ARMAZÉM LITERÁRIO

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro


LUIZ GARCIA
Ética e relações com o poder

O mundo, esse lírio, de Luiz Garcia, Lacerda Editores [(21) 537-8275, e-mail: aguilar@iis.com.br], 216 páginas, R$ 25,00

O jornalista Luiz Garcia, editor de Opinião de O Globo, reuniu no livro O mundo, esse lírio – artigos sobre jornalismo e outras coisas – lançado no final de novembro pela Lacerda Editores, com prefácio de Zuenir Ventura – textos escolhidos entre os que publica regularmente há mais de 20 anos. Os artigos selecionados tratam sobretudo de ética jornalística e da relação da imprensa com o poder. "Procuro dar uma visão do que a imprensa é e de como ela deve ser", diz o autor.

Garcia, 64 anos, passou pelas redações dos jornais Tribuna da Imprensa e Estado de S.Paulo e das revistas Visão e Veja (da qual fez parte da equipe pioneira, foi correspondente em Nova York e editor-chefe). Há 26 anos no Globo, foi o responsável pela organização e edição do Manual de Redação e Estilo do jornal, publicado em 1992.




ASPAS
Zuenir Ventura

Prefácio de Z.V. ao livro O mundo, esse lírio, de Luiz Garcia

"Talvez alguns de vocês não saibam, eu já sabia há mais de 40 anos, depois explico como, mas Luiz Garcia é um excelente cronista de idéias, daqueles que usam os fatos e acontecimentos como texto e pretexto para pensar e fazer pensar. Por isso, tanto faz que a crônica seja de 1991 ou 2000, sobre Ayrton Senna ou Collor, sobre doação de órgãos ou internet, sobre jornalismo ou ‘outras coisas’. O prazer que fica da leitura de cada uma delas é atemporal.

Nesse livro, ele mostra todo o seu zelo pelo idioma com o qual sempre manteve íntimas relações de afeto. É gostoso ver como o certo pode ser bom e o bom pode ser belo — como a correção gramatical, acompanhada da elegância de estilo, estimula o paladar literário e ajuda a saborear um argumento ou a digerir mais facilmente um pensamento.

Podem instalar um pardal eletrônico para tentar flagrar nesses textos, já não digo transgressões verbais, algum atentado à regência ou qualquer contravenção semântica. Seria demais. Mas pelo menos um simples deslize. Não conseguirão. Chega a ser comovente a delicadeza com que o cronista lida com as palavras, as quais, como ele diz na pág. 108, ‘andam apanhando muito (...). O significado das palavras é depreciado, desprezado, trocado, ignorado’. Esses maus tratos por parte de quem lhes deve respeito, e a indigência de vocabulário em algumas áreas estão sobrecarregando ‘certas palavras, forçadas a fazer o seu trabalho e o de outras. Diversas morrem de exaustão’.

Aqui não há esse perigo, não há palavras cansadas: estão todas despertas e muitas, pelo frescor, parecem ter saído de um banho frio no calor. Aliás, nunca se soube que alguma vez o autor tivesse destratado um substantivo, obrigado um adjetivo a entrar à força numa frase ou escolhido um lugar desconfortável para abrigar um advérbio.

E toda essa forma irrepreensível está a serviço do conteúdo e do sentido, dos argumentos e das idéias. O melhor Luiz Garcia vocês vão encontrar em situações de risco, falando de assuntos complexos, daqueles que costumam mobilizar nossos impulsos primários, atiçando desejos de desforra e vingança. Leiam-no, por exemplo, na página 86, defendendo o direito de uma assassina. A sua lucidez pode até irritar, em meio à tentação do linchamento simbólico.

É nessas horas, quando se tende a mandar a razão às favas e se quer tomar o partido da paixão, que sua sensatez opera intervenções precisas, quase cirúrgicas. ‘Aqueles que se colocam acima da lei’ – escreve a propósito desses impulsos que às vezes tendem a nos dominar – ‘não estão muito distantes de quem se situa fora dela’. Ele não revindica para ninguém, muito menos para a imprensa, qualquer privilégio de promotor ou juiz. Desafeto dos clichês, é um especialista em desmontar armadilhas de idéias feitas e preconceitos.

Ah, sim, e como é que eu sabia dessas coisas há tanto tempo? Simplesmente porque, embora um pouco mais velho, tive Luiz Garcia como mestre; fui seu aprendiz, ou seja, o que se chama em gíria jornalística de seu ‘foca’. Já ia dizer que tudo que sei aprendi com ele, mas isso seria um pouco exagerado, e conhecendo o quanto desagradam ao autor as hipérboles, me apresso em retirar da frase o excesso retórico, antes que ele o faça com uma espanada de fino humor. Fica então assim: muito do que sei aprendi com ele – e continuo aprendendo."



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