ARMAZÉM LITERÁRIO

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro


ABRIL, 50 ANOS
Um país em revista

A revista no Brasil, Suzana Camargo (coord.), Editora Abril, 250 pp., São Paulo, 2000 formato de 27cm x 32cm.

A Editora Abril está lançando o volume A revista no Brasil – nas versões capa dura e brochura – em comemoração aos 50 anos da empresa. O livro pretende ser – e é – um mergulho revelador sobre as revistas brasileiras nos dois últimos séculos.

O volume é dividido em 16 capítulos, traz uma Linha do Tempo e Bibliografia. Seus principais temas são Reportagem, Ilustração, Humor, Fotografia, Cultura, Design, Quadrinhos, Femininas, Eróticas, Publicidade e Ilustração. A revista no Brasil contém cerca de 900 imagens que mostram a evolução do jornalismo brasileiro desde o Correio Braziliense (1808) e As Variedades (1812) até nossos dias.

O planejamento, edição e direção gráfica couberam a Leonel Kaz. A edição de textos a Humberto Werneck, com a colaboração de Carlos Maranhão, Ricardo Setti e Leonel Kaz. A edição de arte foi de Carlos Grasetti. A coordenação coube a Susana Camargo. A pesquisa, que consumiu dois anos de trabalho em arquivos vários, ficou a cargo da Emporium Brasilis (Vladimir Sacchetta e Paulo Cesar de Azevedo) e do Dedoc, da Abril. O diretor editorial foi Thomaz Souto Correa. A tiragem é de 27 mil exemplares, dos quais 10 mil distribuídos a cada um dos funcionários da Abril.

Leonel Kaz falou a Alberto Dines, do Observatório, sobre o primoroso A revista no Brasil.

Entre o nosso primeiro magazine (Revista Ilustrada) e o mais recente (Quem Acontece) existe algum traço em comum?

Leonel Kaz – A música As rosas não falam de Cartola – herói de um Brasil romântico, ao lado de Garrincha e Guignard – abre dizendo que "Bate outra vez / Com esperanças o meu coração..." Pois bem: cada nova revista que sai reacende a esperança de que jornalistas se dediquem melhor a burilar as palavras. E que se dediquem também a fazê-las crescer, aparecer (e, fundamentalmente, serem lidas) por meio de uma edição visual que seja capaz de encantá-las e de encantar o leitor. As revistas ilustradas mostram esse lado barroco do Brasil, inconfundível: o de um país arredondado, sem arestas, que busca o prazer da contemplação visual. Se na Revista Ilustrada do genial Ângelo Agostini (no final do século XIX) encontramos o traço litográfico característico, encontramos também no jornalismo atual uma vísivel descoberta do infográfico e suas inúmeras possibilidades. Nos dois casos, mudou a técnica, mas a capacidade crítica permanece a mesma. O que a sociedade de espetáculo atual exagera – e como! – é na busca do estrelato virtual, na tela ou na página colorida impressa de caras, bocas e esgares a qualquer preço. As revistas de outrora talvez fossem mais recatadas. Algumas de hoje, como por analogia à frase de Andy Warhol, querem ser famosas ainda que por apenas 15 minutos...

Tanto As Variedades (ou Ensaios de Literatura) como o Correio Braziliense (ou Armazém Literário) têm uma inconfundível inclinação literária ou livresca (no bom sentido), ambos voltados para a difusão de novas idéias. As revistas brasileiras de hoje conseguem manter esta vocação?

L.K. – Creio que os jornais têm "roubado" (roubo legítimo!) grandes nomes da ficção e da boa escrita para as suas páginas. É verdade que, à época de As Variedades como do Correio Braziliense, não existiam os segundos cadernos ou cadernos B de jornais. Machado de Assis escrevia em revistas; assim como os escritores atuais escrevem mais em jornais do que em revistas, como João Ubaldo Ribeiro, para citar apenas um nome. As próprias semanais tem os seus "recantos" com articulistas, mas sem o chamamento a outras opiniões difusas ou diversas. Rara vez se percebe uma análise crítica (cultural ou econômica) que não daqueles nomes que já compõem o corpo da publicação. Todas as revistas, femininas ou eróticas, deveriam voltar a abrir mais o seu leque de opções.

Com a ampliação do mercado e a busca de maiores tiragens as revistas acabaram abandonando a elite – ou os formadores de opinião, como a chamariamos hoje – em troca de públicos menos qualificados ou exigentes. Concorda que abriu-se a base da pirâmide e cortou-se no vertice?

