abrindo-se o leque para o mau pão. No caso do pão, escreveu Braudel, a regra é a desigualdade social. O pão branco continuou sendo uma raridade, um luxo, feito para os ricos, pelo menos até o período entre 1750 e 1850, quando o trigo se sobrepôs aos outros cereais e o pão branco, livre de parte do farelo, se disseminou.
"A trindade trigo, farinha, pão, percorre a história da Europa. É a principal preocupação das cidades, dos Estados, dos mercadores, dos homens para quem viver é ‘morder o seu pão’, Personagem invasor, o pão, nas correspondências do tempo, tem sido sempre a vedete. Mal há uma elevação do preço, tudo começa a agitar-se e a tempestade ameaça", escreveu Fernand Braudel. Em Nápoles, grandes exportações de cereal para a Espanha desencadearam a fome. Logo seria preciso comer pão di castagni e legumi, feito com castanhas e legumes frescos. O mercador açambarcador, Gio. Vicenzo Storaci, respondeu ao povo revoltado que não queria comer este pão: ‘comam pedra’. O povo napolitano avançou sobre ele, matou-o e o arrastou pela cidade, o corpo mutilado, depois esquartejado. O vice-rei, por sua vez, mandou enforcar e esquartejar 37 homens e enviou cem para as galés. "Verificam-se milhares de sublevações semelhantes entre o século XV e o século XVIII. É assim, aliás, que começa a Revolução Francesa", escreveu Braudel.
Mais do que qualquer outro componente da alimentação, dos hábitos do cotidiano, o pão desperta sensibilidades, revoltas e desencadeia revoluções. Não é preciso haver fome – o que poderia levar a uma revolução –; basta uma pequena alteração de sabor para insuflar os ânimos do povo que percebe nisso a tirania e o desprezo das autoridades, que vê ampliar-se o leque das desigualdades sociais.
Um dado extemporâneo a esta pesquisa pode ajudar a entender esta centralidade na memória de guerra em São Paulo das filas e da falta do pão. Pesquisa realizada em 1997 pelo IBGE mostra que o pão francês é o principal alimento da população brasileira, constituindo 7,2% das despesas alimentares das famílias do país. Isto tornava o pão francês o maior mercado alimentar do país em 1997.
Não foi a guerra que provocou a falta relativa de pão em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. Foi a falta de pão e as filas que trouxeram a sensação de guerra, o efeito de guerra, ao cotidiano de São Paulo. Foi o alarme da escassez de um produto símbolo da alimentação, de religiosos hábitos cotidianos ("pai nosso.... o pão nosso de cada dia nos dai hoje", reza a oração), que trouxe à cidade de São Paulo a sensação de guerra. Foi o investimento mobilizatório em torno do pão de guerra que fez criar efeitos de mobilização, e sua contrapartida, de recusa à mobilização, de recusa à intervenção do Estado em uma esfera do cotidiano considerada inviolável.
Menos de um ano depois de terminada a guerra, no Carnaval de 1946, em meio à campanha queremista, Ataulfo Alves cantou:
Nós queremos gozar liberdade
Liberdade de cantar e falar
Nós queremos escola pros filhos
E mais casas pro povo morar
Nós queremos
Leite, carne e pão
Nós queremos
Açúcar sem cartão.
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