ARMAZÉM LITERÁRIO

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro


IMPRENSA & LITERATURA
Machado de Assis, jornalista

Cristiane Costa

Machado de Assis – escritor em formação, de Lúcia Granja, Fapesp – Mercado de Letras [(19) 241-7514], 167 páginas, R$ 17.

Transportes pelo olhar de Machado de Assis – passagens entre o livro e o jornal, de Ana Luiza Andrade, Grifos, 416 páginas, R$ 29


França, 1891. O jornalista Jules Huret publica em L’Echo de Paris uma série de entrevistas com escritores, depois reunidas no livro Enquete sur l’evolution littéraire.

Rio de Janeiro, 1904. O jornalista João do Rio publica em A Gazeta de Notícias um perfil da nata literária do início do século. A série parte de 11 entrevistas e 26 cartas de autores que responderam sua enquete, originalmente enviada a mais de 100. Três anos depois, os textos foram reunidos no livro O momento literário.

Entre outras questões propostas, está aquela que deveria ser a "pergunta capital" da pesquisa: o jornalismo, especialmente no Brasil, é um fator bom ou mau para a arte literária?

A verdade é que não foram poucos os escritores que, no país, exercitaram sua habilidade com a palavra escrita na grande imprensa, não só como cronistas, mas como repórteres, redatores, pauteiros, editores e até diretores de redação. Para eles, o emprego na grande imprensa pode ter significado uma dupla jornada. Mas também uma chance de profissionalização e legitimação social rara para escritores num país sem leitores. No entanto, será apenas um salário no fim do mês a contribuição que o jornalismo vem dando à literatura desde meados do século 18, quando homens e mulheres de letras começaram a se infiltrar nas redações? É possível que, trabalhando com a mesma matéria prima – a palavra – em algum momento o muro que separa um discurso do outro não se torne apenas uma linha tênue? Ou que alguns aspectos da narrativa jornalística não acabem por se incorporar ou mesmo renovar o texto literário?

As fronteiras entre literatura e jornalismo estão sendo questionadas por dois livros que, coincidentemente, abordam a obra do maior escritor-jornalista do Brasil. Machado de Assis. Em Machado de Assis – escritor em formação, a doutora em Teoria Literária da Unicamp Lúcia Granja detém-se nos primeiros anos da produção literária e intelectual do jovem escritor traçando um paralelo de algumas de suas principais obras de ficção com as primeiras crônicas, que comentavam os fatos da semana ou quinzena. Já Ana Luiza Andrade, ex-professora de Literatura Brasileira em Harvard, e que hoje ocupa o mesmo cargo na Universidade Federal de Santa Catarina, explora em Transportes pelo olhar de Machado de Assis a duplicidade do escritor-jornalista sob uma ótica benjaminiana, como uma alegoria entre as passagens do antigo para o moderno.

Diálogo com o leitor

Ex-aprendiz de tipógrafo da Imprensa Nacional, revistor do Correio Mercantil, repórter político e redator do Diário do Rio de Janeiro, Machado de Assis (1839-1908) foi também o fundador da Academia Brasileira de Letras e autor de alguns dos mais importantes romances brasileiros, como Quincas Borba, Brás Cubas e Dom Casmurro. Aparentemente o jornalismo não foi um problema, mas uma chance de lapidação da prosa machadiana. "Ajuda-o essa colaboração sistemática a aperfeiçoar o estilo, que se tornará, pouco a pouco, límpido e essencial, sem a adjetivação exuberante tão própria dos escritores do tempo", apontou, antes de todo mundo, a crítica literária Lúcia Miguel Pereira, que assina a introdução às Obras Completas de Machado para a editora Aguilar.

Lucia Granja vai seguir essa linha, iluminando o processo de aprendizagem do Machado escritor ainda dentro da redação do Diário do Rio de Janeiro, por volta de 1860. Nas saborosíssimas crônicas em que começa por comentar os discursos oficiais, logo depois as notícias e os faits divers, para por fim tratar de tudo ao mesmo tempo, Machado dá uma aula sobre as enormes possibilidades narrativas deste gênero considerado menor e datado. E também exercita técnicas que serão fundamentais para a sua ficção, como o narrador irônico, sempre em diálogo com o leitor. A autora identifica várias observações transplantadas dos textos sobre política para a literatura, em especial em Brás Cubas, personagem que não por acaso é um deputado. Mais teórico, o livro de Ana Luiza Andrade segue os passos de Machado com olhos de Walter Benjamin (que, não se deve esquecer, além de filósofo foi radialista) e vê na divisão do escritor brasileiro entre a literatura e a imprensa um anúncio da modernidade. A nova era da reprodutibilidade técnica reservará ao candidato a escritor não mais o fino espaço da crônica ou do folhetim, mas o trabalho diário como repórter, revisor, editor, diretor de redação. Com isso, as fronteiras entre literatura e jornalismo ficarão cada vez mais rígidas.




CAIXOTINS

A Hora – uma revolução na imprensa, de Lauro Schirmer, L&PM, 167 páginas, R$ 25

Considerado um dos jornais mais inovadores do Rio Grande do Sul, A Hora ganha uma pequena biografia. Escrita pelo jornalista Lauro Schirmer, que começou como repórter de esporte e terminou como secretário de geração do jornal, ela conta a história de uma geração que foi uma espécie de dream team da imprensa da época e das pequenas revoluções por eles implantadas,
da diagramação ao conteúdo. Inaugurado em novembro de 1954, o jornal A Hora foi fechado em 1962, depois de lenta agonia.

A TV aos 50 – criticando a televisão brasileira no seu cinqüentenário, de Eugênio Bucci (organizador), Fundação Perseu Abramo, 201 páginas, R$ 24

Alguns dos maiores pesquisadores sobre televisão no Brasil escrevem neste livro, que se propõe a ser uma anticomemoração dos seus 50 anos. Gabriel Priolli, Laurindo Lado Leal Filho, Maria Aparecida Baccega e Esther Hamburger assinam artigos que discutem aspectos como, censura, política e novela, ideologia patriarcal, identidade e violência. "A utilidade dos artigos aqui reunidos é a reflexão que eles propõem – e é isso o que mais nos faz falta", resume Bucci na introdução.

Guia de estilo web – produção e edição de notícias on line, de Luciana Moherdaui, Editora Senac-SP/Siciliano

A jornalista Luciana Moherdaui, editora do webjornal Último Segundo, do portal iG, lançou em 4/12/00, em São Paulo, o livro Guia de estilo web, em co-edição Senac-SP e Editora Siciliano. Com base em sua experiência diária, o trabalho traz indicações valiosas sobre produção e edição de notícias para o jornalismo on-line.



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