L. K. – A base da pirâmide abriu-se, é verdade. Revistas femininas populares tiveram um crescimento de mais de 500% de um ano para cá (em termos de tiragem), assim como femininas em geral cresceram mais de 50%. Mas, na verdade, as próprias femininas passaram a abordar, em maior escala, temas políticos, polêmicos, críticos. Hoje, mais que uma Carmem da Silva, que inovou e revolucionou o jornalismo dos anos 60 com seu "A arte de ser mulher", em Cláudia, temos uma gama de carmens-da-silva de vários matizes para serem apropriados pelas distintas tribos. Tomemos só um exemplo: uma revista como TRIP, pela soma de seu conteúdo de texto e visual, traz uma profunda contribuição à compreensão dos caminhos e descaminhos de nossa época. Por outro lado, sempre acreditei – desde os tempos em que editava Sétimo Céu –, que é muito importante fazer jornalismo popular bem feito. Se você estender a mão a seu leitor e puxá-lo para cima, ele virá junto. O que não se pode é subestimar a inteligência do leitor (ou do eleitor, como se percebeu na maciça campanha dos meios de comunicação que fazia eleitores de tolos). A reflexão das elites hoje deve ser fruto da soma de contribuição de todos os meios de comunicação. De todo modo, concordo que falta reviver uma nova dentição da Revista do Brasil ou outras publicações que melhor promovam reflexões sobre o país. A elite não está abandonada, não. E se ela foi um pouquinho, merece. Raras vezes ela se interessou pelo destino de seus semelhantes.

Revistas ainda tem futuro ou são adaptações do passado?

L. K. – Revistas tem futuríssimo (diria, se vivo fosse, Marinetti...). Só no primeiro semestre de 2000 em relação a igual período de 1999, revistas passaram de 320 milhões para 410 milhões de exemplares, com um crescimento de 29%; o valor investido em anúncios aumentou em 44% no mesmo período; o share de revistas – sua participação no bolo geral da mídia publicitária – aumentou 8%, passando para quase 10% dos investimentos totais. O crescimento neste semestre é ainda mais promissor, mesmo porque, apesar de tudo, o país é promissor. Temos um dos mais baixos índices de leitura de revistas: cerca de 3 exemplares per capita por ano, menos que a Argentina com 4, Portugal com 10, Estados Unidos com 30 e Escandinávia com 60.

Por outro lado, nenhum processo substitui o outro. Antes, o amplia. Há pouco, importante portal da internet se fez conhecido ao mercado pro meio do lançamento de... um livro. Isto mostra as imensas conexões que se abrem para o mercado de revistas. Há cerca de 12 anos, quandos os computadores pessoais começaram a invadir lares e escritórios, influentes economistas sugeriram o fechamento das grandes fábricas de celulose do Canadá. O que se viu, a partir daí, foi o fenômeno oposto: o papel sendo consumido progressivamente em livros, revistas, jornais e nas impressoras que surgiram acopladas a computadores. Os processos vão mudar. Poderemos imprimir em casa as nossas revistas, a partir daquilo que selecionarmos de todas. Da mesma forma que já existe o e-book, existirá o e-magazine. Revistas tem futuro porque elas propiciam um diálogo íntimo e comovedor, a dois, único, com aquele que a lê.

Num recente seminário no Centro Cultural do Banco do Brasil (Rio) você disse que o jornal apura e a revista depura. Que tipo de profissional pode assumir este trabalho de depuração (que na verdade chama-se edição)?

Leonel Kaz – Hoje falamos de jornalistas totais. Aqueles que são capazes de pensar no todo da matéria. Ele sabe que, por mais preciosa que seja a sua apuração, se não for bem escrita, não será lida. Se bem escrita e mal editada, sem complementos visuais ou infográficos, não será lida. Bons editores são gente como nós, com cabeça, tronco, membros e algo mais: apuram bem, depuram bem, lêem muito e, portanto, escrevem bem. Conseguem ser profissionais que se interessam pelo bom título, pelo bom olho da matéria, pela foto adequada, pela diagramação eficiente e bela (o belo não é superficial!), o que faz com que a matéria cresça, apareça, seja comentada.

A imprensa é a memória de uma cultura e de uma nação. Como é que se explica o descaso das empresas jornalísticas com o seu acervo particular e a própria memória nacional?

Leonel Kaz – No trabalho de planejamento e edição do livro A Revista do Brasil, deparei-me com um fascinante acervo de documentos, coletados na Biblioteca Nacional, Casa de Ruy Barbosa, coleção José Mindlin, mas principalmente com o trabalho desenvolvido pelo Dedoc, o Departamento de Documentação da Editora Abril. Há alguns poucos anos – salvo gloriosos momentos vividos pelo departamento de Pesquisa do Jornal do Brasil e outras publicações – os arquivos de imagens e textos eram considerados, literalmente, arquivos-mortos. Um dia, alguém descobriu que se podia ganhar dinheiro a partir daí. Que se poderiam multiplicar os resultados que a documentação abrangente propiciaria. Creio que o mundo virtual fez agregar valor ao documento impresso. Sei que o aquivo do O Cruzeiro está no jornal Estado de Minas, ao que consta em situação precária em boa parte. Mas o próprio arquivo da Bloch Editores, consultado para a edição do livro A Revista do Brasil, comemorativo dos 50 anos da Abril, propiciou achados preciosos. O que importa hoje é tanto a catalogação, o investimento na pesquisa, quanto a sua difusão. Mas, creio, sinceramente, que há uma preocupação maior nesse sentido. Inclusive, porque isto passou a negócio.




