ARMAZÉM LITERÁRIO
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ASPAS
SER FONTE
João Ubaldo Ribeiro
"A entrevista", copyright O Globo, 29/10/00
"Juro a vocês que não é falsa modéstia, mas não compreendo por que querem tanto me entrevistar. Nunca tive muita coisa a dizer que não houvesse posto em livros ou jornais e agora estou absolutamente seguro de que já disse tudo. São sempre as mesmas perguntas. A moça (geralmente é uma moça e alimento a suspeita de que, no futuro, não haverá mais jornalistos, só jornalistas) senta aqui, pergunta se pode usar o gravador, eu digo que sim e ela, como todo bom repórter, procura logo desvendar um segredo guardado a sete chaves:
- Você é baiano, não é?
- Não, sou javanês - fico com vontade de responder, mas digo que sim, sou baiano.
- E mora no Rio, não é?
- Não - fico com vontade de responder. - Esta, como você sabe, é minha casa, isto aqui é meu gabinete de trabalho, mas na verdade eu moro em Cochabamba.
Mas respondo que moro no Rio, sim.
- Há quanto tempo?
Respondo que há dez, doze ou vinte anos, conforme o dia.
- E, além de escrever, você exerce alguma outra atividade?
- Exerço. Minha principal atividade, aliás, não é escrever, é dar entrevistas.
- Ha-ha, você é sempre bem-humorado assim?
- Eu não estou de bom humor.
- Ha-ha-ha, imagine se estivesse. Esta é ótima, acho que vou abrir a entrevista com ela. ‘Ele faz piada o tempo todo e garante que está de mau humor.’
- Eu não estou fazendo piada. Eu estou de mau humor.
- Tudo bem, vou fingir que acredito. Quantos anos você tem, se incomoda em dizer?
- Me incomodo porque não tenho mais 39, mas digo. Tenho 59.
- 59? Eu pensava que era bem mais do que isso.
- Eu também penso, mas são 59 mesmo. De vez em quando eu dou uma olhada na carteira de identidade, para me certificar.
- Ha-ha-ha, ho-ho-ho! Genial, essa, você é mesmo um... um pândego.
- Eu não sou um pândego.
- Melhorou minha abertura: ‘Ele faz piada o tempo todo, mas diz que não é um pândego.’ Bem, mas vamos ao que interessa, é uma entrevista curta.
- O Senhor seja louvado.
- Ha-ha, esta foi boa também, mas vamos mesmo logo ao que interessa. Você ainda fuma?
- Não, isto aqui fumegando em minha mão é um pirulito.
- Ha-ha-ha-ha! Ho-ho-ho-ho! Um pirulito! Mas você disse que tinha deixado de fumar, não disse?
- Disse, mas voltei.
- E voltou por quê?
- Por estupidez.
- Ho-ho-ho-ho! Assim eu não vou conseguir terminar a entrevista. Um acadêmico, um imortal das letras, se dizendo estúpido!
- Sem comentários.
- Sem comentários o quê?
- Nada, é que eu sempre quis dizer isso numa entrevista, acho chique.
- Ha-ha-ha-ha-ha, você vai me matar de rir.
- Infelizmente não.
- Ho-ho-ho-ho! Ha-ha-ha-ha! Infelizmente não, não é?
- É, porque de riso você não vai morrer mesmo e não creio que conseguisse estrangulá-la com facilidade, acabava tendo um enfarte.
-Você sofre do coração, não é?
- Mais ou menos. Tenho fibrilação atrial.
- Tem o quê?
- Deixa pra lá. Não, não tenho nada no coração.
- Bem, isso não estava na pauta mesmo. Você parou de beber, não parou?
- Não.
- Mas você disse que parou de beber.
- Parei de beber como bebia antes. Hoje só bebo ocasionalmente.
- Isso é um furo. Todo mundo acha que você parou de beber.
- Não sei por quê. Eu não fico escondido atrás da cortina quando bebo.
- Houve alguma vez em que você ficou atrás da cortina para beber?
- Não, só pendurado na sacada do edifício, é mais garantido.
- Ha-ha-ha-ha! Não brinque, é mesmo?
- É, é.
- Alguma palavra para os alcoólatras do Brasil?
- Nem para os alcoólatras nem para ninguém.
- Mas nada, nada mesmo?
- Talvez ‘evitem uísque paraguaio’.
- Ho-ho-ho-ho! Esta terminou sendo a entrevista mais engraçada que eu já fiz, por causa do seu bom humor.
- Eu não estou de bom humor.
- Ha-ha-ha-ha! Eu... Chega, não agüento mais!
- Que bom, porque eu também não.
- A entrevista ficou ótima. E bem informativa, nossos leitores vão saber tudo o que têm de curiosidade sobre você.
- Tenho certeza. Me procure no próximo mês, que vou ter ainda mais novidades. Sem minhas opiniões, este país está perdido.
- Ha-ha-ha-ha! Ho-ho-ho-ho!"
ÁFRICA EM PORTUGAL
Portuguese News Network
"Já está nos escaparates das livrarias portuguesas o livro sobre os media nos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), a primeira obra a abordar de forma extensiva a temática da liberdade de imprensa em países tornados independentes há um quarto de século, noticiou esta quarta-feira o jornal «Savana», de Maputo.
A iniciativa é do Instituto Panos e conta com a colaboração de quatro autores: Fafali Koudawo, investigador togolês residente na Guiné-Bissau, Vladimir Monteiro, jornalista em Cabo Verde, João Carlos, jornalista de São Tomé e Príncipe e Fernando Lima, jornalista da Mediacoop, que desenvolve os capítulos relativos a Angola e a Moçambique. Com o titulo «Pluralismo de Informação nos PALOP», o livro é editado pela Principia, de Lisboa com o apoio da agência «Lusa». As encomendas podem ser feitas pela Internet, em www.principia.pt/livraria/ensaios, mas a editora portuguesa está a desenvolver parcerias para que em breve o livro esteja também disponível nas livrarias africanas do espaço PALOP.
A investigação dá voz a dezenas de interlocutores, já que os estudos conduzidos nos cinco países procuraram ouvir o maior numero de actores envolvidos na missão de informar em países onde há uma década apenas existia um partido e os media eram aqueles que o Estado apoiava ou tolerava. Fruto de uma iniciativa de cooperação, a obra tem uma visão crítica do unilateralismo e das condicionantes que envolvem muitas acções de cooperação e não deixa de reflectir um sentimento de mágoa em relação à ausência da CPLP no espaço dos falantes da língua portuguesa, ou ao amorfismo das organizações sindicais, vivendo ainda à sombra de alianças antigas.
O estudo aborda ainda as incongruências da situação angolana, onde as liberdades constitucionais são postas em causa por práticas repressivas; a diversidade de media em Moçambique, que nem por isso trouxe mais pluralismo e mantém a dominância da informação estatal; a governamentalização da imprensa em Cabo Verde por um executivo que se apresenta como alternativa à prática do partido único; o estado de choque pós levantamento militar na Guiné-Bissau e a quase inexistência de imprensa em São Tomé, um dos países mais pequenos do mundo.
Detalhe prático do livro é a publicação de anexos com um directório de todos os media identificados nos cinco países, assim como a referência sumaria a todas as peças de legislação referentes ao espaço dos PALOP na área de imprensa. Depois desta iniciativa, o Instituto Panos está já a planear um segundo livro, inteiramente dedicado ao colóquio dos media dos PALOP que teve lugar em Maputo em Outubro de 1999."