ASPAS
Ruy Castro

"O Brasil em 200 anos de belos periódicos", copyright O Estado de S.Paulo, 18/11/00

Nos anos 50, quem folheasse a revista O Cruzeiro na ordem normal, do começo para o fim, passaria primeiro pelos artigos políticos, as matérias ‘sérias’ e a reportagem de capa ou principal. Folheando ao contrário, o seja, do fim para o começo, encontraria a crônica de Rachel de Queiroz (ancorando a última página). ‘As Garotas do Alceu’, moldes des vestidos, receitas de bolo e outros assuntos que se supunham femininos. Não era por acaso. Uma pesquisa feita na época ‘descobrira’ que os homens folheavam as revistas de um jeito e as mulheres de outro. O fato de O Cruzeiro ter isso em mente ao distribuir o material podia explicar parte de seu incrível sucesso. Mas não era a única revista a ter essa preocupação. Desde os anos 40, o sumário de Seleções também exibia uma precisão de relógio em termos de seqüência das matérias - assunto e tratamento variavam de modo a uma matéria levar à outra e induzir o leitor a continuar lendo. Hoje isso pode soar óbvio a qualquer recém-formado em jornalismo, mas era novidade ao ser introduzida por aqui.

Pode-se encontrar muitas outras novidades nas revistas brasileiras do começo do século 19. Por mais ‘primitivas’ que essas revistas pareçam ao leitor de hoje, algumas tinham um padrão, um formato, às vezes até uma cabeça pensante. Não se pareciam com as revistas a que estamos habituados, é claro, mas nós também não perdemos por esperar: será divertido observar que os leitores de 2030 dirão das revistas atuais.

O livro A Revista no Brasil é um panorama revelador de quase 200 anos de revistas brasileiras. Foi preparado por uma equipe de jornalistas e pesquisadores da Editora Abril, com planejamento editorial e direção gráfica de Leonel Kaz e coordenação geral de Susana Camargo. Tomou dois anos de trabalho e envolveu o garimpo de milhares de imagens para a impressionante seleção final, a qual vai da capa da talvez primeira revista brasileira, As Variedades, editada na Bahia em 1812, até a do último produto da Abril. É um apanhado inédito graficamente fulgurante (a cargo do diretor de arte Carlos Grassetti) e de grande utilidade para estudantes e pesquisadores. E não deixará de provocar violentas descargas nostálgicas no leitor comum - no meio daquela riqueza de material, será impossível para qualquer um não reconhecer um punhado de capas ‘do seu tempo’.

Os atuais cinquentões gostarão de rever capas de X-9, Cinelândia, Revista do Rádio, O Mundo Ilustrado, O Globo Juvenil, Gibi Mensal, Mindinho. Os ligeiramente mais jovens terão saudades de si mesmos ao deparar com as imagens de Edição Maravilhosa, Jerônimo, Cinemin, Fairplay e, sem dúvida, da antiga Senhor. As mesmas saudades que os bem mais velhos terão diante das capas de Sombra, Diretrizes, Vamos Lêr! (assim mesmo, com circunflexo e exclamação), O Lobinho e Sport Ilustrado. Nenhum desses títulos existe mais e, em vários casos, nem as editoras que os publicavam. Um dia, será possível esquadrinhar a contribuição dessas revistas ao hábito de ler e à formação do brasileiro.

Naturalmente, já não resta nenhum contemporâneo de A Marmota Fluminense, mas faz parte da cultura saber que ela era impressa na tipografia em que o jovem Machado de Assis trabalhava como revisor e foi nela, em 1855, que ele publicou seus primeiros poemas. Aliás, muito antes de se tornarem órgãos de informação, as revistas brasileiras desempenharam um formidável papel na revelação ou sustento de escritores novos ou consagrados. Foi assim pelos 100 anos seguintes, quando, de José de Alencar a Olavo Bilac e a Guimarães Rosa, legiões de escribas pagaram o aluguel com o que produziam para as revistas - e muitas destas só são lembradas hoje porque os publicaram, como o demonstra A Revista no Brasil. Infelizmente, essa tradição se perdeu e, de 30 anos para cá, ficou mais difícil encontrar ficção numa revista brasileira do que uma girafa num elevador. Será por isto que o mercado editorial brasileiro talvez seja o único no mundo em que os livros de não-ficção vendem mais que os de ficção?

Quem, além dos historiadores, tem memória hoje da enorme importância de revistas como Dom Quixote, Careta, Kosmos, Fon-Fon, Revista Ilustrada, a linda A Ilustração Brasileira ou a espetacular Revista da Semana? Para não falar de O Tico-Tico, que lançou os primeiros quadrinhos nacionais. Sem elas, o Brasil do começo do século 20 teria sido menos crítico, menos alerta e muito menos criativo. Com seu naipe de cronistas, caricaturistas e ilustradores, elas prepararam o modernismo brasileiro e até o anteciparam, a tal ponto que, quando este se instaurou, encontrou um berço natural nas capas de Para Todos..., Jazz, Rio e de outras revistas dos anos 20 a 40, a cargo de artistas com Raul Pederneiras, K. Lixto, J. Carlos, Di Cavalcanti, Roberto Rodrigues, o argentino Guevara, Lula Cardoso Ayres, Carlos Thiré, Thomaz Santa Rosa. Algumas não ficam a dever a nada que se fizesse em Nova York.

Entre muitas revelações surpreendentes, A Revista no Brasil fala da existência, desde 1898, de revistas eróticas no Rio. Eram então chamadas de ‘galantes’, mas a receita era a de sempre: nus integrais, contos picantes e cartuns com incontinência verbal. O humor temperava a ‘pornografia’, a começar pelos títulos gaiatos: O Nabo, O Empata, O Ferrão e Está Bom, Deixa.

As melhores (mais ousadas) tinham títulos discretos: O Rio Nu, A Maçã e Shimmy. O mercado dessas revistas parecia ir muito bem até que a censura do Estado Novo (1937 - 1945) acabou com a festa e passar-se-iam décadas até reabrir-se com Fairplay, em 1966 - mas, quando Ele & Ela, Status e Playboy surgiram, na década seguinte, já pegariam uma nova censura pela proa.

O humor nas revistas brasileiras valeria sozinho vários livros, como se vê pela amostragem de A Revista no Brasil: de Angelo Agostini e J. Carlos a Nássara e Chico Caruso, passando pelos caricaturistas do Cruzeiro (Péricles, Carlos Estevão, Millôr Fernandes), mais o pessoal do Pasquim e da mais recente Chiclete com Banana, o desenho foi muitas vezes aonde o texto não podia ou não conseguia chegar. No decorrer do século, esse papel foi sendo tomado aos poucos pela fotografia, que, já em meados da década de 40, começou a ficar predominante - foram os tempos de Jean Manzon, José Medeiros, Indalécio Wanderley, Armando Rozário, inúmeros outros.

O livro mostra também como certas fórmulas parecem eternas. Por exemplo, sempre deram certo, pelo menos por algum tempo, revistas que descobriam uma tribo indígena, mostravam ‘transgressões’ da juventude ou falavam de padres que queriam casar. Eram temas caros a O Cruzeiro, depois retomadas em Realidade e que ainda hoje ressurgem em revistas semanais. A saga destas últimas também daria um livro isolado, desde A Revista da Semana, passando pelos grandes tempos de O Cruzeiro (com toda a vulgaridade) e Manchete e com a nova fase que se inaugurou a partir de Veja.

Sim, é mais do que possível contar a história do Brasil através de suas revistas. Os editores de A Revista do Brasil acenam para essa possibilidade, embora, pelo caráter pioneiro do livro, esta não tivesse sido sua intenção.

Mas eles oferecem muitos toques preciosos de como as revistas não apenas ajudaram a mostrar o Brasil para os brasileiros, como foram decisivas para a sua atualização e modenização. Os revisteiros de todas as épocas sempre estiveram à frente da média dos leitores.

O livro permite também acompanhar a evolução gráfica das nossas revistas:

das capas sensaboronas, estilo livro, das revistas do século 19, chegamos à riqueza das capas dos primeiros 70 anos deste século. Eram capas limpas, de grande impacto plástico, destinadas a vender o peixe e a dar prazer. Um prazer que dificilmente se repetirá quando os jovens de hoje reverem no futuro as capas das revistas que entulham atualmente as bancas - de horóscopos, dietas, vídeo-games, computadores, cavalos, fofocas e mesmo algumas de informação. Em nome de ‘simultaneidade’, a classe e o bom gosto foram asfixiadas pelo excesso de ‘chamadas’, pelo picadinho de fotos e pelo grafismo gratuito. É a estética horrenda de infográfico e da tela do computador, a fazer com que, de repente, até as bancas mais caprichosas pareçam invadidas por revistas de supermercado."



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